domingo, 30 de dezembro de 2012

Uma espécie de loucura

   É a inevitabilidade dos finais de ano: retrospectivas de tudo e mais alguma coisa e promessas de que o próximo será diferente e que para isso se moverá montanhas se preciso for para que se cumpra o que se prometeu! Eu cá normalmente não faço promessas, peço é a Deus e a mim, de que tudo depende, que não fique mais doida do que já penso que sou. Explico-me: eu sou uma alma positiva no entanto cheia de minhoquices na cabeça. Uma certa forma de ser louca mas consciente desse facto, o que por si já deve significar que não deve ser coisa de grande gravidade! Penso eu... Quando tinha vinte anos achava que ia morrer antes dos trinta. Já muito antes, quando tinha oito anos tinha a franca percepção que não chegava aos nove. Cheguei ao dia em que fiz os nove anos e fiquei surpreendida, andava já a preparar-me há muito tempo para que a passagem da minha vida por este mundo fosse breve e não tivesse nada verdadeiramente importante para levar dele. A ideia era tão clara na minha cabeça que nos dias que antecederam os meus nove anos não conseguia pensar em nada a não ser que era injusto, ainda não tinha beijado um rapaz na boca, já agora em outro sítio qualquer e duvidava que as experiências que fazia no espelho ou na pele do meu braço me desse uma ideia aproximada da sensação, não ia ter bebés e pouca marca deixaria nesta minha breve experiência terrestre. Passada a barreira dos 9 estive uns anos apaziguada com as minhas merdas até que aos 17 anos me deu forte outra paranóia; tinha a certeza que iria morrer subitamente de um mal muito raro e a quem falei a pouca gente. Os meus pais esperaram um pouco a ver se passava, não passou pelo que não tiveram outro remédio senão levar-me a uma psicóloga. Dessa época era também a minha obsessão por ligar e desligar interruptores, fazer certos rituais na ordem correcta, as vezes que fossem necessárias até me sentir apaziguada, o que era raro e a minha paixão pelo Steve Mcqueen. A  maluqueira era pesada e deve ter doído muito à pobre da minha mãe que era aquela que visivelmente sofria mais com as minhas maluquices.  Nessa época surgiram também os ataques de pânico. Toda eu achava que iria morrer de repente e subitamente começa a dar-me aqueles sintomas que os panicosos crónicos sentem; junta-se a fome com a vontade de comer e imagine-se como eu andava. Tudo isto sem um diazepanzinho para ajudar nem antidepressivos, fui curada a poder de conversa psicológica. Chegou uma altura em que me passaram as maluquices dos comportamentos repetitivos dos obsessivos-compulsivos, simplesmente disse a mim mesma que iria deixar de os fazer e se morresse por esse motivo, paciência que eu já não tinha pachorra para tanta parvoeira! O que é certo é que não morri nessa altura, não morri mais tarde, tive direito ao meu primeiro beijo na boca que achei na altura nojento, tive os bebés que tanto desejava, passei os 35, os 40 e eis-me chegada aos 45 anos, quando no melhor dos meus palpites já deveria estar a servir de alimento na inevitável cadeia alimentar há uns bons 15 anos. No entanto, continuo a achar que de velha não morro! Há certas coisas que não mudam, serei sempre hipocondríaca, uma hipocondríaca controlada, numa dose suave, no entanto, uma coisinha insidiosa que está cá sempre para nos moer! Há coisa de 6 anos regressaram os ataques de pânico, aquilo é que foi dar espectáculo! Quem assistiu aos meus descontrolos não esquece, é memorável, eu própria, friamente,  pergunto de mim para comigo como é possível não me dar mais vezes vontade de bater com a mona na parede para ganhar algum juizo! No entanto, visto de fora, a coisa deve dar vontade de rir, tenho pena que não haja uma forma de podermos rever os nossos comportamentos sem ser através do nosso pensamento. No nosso mundo já tão virtual deveríamos poder observar comportamentos da nossa vida em momentos específicos  tipo introduzíamos os dados,  dia tal às tantas horas, local tal e termos acesso a pedaços da nossa vida! Tenho curiosidade de me ver de fora para dentro em pleno ataque de pânico, penso que seria a forma mas eficaz de me curar, se mais não fosse pela vergonha da figura que fiz! 

   Não sei se os panicosos diplomados, os dos fóruns temáticos gostarão do que digo aqui, é que eles levam muito a sério esta praga que são os ataques de pânico! Eu também levo mas tem piada  brincar com coisas sérias, eu pelo menos já tenho o diploma que me permite gozar com isto tudo. Não há outra saída para tanto mal de cabeça.








domingo, 16 de dezembro de 2012

Loucos... professores!

