sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Eu sou a mãe!!

   Ontem! Local:a minha escola, campo desportivo exterior. "Alexandre, vamos embora! Estou desde as 11,00 à porta da escola à tua espera!" grita alguém muito irritado, por detrás de mim, uma mulher debruçada no varandim de uma das rampas perto da zona desportiva, dirige-se a um aluno meu. Perto do aluno pergunto: "Quem é, Alexandre?!", " a minha mãe", responde. Observo-a melhor certa de a conhecer de algum lado. Aproximo-me, já a ferver e digo suavemente: " Parece-me que teria sido mais correcto se se tivesse dirigido a mim!". Resposta rápida meia atrapalhada, a despachar "Ah, é que estamos atrasados para ir a uma consulta!". Continuo, "De qualquer forma...o Alexandre está em aula, a senhora interrompeu a aula, era comigo que devia ter falado primeiro para deixar sair o seu filho!". Já me recordo de onde a conheço: foi funcionária nesta escola no ano lectivo anterior!!! Por esta altura, a mulher mostra toda a sua impaciência para comigo, bate o pé, roda as ancas empertigada, vira-me as costas ao mesmo tempo que me diz:" Eu sou a mãe!" Como se ser a mãe dê toda a autoridade e justifique impertinências, indelicadezas e malcriações para com os outros! " E eu sou a professora e quem manda aqui sou eu!"  ainda disse mas penso que a mulher já não me ouviu, tão plena de razões se sentia. O aluno já tinha sorrateriramente saído da aula para ir ter com a mãe, envergonhado que estava! Facto interessante: três alunas minhas , batidas nas faltas de material e de assíduidade muito inconstante, sentadas alí perto, olharam para mim, atónitas! Depois de cada uma delas, à sua maneira, ter sentido a necessidade de mostrar a sua solidariedade por mim, com comentários certeiros sobre a conduta da outra senhora, uma rematou o assunto assim " Deixe lá professora, é de S. Mateus!"

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

São Longuinho



   Vem esta crónica a propósito de uma conversa que tive ontem, num jantar, no Beira-Mar de São Mateus, sobre a cerimónia do casamento. Uma das minhas amigas convivas casou há pouco tempo, numa cerimónia que, soube ontem, foi muito discreta e elegante. Esta minha amiga é muito minuciosa e perfeccionista e preparou este momento, tão marcante da sua vida, com um cuidado especial. Nada foi deixado ao acaso, tudo foi pensado desde a ementa do jantar ao pormenor das fitinhas que adornaram os bancos da igreja. A certa altura falou-se dos imponderáveis, aquelas situações que acontecem quando não era suposto acontecerem mas que dão sempre o colorido ao momento e que ficam na memória muito mais do que aquilo que correu bem!

