quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Síndroma de Março

   Aproxima-se a data anual mais stressante da minha existência, aquela que corresponde a três ou quatro semanas nas quais tento encontrar predisposição mental para organizar a informação necessária ao preenchimento da declaração do IRS. Enquanto não me sento com a papelada ao lado e me compenetro de que não consigo adiar mais e que agora mesmo é que se vai fazer a coisa, passo dias de angustia e preocupação com a nítida certeza que não conseguirei validar a declaração e ultrapassar mais uma vez o obstáculo. Não que tenha nada a esconder de verdadeiramente gravoso,  talvez só mesmo aqueles dois anos seguidos em que incluí os meus cães e gatos como fazendo parte do meu agregado familiar e sendo assim as despesas do veterinário contaram como despesas de saúde, mas reparem, se virmos bem, é justo que o tenha feito; afinal de contas eles são da nossa família e as contas do veterinário são bastas vezes muito superiores às contas do médico do humanos; no entanto, fazendo nós mais do que o Estado na protecção dos animais que andam a vaguear pelas ruas, não somos por esse facto beneficiados, falo de quem e apesar de tudo ainda tem a possibilidade de ir ao veterinário com os seus animais porque há quem não tenha e não vá, não porque goste menos dos seus bichos e lhes conceda menos cuidados mas porque simplesmente não lhes sobra dinheiro para extravagâncias, que é isso que são estas consultas, extravagâncias que se fazem pagar bem, veja-se: a consulta que normalmente fica em 30 euros; acresce a vacinação se houver, os pingos para os olhos ou para os ouvidos, as seringas à unidade, os comprimidos à unidade para os parasitas, as gazes usadas ( à unidade) e a coisa somada, sempre que lá vou não deixo menos de 60 euros. Se pensarmos que os animais todos os anos têm que ser vacinados, desparasitados pelos menos duas vezes por ano e sendo eles, a nós também compete fazer uma purga aos nossos intestinos, coisinhas pontuais que sempre acontecem ou porque o animal andou à luta com outros (com os meus é usual) ou porque está com conjuntivite e não cura ou porque tem que fazer a castração que é aconselhada para machos e fêmeas, por uma coisa ou outra, acaba-se por ir mais vezes ao médico dos bichos que ao médico dos humanos. Cada internamento não fica em menos de 100 euros porque é preciso alimentá-lo durante a hospitalização e os veterinários não lhes dão ração made in Continente mas coisa mais refinada, normalmente o internamento é acompanhado de soro, análises, coleira para o bicho não se coçar, mais umas coisinhas aqui e ali e tem-se gasto a mensalidade de um dos filhos para alimentação numa cantina escolar.  Eu tenho 3 cães, há coisa de um mês tinha 4, acrescem duas gatas e o estupor do coelho!   Façam as contas de quanto eu gasto para os manter minimamente saudáveis. Dois dos meus cães foram apanhados na rua, contribuí assim para a diminuição de uma praga social e nacional que é o abandono de animais neste país; desde que me conheço já tirei das ruas, sem querer exagerar para ficar bonito, uns 15 gatos e uns 10 cães. Desses gatos e cães, metade ficaram comigo até terminarem o seu tempo de passagem por este mundo. Os outros foram reencaminhados para outras famílias. Fiz o que me competia no entanto o Estado não reconhece e nunca reconhecerá. Pessoas há e conheço pelo menos umas cinco que o que eu faço fazem a quadriplicar, ajudas nessa sua empreitada, desconheço! Por outro lado, a raça dos médicos veterinários é do mais sanguessuga que existe, mais picuinhas que o médicos de pessoas, sempre a sugerirem coisinhas que se fazem pagar bem, se sugiro que concedam a quem tem muitos animais uma espécie de cartão de cliente frequente como as milhas nos aviões ou em lojas de vestuário e outras olham para mim de modo meio desconfiado. Por isso é que com tantos anos de prática, tantas vezes me torno eu médica dos meus próprios animais e dentro do possível sou eu que os medico e se nem sempre resulta pelo menos alivia o orçamento familiar.

