terça-feira, 30 de dezembro de 2014

 O ser hipocondríaco é arguto e inteligente e não se deixa vergar por evidências simples; se a tosse surge por  uma qualquer mudança de temperatura, a causa que aponta não será a do ar condicionado mas sim das substâncias mortiferas que se escondem nos seus tubos; nunca será a mais inofensiva, a doença de que sofre é galopante e fatal e não há nada nem ninguém que o convença que daquilo não morre; só larga o osso quando descobre outra doença ainda mais devastadora e os sintomas surgem, instantaneamente, em consonância.  E não há ofensa maior do que lhe dizerem que não tem nada, como se atrevem?! A pontadinha nas costelas, insidiosa revela, com toda a certeza, um mal súbito cardíaco, a dor na base da coluna é um cancro nos ossos, o mau estar de estômago esconde um aneurisma abdominal! O hipocondríaco gostaria que, da varanda da sua sala se avistasse a porta das urgências para sondar a movimentação dos doentes e assim saber qual a melhor altura para visita-la, uma vez que o hipocondríaco tem a singular mania de ir ao hospital, não porque precise mas porque gosta.  Deverá ser a única pessoa entre todos, médicos incluídos, que gosta genuinamente de frequentar os hospitais. Os cheiros a desinfectante e outros demais, são perfumes dos mais raros; maquinaria específica e macas e outras que tais estão dentro da sua noção de decoração perfeita. O hipocondríaco sofre com a condição infeliz de raramente sofrer de mal algum, de corpo pelo menos. É doutorado em todas as especialidades conhecidas e escarnece do conhecimento médico geral porque acha que os médicos padecem de um falha imensa, a da falta de imaginação. Sendo assim, considera-os todos básicos e muito apegados ao bom senso. Para o hipocondríaco, o bom senso é o inimigo primeiro de um bom investigador médico; segundo ele, todas as hipóteses devem ser ponderadas e sempre começando por aquelas que  terão, estatisticamente, menos probabilidades de acontecer  dado que, para o hipocondríaco, as desgraças maiores acontecem sempre a ele, contradizendo o lugar comum de que padecem os vulgares mortais, que vivem  ignorantes, certos que as desgraças só acontecem  aos outros. O hipocondríaco vive sempre na expectativa do que vai acontecer, é um catastrófico por convicção, a ele a doença não o apanha desprevenido, consegue identifica-la vários meses ou anos antes que se manifeste. E no entanto nunca passa desse estágio expectante em que espera, sem sucesso, que a doença efectivamente  se manifeste. Mas sabe, bravo e empenhado que a bula de doenças é quase infinita e parte para a seguinte com a mesma convicção alegre e doentia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nada como as idas matinais para a escola, pela estrada das freguesias, até São Sebastião para me assaltar todo o tipo de pensamentos, de tal forma que chegando ao destino não dei conta do percurso que fiz. Assusto-me um pouco porque de tão absorta que estava, imagino que, havendo algo a surgir na estrada, me encontro desprevenida para reagir. Quero acreditar que não, que o grau de abstração não é o suficiente para deixar os sentidos embotados aos sinais de perigo. E assim vou pensando, os carros passando e eu no meu caminho. E isso é o que faz o comum das mulheres, quando conduz vai pensando noutras coisas, utiliza o tempo inutil de partir do ponto A para o ponto B para avançar no que tem que fazer mais tarde ou mesmo pensar na vida! Toda a mulher gosta de pensar na vida quando conduz!
 O homem quando conduz não pensa na vida, n pensa porque, ao contrario da mulher, leva o acto de condução muito a sério, o homem quando conduz, socializa! É tão importante para ele conduzir como estar no café: cumprimenta, faz sinais de luzes, identifica as carrinhas de caixa aberta que vêm lá ao longe como a do João ou do António, repara em quantas pessoas se encontram no carro do Joaquim e comenta que a pendura do carro do Filipe não é a mesma da semana anterior; abre os vidros desabridamente e manda bocas pela rua da Sé abaixo! Conduz com alegria e sente-se verdadeiramente homem; ostenta a sua masculinidade conduzindo mercedes, audis ou BMW, se baixinho e careca é como te tivesse crescido 30 centimetros e tivesse mais cabelo que o Carlos do Carmo; se se fica por chassos velhos, quita-os todos e põe musica pulsante de colunas em cada esquina, que o efeito eufórico é o mesmo; não precisa de estimulantes artificiais, basta-lhe entrar no carro, transforma-se, no carro é senhor, é todo dele, não é como em casa em que só domina o comando da televisão. Torna-se absurdamente higiénico, mantém o carro num brinco, pode ter, em casa,  as cuecas sujas acabadas de tirar, lançadas  para a gaveta das meias  e no entanto indispõe-se se, um resquicio de pó lhe altera o brilho imaculado do tablier.