   É nas minhas idas para a vila de S. Sebastião e no regresso a casa que mais penso; normalmente penso, valha-me isso, mas aqui, no carro do pão azul de amortecedores de carroça,  o cérebro  entrechoca-se  e as sinapses nervosas dão-se mais depressa, para o melhor e amiúde para o pior! E quando digo pior quero com isso dizer que me dá para pensar mal! Pensar mal de alguma coisa, de alguém, umas vezes com razão, grande parte das vezes sem ela! Pensar como nesta vida de 45 anos me deparei já com tanta gente que tanto tempo me fez perder! Que é algo que com 45 anos já não tenho paciência: perder tempo com gente que nada me diz, nada me dirá e com quem não tenho a mínima vontade de confraternizar! E todos nós sabemos como nesta vida tantas vezes temos que aguentar, conviver, falar, partilhar tempos, momentos, instantes que, podendo nós sermos inteiramente livres de gerir as nossas vidas, nunca nos cruzariamos, nunca falariamos, nunca respirariamos o mesmo ar. Parece cruel, é cruel, é assim. Não aspiro à perfeição, não tenho espírito de monge tibetano, sou imperfeita, irrequieta, insatisfeita! E não tenho paciência para aguentar gente chata, incompetente, chica-esperta, lambe cus, submissa. No mundo do ensino, volta e meia ouve-se que um professor está de baixa por incapacidade psicológica; passou-se, fundiu a cachimónia, passou para lá do lado negro da lua e pode fazer o que quiser, acumpultura, reiki, ioga e outras cenas psicadélicas e esotéricas ou acudir-se de ansiolíticos  e antidepressivos, que não há volta a dar. Professor que endoidece, não volta a são. O ser humano doido é terrível de se ver; um professor doido é ainda pior, é requintado na sua insanidade e para além disso não há dois professores doidos iguais na expressão das suas maluqueiras; dou aulas há 25 anos pelo que me já foi dado observar muitos colegas doidos ou a caminho de o ser; posso afirmar que ver um professor a endoidecer é patético, no entanto inevitável, para quem não tem estrutura, força, jogo de cintura, um certo relaxamento professoral que muitas vezes se confunde com desmotivação. 
   Havia, e há, eu é que já lá não estou, um professor na minha escola de L. que parecia saudável; os professores doidos normalmente enganam bem, toca-se no ponto que despoleta o mecanismo gerador da loucura e é vê-los resvalar; este professor agia com uma certa sobranceria com os novos na casa, era dado a piropos a professoras jovens; este estado de graça com as professoras durava algum tempo até lhes ser dado conhecer o personagem nas reuniões de avaliação; tornava-se arrogante, dono da razão, achava que escrevia bem, ehehehehehe, deixem-me rir, era daqueles fulanos que tinha uma caligrafia sobre o comprido e inclinada, uma forma demodé de desenhar as letras e não sabia redigir uma simples acta; tinha uma tendência absolutamente irritante para ser do contra, não que tivesse argumentos que sustentassem a sua posição mas porque tinha necessidade de ser o centro das atenções. Os mais velhos já o conheciam de ginjeira,  deixavam-no falar, os novos, incrédulos e receosos calavam-e por outros motivos, aqueles que como eu lhes chegava facilmente a mostarda ao nariz, tinham algumas pegas desagradáveis. Era daquelas pessoas que conhecia toda a gente, normalmente gente importante. Nunca conseguiamos fazer bonito na conversa porque o homem conhecia sempre essa pessoa e o amigo dessa, ainda mais importante que a primeira.  Das primeiras vezes que me viu elogiava-me e chegou certa vez a dizer quando entrei na sala de professores " Chegou a primavera!" Esse estado de graça terminou quando um dia achou que eu seria uma boa parceira para formar uma lista para o conselho executivo. Tive a audácia de me rir e tal afronta nunca me perdoou. A  partir daí nunca mais me falou, se tinha que passar por mim ignorava-me, não comentava nada do que dizia, e o melhor, coibia-se de cair em cima dos mais fracos, outros colegas nossos, a quem amochava como tão bem sabia, a quem por feitio ou gentileza não tinham estrutura para lhe responder, porque sabia que se fosse bruto, indelicado, grosseiro, eu estava ali para abrir a boca. Contaram-me por esses tempos que o homem tinha uma história mal resolvida com o ultramar, umas quantas armas em casa e alguma disposição para se servir delas junto dos colegas. Nunca se confirmou, no entanto fiquei sempre a pensar que um dia chegaria à escola e seria recebida a tiros de caçadeira. Na escola de L. não havia professor mais louco e ainda assim era discreto, para quem o não conhecesse de perto. Vinda para as ilhas, novos personagens surgem, cada um deles perfeito na sua loucura. É que cada um deles não admite que está louco pelo que não consegue fazer a regulação do seu comportamento. Admitir que não se está bem permite ter mecanismos de prevenção. Assumir-se como são traz os maiores desvarios. Haviam duas, mulheres, na escola B. Uma era uma louca passiva, só fazia mal a si própria, a outra, uma louca arrogante. A primeira, cuidava cada qual de lhe passar ao largo e a coisa funcionava; a segunda era mais difícil. Uma louca com predicados de catolicismo arreigado, uma espécie de santa em tentação permanente do demo. A mistura era explosiva; a essa senti-lhe a língua venenosa e alguns calafrios na espinha. Também me detestava quando um dia, cheia de beatice e amor ao próximo, censurou um colega por ter tido este  um comentário homofóbico; o que lhe disse deixou-a de tal forma possessa que senti uma sombra escura a atravessar-me as meninges, uma cena de filme de terror! Essa colega além de insane achava que toda a gente era burra, tomava-nos por totós.  Uma louca varrida com princípios cristãos que punha de parte sempre que lhe convinha quando, por exemplo dizia a um aluno " esmago-te a cabeça contra a parede!".Essa ainda dá aulas, reforma compulsiva nem se pensa nisso, algumas cabeças mais ameaçará esmagar até que a sua loucura a faça esquecer de vez o caminho de casa até à escola. Por agora chega invariavelmente atrasada, sempre culpa do outro, do carro, de Deus ou do diabo, vitima constante e inocente. Tempo haverá que deixe de chegar e fazer assim, um favor aos alunos e a si própria.
   Há, no entanto, uma classe à parte no mundo do professores. São aqueles que são loucos e para além disso, são também professores de educação física. É sabido que este grupo de professores é uma classe à parte, são descontraídos, quase relaxados, têm uma forma muito própria de ver o ensino, os alunos, eles próprios e qualquer um de nós tem memórias, pelo menos uma, de algum professor de educação física. Eu própria tenho como modelo do bom professor, dois, um deles de educação física: a primeira, a minha professora da 3ª e da 4ª classe, a Dona Maria do Rosário, professora à moda antiga, de quem ainda me recordo às feições e o modo de ser, delicado mas incisivo, branda mas com autoridade. O outro, um professor de educação física. Estes dois professores, estou certa, moldaram o meu carácter  ajudaram-me a ser quem sou. Tive a sorte de os ter sãos porque se por azar me tivessem surgido outros que conheci, provavelmente seria desajustada para o resto da minha vida. Normalmente, os professores de educação física são muito fixes, quando são doidos, são doidos a valer. Sem fazer grande esforço de memória posso já, num repente que demora um piscar de olhos, nomear quatro. Quatro professores de educação física, meus colegas, em alturas diferentes do meu percurso como professora que desaconselho ao meu pior inimigo. Dois deles apresentavam-se de gravata e fato completo o que já de si cria algumas suspeitas. Parece que um era observador de arbitragem de futebol (?) e casualmente, por coincidência engraçada, observava jogos sempre após as aulas o que não lhe dava muito tempo para se trocar; sabendo como esta classe é prática, entende-se a racionalidade da decisão da vestimenta. Nunca o vi de fato de treino, o que neste grupo, é um facto a estranhar. O outro, nunca percebi verdadeiramente porque dava aulas de educação física; parece que sim, que era verdade, a mim parecia-me mais um delegado de propaganda médica. Ao primeiro, constatei o facto de ser doido varrido, bastava para tal abrir a boca e falar, o segundo era de tal forma obscuro e surgiu tão cedo na minha missão como professora que me mantinha a uma distância segura. O terceiro louco fez-me a vida negra durante alguns anos, era daqueles que saem da faculdade já doutorados, sem necessidade de mais aprendizagem. À conta de tal pressuposto fez os maiores desvarios e foi o primeiro grande responsável por me arrepender de ter enveredado pela profissão. De olhar cândido a cada censura velada ou declarada, agia de forma igual na vez seguinte o que me fazia supor, que efectivamente não tinha a capacidade de pensar. Mas pensava, de forma retorcida pensava. Tornou-se uma personagem incontornável no historial da escola de L., anedotas feitas à sua conta e à minha conta que o aturei mais do que o suportável. Um dia, fez o favor de desaparecer e deixou atrás de si, saudades nenhumas e histórias, muitas! E é só por elas que se recorda, atente-se, com alguma nostalgia!  O último e mais recente, pertence ao historial açoriano e já tem uma crónica só para ele. Para os interessados, aconselha-se, neste blogue, o que diz " O lambe-botas". Este, parece que ainda vai lambendo umas quantas, entretanto,  zarpei eu de B. para S. e por aí  não descobri, até à data,  um louco à altura. Ainda!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

   A lojeca da Worten no Modelo de Angra é de fugir e só lá entro sob protesto! Ou por especial pedido dos meus filhos. O meu filho mais novo tinha umas poupanças e quis ir comprar o seu presente de natal, o que me pareceu bem. Não conseguindo fugir ao inevitável lá entramos no sitio, repleto de gente e com uma alminha a atender. Nada no seu corpo evidenciava um andar mais rápido, um olhar mais acutilante para responder lesto às solicitações de uma manada de gente num domingo à tarde, muito pelo contrário. Dirigi-me ao funcionário e perguntei: não há mais ninguém a atender? Alguém para a caixa?! Olhou para mim com olhos de quem olha e não vê, respondeu-me que o outro funcionário tinha saído para atender alguém dentro do supermercado (!!!) Parece-vos bem que num domingo à tarde, com um maranhal de gente a cirandar por ai, haja duas pessoas a atender e uma delas em parte incerta?! Olhou para mim com ar de quem ouviu mas não processou e encolheu os ombros retomando a sua empreitada, devagar, suavemente! A bufar de impaciência fui fulminada pelo meu filho do meio, como ele se intitula quando protesta, afirmando ser o mais negligenciado;  o filho de 14 anos que sente vergonha da mãe em quase todos os momentos em que lhe é dado conviver com ela em ambientes públicos " MÃE! Está calada!" voz sibilina para não dar nas vistas, ele que gostaria de ter uma capa invisível para usar nas raras ocasiões em que vê a luz do sol.  Ia já a abrir a boca a pedir o livro de reclamações mas fechei-a em menos de um farelo e protestei " estás a mandar-me calar porquê? não tenho razão?" Pergunta inútil, nesses momentos, os filhos não querem saber se os pais têm ou não razão, querem é que eles não os envergonhem e que se mantenham calados, que não armem confusão e principalmente que não possam ser  identificados com aqueles cotas arruaçeiros e estridentes! Olho em redor, em busca de socorro, para a carneirada que espera paciente, nem um sorriso cúmplice,  um piscar de olhos encorajador, um agradecimento no olhar, nada! Olham para mim como se olha para uma melga aborrecida e inoportuna!  Eram umas dez pessoas que se amontoavam no balcão, o funcionário do mês, de eficiência supersónica continuava a carregar botões de um teclado, só eu bufava, abanava as ancas, sujeita a uma apoplexia! Virei-me e disse baixinho " fiquem aí então, pacientemente à espera que o paquiderme vos atenda que tenho mais que fazer" E eles, filhos, impacientes por natureza, de tolerância zero aos erros constantes da mãe,  olham-me borregos e aguentam firmes na fila, tenazes como ferro  com  o que lhes agrada , corajosos como mártires e pacientes como santos! Apareceram  meia-hora depois, de rosto luminoso e de presentes na mão. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A ver deus!