 Lembrei-me do meu casamento! Lembrei-me da cerimónia do meu casamento! Anteriormente pensado  para ser realizado na Terceira, no dia 1 de Setembro de 1991 na Igreja de São Pedro e posterior banquete no espaço reservado do Clube de Ténis, tudo já preparado nesse sentido, acabou por ser muito, mas muito diferente. Não estava destinado que fosse nesse dia. De tal forma, as ondas electromagnéticas ou o que é que seja estavam desalinhadas que seria impossível que acontecesse. Veja-se: recebi uns tempos antes um telefonema de uma rapariga, que iria casar no mesmo dia e que cobiçava o espaço onde iríamos dar o banquete e vai daí, sendo uma rapariga de fartos recursos e lata proporcional telefona-me a perguntar se seria muito irrazoável pedir-me para eu alterar o dia do meu casamento ou quanto muito mudar o local das comezainas. Já não me lembro o que respondi mas estou certa que o que quer que seja que lhe disse não a deixou satisfeita e andou a fazer rezas ou o diabo e a coisa deve ter tido uma pequena interferência junto dos equilíbrios cósmicos que gerem as vidas de todos nós. Entretanto, com ou sem ajuda de terceiros, o meu pai para grande tristeza nossa, morreu no dia 18 de Julho desse ano e ninguém estava com cabeça para festas! A minha mãe ficou inconsolável e eu não poderia pensar em manter o ritual do casório nos mesmos moldes; assim, naturalmente, cancelou-se tudo e chorou-se a ausência do meu pai! Foi o ano em que fiquei colocada pela primeira vez na Lousã, o ano em que eu e o meu namorado tinhamos decidido ir viver para essa vila, perto de Coimbra. Voltou a marcar-se nova data de casamento, desta feita para 11 de Outubro numa cerimónia civil na Conservatória de Almada. Feitos os convites, descobriu-se que, estariam presentes 13 pessoas; a minha mãe foi inflexivel, não sairia de casa para ir ao casamento se à mesa se sentassem 13 pessoas; em desespero de causa, uma amiga nossa,  à última da hora, trouxe um amigo, o verdadeiro penetra, um rapaz que nem eu nem o noivo conheciamos, mas caramba, não era altura para esquisitices! Não tivesse este "amigo" aparecido provavelmente iriamos dar um almoço de borla ao primeiro cabeludo indigente que nos aparecesse! Estavamos por tudo! Quanto ao "amigo" nunca mais o vi, mas prestou-nos um bom serviço!
    A senhora conservadora, talvez intuindo que, aquele casamento não se enquadrava nos padrões normais, apareceu muito desleixada,gordissima,   bamboleando-se afogueada e de chinelos a arrastar pelo chão. A sala reservada para o efeito era feia e repleta daqueles inefáveis quadros do menino com a lágrima a deslizar pelo rosto e sucedâneos!
   O almoço (açorda de marisco e bifinhos com cogumenlos) foi no Barbas da Costa da Caparica, que tem tudo a ver com o requinte e sofisticação do Laws Club Tennis!!! A própria ementa foi adequada ao requinte da ocasião.
   O fotógrafo fomos todos nós, fotografia de conjunto não houve, seriam 13 a posar já que o 14º teria que ser o fotógrafo e a minha mãe não permitiria; tal como não tiramos aquelas fotos tão artisticas dos noivos a cortarem o bolo, dos noivos a entrelaçarem os braços para o champanhe, dos noivos a beijarem-se... o padrinho fez a filmagem do casamento mas nunca ninguém chegou a ver a filmagem porque o padrinho nunca chegou a dar-nos a cassete, daquelas cassetes pequeninas... dúvido que saíba onde ela pára, se é que ainda existe!
   A lua de mel não existiu no tradicional sentido do termo! Não saímos de malas para lado nenhum, não apanhamos nenhum avião ou nenhum barco, a nossa suite de recém-casados foi o quarto dos pais do padrinho (sem os pais lá dentro, claro está!). Dessa parte da história já nem me lembro muito bem, sei que foi assim mesmo mas não sei porquê! Também sei que, biblicamente, o esposo não conheceu a esposa nessa noite porque tinha andado nos copos na véspera e estava para lá de moribundo! 
   Deixando o melhor para o fim, pouco antes de sairmos para a Conservatoria a minha mãe vem ter comigo desesperada, dizendo que perdeu a aliança de casamento, mais uma vez, "não saio de casa sem a aliança". Tudo na vida dela foram sinais, premonições, sensações, vibrações boas ou más! A Inês, a minha madrinha, veio em minha salvação: tendo vivido muitos anos no Brasil, conhecia uma reza de apelo ao Santo São Longuinho, crença popular muito enraizada que atribuia a este santo a capacidade de encontrar objectos perdidos. Assim, disse a Inês, é preciso dizer uma reza e tenho a certeza que se descobrirá a aliança!

São Longuinho, São Longuinho,
se eu achar (nome do objecto perdido)
dou três pulinhos e três gritinhos!

e assim foi, a minha mãe que naqueles dias de poucas alegrias andava a chorar pelos cantos foi convencida a dizer esta reza e foi, no minimo, bizarro, vê-la  a gritar e a pular na esperança de encontrar a sua aliança! E encontrou...10 minutos depois enrolada nas franjas da sua colcha de cama! Por essa altura, toda a emoção, o nervosismo, a tristeza imensa daquelas semanas desmoronou-se e começou toda a gente a rir descaradamente, de uma forma quase demente, misturada com lágrimas e beijos e abraços à salvadora Inês e ao São Longuinho, obviamente! Este tornou-se nosso amigo, e ainda hoje o evocamos quando necessitamos dos seus valiosos préstimos, certos de sermos prontamente atendidos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A minha nova cozinha

      Outra cor nas paredes, tecto e nos armários e ficou assim! Lindinha!







quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A minha iniciação ao Golfe