  A mulher usa o carro como um meio para chegar a um fim, normalmente utiliza-o como caixote do lixo fora de casa. Ter que cuidar do carro é um esforço extra do qual não entende a utilidade. O homem tem o carro como um fim em si mesmo. É uma extensão de si, não concebe a vida sem ele, tê-lo desprezado e sujo é uma afronta, é como se não cuidasse de si. Mas entre escolher um bom shampoo para si ou o novo abrilhantador de plásticos, não hesita. Lava o carro primeiro por fora e depois aspira-o, porque para ele o seu carro tem que parecer… já a mulher limpa primeiro o interior porque, sente, quando o lixo atabulhado é tanto que não consegue achar a mala, que está na hora de avançar para esse processo doloroso. Por fora, não há pré-lavagens nem vassouras com sabão, se puder lavar o carro com duas moedas de 50 centimos, já sente que gastou muito dinheiro. Se sobrar sabão espalhado pela capota, pensa que as probabilidades de que chova, são elevadas e resolve-se o problema com manha. Seguindo a mesma linha de raciocínio, os limpa pára brisas só são enchidos de água quando vão à revisão e isto depois de terem passado mais 5000 km do que o mecânico aconselhou. Vai-se à revisão sim, mas sempre contrariadas e para elas gastar dez euros em gasolina é como uma facada no coração.  Quanto a eles, enchem logo o deposito, são previdentes e avisados, e têm sempre um jerican na parte de trás, nunca se sabe, elas se tiverem o triangulo e souberem montá-lo já é uma vitória. Eles veneram o carro, elas toleram o carro. É só neste departamento que elas toleram o desmazelo, mais, incentivam-no. E sentem um certo orgulho em admiti-lo! É estranho!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Procura-se...

   Na penúltima folha do Diário Insular há sempre um cantinho para as meninas que se apresentam na ilha, um cartão de visita, oferecem os seus préstimos, mostram-se disponíveis para todo o tipo de sonhos e anseios. Confesso que acho mais graça a estes anúncios porque, apesar de pequenos são criativos e abrem espaço à criatividade de cada um, do que aqueles imensos artigos de opinião sobre assuntos enfadonhos, sensaborões e bastas vezes inúteis. Estes são os últimos que leio depois de passar revista aos restantes, o obituário incluído. Leio-os meia a contragosto com a mesma vontade e o espírito com que leio os rótulos dos shampoos quando me esqueço de levar uma revista para a casa de banho. Leio-os porque não tenho mais nada para ler, a compulsão da leitura tem este defeito, marcha tudo, o que é bom e o que não presta. Mas os anúncios das meninas não: são pequenos e não dão seca, de mensagem carinhosa, promovem a interação sem pressas e fazem o serviço completo. Têm carnes e seios fartos, destinam as suas qualidades quer a homens quer a mulheres quer a ambos. Nunca estão muito tempo no mesmo sitio pelo que é natural que escrevam nos seus anúncios que são os seus últimos dias, não porque morram mas porque circulam constantemente. Não há dois anúncios iguais, o que não posso dizer em relação aos artigos de opinião, que com palavras complicadas embicam todas no mesmo sentido; vamos lá, elas também, o sentido é aquele que todos sabemos mas a forma como o farão é muito mais fantasioso. No entanto, anúncios a oferecer préstimos de homens para mulheres ou de homens para homens nunca vi,  neste diário digo, o que me parece injusto; queria comparar e nunca pude, até hoje: não no diário de todos os angrenses mas nos classificados online açorianos. Hoje descobri um anúncio que me agradou muito, entre o anúncio da máquina de cortar relva e as explicações de latim; não oferecia mas procurava e isso desde logo me parece muito mais franco. Nos dias que correm ninguém oferece nada a ninguém sem que haja contrapartidas, já o contrário, quando se procura, a remuneração surge naturalmente pelos bons serviços prestados, e é desde logo mais justo porque satisfaz a ambos. É que, o que procura sabe ao que vai, elabora uma lista com os requisitos procurados, aquele que oferece muitas vezes mente. A menina que diz " carnes firmes e bumbum de sonho" está subliminarmente a dizer que tem um cu do tamanho de uma casa e que as excrescências das nádegas chegam à curvatura da parte posterior dos joelhos, se se proclama de seios fartos é porque tem os mamilos no umbigo,  morena fogosa é normalmente tanga, pinta o cabelo de preto mas tem as raízes raiadas de branco porque na obscuridade do tugúrio ninguém nota e de fogosa só tem os gemidos, vem no manual de boas práticas de cama.
     Dizia o anúncio: "Passivo procura activo. Procuro homem activo, meigo, culto e respeitador. Máximo sigilo. Contactar para mais detalhes." ou seja sucinto, prático com a informação necessária para que o leitor saiba ao que vai, não é o leitor que procura mas sim que é procurado, pelo que é ele que deve reunir as condições adequadas para a selecção a que será sujeito; deverá ser activo, fundamental, nada a fazer a esse respeito, o seu papel está definido; mas nada de ser abrutalhado, activo mas com meiguice e muito respeito, Discrição para terminar. É, desde logo, um anúncio honesto, objectivo e que aperta a malha ao que realmente importa. Grunhos e ignorantes como os que meninas atendem, que atendem tudo o que apareça, não são elegíveis, estão abaixo da categoria humana. São elitistas porque exigentes e com razão. Não estão para aguentar com carroceiros de bocas que fedem e com micoses nas juntas, daqueles que só vêm o sabão e a água quando a comichão faz ferida. Deveriam servir de modelo para elas, as que se anunciam, do tipo: " Menina na ilha procura homem que se mantenha devidamente lavado e com os pêlos do nariz e das orelhas aparados, que lave os dentes pelo menos uma vez por dia e que traga as vacinas em dia. Que faça desparasitações internas e externas e venha munido de um certificado de desinfestação com validade de um ano, pelo menos. Deve saber conjugar uma frase inteligível e que faça sentido. " Qualquer coisa do tipo para saber o que as espera, por uma questão de justiça e de alguma igualdade no confronto físico que se segue. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