   Com sorte não há ninguém ligado às finanças que leia esta minha crónica e se ler, paciência! Entretanto tenho que começar a pensar na declaração do IRS e isso se, não  me tira o sono, problema de que não sofro, dá-me umas ansiedades escusadas.
   Desde que trabalho que me lembro de ser eu, sempre, a preencher a declaração, primeiro em papel, há uns aninhos atrás através da internet. O pessoal que passa a vida a engendrar novos formulários, os burocratas dos computadores, inventa todos os anos formas mais requintadas de declarar rendimentos, de tal forma sofisticados que a mim me assusta porque, cumpridos os passinhos todos, quando se torna necessário validar a coisa há sempre 3 ou 4 erros que surgem e que me deixam sem pinga de sangue.

   No tempo da entrega das declarações à moda antiga havia na repartição de finanças da Lousã um funcionário, senhor que me conseguia pôr em sentido, não porque fosse mal-educado ou grosseiro mas muito pelo contrário. Era o verdadeiro burocrata e gostava de o ser. Tinha feições de burocrata, um rosto magro quase de aparência asceta, tipo jesuíta, de cara sempre perfeitamente escanhoada e corte impecável de cabelo. Fato irrepreensível em tons de cinzento, onde nada ressaltava de forma desadequada. Nunca levantava o tom de voz. Tinha uma atitude pedagógica connosco, para ele a declaração do IRS era quase uma arte e insistia em mostrar-nos como éramos desmazelados e desleixados nos documentos que acompanhavam a declaração. Era ao mesmo tempo algo paternalista e condescendente e ralhava-nos carinhosamente como faria uma professora do ensino primário. A mim era o regresso a um tempo em que defronte de um professor muito estimado mas temido em igual medida era repreendida e essa circunstância me deixava triste o dia todo. Assim acontecia com esse senhor, sempre que saia da repartição de finanças com o carimbo na declaração e enfim aliviada, vinda também imensamente culpada pelo meu desmazelo e prometia a mim própria que seria mais previdente, organizada e meticulosa em futuras declarações. Quanto a esse senhor, sei que, anos mais tarde, se tornou o chefe da repartição de finanças, função que lhe assenta na perfeição; não poderá haver alguém mais adequado para a função e sei que nesse oficio ele é feliz.
   Entretanto nem todos os senhores e senhoras que encontramos pelas repartições públicas são tão perfeitamente adequados nem têm para connosco um comportamento tão pedagogicamente correcto. Há alguns que são umas bestas mesmo, outros há que são simplesmente semi-bestas porque não têm estrutura psicológica para acederem ao patamar mais alto. As bestas na sua plenitude  encontram-se disseminados por vários pontos do país e são aqueles que se socorrem da sua pequena parcela de poder para o declararem contra os seus semelhantes contribuintes. Gostam de tratar mal os outros, são impacientes e não raras vezes indelicados. Na Lousã havia um, trabalhava paredes meias com o burocrata perfeito mas nem por isso, nem que fosse a influência benéfica por proximidade, tinha o comportamento correcto do segundo. Os semi-bestas são todos aqueles que gerem os conflitos entre as suas pequenas parcelas de poder e os seus pruridos de consciência, normalmente são pessoas emocionalmente  instáveis que primeiro nos atendem à pedrada e depois reconsideram e admitem que, mais uma vez foram longe demais e não realizaram o verdadeiro serviço público mas tão só utilizaram os seus fracos poderes para a  prepotência bacoca para com os outros. Destes, dos semi-bestas está o país cheio em repartições de finanças mas não só. Existe um exemplo perfeito aqui, na repartição de finanças na Rua da Sé, passa os dias a receber pagamentos incluindo o imposto de circulação automóvel. Por falar nisso, tenho que lá passar e quando lá for pagar o imposto deste ano e lhe contar que me esqueci de pagar o do ano passado, já sei que o tipo, ao contrário do meu paternal burocrata da Lousã, vai trucidar-me com os olhos e censurar-me pela minha falha imperdoável, vai passar-me um sermão mal-humorado e de educativo e bem-educado não terá nada. É que não é para todos.

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