   Há coisa de um mês tomei uma resolução: retomar e de forma persistente o golfe, como actividade desportiva recreativa. Assim decidida, procedimentos prévios todos tomados, contactos realizados, aulas programadas, sapatinho tirado da obscuridade da cave e engraxado! Admito, tomei esta decisão como poderia ter-me facilmente inclinado para  uma acção de formação de renda de bilros ou de capoeira....mas o  material já tinha, a criar pó e a ocupar espaço e pareceram-me motivos relevantes! Concordo, não é a melhor das razões para se iniciar uma prática desportiva mas, nos dias que correm, se não  nobre é pelo menos uma razão válida, tão válida como outra  qualquer! Outro motivo há e, no mínimo, inovador face aos preconceitos ainda existentes quanto à modalidade: ir praticar golfe porque é barato poderá ser um conceito peregrino, para quem desconhece a evolução da modalidade e no entanto é totalmente verdade; sem jóia de inscrição e uma mensalidade perfeitamente dentro da média de qualquer outra actividade, se não ainda mais acessível, considerando os custos de manutenção de um campo de golfe! Mas nesta modalidade outros interesses me movem:  é um jogo excitante de uma forma muito ao ralenti, não sofres que nem um mártir apesar de estares  numa actividade de intensidade moderada, não há contacto físico indesejado, não és obrigado a  apreciar as feronomas alheias, situação sempre muito aborrecida, manténs sempre uma certa dignidade exterior porque não te descamisas nem suas como um leitão, e não tens um árbitro a apitar-te aos ouvidos a cada 5 segundos. Tens os teus objectivos pessoais a atingir, com o teu ritmo próprio mas integrado num grupo onde podes jogar com os teus amigos, mesmo que sejam mais habilidosos que tu e tenham handicaps mais baixos; sendo um jogo individual de grande dificuldade técnica as possibilidades dos teus amigos mais habilidosos fazerem de quando em vez um jogo da treta é libertador! Podes iniciar a modalidade já a entrares na senilidade e ninguém nota isso  porque este desporto atravessa gerações, não te põe a um canto porque és velho e mal te mexes. Para além disso, deve ser dos poucos desportos em que podes participar nas categorias mais elevadas, seres vencedor e não teres que sacrificar a tua barriguinha de cerveja, pese embora alguma moderação ser aconselhada!  


   Esqueçam a critica batida do elitismo, da estratificação de classes, do snobismo inerente a este desporto, esse já foi chão que deu uvas, no Clube de Golfe da Ilha Terceira do qual já sou orgulhosamente sócia, ainda não vi nada disso e digo-o com um agrado enorme.Tive já ocasião de observar algumas das pessoas que frequentam este clube, de conhecer alguns dos responsáveis e também funcionários e fiquei muito agradada com a forma descontraída e calorosa como me receberam! O próprio código de vestuário está a aligeirar-se e dei por mim a observar, não sem algum pedantismo, os chinelinhos nos pés de alguns frequentadores; e não me parece que andem propriamente a observar se a marca do polo que os vizinhos vestem é Ralph Lauren da loja cócó se da feira!


   O meu professor está medianamente contente, isso parece-me muito encorajador: não é profuso nas suas manifestações de júbilo (que são sempre suspeitas!) mas também ainda não o apanhei numa expressão facial fatal (revirar olhos, suspiros ou bocejos mal disfarçados) e eu sou discreta nas minhas observações; penso, no entanto que, tal como eu, outros me precederam e o meu professor bem pode ser mestre na técnica da dissimulação, para nosso bem, naturalmente! 
   Passares 3 aulas em que de um cesto cheio de bolas consegues fazer 10 drives de qualidade sofrível e ainda teres coragem, de regressar no dia seguinte sugere um professor que seja assertivo e motivador! E isso ele é!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Lei de Murphy

   Conhecem com toda a certeza a Lei de Murphy que diz, de uma forma muito resumida, que aquilo que poderá correr mal, acaba por acontecer, da pior forma e no momento mais inesperado! É uma teoria pessimista mas pelo menos é precavida e permite-nos jogar um pouco com a vida por antecipação! Há sinais no início daquele dia de cão que nos fazem ficar de sentidos em alerta: a topada no dedo grande do pé logo pela manhã quando nos arrastamos da cama para fora, o cafeteira do café que nos queima os dedos e se espalha pelo chão, a nódoa na t-shirt preferida, as chaves do carro que desaparecem quando há dez segundos estavam ali mesmo (descobrem-se no frigorífico, obviamente o local mais  provável). O Murphy era um gajo esperto e eu sou muito sua amiga; sou crente absoluta nessa sua teoria e achando que, em alguma situação da minha vida, a probabilidade do azar me vir fazer uma visita é elevada, pego em mim e enfio-me debaixo da cama e espero que passe!
  