   Há gente de coluna vertebral de tal forma flexível que consegue cheirar o próprio rabo e sendo assim aguentam qualquer merda, engolem sapos atrás de sapos porque quando deviam soltar verborreia, encolhem-se e na sua pequenez limpam as armas para mais tarde, quando o inimigo está de costas. Propagandeam-se como arautos de um carácter irrepreensível, donos de uma conduta moral sem mácula, gente de fibra e de substância, de valores sólidos e fidelidade inquestionável. São conciliadores, nunca dizem uma palavra que ofenda, nunca têm que pedir perdão a ninguém porque na sua condição de alma impoluta, nunca ofenderam ninguém, desiludem-se todos os dias com os seus semelhantes que, fracos, imperfeitos, irreflectidos, pecam constantemente por actos e omissões e sempre contra si. Relevam constantemente essas ofensas, sentem-se bem a levar pancada dos outros, são sofredores por profissão, resilientes na sua dor única. E são burros, muito burros e na estupidez de quem se julga destinado a uma existência sublime, são ridículos e não o sabem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

   Hoje tive um sonho muito estranho, sonhei com aquele palanque absurdo à frente da câmara municipal, aquele que serve, ostensivamente, para complicar a vida de quem vive na cidade. Aquele tal que serve para coisa alguma, esse mesmo. Pois sonhei que havia um tractor seguido de outros, uma procissão de quatro ou cinco tractores daqueles com caixas abertas de grande capacidade; iam a umas quantas explorações agricolas e pecuárias e vinham de lá com um mega presente que depositaram no topo do palanque. Sei que o sonho se tornou muito confuso a partir daí, muita gente a correr em todas as direções, alguém dizia, tirem-me isto daqui que não se pode, outro chamou os bombeiros que vieram com as mangueiras e confusos a pensar que era fogo alastraram a coisa...entretanto acordei e fiquei sem saber o desenlace!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A pena de morte