   Outro dia tive uma conversa muito interessante e esclarecedora sobre uma corrente muito em voga nos dias que correm, entre gente que tem, entre quase  nada para fazer e nada para fazer, tempo de sobra e não sabe muito bem que outras formas criativas inventar para gastar o seu dinheiro que tem que ser muito.  Falo das festas muito exclusivas e tremendamente caras onde o objectivo primordial é ter sexo, de preferência muito e com muita gente diferente. Uma rebaldaria pegada mas com muito nível! Fui investigar o fenómeno e descobri a empresa principal que se dedica a estas coisas, há outras mas são sucedâneos rascas que não dão estatuto; essa tal de que falo parece que está altamente próspera e com tendência para melhorar ainda mais e toda a gente que quer enrolar-se em grupo mas enrolar-se com estilo, a procura. Palavra de ordem para estas festas: discrição. O pessoal que as frequenta é altamente discreto e deseja anonimato. Mesmo que passe a noite de pernas abertas e de pirilau em riste mantêm sempre a discrição.  Uma condição imprescindível é o uso de uma máscara veneziana! Parece que o anonimato se consegue assim; a discrição e o estilo também!  É facto assente que, por exemplo, esconder o nariz da Judite de Sousa ou o corpanzil do Malato atrás da sofisticação de uma máscara  é o suficiente e ninguém se dará conta de quem é que tem a brincar consigo! Um bocadinho como a história dos veados, que se escondem atrás das árvores e que pensam que desde que não vejam os caçadores, os caçadores não os vêm a eles! Adiante! Lembrei-me da JS como poderia ter-me lembrado do José Alberto Carvalho (a esse julgo até que lhe faria muito bem um tratamento de choque a ver se lhe passa de uma vez por todas a gaguez! Há quem seja despedido por menos!). O dress code para estas ocasiões é tremendamente rígido, homens de fato escuro com ou sem gravata e a senhoras vestido de noite ou em alternativa vestido curto. Afinal percebe-se, o vestido de noite normalmente é longo e como tal de difícil manejo, o vestido curto muito mais maneirinho; é como pôr um jogador de basquetebol a jogar com sapatilhas de pontas de ballet, há que ajustar a indumentária ao fim a que se destina.
   Investigando mais um pouco e depois de ver posts de gente desesperada em sites da especialidade, pedindo, " por favor aceitem-me que eu serei um sucesso" e " como posso entrar na vossa comunidade, já mandei imensos mails e não obtive resposta" descobri que normalmente a confraternização se inicia com uns cocktails e uns canapés leves (que não se deseja que os convivas apanhem uma congestão) ao som de musica clássica ( Mozart parece-me adequado, digo eu). Tudo muito selecto, tudo ainda muito vestido, os vestidos curtos ainda estão no pêlo! Seguidamente, por volta das 17 horas há um briefing obrigatório onde os convivas, munidos das suas respectivas capas com micas mostram as suas ultimas análises e resultados a propósito de todo o tipo de doenças do foro sexual e também de cariz psiquiátrico, não vá deixar-se passar um doido que desate a matar toda a gente a toques de catana e lá se vai a discrição. Todos muito limpinhos, mentalmente sãos, de cores saudáveis dos bronzeamentos a jacto, rostos aliviados, o último obstáculo ultrapassado. A partir daqui é a promessa do paraíso que se revela já ali, bem perto. Um paraíso bonacheirão que parece que deixa fazer quase tudo, digo parece porque para meu desespero, nunca consegui confirmar in loco o que leio e me contam. Parece que já não faço parte do grupo etário dos eleitos, os meus 45 anos fazem-me velha e nestas festividades toda a gente tem que ser bonita, com as carnes ainda no sitio. Estou mesmo a ver o tipo de pressão de volta dos infelizes dos organizadores " Anda lá, mete-me na próxima festa, terás depilação de borla para o resto da tua vida!" ou " tu sabes quem estás a rejeitar?! eu que já arranjei 3/4 das mamas que todos vocês vão andar a apalpar?! Tu não te metas comigo, rapaz!" e lá se faz um jeitinho e lá se veem umas carnes caídas de cor leitosa a destoar com os corpos mais ou menos musculados. O que é interessante nestas festas é que parece que aquela chatice dos preparativos, o aquecimento propriamente dito, a conversa de circunstância poderá ser facilmente ultrapassada, que nisto de quem paga muito quer ser bem servido e a quantidade é mesmo o que importa. Para qualidade arranja-se uma gaja ou um gajo ou os dois e trabalha-se a noite toda nesse sentido; aqui, com tanto por onde escolher, fica mal escolher uns poucos, mais, quase falta de juízo, se se gerir bem o tempo, contas feitas de cabeça rapidamente, se a coisa foi eficiente e não se perderem com grandes conversas que não levam a lado nenhum, avia-se uns quantos e/ou umas quantas e no fim, ainda se arranja tempo para a sobremesa, feita com mais calma! É claro, isto sou eu a conjecturar! Imagine-se as combinações possíveis, quem entende de matemática poderá facilmente fazer um calculo das probabilidades. Não faço ideia de quantas pessoas se reunem para estes convívios fraternos, que é isso que todos são, amigos fraternos, que se reunem para alcançar a transcendência karmica e verem a luz! Serão bastantes, contudo, que a união faz a força e mais depressa ascenderão a um patamar superior, ao ponto zen da sua existência!  Que isto de ver pernas, rabos, mamas e apêndices  em profusão e não se conseguir identificar correctamente a quem pertence cada item deve ser sublime.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

   Hoje levantei-me ainda com mais energia do que é habitual; com a energia que emprego quando me lembro de nova coisa para fazer: vou começar a correr! Correr é só a mais detestável forma de fazer exercício físico e no entanto parece-me que para mim, vai ser a única coisa que resulta. Desde que, numa época quase dinossáurica caí na asneira de participar num corta-mato do liceu, cá em Angra e terminei em último lugar das meninas e portanto atrás de toda a gente, e para mais com a suprema humilhação de nem ter corrido com umas sapatilhas minhas, jurei que nunca mais correria, se para tal não fosse obrigada. É verdade que quando passei pelo Isef, percebi que até conseguia correr tempos infindos sem morrer entretanto de exaustão; tenho boas recordações de grandes corridas com os meus colegas pelos campos circundantes que iam ter ao estádio nacional, mas esse estado de graça terminou e empreguei o meu tempo a fazer outras coisas, a maior parte delas sem ter que ver com o exercício físico. Hoje levantei-me cheia de força. Estou gorda, não chego a estar obesa mas já passei a linha do aceitável do meu índice de massa corporal. Não admira que ande sempre cheia de calor, de manga curta, circunstancia que faz sempre muita espécie aos meus amigos " como podes andar sempre encalorada?!" por vezes respondo " sou uma mulher muito quente " frase muito ambígua que gera normalmente risotas mas normalmente digo " estou gorda, tenho muita massa adiposa". "Não tens nada! Disparate!". " Ai tenho, tenho!" e mostro a minha prega abdominal, o que só isso chega para calar o mais céptico.
   Correr é para mim dos maiores sacrifícios que me podem pedir, é doloroso, sofro, e no entanto, sinto que por isso mesmo, é assim que devo recuperar a forma física, por mim mesma, sem intermediários! Odeio ginásios, cheio de homens inchados de músculos e com odores estranhos, normalmente mal ventilados - os ginásios mas por vezes os homens também -, sem qualquer tipo de privacidade, com musica da treta para animar os espíritos. A minha ida ao mar não me faz emagrecer, cuida-me do espírito mas é ineficaz para me manter em forma,  piscinas de água doce estão cheias de micróbios e outros bichos e cloro e resquícios de coisas que nos entram pelas narinas, pela boca, um bafo quente insuportável. Andar de bicicleta é quase tão mau como correr, se fosse sempre a descer até que escapava ou se nos fosse possível ter um  saca-rabos, no caso, saca- bicicletas que as puxassem para cima, que não há! O selim da bicicleta deixa-me o rabo dorido, não tem o tamanho adequado ao dito, as costas ficam-me a doer, a posição é muito pouco ergonómica. 
   No caminho para a escola, a descer a ladeira de Sao Francisco, vejo um homem, temerário a desce-la em passo de corrida com um telemóvel na mão a clicar nas teclas, e pasme-se, a sorrir. Ia alegre e contente, não completamente disparado, travava com a parte anterior dos pés mas quem sabe de que rua falo, percebe o quanto arriscado é ir nela em corrida, com a calçada molhada e sem prestar a devida atenção ao piso. Abrandei o carro para ir à mesma velocidade que ele, curiosa em saber se iria chegar lá em baixo inteiro. E chegou! Apeteceu-me abrir o vidro e bater-lhe palmas. Pelo feito e pela estupidez! Aquela visão pareceu-me um excelente presságio!  Estás a ver, correr é giro, correr permite tantas variações, não precisas correr só por correr, se deixares a tua mente correr, as coisas engraçadas que podes imaginar! Esta visão do outro fulano em debandada pela calçada abaixo em azáfama de pernas e dedos permite-me afirmar que é errado dizer que um homem, o do sexo masculino, não consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tenho um amigo que costumava  andar pelas ruas de Angra a ler um livro sem perda considerável de velocidade. Deve ter um radar como os morcegos, não sei contudo se emite ruídos como os morcegos,  porque desvia-se os postes da luz e rodeia os buracos da calçada e para além disso nunca soube que tenha tido algum descolamento da retina. 
   Esse meu amigo é um atleta convicto de grandes corridas, corre por gosto, e feliz coincidência, é magro, muito magro e é isso que eu preciso actualmente, ser magra, não escanzelada, que a uma mulher se quer um pouco de carne a rodear os ossos, um pouco de chicha para agarrar, magra o suficiente para poder trepar um muro, sem ficar humilhantemente pendurada, sem saber para que lado pender, com um rabo a pesar toneladas e umas pernas sem comando. Naquela manhã, o outro a correr que me lembrou o meu amigo, que corre por gosto, pareceu-me uma feliz conjunção para quem se tinha levantado com a ideia da corrida. É de aproveitá-la enquanto está fresca porque não se sabe quanto tempo dura!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O bicho-papão

