terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sons que batem mal

   Há  certos sons proferidos pelo ser humano que considero fazerem parte da minha loja de horrores pessoal:  podem não meter sangue nem intestinos estripados e a verter à vista de todos mas inspiram-me igual horror. Aqui deixo o meu top  de comportamentos sonoros humanos difíceis de suportar sem nenhuma ordem em especial:

  - O arroto involuntário é passível de algum desconforto mas longe de mim poder dizer que estou livre de semelhante constrangimento; o arroto voluntário  é inadmissível como inadmissível é a desculpa posterior de que não se consegue conter um arroto. Arrota-se em silêncio, porra, nem tudo tem que ser feito para marcar uma posição; 

  - Os nostálgicos dos lenços de pano, aqueles que fazem do acto de se assoar um momento de transcendência (só por eles entendida) com o ritual do desdobrar, assoar o mais audível possível, observar a obra realizada, revestir um dedo com o lenço a  fim de esfuruncar lá dentro à procura de destroços, observar novamente, dobrar metodicamente o lenço procurando manter a dobra original para finalmente o enfiar no bolso do casaco antes de dar o retoque final com o dedo, para avaliar tactilmente o resultado, não vá o diabo tece-las;   

 - Comer de boca aberta  com o som dos alimentos a transformarem-se progressivamente no bolo alimentar amassado em saliva peganhenta é um exercício que proporciona a quem assiste um teste de inaudita valentia; observar tais preparos sem sentir, ainda que tenuemente um subtil estremecimento do estômago, diz muito da fortaleza física de uma pessoa; alguns alimentos em especial  causam-me o mesmo efeito do que um pedaço de giz a raspar da ardósia ou uma pedrinha entalada por baixo de uma porta: todos os meus pelos se eriçam e o cérebro se retrai quando vejo e oiço um  desses peritos, na arte de comer de boca aberta, a morfarem uma simples banana; aquela massa amarelada, por alguns momentos parece cola, a boca assemelha-se a uma gruta forrada de estalactites e estalagmites para além do som que emite e que recorda vagamente o da lava em ebulição; 

  - Mais aterrador do que observar em acção um palitador profissional de dentes, aquele que não esconde o acto que pratica, mais, ostenta orgulhosamente o palito no canto da boca depois de ter tirado todos os resíduos alimentares entre os espacinhos dos dentes (evito comentar os palitadores envergonhados, os que escondem educadamente o acto com a  mãozinha porque a esses dispenso uma prateleira inteira na minha loja, junto com os que dizem "com licença" após o arroto ou os que nos desejam "bom proveito"), repito, pior do que esses, são aqueles que procedem à limpeza dos caninos, molares e quejandos sem recurso a tão útil instrumento: são os palitadores sem palito! estes, realizam uma acção complexa e concertada de vários músculos faciais com que visam basicamente obter o efeito de sucção que se consegue através de um desentupidor de canos. Admito que teriam toda a minha solidariedade (quem nunca sentiu o desconforto de um pedaço de carne entre os molares ou os fios de uma manga quais pedaços de fio dental de cor amarela?!, quase tão incómodo como ter as cuecas enfiadas entre as nádegas ou aquela comichão insuportável no único local das costas onde a nossa capacidade contorcionista não chega!), caso mantivessem este acto de uma forma recatada, mas não, é ouvi-los silvar despudoradamente, uma espécie de assobio para dentro, um esgar facial, a boca retorcida para um dos lados, os estalidos com a língua... inesquecível!

  - Os cuspidores compulsivos, aqueles que cospem como quem marca o território, acto viril e repelente por natureza, o correspondente humano ao levantar da perna para urinar dos cães; se além disso, forem daqueles que puxam o cuspo (para não dizer coisa pior) como quem quer deitar cá para fora os alvéolos pulmonares, estamos então na presença do macho puro e duro;

   - Suporto sem contrariedade o som de pipocas mastigadas com gosto numa qualquer sala de cinema porque, para mim é fatal como o destino que eu estarei com toda a certeza a fazer o mesmo; suporto porque o ambiente assim o permite, é tacitamente aceite que nos momentos mais dramáticos da fita as pessoas se irão abster de dar aos dentes, reservando para os momentos frenéticos o ruminar desenfreado dos maxilares; ninguém irá olhar para nós, todos estamos a olhar para o écran, o som está estupidamente alto, todos estamos ali num momento de religiosidade profunda, está escuro e ninguém quer ver ninguém, toda a gente quer ver o filme e comer pipocas e beber coca-cola e comer mais pipocas até à exaustão. 
   O que eu não suporto é quando alguém o faz sozinho, seja pipocas,  seja qualquer coisa crocante, seja o que quer que seja e QUANDO HÁ SILÊNCIO, damn it!!! Lá, onde trabalho há um ser que tem o hábito de comer amêndoas, eu gosto bastante de amêndoas, gosto de todos os frutos secos em geral, do que eu não gosto é de ver aquele determinado ser a comer amêndoas, pronto! O ritual dele coincide com o meu intervalo e parece castigo, lá tenho eu que aguentar a caixinha de tupperware com as amêndoas, o pacote de sumo e o personagem, ali mesmo ao lado a ruminar com uma cadência  de precisão demente (conseguem adormecer a ouvir o pingo da torneira da casa de banho num constante martelar de "pings" perfeitamente  ritmados?!)! Aqueles "cruncks" fazem eco nas minhas meninges, começo a bater mal, sobe por mim acima um desejo assassino de lhe enfiar as amêndoas pelas narinas acima...assusto-me  com tais pensamentos, levanto-me e vou arejar.Fico com parte do dia estragado!