   Nada como uma noticia fresquinha de um condenado à morte nos EUA acabado de ser executado com sofrimento físico, que é algo que anda a acontecer com alguma regularidade, ou outro tema quente, o tema professor também aquece muito e tem um lugar especial nos ódios do pessoal cá do burgo, dizia eu, nada como assuntos de alguma delicadeza ética para fazer as delicias do povão; podia ser feito um tratamento estatístico, um gráfico simples de barras com os comentários de resposta produzidos em duas horas, que em duas horas já há matéria com fartura. Para o assunto dos assassinos de gente que merece pena capital nesse modelo de país onde se aplica a justiça ao ralenti do " matas, morres" , anos e anos em diferido que é para doer mais, posso assim de repente e grosseirramente arranjar 2 grandes categorias de opiniões: 1º Os eticamente preocupados, anti-pena de morte convictos, que tentam normalmente com argumentos pedagógicos e com algum grau de condescendência e muita, mas muita paciência explicar aos outros, porque se não deve matar o próximo, mesmo que este tenha feito algo de muito mau; 2º Os ferrenhos adeptos da pena de morte que pelo colorido que apresentam devem ser agrupados em várias secções: A - Os a favor da pena de morte convictos sem papas na língua, rudes na palavras mas porque para problemas sérios não há cá falinhas mansas; são os que dizem " devia ter sofrido mais" ou " é pouco para o que fez"; B - Os irónicos sobre as penas dos caridosos, normalmente põem mais achas para a fogueira com expressões do tipo " Era rijo o cabrão" ou " coitadinho... tenho-me fartado de chorar com pena dele"; C - Os que não compreendem como se pode ter pena de semelhantes monstros e utilizam a velha argumentação implacável " se fosse a vossa mãe ou o vosso filho queria ver se tinham pena deles"; D - Os que justificam a pena de morte argumentando confusamente que ninguém tem direito a tirar a vida de ninguém, contradizendo-se amplamente fazem as delícias dos anti-pena de morte; gaguejando sem contrargumentarem partem ofendidos desejando os bons dias; normalmente não investem na discussão mais tarde; E - Os filósofos de rua que têm normalmente uma bagagem de invejar em provérbios populares e que normalmente cingem os seus comentários descartando uns quantos, alguns corriqueiros mas nem por isso menos adequados como o " olho por olho, dente por dente", outros, um pouco mais elaborados, quiça depois de uma breve pesquisa à internet como o " carne de cão não ganha infecção" F - Os que gostam de andar na onda dos ditos mais em voga como seja os que dizem " É assim..." nos inícios de frases de alguma profundidade mas que para o assunto em apreço lançam um " temos pena" frase curta mas que já por si diz tudo; finalmente mas não menos importantes e numa percentagem que não deve ser marginal os Fs - os ressabiados dos vários governos, aqueles que gostariam de ver os nossos governantes em terrenos de grande sofrimento físico do género " quem devia estar ali a morrer lentamente era o Passos... ou o Portas... ou a Assunção....ou o Cavaco.... um qualquer, caraças!"

domingo, 27 de abril de 2014

Citando....

   Após profundo estudo e aturada pesquisa sobre as citações facebookianas estou habilitada, ainda que sujeita a criticas por discordância da escolha ou da ordem atribuída, a elaborar o seguinte ranking, por ordem crescente de náusea ou aborrecimento:

10º Lugar - Citações de Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama, Papa Francisco ou afins, sem culpa alguma dos próprios;

9º Lugar - Citações sobre cães ou outros animais domésticos ou selvagens particularmente aquelas que dizem que não somos nada comparados com eles, que somos umas bestas quadradas porque os tratamos mal e como deveríamos vergastar-nos todos os dias no local onde nos doí mais (o local escolhido fica ao nosso critério) como penitência pelas nossas, muitas omissões para com eles;

8º Lugar: Todos aqueles posts com ou sem foto incluída em que nos falam no abandono dos idosos  e como tal situação é insuportável. Exemplo: " Não me ligam, não me cuidam, não me visitam! Filho, não se esqueça que um dia, também você vai ficar velho!"; 

7º Lugar - Todas os vídeos ou citações em que se diz que antigamente é que era bom, que andavamos sem capacete e mariquices do género e caíamos de cabeça e esfolavamos os joelhos e arrancavamos asas ás libelinhas e que tudo isso nos fez crescer saudáveis e que hoje em dia as crianças são uns bananas!