   Não tenho especial predilecção por idas ao dentista! Não é com jubilo que lá vou no entanto o sentimento não é de medo, é simples resignação! O meu quinhão de saudável carga genética no que à dentuça diz respeito não foi generoso comigo pelo que frequento dentistas desde miúda! Hoje, de boca aberta durante uma hora, dócil que nem um cordeiro, tive tempo para rever todas as minhas experiências nesta matéria e reflectindo melhor, concluo que, após tantas provações, eu e a bacana da minha actual dentista somos quase amigas e respeitamo-nos mutuamente! 
   Havia um ser, nos idos anos oitenta, aqui na Terceira, que me infernizava a vida, um médico de tal forma demoníaco que me impedia de dormir na véspera de o visitar. Era um abrutalhado que toda a gente, provavelmente os que não tinham nunca provado a sua delicadeza em acção, dizia que o homem era muito bom médico, sim, tinha um feitio um pouco especial mas ninguém poderia negar a sua competência. A mim parecia-me o diabo em forma de gente e ele, como todos os seres primários tinha um instinto infalível e tenho a convicta certeza que sentia prazer em me magoar. Nesses tempos, esperava-se que quem atravessasse o umbral do covil tivesse que sofrer um pouco, era uma consequência normal e não havia como fugir; tinhamos que ser valentes e permitir sem pio que nos fizessem as maiores judiarias. Esse ser, não vou dizer o nome, não é preciso, toda a gente aqui da Terceira sabe de quem eu falo, faz parte do meu imaginário de terror; quais bichos papões, homem do saco ou Michael Myers, o meu Freddy Kruger da vida real era o tal: o de bata branca e cara arreganhada.  O gajo  era um notável da ilha, numa época em que havia poucos médicos dentistas; aqui na ilha basta ser médico para se ser notável, pode ser uma bosta como profissional mas é sr Doutor, pois então! Esta questão da bosta com pernas armado em médico é outro assunto que gostaria de desenvolver um dia que calhe e em que me sinta meia atravessada. Quanto a este não sei dizer se era ou não uma bosta como profissional, como ser humano deixava muito a desejar!  A minha mãe, naquelas suas ideias de poupança resolveu que era no hospital que me havia de tratar. Só de entrar naquela camara de tortura, me saltavam as lágrimas dos olhos, o que começava logo por o irritar. Eram autenticas batalhas, comigo chorosa e ele cada vez mais irado. Certo dia, já não sei porque motivo, deixei de ir ao hospital e passei a visitá-lo no consultório que tinha em Angra; passei a ter um tratamento especial, lembro-me que quase que fiz as pazes com o diabo tal era a diferença na forma como me tratava. Na altura não percebi o motivo mas é certo que assim foi. Este homem, que me "tratou" dos dentes intercalava com outro demónio, quando estava no continente. Soube alguns anos mais tarde que não chegava a ser dentista, era um técnico dentário, com a frieza e a ruindade de um carniçeiro, um ser que recordo, seco, magro e alto e a quem não lembro um sorriso ou uma tentativa de me sossegar. Anestesias na altura eram um luxo e os dentes que tratava eram assim, a doer mesmo, a esticar-me na cadeira, e com os dedos dos pés encarquilhados dentro dos sapatos. Eram lutas de gritos, choros e criaturas iradas. Por vezes, quando recordo estes dois seres, as suas imagens confundem-se, eram igualmente brutos, indelicados, sem paciência para o sofrimento humano, numa posição de controlo e poder e sobretudo indiferença.

   Após estes anos todos, tanta coisa mudou na forma como o médico dentista lida com o paciente! Para melhor, tão para melhor que por vezes passa a ser melhor em demasia. Agora, para tratar um dente, qualquer que seja o tratamento, anestesia é obrigatória. Mais, anestesiam a gengiva antes de soltar a pica. Quando acabo o tratamento tenho a cara à banda, se quero beber algo no entretanto, babo-me toda, faço figuras tristes, arrisco-me a dar dentadas na gengiva. Não sei o motivo mas sempre que isso me acontece lembro-me de uma cena memoravel do Hannibal Lecter onde o homem, numa ocasião de grande requinte, faz com que um dos seus arqui-inimigos coma a sua própria bochecha; os cinefilos que me lerem sabem a que cena me refiro.

  Em última análise penso que ganhei maior resistência à dor à conta daqueles dois. Resistência física e resistência de alma. Não tenho duvidas quanto a isso. Não lhes devo, contudo, quaisquer tipos de agradecimentos, dispensava que se tivessem cruzado no meu caminho.

  Tivesse eu sabido na altura:

   No momento em que o dentista se inclinou sobre a paciente, para começar a brocar um dente, exclamou, surpreendido: "Desculpe, mas está a agarrar os meus testículos!
Eu sei, respondeu ela suavemente. Vamos ter muito cuidado para não nos magoarmos um ao outro, Ok?"

 

domingo, 4 de novembro de 2012

A arte de bem comer

   Quero dizer desde já que a importância deste escrito é muito relativa pelo que tendo outras coisas para fazer não percam o vosso tempo aqui! Ficam avisados!


    Gosto de observar gente! Gosto de ver como andam e como correm, se  põem os pés para dentro, se caminham com eles para fora, se são gingões a andar ou tesos que nem carapaus, se arrastam os pés, se balançam os braços ... tantas variações sobre um tema! Agrada-me ver os gestos físicos corriqueiros do dia-a-dia, gosto de ver a forma como descansam os braços quando não têm nada de útil para fazer com eles.Gosto MUITO de observar gente a comer! No acto de alimentação em publico há uma grande dose de vulnerabilidade! Não se pode ter comportamentos em publico que reservamos para casa, de portas fechadas, sem ninguém a ver! Os códigos de conduta são muito rígidos e se alguém insiste em transgredi-los  ouvirá ou sentirá sem que lhe digam que " come que nem um porco!" Sujeita-se! Pessoas há que comem com vontade, não têm fastio e são ruidosas, por vezes de boca aberta, o que nos permite uma visão privilegiada do seu bolo alimentar, compenetradas que estão na importância do acto produzem momentos maravilhosos no acto de bem comer! Há as que comem como se pedissem desculpa por se alimentarem ou mesmo aquelas que, aplicam tão pouco empenho e prazer no acto que se tornam bons dissuasores  dum apetite saudável. Gosto de ver os rituais inerentes ao processo, se cospem o caroço da azeitona sem pejo com risco de ele fazer ricochete e terminar no prato do vizinho, ou se tapam a boca para discretamente deitarem o caroço no prato ou se descontraidamente o tiram com a mão e a pousam no prato. Agrada-me espiar aquela pessoa a quem percebi que tem um pedaço de carne nos dentes e está em desespero para o limpar. Há tantas soluções para este problema:  a unha do dedo pequeno funciona bem, aliás está comprovada a eficácia deste pequeno apêndice em variadas situações que não cabe aqui explorar. É uma solução utilizada pelos homens mais novos. Os mais velhos ainda utilizam o palito e quanto a este a forma de o utilizar é tão rico e permite tantas combinações que não vos maçarei com mais descrições. As mulheres são mais discretas mas também elas sofrem. As mais avisadas normalmente não dispensam o fio dental, o verdadeiro, ainda que possam combinar os dois; as mais despachadas e que dispõem de um bom cabelo para o efeito, utilizam-no como fio dental também ainda que corram o risco de partirem fios de cabelo no processo! Eu sei, sou grande adepta deste processo. E que dizer da forma como o copo vem à boca e os vestígios que deixam na borda?  E a tortura que é, por vezes, o arroto que sobe e a inconveniência de o soltar de tal forma que parece que sai pelas orelhas? Já tiveram essa sensação física? Um aparte, muitas vezes fico com o meu ouvido direito tapado das idas ao mar e é assim que consigo desentupi-lo! Muita coca-cola no bucho e depois é tapar a boca e o nariz e sentir uma espécie de implosão cerebral, é tiro e queda, fico logo a ouvir melhor!  É também o melhor antídoto para a pressão dos ouvidos nos aviões, melhor ainda que tapar as narinas e fazer força!
   E aqueles que na necessidade de limparem as gengivas de alimentos que subiram arreganham os dentes e à frente de todos procedem ao reencaminhamento da comida, não sem tantas vezes conseguirmos ver a cor das amígdalas?! É certo que nem sempre temos a sorte de assistir a tamanho espectáculo, por vezes quem observamos é tão asséptico na forma como come que nos perguntamos  como raio é que consegue fazer outras coisas, se é que me estão a compreender! Acredito que se pode saber muito de uma pessoa pela forma como come, o quê não faço a mínima ideia até porque não sou psicóloga mas tenho esse palpite ! Àquela velhinha frase que diz " somos o que comemos" poderia ser acrescentada uma adenda " somos como comemos" e ninguém ficaria ofendido por isso! 
   Gosto sobretudo de observar o manuseamento dos talheres e as suas variadas utilidades. Há basicamente 3 formas de pegar nos talheres, com algumas variações mas, de uma forma geral são 3; na primeira forma, o garfo é agarrado com a parte côncava dos dentes virado para cima, tal qual uma colher. A faca segura-se normalmente de lado, caída sobre o exterior do prato. É a meu ver a forma mais elegante, de uma leveza superior às outras formas se bem que pouco eficaz a picar comida. A 2ª forma de pegar os talheres é inversa da primeira, a parte côncava vira-se para baixo e o garfo prende melhor a comida. Normalmente a faca agarra-se com o seu comprimento em posição perpendicular ao prato. É a forma mais corriqueira e permite outras utilizações: pode-se gesticular, pode-se apontar com o garfo, pode-se estrafegar a comida de forma mais eficaz mas é menos delicada e sugere maior agressividade. A terceira forma é um pouco mais rudimentar mas certamente a mais eficiente e pertence aqueles que se estão a marimbar para estas considerações da treta e comem porque lhes apetece e porque essa é a forma mais rápida de fazer chegar a comida à boca : agarra-se os talheres perto da sua base e a inclinação da cabeça ao prato é proporcional ao tamanho da fome: sendo grande, não há grandes intermediários entre a comida e a boca, o garfo está ali quase por acaso, a faca é um ser estranho que se lambe, com afinco. São estas pessoas que me dão mais gozo ver comer, porque comem com vontade! Mandaram as convenções sociais para o caraças e ficam só com o prazer de comer! Uma certa inveja, confesso!  Não teriam problemas em responder " porca é a sua tia!" e o assunto morria ali sem lhe dar nenhuma azia! 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Aliança