   A importância que nós damos a tanta merda, inacreditável!

   

  
   

domingo, 6 de novembro de 2011

Manual alternativo para o condutor português

 (só aplicável em Portugal, nas estradas portuguesas, com condutores lusos e carros, motas, tractores e asnos de matrícula portuguesa )

      Premissas fundamentais -
   1.  Conduzir é competir 
   2. Parar é morrer  
Com base nestas duas verdades absolutas afirma-se que:
    - Qualquer outro veiculo,  seja movido a motor, pedal ou patas é um potencial adversário; 
     -  No acto de conduzir é absolutamente permitido, mais, aconselhável, tirar tanto quanto possível, qualquer vantagem sobre o seu adversário;
   - O domínio da estrada é condição imprescindível para a sua afirmação pessoal: aja sempre nessa conformidade;
    - Um veículo seja ele qual for foi feito para andar, para o transportar do ponto A para o ponto B. O acto de parar deve ser usado com moderação e sempre em ultima alternativa; quando todas as outras opções ( sinais de luzes, guinar para o lado, buzinadelas intermitentes, levantar o pé do acelerador e outras) tiverem falhado, só então se deverá dar uso ao travão mas nesse caso, aconselha-se que o faça de forma desabrida: a paragem deverá ser brusca para obter o efeito dramático pretendido, obter a atenção máxima dos utentes da estrada e mostrar a sua irritação pela ofensa sofrida ( buzine continuamente num tempo não inferior a 5 segundos); a chiadeira dos pneus e alguma derrapagem residual são condição fundamental pelo que se aconselha verificar, com alguma frequência se os pneus se encontram preferencialmente carecas;
   - Nunca, note bem, nunca ceda a passagem seja em que circunstância for; a não observância desta regra, só fará de si um frouxo;
  - Todo o tipo de manobras (ultrapassagens em traço continuo, não sinalização de mudanças de direcção, entradas intempestivas em rotundas com  veículos em circulação previa nas ditas, paragens em zonas de paragem proibida, colagem aos carros da frente para os espicaçar, não cedência de passagem de peões em passadeiras, estacionamento onde houver uma pequena aberta, seja em passeios, seja em passadeiras, seja no quintal do vizinho) é de encorajar; 
   - A manutenção do veículo é aconselhada mas não prioritária: um escape a deitar fumo negro poderá ser uma arma a usar; um bocadinho de ferrugem não fará mal algum ao seu automóvel, a médio prazo poderá até, ser usado a seu favor: pondere um encosto estratégico com o carro do vizinho sem grande dano para o dito mas que lhe possibilite uma ida ao mecânico de borla;
  - No caso de um acidente é de todo conveniente que se consiga, tanto quanto possível, atravancar o trânsito; quando tal imprevisto o assalta, e se escavaca o seu automóvel, é de seu direito que não se agilize o processo de desobstrução da via; o objectivo é causar o caos, já que o caos veio ter consigo, partilhe sem egoísmo o incómodo: mantenham-se os veículos sinistrados, o maior tempo possível, na via e resolva-se o imbróglio ali mesmo; chame a polícia, façam-se as peritagens; evite o preenchimento de declarações amigáveis; desconfie desses processos manhosos de resolução de diferendos: é só uma forma dissimulada dos outros tirarem vantagem; e nunca mas mesmo nunca se considere culpado, mesmo que bata por trás a culpa não é sua; algo poderá servir em sua defesa: o estado do asfalto, a vaca que se atravessou na estrada, o sol que colidiu com os seus olhos;
  -  Seja implacável nos semáforos: na mudança do sinal não condescenda; um segundo é mais do que tempo para  que a lesma à sua frente ponha a carroça a andar; buzine sem contemplações, a razão está do seu lado;caso haja duas faixas aproveite a espera para medir os seus reflexos: em ponto de embraiagem meça o tempo que medeia a mudança para o verde e o arranque, de preferência com  chiadeira de pneus, a fim de criar mais impacto; 
   - Seja useiro e vezeiro do vernáculo. Um "sai da frente boi" dito no contexto certo será util para si porque lhe aliviará o stress, sempre presente no acto de conduzir. Também, todo o tipo de linguagem gestual, sinais de luzes e buzinadelas são incentivados;
   - Equacione fazer um estágio de condução nas estradas da Ilha Terceira, essa experiência funcionará como uma espécie de pós-graduação na arte de conduzir e o afirmará definitivamente, de entre os demais condutores como um condutor de excelência;