6º lugar - Todos os vídeos de desenhos animados ou não, com uma mensagem de fraternidade e igualdade e amor ao próximo destinados a deixar-nos em lágrimas e a pensar que o mundo ainda tem salvação, pelo menos naquele momento. Partilhamos estes filmes com a convicção que, fazendo-o nos tornamos seres humanos um pouco melhores;

5º Lugar - Todos as citações de gente famosa de auto-ajuda no conhecimento do EU e também para que cada qual consiga ter sucesso nos negócios; uma espécie de Mestre Fati sem termos que ir ao tugúrio do gajo para nos lançar os búzios ou o raio que o parta e sem o inconveniente dos cheiros estranhos de cenas a queimar; Há uns quantos que são muito referidos, tudo gente respeitável e que a gente trata por tu. Há um muito interessante e que tem tido, ultimamente, muito sucesso nas redes sociais, porque justamente fala em Sucesso, que é, como sabemos o objectivo de todos nós, nesta alvorada do século XXI. É do amigo Ralph W. Emerson e diz a resumir, que a citação é grande como o demónio, que devemos rir-nos muito e sermos muito condescendentes, e não darmos importância a merdas. Todos aqueles que já morreram têm normalmente mais saída, que o diga o Steve Jobs ou portuguesmente falando, o Manuel Forjaz;

4º Lugar - Todas as citações idênticas às anteriores mas em inglês, com maior impacto e cagança e sem se gramar com o português do Brasil;

3º Lugar - Citações de autor desconhecido de cariz mais ou menos poético destinado a que se ponha a mão na consciência e se sinta que se anda aqui nesta vida só a fazer merda, basicamente. Mas que ainda há a esperança de redenção, se cada um quiser, uma mensagem positiva, portanto. Um exemplo do tipo: " Uma lágrima não doí, o que doí é o motivo que a faz cair"! É lindo, senhores!

2º Lugar - Todas as citações do Eduardo Sá, nomeadamente  aquelas que são completadas com o seu rosto naquele sorriso perpétuo; aproxima-se perigosamente do primeiro lugar do ranking;

1º Lugar - Empate vitorioso, tudo o que saia da cabeça desequilibrada do Paulo Coelho ou da Margarida Rebelo Pinto, grandes vencedores deste ranking pessoal; 

p.s - uma menção honrosa ao Pedro Chagas Freitas, não sei muito bem em que lugar o ponha, à falta de melhor fica mesmo a encerrar a lista, por agora.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Prima donna

   De vez em quando acontece... surge alguém desequilibrado! Não há forma de prever, não há sensores  nem indicadores fisiológicos que nos eriçem os cabelos da nuca como forma de aviso ante a desfaçatez; os doidos, os borderlines sociais, os desarticulados do comum bom senso aparecem não se sabe de onde nem porquê,  impõem-se e estrelam enquanto abrimos a boca num espanto; reviram e concentram a atenção em si próprios, num exercício de narcisismo com consequências para os outros, nunca para o próprio, protegidos que estão numa redoma onde não se beliscam, sequer;  fazem estragos e arreliam, constrangem e desgastam, e partem incólumes mas não sem antes, se consumirem em autos de flagelação e pena pungente de si próprios; são os mártires, os desalinhados, os incompreendidos, os iluminados, os de sensibilidade ardente e de franqueza suprema, os que falam e os que escrevem o que querem e quando querem e sobre o que querem, e onde, de tudo o que dizem, se nota delicadeza, ardor, paixão, génio, grandeza de alma, e em igual medida...e em suprema grandeza,  a estupidez, que sendo uma segunda pele, se conjuga com arrogância, arbitrariedade, incoerência, inconsequência, inconstância e um enorme, um profundo e irreprimível bocejo. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

   Ainda que o termo de raça dentro do ser humano esteja em desuso há quem o faça e que insista nas suas derivações linguísticas mais ou menos preconceituosas   numa tentativa de separação das diferenças mas esquecendo-se que é maior aquilo que nos une do que aquilo que nos separa; e no entanto também eu fico ofendida com certas utilizações da língua em que não me revejo: eu também não gosto que me chamem de branca ou branquela e outras palavras da mesma família; eu não devo chamar de preto a alguém de “raça” negra, por óbvia inexactidão da palavra;  a mim não me devem tratar por branca, por óbvia inexactidão da palavra; é que eu não sou branca da cor do papel assim como o de raça negra não é preto da cor da fuligem, e no entanto sou branca para tanta gente e isso chateia-me; chateia-me por até nem gosto da cor branca, é aborrecida e monótona e só fica bem nas paredes e nos lençóis da cama;  e depois há  esta coisa estranha de pertencer ao grupo dos que não têm cor  em oposição a gente de cor, porque alguém disse, provavelmente algum ser desbotado de tons a tenderem para o esverdeado; não quero pertencer a esse grupo, isto deixa-me deixa-me mais lívida que a minha cor habitual. É incoerente, porque umas vezes sou branca e outras vezes já não tenho cor, posso não tem uma corzinha tão bronzeada e só a conseguir à conta de sol mas ainda assim tenho alguma corzinha, anda alí pela cor-de-rosa meia clara com algumas pinceladas de vermelho ou amarelo em dias mais biliosos, mas se pensarmos bem percorro mais camadas do arco-íris do que a gente de cor de tons acastanhados pelo que quero ser também incluída no grupo das pessoas de cor. E nem é por inveja, é por uma simples e mera constatação: Eu tenho cor e não prescindo dela, é uma mescla de tons que se confunde, gradação de cor de que sofrem todos os outros, os pretos e os amarelos e vermelhos! E nisso reside a nossa menor diferença.