   Este ano inicio as aulas às 9,00 e essa circunstância abre-me horizontes nunca antes possíveis. Na impossibilidade de ir dormir a casa uma sestinha depois de  levar os putos à escola às oito e não querendo passar pela indignidade de ir dormitar o resto do tempo para o parque de estacionamento da escola como um cão abandonado, tornei-me frequentadora de cafés. Para fazer tempo, para me integrar no espírito da cidade, para cuscar um pouco, para observar. Comecei pelo People, na rua direita, tem uma empregada gira e espevitada mas sempre mortiço às 8,00 tirando o senhor sem-abrigo que marca o ponto religiosamente, a fumar o seu cigarrito, subitamente famoso depois do artigo que saiu no Diário Insular ( ou foi no União?!) sobre aquela associação de contornos suspeitos que quer erradicar das ruas quem nas ruas lhe apetece ficar. Parece que aquele velhote é um de poucos que dorme pelos cantos da cidade e isso causa transtorno a certas pessoas de espírito solidário vincado, uma afronta ao cristão que todos temos em nós! Cá para mim, acho que o velhote se está bem a marimbar para tamanha caridade! Adiante, no People sem gente e sem jornais ainda, restava-me pouca coisa para além de bocejar pelo que tive que ir picar o ponto mais para norte: o Aliança! Confesso que as vezes que olhava para lá me parecia um antro de bêbados e poiso de doidos sem remédio! Há uns tempos, fui lá à noite para comprar tabaco e levei uma das minhas cadelas comigo que atrevida que é e muito simpática com as pessoas entrou também e foi cheirar os cantos à casa! O que ela foi fazer! Aparece-me um tipo, de cabelo cortado à escovinha com a pose do género " sou guarda-fiscal mas tenho alma de fuzileiro naval" que me ia chegando a mão ao pêlo, pelo atrevimento de ter deixado entrar a bicha num estabelecimento público. A coisa esteve mal parada, para os meus lados, porque a minha teoria é antes levar que mostrar o rabo, de nódoas negras mas dignidade intacta. Entretanto, o tipo lá acalmou e eu apressei-me a agarrar na estupor e sair de mansinho.
   Esse personagem, vê-se bem, apeteceu-lhe implicar comigo, existe mesmo um tipo de pessoas que sente especial prazer em tirar o prazer aos outros, ou em fingir-se incomodado com certos comportamentos dos outros, que se não incomodam ninguém podem sempre potencialmente vir em incomodar e antes que incomode mesmo, incomodam-se à priori revelando grande sentido de antecipação. O que me incomoda muito é que este personagem seja um dos cidadãos desta cidade que mais vezes vejo; nunca se questionaram o motivo porque é que a certas pessoas vemos imenso e outras nem por isso? Mesmo se não os encontramos nos mesmos percursos, acabamos por nos cruzar com eles!? Aquele ser em especial parece destinado em passar-me à frente, com aquele ar de comando mal-encarado, de maus fígados e pequeno cérebro. 
   De manhã, semelhante personagem não frequenta o Aliança, aliás, o boteco transforma-se num bem frequentado ambiente de gente que trabalha cedo e que sabe combinar sapatos iguais e que ainda não fede a álcool e que com todas as probabilidades já tomou banho neste mês. Ainda não tive coragem para olhar mais para a esquerda e enfiar corredor dentro pela tasca vizinha, para isso terei que me enfrascar logo cedo para apreciar devidamente o ambiente e estar em sintonia. É que se assim não for só irei achar defeitos, se pelo contrário estiver atestada vou achar imensa graça aos rx de corpo inteiro que os seres que lá habitam me fazem. O Aliança é frequentado por gente de todas as raças e credos e estados mentais, também. Os loucos convivem com os sãos ou aqueles que o aparentam ser, o que hoje em dia, já não é ciência absoluta. Todos se sentam nos mesmos lugares, às mesmas horas e fazem os mesmos pedidos.O empregado que lá está por essas horas , solicito e eficiente como eu gosto, nem precisa de me ouvir pedir, o que é pena,  lá traz o café que às vezes não quero mas por vergonha e por ser tão prestável, acabo sempre por beber. Para me vingar e confundi-lo e ser diferente nunca peço a mesma coisa para trincar, assim obrigo-o a raciocinar e não se torna uma tarefa maçadora. O senhor do galão, um gigante de quase dois metros, bebe o seu galão no balcão do fundo, de pé, nunca se senta. Um grupo de 3 senhoras, impecavelmente maquilhadas, uma qualidade feminina que não possuo e um cavalheiro que chega sempre depois delas costumam açambarcar os jornais da casa; nessa contingência entre olhares aos clientes vou passando os olhos pelos dois ecrans de tv, cada um na sua parede, não vão os clientes esquecer-se de olhar para ela. E vejo as noticias, que há algum tempo a esta parte é mesmo o único noticiário que vejo. E é divertido ouvir os comentários dos cómicos de serviço, que com qualquer circunstância fazem graça. 

   Saio de lá bem disposta e no entanto sinto no que está na hora de mudar de tasco! A Portugália logo acima?! Não me parece, muito aborrecida! É que depois do Aliança todos os outros que conheço me parece enfadonhos! Sugestões?!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

   Na minha escola como acredito que em grande parte das escolas deste país, metade dos alunos se não mais do que isso, está incluído num escalão máximo de ajudas do estado que passa pela gratuitidade das refeições e diminuição ou gratuitidade dos manuais escolares e transportes escolares/ passes. Outro grande grupo de população escolar pertence também a escalões onde pagam menos, por exemplo, 50 cêntimos por refeição.
   Este ano, porque tenho tempo e disponibilidade, almoço pelo menos duas vezes por semana na cantina da escola; almoço junto com os alunos porque gosto de observar. O almoço de hoje foi: sopa de grão, douradinhos com arroz de tomate, salada de alface, cenoura e cubinhos de maçã,  maçã como sobremesa (duas qualidades à escolha) e um papo-seco (embalado individualmente). Água para beber. Preço por aluno sem escalão: 2,14€ com multa de 30 cêntimos se comprada no próprio dia; preço para professor: 4,27€ com multa se comprada no próprio dia.
   Qualidade da refeição - ok são douradinhos, douradinhos são fritos, os fritos fazem mal! Arroz de tomate razoavelmente saboroso. Salada com fartura para quem quiser. A sopa não demasiado aguada e saborosa q.b. Fruta da época que é o melhor que se pode comer. Custo para grande parte dos alunos - zero euros;
O que se observa: 3/4 dos alunos não comem sopa! Chamados à atenção dizem que não gostam; não gostam de sopa de grão, de sopa de legumes, de sopas de cenoura, de sopa de coisa nenhuma. O prato principal nem sempre é devorado, as bordas do prato abundam em restos. O pão regressa muitas vezes sem ser tocado; mesmo sem ter sido tirado do plástico tem sempre o mesmo destino: lixo. Se a comida foi do seu agrado podem repetir, sopa nem por isso.
As associações de pais das escolas deste país têm sempre queixas e mais queixas dos pais que, dizem os seus filhos, a comida não presta, o arroz é intragável, etc e tal. Vivem revoltados que os seus meninos se alimentem tão mal! No entanto, em cada família se se for observar as preferências alimentares dos meninos é de fugir; muitos não gostam de pelo menos 30 alimentos " querem um bocadinho de X ?" " não gosto", "prova Y", " não gosto". É impressionante a quantidade que alimentos que eles não gostam! E a quantidade de miúdos que com dentes definitivos tem que comer a sopa passada porque não suporta sentir na boca os pedacinhos de legumes?! Era dar um enxerto de porrada a cada pai a cada tentativa de triturar a sopa! 
 