sábado, 1 de março de 2014

Está a dar peixe?!

   Foi observado na Silveira mas estou em crer que será igual em qualquer outro lugar; existem dois tipos de pescadores básicos, com algumas variações tenues mas que se enquadram de uma forma geral dentro do mesmo padrão: os pescadores que pescam e os pescadores que pescam coisa nenhuma; e dizendo isto impõe-se algumas correções, desde logo: primeiro, os segundos, se nada pescam, não devem em rigor da palavra serem denominados de pescadores, porque só merece o titulo quem traz peixe para o cesto; segundo, para além de não pescarem peixe também não pescam nada em sentido figurado, ou seja, a pesca para eles é exatamente aquilo que eles não fazem; e no entanto, parece que pescam, nos dois sentidos, peixe e arte; quanto ao primeiro, é lançar o olho para o cesto ou balde ( quando há um ou outro, afinal de contas este utensílio é justamente aquele que estes pescadores não precisam levar para a pescaria, virá invariavelmente vazio); quanto à arte é discutível, esses seres confundem –se com os pescadores, andam de cana ou de caniço sofisticado, com os materiais associados, a roupagem com que se cobrem assemelha-se a de um pescador, os gestos e a postura é que de quem domina a arte a sério; confundem quem está de fora e se sente impressionado com o aparato, aqueles que nunca pescaram nada também mas que nunca tiveram intenção de o fazer, aproximando-se curiosamente nos propósitos dos do estudo em apreço no objectivo que ambos não têm: o peixe; não confundem, contudo, os pescadores a sério, aqueles que em 10 segundos põem o isco e o anzol e a linha na água e em 30 segundos tiram o peixe; os pescadores que lançam a linha e a linha cai efectivamente no mar; os não pescadores levam muito mais tempo, essa coisa primária de lançar o isco ao mar e retirar sem haver no entretanto o ritual associado não faz sentido para eles; antes do acto em si, o peixe que é puxado, que para eles não lhes diz nada, impõe-se um conjunto de medidas inúteis, para quem vê de fora e para os pescadores, os que pescam, porque de eficácia zero; e são , no entanto, essas medidas que dão a graça à coisa: primeiro, abre-se a caixa, aquela articulada de plástico com 3 andares e cheia de um manancial de tretas piscatórias, isco a fingir sempre, que ir à apanha da minhoca ou comprar a minhoca ali na venda é um comportamento absurdo. Anzóis são mais do que muitos, para todos os tipos de peixe e de acordo com o diamêtro da linha; o canivete não falta , os suiços que integram 200 funções num único objecto e que cabe inteirinho numa palma da mão (daqueles em que só a faca é que é usada porque se desconhece a utilidade dos outros 199), o pano ou toalhitas que têm cheiro para manter as mãos imaculadas, que isto de pescar e ter as mãos a cheirar a peixe não lembra ao diabo; seguidamente vem a cana de respeito porque não é qualquer  caniço desconchavado que se corta do caniçal das traseiras da casa que se traz para  o mar, foi encomendada por catálogo e traz garantia de 5 anos; é cheia de cromados e brilha de tal forma que todo e qualquer peixe a vê a vários quilómetros de distância; a preparação da linha e o carreto leva algum tempo, tempo esse ocupado pelos outros pescadores, para apanharem o seu almoço e ainda irem beber uma mini à tasca mais próxima; entre a chegada à beira do mar e lançar a linha à água, a maioria dos pescadores debandou do local e ainda o nosso heroi prepara o banho ao isco, que é isso que sucede, dar banho ao isco; os peixes, os sobreviventes, matreiros e avisados, rondam perto e é só; e é nesse pequeno período em que o peixe, como qualquer peixe, dotado de curiosidade de peixe se aproxima do anzol que o pescador tem um breve vislumbre da sua pescaria, mas é só isso; recolhe a linha mais breve que um fuso porque cedo verificou que afinal de contas, lançou a linha curta e que aí não há cardumes de peixes, revê os azimutes e deleita-se com mais um conjuntos de procedimentos de complexidade grande e eficácia duvidosa e enquanto vai e não vai, faz e não faz, recolhe de vez a cana, contrito mas não triste, dizendo que hoje o mar não estava para peixe e que no dia seguinte a pescaria será melhor, de alma tão cheia quanto o balde do outro. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A praxe no meu ISEF

   Havia um gajo lá no ISEF que assumia a função do mais bera da comissão de praxes! O tipo tinha um corpo franzino e pequeno mas elástico e nervoso; um crânio loiro de cabelo à escovinha de certa inspiração militarista que intimidava. A deficiência em altura compensava com a forma como nos olhava, como aproximava o nariz da nossa cara e no olhar azul que se colava ao nosso. Um sargento de pelotão em potência, um bom actor nessa função de nos amedrontar, os 100 quase-putos do 1º ano do curso de 1985; Lembro-me que foi só um dia que começou por ser de ansiedade intensa mas que cedo acalmou.  O salão nobre recebeu-nos com um grupo deles perfilados no estrado fronteiro às bancadas; todos de ar gélido e  impenetrável. Nós, mavericks acabados de chegar, não sabiamos ao que vinhamos; sabiamos que iriam judiar de nós mas como, não faziamos ideia. Depois de ordenarem que nos descalçássemos só de um pé,  coisa que fizemos foram chamando por nós, um interrogatório à vista de todos, mas nada de verdadeiramente dramático nem especialmente humilhante; umas partidas meias chochas e inócuas que cumpríamos, alguns só de 100 almas porque não havia sequer imaginação ou refinamento na perversidade para todos; eram só umas coisinhas meias tansas de gravidade leve e consequências nenhumas, uns rabiscos na cara e uns cacarejos, após uma hora daquele aborrecimento em que o loiro perdeu por completo o viço e abreviou a cerimónia porque o bocejo dos caloiros era vergonhoso, viemos a descobrir que o nosso sapato tinha ido parar ao fundo do lago da entrada amarrado com os outros sapatos de todos os outros caloiros, o que veio a ser o momento alto de toda a cerimónia: desapertar atacadores molhados não foi fácil e ali se consumiu mais uma meia hora que se revelou o suficiente para que a comissão desse por encerrada as hostilidades sem perder toda a credibilidade;
   No dia seguinte ninguém se lembrava quem era caloiro ou veterano, no ano seguinte nem sequer me recordo se houve praxe; eu cá não fui praxante nem recordo a ocasião como sendo de especial importância; recordo-a porque faz parte das primeiras imagens do meu tempo universitário, não porque em mim deixasse marca de sentido algum! No fundo, no fundo, o pessoal do ISEF da altura achava que tinha que fazer alguma coisa para ir na onda do recrudescimento da praxe nos anos oitenta mas sem convicção nenhuma; tinham mais do que fazer... coisas bem mais interessantes, uma partidinha de futebol, de basquetebol ou de rugby até! A gente queria era jogar, uma merda de um jogo qualquer a sério, desses com árbitros e bolas e campos rectangulares. Reuniões de praxe, rituais elaborados, hierarquias complexas e trajes académicos?! What the fuck, are you kidding?! Até para descobrirmos uma cor para o nosso curso foi uma carga de trabalhos, estava tudo ratado, o castanho desprezado a um canto, ok, venha ele que não queremos fitinhas às riscas!