   Os hábitos alimentares dos miúdos é de bradar aos céus! Era eu miúda, há 35 anos atrás e doces, só de vez em quando. Gelados, só no verão e sempre com muito receio que o pai dissesse que não, o que muitas vezes acontecia! Quando era miúda o que mais me luzia os olhos era aqueles boiões redondos de tulicreme que a minha mãe NUNCA comprou lá para casa; achava e bem que era coisa supérflua  e que podia muito bem ser substituído por doce caseiro ou manteiga, queijo ou fiambre. Se estávamos com o bico doce resolvia-se o assunto com papo-secos com manteiga e açúcar  o requinte máximo!Por vezes, a vontade de comer açúcar era tal que  ia-se ao açucareiro e era mesmo à colher. E comia maças estupidamente porque eram doces! Hoje em dia, nutellas e afins, cereais de chocolate, mel, com pepitas e sem pepitas, bolachas com n formas e feitios, chipicaos, croissants de chocolates ( um aparte, não me lembro de comer croissants quando era miúdas!!!). Em contrapartida, se me apetecia algo salgado, um tomate aos gomos com sal grosso marchava em menos de um farelo. Também marchava bem pevides ou tremoços e sempre dava para depois fazer concursos a ver quem cuspia as cascas mais longe; em matéria de cuspidelas nem sempre era necessário ter cascas dentro da boca, o cuspo propriamente dito chegava! Voltando à questão: não havia doritos, tiras de milho, bolinhas de queijo e nem a simples batata frita de pacote. A gente via-as a passarem na praia e era esse o único contacto que tínhamos com elas: visual! As batatas fritas lá de casa eram mesmo batatas a sério e fritas pela frigideira da mãe, no fogão da cozinha! E que dizer dos iogurtes? dantes, havia-os de aromas, ponto. Agora há de tanta coisa que primeiro que consiga os de aromas, que continuam, para mim a ser os melhores, tenho que desbravar caminho pelos com pedaços, naturais açucarados, naturais e com pedaços light, com fungos que dão conta dos males do estômago  os que permitem fazer cócó todos os dias, os que são tipo grego, os que têm corn flakes e frutas, dois em um, os que têm smarties e por aí fora.

   A comida na cantina é saborosa? Não é, falta-lhe apuro, dedo para a coisa, cozinhar para 400 crianças não é fácil e nem sempre se apuram os temperos nem as cozinheiras estão para isso. Os miúdos queixam-se sobretudo que a comida é insonsa! Porque será? Para quem está habituado a comer por semana, dois ou três pacotes de pseudo-comida cheia de sal e sabores viciantes não pode achar piada ao sabor que verdadeiramente o alimento tem. No entanto, é muito melhor do que a comida que os bares das escolas oferecem e infinitamente superior às merendas que os putos trazem de casa. E os paizinhos deveriam ser os primeiros a insistir para que os seus filhos almocem nas cantinas, sopa incluída, e a dar um certo desconto às histórias assustadoras que os meninos trazem para casa. Antes disso façam uma cura de desintoxicação às merdas que andam a dar aos miúdos para comer. Era vê-los  raparem os pratos e a comer a sopinha toda.

domingo, 7 de outubro de 2012

Festival AngraJazz - a reportagem alternativa

    Terminou o 14º Festival Angrajazz, o meu terceiro, cumpridos sempre os 3 dias do calendário, junto  dos mesmos amigos, a maioria dos quais que percebe mais de jazz do que eu irei perceber, mesmo que me afinque, até ao resto da minha vida. Consigo perceber se a música me diz algo, se mexe comigo, se me faz querer ouvir mais; consigo perceber se os músicos são virtuosos, bons instrumentistas, mas pouco mais. Nessa área não me meto! O que me resta falar, então?! Ai, tanto! 

   Três dias, seis grupos! Sala do auditório, do Centro Cultural de Angra! Mesas dispostas no centro, bancadas a rodeá-las.  O publico feminino, regra geral, vem vestido de forma cuidada, as senhoras de saltos altos e trajes elegantes ainda que não excessivos, os homens normalmente parecem uns pelintras perto delas. Cada vez mais desmazelados! Parece que ninguém acha já importante cuidar-se! Excepções para casamento e batizados em que se exagera ao contrário mas não é preciso muito tempo para que os homens, sempre eles, comecem a desabotoar-se e a andar em fraldas de camisa! Elas, firmes e hirtas, encavalitadas nos seus saltos improváveis e vestidos normalmente apertados demais, e eles o desmazelo instituído.  Uma tristeza! Não admira que já tantas vezes tenha ouvido " não há homens de jeito nesta terra! Empiriquitarmo-nos todas para quê? Quando são jeitosos, são gays, quando não são, são uns broncos!"

Bem, estou a desviar-me do tema; falava do Angrajazz! 

1ª noite, primeiro concerto - Orquestra Angrajazz  dirigidos por Pedro Moreira e Claus Nymark.

   Entraram sóbrios e sombrios, camisas e calças pretas. Um pouco lúgubres acaso não tivesse dado com um daqueles relógios de pulso, de borracha, grande e azul ofuscante, no braço de um musico! Lembrei-me logo do Rumble fish, sabem, aquele filme a preto e branco e  do peixinho vermelho e do Mickey Rooke quando ainda tinha cara de gente! Aquela cebola azulada perseguiu-me durante o concerto todo! Gostei da onda dos músicos, descontraídos, sorridentes, a tocar cada vez melhor! Até eu que sou uma inculta, percebo!

1ª Noite, segundo concerto - Tomasz Stanko Quintet

   Parece que o homem que dá o nome ao quinteto é muito bom, gostei de o ouvir mas andei muito distraída preocupada que estava com os joelhos do homem, com tantos agachamentos, temi que houvesse uma vez que não se levantasse. Qual quê, nunca fraquejaram aqueles pernas canivete com 70 anos de vida! E não houve uma alminha que lhe fosse arranjar um suporte para as partituras que tinha espalhadas pelo chão! 
   Uma menção especial para o gorro vermelho de lã do guitarrista, palavra que achei que mas cedo ou mais não iria aguentar com calor e livrar-se daquele mono! Mais um vez enganada, uma vez só, que eu estava atenta, tirou o gorro, limpou o cabelo claro que estava colado de suor e voltou a por aquele emplastro na cabeça! Por aquela altura deu-me os calores! Ou aquilo é assim mesmo, e este pessoal gosta mesmo é de cultivar excentricidades! Terminada esta exibição tive eu que esticar as pernas, perras que estavam por solidariedade e soltar as melenas ao vento!

2ª noite - primeiro concerto - Rui Teixeira Group 

não houve nada que me enchesse o olho, aborrecidos até na roupa! Nem um gorro vermelho, uma camisa colorida, tiques de expressão, nada!

2ª noite - segundo concerto - The Jack DeJohnnette Group

por esta altura já se estava a prever, mais cedo ou mais tarde,  uma espécie de êxtase colectivo, que se confirmou. Estive mais embevecida e num limbo que me deixou menos atenta às questões mais fúteis da vida mas não posso deixar de referir o saxofonista indiano, excelente por sinal!O visual não podia ser mais aproximado da ideia que temos de um homem indiano: rosto com aquele tom azeitonado, de cabelos luzidios e a eterna camisa de seda que continuamente puxava para baixo. E tocava tão bem! mas tão improvável como seria uma mulher esquimó a cantar o fado... sem sotaque!
   Gostei da atitude quase humilde como registavam os nossos aplausos  com um aceno de cabeça de grande sorriso e do prazer que estavam a ter ali, tocando para nós! O contrabaixista era um ser superior e para além do mais parecia-me o Sidney Poitier, versão velho, o que só pode ser um elogio muito grande... aos dois! 

3ª noite - primeiro concerto - Jason Moran and the bandwagon 

para mim, que não percebo nada, foi o melhor concerto deste Angrajazz! Três virtuosos, simpáticos, a interagirem sempre uns com os outros, onde na minha opinião não houve um instrumento mais importante que os restantes, talvez o piano mas sempre na medida certa, nunca excessivo. Aquela cançao da Billie Holiday, o momento alto da noite, atrevo-me a dizer de foi o momento mais bonito e emotivo de todo o festival! Para além de tudo, inacreditavelmente bem vestidos, todos de camisa branca, imaculadamente branca e engomada, com brio em se apresentarem bem vestidos.

3ª noite - segundo concerto - Orquestra de jazz de Matosinhos

a mim parecia-me terem saído todos de um asilo de loucos, com dois seres a dirigi-los, claramente possuídos  Para além de uma musica que a mim me cansou, estavam  em estado catatónico! Não consegui, tirando a dois, ver um rasto de emoção naqueles rostos fechados! Nunca sorriram, estavam ali a tocar como se estivessem a descascar ervilhas, com a mesma emoção! Um dos maestros andou a ver se caia do palco e deixou-me nervosa durante muito tempo, eu a fazer cálculos se conseguiria lá chegar antes que ele atingisse o chão. Claramente, deveriam ter aparecido na primeira parte e não para encerrar as hostilidades. Nem a piada no final do concerto serviu para disfarçar o desconsolo. Não tiveram encore! Não o mereceram!


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Rumo a S. Jorge - dia 6

   Alvorada bem cedo, comprar pão para o pessoal e descobrir onde tomar banho. É logo ali com uma piscina artificial junto a uma pequena enseada de rochas e onde forma alguns nichos de lagoinhas . Sem carro para nos levar aos seis e porque a ideia é descobrirmos as ilhas de fora para dentro, decidimos zarpar para as Lajes e descobrir a terceira vila da ilha do Pico.  São 15,30 e estamos a ir a uma velocidade de 6 nós e com um vento imenso a 27 nós. O barco normalmente inclinado a uns bons 45 graus e com o nosso skipper a ter que fazer algumas mudanças de bordo que obriga ao pessoal da cabina e equilíbrios constantes. Está tudo com um ar de aborrecimento e meio mareados. A Sofia, inacreditavelmente já vomitou o que a deixou mais bem disposta. O conforto nestas alturas não existe mas se quisessemos conforto tinhamos vindo de avião e ficavamos num hotel. A tarde está luminosa e a temperatura amena.   Da minha parte estou a apreciar cada momento.  