E foi assim....    Gente sã!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A viagem - IV

9 º Dia - 30/31 de Dezembro de 2013 - New York

   Há a Nova Iorque de Manhattan e há a Nova Iorque do Bronx e a de Brooklin e mais umas quantas no entanto foi na Bronx que ficamos hospedados e Manhattan e Brooklin que visitamos. Gostei de quase tudo no Bronx, gostei do nosso anfitrião, o Junior, um rapaz novo extremamente simpático que para além de me ajudar com as malas também nos deu preciosas informações e guardou-nos uma lugar de estacionamento plantando-se no local à nossa espera, à espera que dessemos uma volta ao quarteirão para estacionar no lugar em que esperava. Gostei do clima de bairro seguro sem insegurança visível, gostei do metro que apanhamos, com 99% de negros e hispânicos e 1% de gatos pingados onde nos incluímos. Gostei de encontrar muita gente simpática, solicita e bem educada, gostei de termos destrinçado o metro de Nova Iorque sem grandes problemas. Gostei de regressarmos tarde na noite e não caminharmos em stress como se estivessemos em Chelas ou na Musgueira. É um bairro gigantesco dentro da cidade mas que vive autónomo. Agradeço ter seguido o meu feeling e ter querido ficar numa zona dita pouco nobre da cidade porque assim pude ver para lá do glamour de Manhattan... que tem glamour às toneladas e ter gostado do que vi! O metro deixou-nos em Columbus Circle e daí foi o início da descoberta: e para quem tinha chegado pelo Bronx com as suas construções sem grande escala e blocos de apartamentos mais modestos, para quem tinha vindo de metro que não é bonito nem arejado, subir as escadas na estação de Columbus Circle e levantar a ventas e dar logo com o Central Park é de vacilar; com o Luís a comandar as tropas e eu em permanente reportagem fotográfica fomos mais direitos que um fuso para a 5ª avenida, descida até meio do percurso e daí apanhamos um autocarro panorâmico onde descobrimos a hiperactiva Holly, a nossa guia que no final nos ofereceu mais um bilhete de borla caso nos apetecesse. O Luís não se mexia, propus que fosse para baixo abrigar-se, não quis, parecia uma estátua, só a cabeça é que rodava e mesmo assim só uns 15º para a esquerda ou para a direita, com alguma renitência. Quanto a mim, depois de quase duas horas de frio gélido, batia os dentes violentamente, de tal forma que tive que entrar numa loja e aquecer-me! Temi morrer com hipotermia! Daí a ideia era Times Square, propósito que seguimos, é uma praceta cheia de luzes e néons, não me impressionou minimamente. Fiquei impressionada pela escala dos edifícios e especialmente pelas diferenças de escalas entre alguns dos edifícios e a convivência pacífica e até harmoniosa entre edifícios de épocas muito diferentes. Fiquei altamente mal impressionada pelos vendedores de rua e pelo ataque cerrado para passeios de charrete, bicicletas, tours pela cidade. Sabia que a cidade era muito turistica mas a quantidade de gente e o ataque dos vendedores da banha da cobra desiludiram-me muito. 
   No dia seguinte de manhã a cidade estava um pouco mais respirável, estudado o mapa do metro viemos até quase a ponta sul de Manhattan e iniciamos um passeio que terminado contabilizou mais de 20 kms nas pernas. Descemos e subimos toda a Manhattan a pé com ida a Brooklin pela ponte, almoço do outro lado, neve a acolher-nos no regresso. A questão era, como fazer tempo até à meia-noite?! por essa altura estavamos a ponderar não ir para Times Square, a quantidade de gente era estupidamente grande, meninas às carradas de saltos gigantesco e mini-saias em temperaturas negativas; às 15 horas na ponte de Brooklin apontava -2º centigrados!!!!! Vagueamos, entramos em incontáveis lojas, descobrimos a Grand Central Station e caimos num canto, sentados quentinhos a descansar as pernas, nós e mais umas dezenas de pessoas. A estação é maravilhosa, um dos ponto altos, talvez pela onda cinematográfica, entrou-me no goto! Calcorreamos avenues e streets, o Luís revelou-se um grande navegador! Fizemos uma unica tentativa em entrar na zona mais reservada para acesso a Times Square mas desistimos, não gosto da onda de manada do ser humano, aflige-me, pelo que recuamos e fomos passeando, melhor dizendo, andando depressa para aquecer, entrando em bares para beber um hot chocolat e fazer um chichi. O jantar foi num restaurante muito interessante, como de resto a maioria dos restaurantes onde almoçamos ou jantamos, com a diferença que neste a gorjeta estava já discriminada, nuns efusivos 18% que pagamos e não abrimos o bico. O ano veio encontrar-nos num pubzinho simpático, daí fomos assistir ao fogo de artificio no Central Park que foi mais fraquinho que o fogo de artificio da ilha do Corvo nas festas principais da vila.