Rumo a São Jorge - dia 5

   Hoje houve mudança de planos; infelizmente o tempo estava instável e decidiu-se não nos mantermos no plano que tinhamos traçado de percorrermos a restante costa sul de São Jorge e daí zarparmos até à Terceira. Havia outras duas possibilidades: ou regressarmos de imediato à Terceira ou irmos dar um pulinho até ao Pico. Ninguém estava com vontade de regressar a casa pelo que se decidiu ir até São Roque, a única vila do Pico na costa norte da ilha e por conseguinte mais próxima de São Jorge. Após 3 horas de navegação a bater bem, com vagas jeitosas e muita molha pelo caminho chegamos a São Roque; infelizmente o tempo mantinha-se tormentoso e ninguém queria passar outra noite parecida com a segunda da Fajã de Santo Cristo pelo que decidimos que, já que estavamos ali porque não ir até à Madalena que tem um bom porto de abrigo. O Zé Carlos baixou as velas, ligou o motor e lá fomos nós, mais mortos que vivos, tudo a dormitar na cabina menos o nosso skipper que se manteve sempre incansável.  Na Madalena o tempo estava bem melhor, atracamos o barco e terminamos a noite a ver um rancho folclórico minhoto e a dançar um vira no final. Regresso a bordo, uma jogatana de trivial. Amanhã, planos não há, será o que decidirmos no momento. O pico do Pico chama-nos mas não viemos equipados para tal empreitada, de chanatas não me parece apropriado. Logo se verá.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Rumo a São Jorge - dia 4

   Hoje foi um dia para descansar e passear. Não andamos para muito longe, usufruimos da vila das Velas, que é pequenina mas bonita, com uma igreja à sua escala mas um interior muito rico. O edificio da Câmara Municipal é robusto mas bonito, o jardim da vila é uma pequena delícia com o seu coreto vermelho e todo vedado com um gradeamento verde. As ruas muito limpinhas, as casas arranjadas. A zona balnear, Poça dos Frades, tem uma vista privilegiada para o Pico e o seu pico que hoje estava quase completamente à vista. Um tempinho para visitar o cemitério da vila onde descobri uma figueira a transbordar de figos, que papei sem contemplações. O almoço feito pela Sofia para terminar a manhã, bicuda frita com arroz de tomate, umas frescas e uns martinis pela tarde e uma sopa ao jantar para rematar. Cá nos encontramos nós seis, a jantar sopa inventada pela Sofia, uma mistela saborosa com multiplos vegetais a boiarem na água, que varinha mágica não há. A Sofia que já me está a lançar uns olhos que a sopa fica fria e depois não tem piada nenhuma. Prevê-se outra noite sossegada. Até amanhã!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Rumo a S. Jorge - dias 2 e 3

   Diário de bordo - 13,00 do dia 27 - ontem passamos o dia inteiro na Fajã de Sto Cristo. O dia não estava de feição e não havia rede para escrever blogues nem nada destas coisas modernas. Foi um dia de cansaço extremo com uma subida de meia hora até à cascata da fajã. Antes disso houve que ver onde trazer o bote até terra em segurança. Como as facilidades não acontecem em momentos de aventura, o motor do bore enxurrou e à força de remos chegamos a terra. Almoçamos na unica tasca da fajã e conhecemos o poeta, escritor e desenhador Emanuel que para além de todas estas qualidades também é bom comerciante e tivemos que entrar num bate-boca que como sempre, deixa os meus filhos muito envergonhados porque acham que eu falo demais e que tenho a mania que sou esperta. Um banho na caldeira para terminar e regressamos ao bote, uma corrente meia manhosa que nos fez ficar encharcados até aos ossos. A noite a bordo foi temerosa, uma ondulação que não deixou ninguém  dormir na sério. O nosso skipper foi incansável, passou a noite alerta, os ruídos e os balanços deixaram todos maçados. Dormiu-se a espaços, foi uma noite no minímo interessante.

   De manhã, como num passe de mágica acordei para outra paisagem, o primeiro vislumbre que tive, num dia radioso foi a Fajã do Ouvidor. Míudos já despertos e com a irrequietude própria de quem não consegue estar sossegado, atiraram-se ao mar e foram a nado até terra, uns bons 100 metros que não lhes mete medo. Quanto a mim, um banho matinal num mar de azul profundo. De bote até à povoação para descobrirmos um casario mimoso e uma paisagem de suster a respiração. Descobrimos a maior piscina natural onde tive o prazer de megulhar depois de descermos degraus sem fim e atravessarmos uma ponte manhosa em equilibrio precário. Às 17,00 zarpamos novamente a continuar a costa norte na direcção da Ponta dos Rosais. O Zé Carlos, previdente como sempre e zangado porque de manhã bem cedo deixara escapar uma bicuda, lançou os iscos novamente ao mar e no espaço de meia hora apanhou duas bicudas, grandes e airosas. O terceiro que mordeu o isco era tão maravilhosamente grande que deixou o Zé a escorrer suor e já a subir para bordo escapou-se com o isco na boca. Antes tivesse acabado na nossa panela que com o isco falso que levou na boca deve ter tido uma morte lenta e sofredora. De motor ligado porque não havia vento ao contrário da ondulação que era forte, atravessámos a ponta dos rosais onde aí fomos levados em vagas que subiam e desciam empurrando-nos para diante, movidos por massas de água um pouco intimidantes. Um pouco mais à frente mais um grupo de golfinhos, curiosos e travessos que nos acompanharam um pedacinho do nosso caminho. Chegamos às Velas depois das 20 horas e dormimos nessa noite, um sono solto e sem sobressaltos. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Rumo a São Jorge

 Diário de bordo - 25 de Agosto ,21,30 da noite  e é noite cerrada. Estamos a duas horas de caminho de S. Jorge,vindos da Terceira, no barco à vela do Zé Carlos.  O Bonito apanhou bom vento a partir de meio da viagem e se no inicio se fez ao mar com a ajuda do motor, há mais de três horas que navega só com a ajuda do vento, que é para isso que deve servir um veleiro com orgulho de o ser.  O destino final é a Fajã de Santo Cristo, na costa norte da ilha. A lua em quarto crescente à nossa esquerda, dentro de uma semana temos a lua cheia, lua azul assim chamada por ser a segunda no mesmo mês. O barco corre agora à velocidade de 6,5 nós com rajadas de 18 nós, mas quando desligámos  o motor viemos a assapar a 10 nós. Apesar do vento a aragem é pouco agreste. Está toda a gente ansiosa por chegar, a Sofia e eu que desconhecemos esta fajã, os miúdos que já estão moídos de tanto mar. O João e o Gui enfiaram-se dentro de sacos-cama no deck do barco, o Vasco, diferente de todos dorme sossegado no desconforto mareado da cabina. A lua e o seu reflexo e o farol do Topo são as nossas três referências visuais. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Azares ... ou não! Uma questão de perspectiva!

  
   Hoje iniciei o dia com um furo num pneu; é bem feito porque tenho sempre a mania que consigo passar em cada regozinho de estrada; pimba, em plena cidade, no meio da azáfama do quase meio-dia, ouço o som insuportável do chiar do pneu a esvaziar furiosamente após ser trincado, sem apelo nem agravo num passeio, ali para as bandas da Praça Velha! Ainda pensei poder, muito devagarinho, chegar à casa do mecânico, no Pico da Urze (ainda em negação!), o nhanhac da jante a rolar pelo chão fez-me parar ali, juntinho dos Correios. 
   Como a idade sempre traz, aparentemente, alguma sabedoria, saltei a parte dos impropérios e da auto-comiseração que sabe sempre bem, do género" só a mim é que acontece isto", esquecidos que estamos de habituados a ver outros na mesma situação que nós, em lamentos iguais, dizia, ignorei todo o ritual que surge após o azar e parti imediatamente para a mudança do pneu , preocupada em chegar à Silveira, ainda da parte da manhã. Imediatamente, duas constatações: a 1º de ordem sociológica, tanta gente a passar, eu ali de rabo para o ar, aparentado o meu ar mais profissional do género " não se preocupem, não quero olhares de pena, eu sei perfeitamente o que estou a fazer", ar escusado dado que ninguém me deu mais importância do que se dedica a um cão sem dono, nem aos sorrisinhos disfarçados tive direito; 2ª de ordem técnica e mais grave, o estupor do elevador de socorro tinha o fio de aço de segurança enrolado à volta de uma porca e não descia; situação de passível resolução mediante um alicate, que é coisa que obviamente, nem me passa pela cabeça ter dentro do carro. Liguei ao meu mecânico, telemóvel desligado, não posso esquecer-me de o despedir, passa na cabeça de alguém que o meu mecânico faça férias? Nas férias dele, quem trata do meu carro? Eu?!!  Permiti-me, sem culpas, um primeiro momento de grossa asneira, vinda das profundezas da alma. 
    Eis senão quando, pronta a arrumar a tralha, trancado o carro ( inexacto porque este meu carro só tranca quando lhe apetece, normalmente quando inclinado com a proa para baixo, vá-se lá saber porquê), surge um anjo consubstanciado no corpo de um ser humano de nome JC. Surgiu de rompante, com um ar profissional, explicado o problema, de súbito calça umas luvas, busca o alicate que obviamente possui, tira o pneu de socorro e muda o pneu em 10 minutos, mantendo o mesmo ar airoso de quem acabou de sair do duche; e eu de mãos cagadas, perdoem a expressão mas não encontro alternativa fidedigna, e toda descomposta. Naquele momento, senti um alívio e uma gratidão enormes. 

   Para as pessoas que seguem as minhas peripécias de mudanças de casa e que, justificadamente, já não me levam a sério ou que possam pensar que sofro de uma cena meia obscura denominada de psicose de mudança, que não sei se existe documentada mas houve um amigo que a aplicou sem hesitações e quem sou eu para duvidar da sabedoria dos outros, quero dizer duas ou três coisinhas a fim de me conseguir explicar sem parecer meia maluca: saí da casa número um porque a renda de casa era altíssima, saí da casa número dois porque o senhorio não era uma pessoa séria e pôs em causa a minha seriedade, saí da casa número três porque tinha um problema na fossa e porque fui estúpida, basicamente; saí da casa número quatro porque tinha um problema na fossa ainda mais irresolúvel que na casa número quatro. A casa número quatro consta-se que era assombrada mas não foi isso que me fez fugir dela, zarpei dali para fora pela insalubridade da casa, duvido mesmo que as assombrações ainda se mantivessem lá, consegue-se imaginar uma eternidade de alma penada a conviver com o cheiro a caca?  A casa número cinco é muito gira, fica na baixa da cidade e é um encanto! Como facilidades não são comigo, tudo o que é fácil e simples é aborrecido, surge o primeiro teste para a casa número cinco: não é que tenho uma infestação de pulgas?! Pulgas minúsculas, daquelas que picam, que saltam e que estão em todo o lado? Não sabia que era possível uma coisa assim, a vida é tão interessante, aproximava-se um mês de agosto aborrecido, sendo assim, surgem novas perspectivas de animação. Aquilo que dizemos volta-se invariavelmente contra nós; afirmei-me a dado passo aborrecida!! Após esgotadas as mezinhas caseiras e os conselhos de amigos mais ou menos avisados, pasmada com o número de casos de ataques concertados de tão insignificantes bichos, ouvidas as peripécias de cada qual, interiorizadas todas as receitas de como matar as estupores, aceito a derrota e chamo o exterminador.  25 minutos e 150 euros depois, declara que a rebelião está esmagada! Por agora ando em pezinhos de lã, com visão microscópica à cata do menor sinal. Ando sensível à menor comichão, à mínima sensação de picada, padeço do síndroma de perseguição, levada a cabo por um inimigo que joga com armas desproporcionais. 


   Não pretendo afirmar que tenho uma vida mais complicada que muita gente (dizê-lo seria quase blasfémico), tenho contudo uma vida, vamos dizer...cheia; cheia de peripécias, de movimentações, de decisões, de incríveis chatices, muitas chatices. Nem é, sequer,minha vontade fazer a apologia da mulher coitadinha, cheia de problemas e responsabilidades; aliás, cada vez me acho mais graça e graça à minha tendência para andar sempre à procura do complicado, daquilo que me irá dar trabalho, que sei que me dará... mas que se faz, vamos lá, pela graça! É que se formos a ver nem denota grande inteligência ou esperteza da minha parte; é uma coisa mais instintiva, em que em lapsos de frenesim decisório, destino os assuntos mais importantes da minha vida! Na verdade, nem me tenho dado mal, as decisões que tomo não são também de dimensão estratosférica mas no mundinho em que me movo, são já de dimensão considerável! Em setembro inicio um novo ciclo, a escola de S. Sebastião aguarda-me! Estou " em pulgas" para começar! 


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Silveira - actualização de verão

   A Silveira está ao rubro. Esta é outra Silveira, não aquela dos meus banhos no inverno, esta Silveira está apinhada de gente que só põe o pezinho na água se esta estiver em ponto de ebulição. Gente que precisa de sol, de preferência sem nuvens, que as nuvens moem com a sua disposição e os deixam a bater o queixo em risco de hipotermia. Habituais, indefectíveis defensores do banho durante o ano inteiro, alguns banhistas de mão cheia:   senhoras já bem entradotas, de boa postura e fina figura, com horror a molharem o cabelo, um fenómeno que me escapa, velhos de secas carnes, algo mirrados mas invejável condição física, que de verão ou de inverno se afirmam maravilhados com a água. Pessoas de tão habituadas  que estão destas andanças que fazem a distinção da temperatura da água, de dia para dia com precisão até às centésimas. 
   A Silveira no verão é um caldinho social onde convivem não se misturando gente muito diferente: de manhã cedo surgem as famílias bem estabelecidas, de crianças barulhentas e saudáveis, de mães atentas e pais precocemente envelhecidos, homens de meia idade, de ventre proeminente, sem musculatura aparente, perdidos em comezainas constantes regados com toneladas de frescas. Um pouco mais tarde surgem as já esperadas moscas de verão, uma raça de gente que surge com o sol de verão, em visita de tios, primos, cunhados, avós, familiares aparentados em 5º e 6º graus. Os turistas, desgarrados e perceptíveis com a prudência com que chegam, franzem o nariz à ideia peregrina do cimento como substituto da areia mas totalmente rendidos ao mar vão dizendo " este sitio é estupendo, só é pena não haver areia". Durante a manhã a Silveira ainda é circulavel! Chegando a transição da manhã para a tarde, o pessoal mais novo, de férias, aquele para quem a vida se inicia depois de metade do dia terminado, vai aparecendo com sinais evidentes de mazelas alcoólicas nos seus rostos morenos.  Vêm em grupos numerosos e substituem as famílias que partem com crianças impacientes de fome. A partir das 15h, quando a prudência manda a debandada para poisos mais frescos, a Silveira torna-se intransitável. Não se recomenda! É o momento para todos os narcisistas que trabalham para o bronze em modo rápido. A partir das 18 chega ou regressa o núcleo duro, onde eu me incluo  esperançosos que os falsos banhistas se tenham ido embora. Aparecem também, por essa altura, aqueles tipos, os do culto do corpo que aproveitam a proximidade do ginásio para virem mostrar a musculatura a mulheres de fina sensibilidade visual. É um verdadeiro regalo para os olhos, se efectivamente permanecerem calados.
   O horário de verão do Melro Preto é quando bate o quarto depois do meio-dia. Umas vezes chega antes quando a ansiedade é insuportável. Chegar mais cedo, em si,  não merece reparo, a pontualidade constitui para mim atributo louvável e desejável. Diminui-me, no entanto, a probabilidade de o ver chegar, todo ufano de peito enfunado e porte altivo, entretida que estou nas minhas aventuras do Comissário Maigret, livrinhos de bolso da colecção vampiro que descobri a 1,5 euros numa livraria junto de mim ( não revelo o local porque tenciono ficar com eles só para mim). Divido a minha atenção e nem sempre sou bem sucedida apesar de me orgulhar de saber fazer várias coisas em simultâneo sem evidente falha de eficácia mas admito que viro as páginas com maior lentidão ou perco o meu passaroco de vista. Breve o encontro porque é de rotinas instituídas: desce a rampa de ar vagamente distraído, percorre de modo estudadamente lento o centro do cais onde a manada se concentra, cumprimenta fulano ou sicrano destilando confiança e empatia, um pormenor delicioso, os seus polegares e indicadores unem-se como se tivesse sempre uma pele de uma unha para arrancar, que lhe dá elegância e sensibilidade. 
   É verdade, eu tinha prometido a mim própria que já era tempo de deixar de me pronunciar sobre o Melro Preto e só Deus sabe como me tenho contido! Perdoem-me mais esta fraqueza, afirmo que procurarei que seja a última.              Certa tarde, em distracção imperdoável, fui amigamente avisada de um outro personagem, ser que caíra sem sobreaviso naquele espaço sagrado, que me poderia finalmente fazer esquecer, sem remorsos, a existência do outro. Era de tal forma uma formidável figura que senti logo que o vi, uma lufada de ar fresco, um momento apoteótico que intui, erradamente, me proporcionaria horas e horas de divertimento. O Coiso usava um chapéu de abas largas, displicentemente caído sobre a face direita, sandálias de couro e como única indumentária, a revelar a sua figura portentosa, uma tanga de elásticos já lassos, um amuleto da sorte, porventura, que arredondavam, numa ovalidade sublime, o coiso propriamente dito. Encostado ao varandim do cais, de costas para o mar, a certeza desde logo que banhar-se não faria nunca parte dos seus planos, a figura era a promessa de inconfessáveis desvarios. Permanecia quieto, rodando a cabeça sem pressas, observando, esperando que os seus inegáveis atributos fossem suficientes sem que para isso tivesse que mexer um dedo do pé que fosse. Torci por ele, aguardando que a táctica desse frutos; lamentavelmente e vergonhosamente não perseverou e assim como surgiu do nada, para o nada se desvaneceu. 
   O Melro preto não! É de natureza perene e não desilude, sabe-se que se poderá sempre contar com ele.