   Todo este preâmbulo para vos dizer que hoje vi o Mitra e o Murphy não me avisou! Nada! Levantei-me  bem disposta, um dia risonho, uma disposição magnífica, a promessa de um dia positivo e revigorante... nada de nuvens ameaçadoras, presságios soturnos ou vibrações negativas!
   Quando digo que vi o Mitra tenho que me corrigir uma vez que foi o Mitra que me viu a mim: quando dei por ele, já ele estava de olhos fixos na minha pessoa! 
   A registar: o supermercado Continente é uma zona de alto risco para contactos indesejados! Fui apanhada completamente desprevenida e dessa forma, incapaz de empreender uma manobra evasiva! Tarde demais até  para voltar a cabeça e assobiar para o lado! Mas Deus foi misericordioso e o Murphy benevolente uma vez que o mitra estava acompanhado. Ainda olhei a nova vitima de relance, em busca de um pedido mudo de socorro; nada li de dramático no seu semblante... ou é presa recente ou a abordagem do mitra refinou-se!
   Após uma saudação rápida mas perfeitamente civilizada e antes que o personagem se entusiasmasse, esgueirei-me de mansinho fitando esperançosamente a porta de saída, tal como um atleta de velocidade fita a linha da meta. Aí chegada, respirei profundamente, o súbito friozinho na espinha dissipou-se com o calor da manhã e os cabelos eriçados na nuca descontraíram-se subitamente! Ainda na zona de perigo, deslizei agilmente até ao carro, meia a andar e meia a correr e pisguei-me enquanto pude! Durante  um minuto gargalhei insanamente, depois acalmei-me e dirigi-me para casa!
 
   Não vou falar mais no mitra, nem era minha intenção fazê-lo hoje mas precisava deste momento de catarse!


   Escrevo da segurança do meu quarto, as portadas fechadas, em semi-obscuridade, aguardo pacientemente o final do dia, em modo de prevenção! Pedi gentilmente ao Murphy para ficar do lado de fora!


   Já o conheço, é brincalhão quanto baste para me surpreender duas vezes no mesmo dia: para encerrar em beleza um dia em que foi rei, nada como encontrar o..... Outro!











domingo, 11 de setembro de 2011

Minhas queridas buganvílias

   
   Nesta minha vida de andarilha, a carregar com a casa às costas, houve práticas que fui repetindo em cada casa que tive... nem sempre com bons resultados para a minha conta bancária, já de si a viver à mingua, mesmo sem extravagâncias de maior... pequenos arranjos da casa, muitos e alguns arranjos grandes em menor quantidade mas de alguma importância (que o diga o senhorio número três, que me entregou uma mansarda  feia e quase que tirada do romance da Frances Burnett, a Princesinha  e recebeu um sotão claro e remodelado! Ainda me rio sozinha sempre que me recordo da  sua cara de espanto quando lhe mostrei as obras acabadas... palavra de honra que só a expressão do rosto e a incredulidade do homem pela minha aparente estupidez já vale o dinheiro que gastei naquele empreendimento... acho que nunca ele terá tido uma inquilina como eu, não acredito que muitas mais pessoas façam o que fiz... não vou dizer quanto gastei, muito deselegante na verdade mas, antes que me comecem a lamentar por ter perdido o pouco juízo que ainda me restava, quero dizer-vos que, a ser agora, faria tudo novamente!) 

   Para tornar uma casa habitável precisa de ser à minha maneira: esta casa, em particular, tinha muitas potencialidades, lá está, muito lindinha, muito engraçadinha, toda ela muito "inha"! A casa quase perfeita! Tirando duas ou três coisinhas...
   E em todas as casas onde vivi, tirando a casa número 2, a casa de S. Bartolomeu (essa terá uma crónica só para ela, porque em relação a ela tenho tanto para dizer, aí tanto! Quase que salivo só a pensar nela... e nele!), houve sempre vontade de modificar algumas coisinhas para a tornar ainda mais bonita! E fiz essas modificações sem arrependimentos por estar ali a empatar o meu dinheiro porque, o que é facto, é que usufruí da casa da melhor forma possível!

   Mais mortificada fiquei eu com todas as plantas que plantei e todos os canteiros que organizei e muito especialmente todas as buganvílias que vi crescer e que tive que abandonar! 

   Tenho um fetiche por buganvílias, que querem, adoro-as todas: as trepadeiras, as que crescem como se fossem árvores, as roxas e as brancas, frágeis e adoráveis, as de folha mais larga e as que tem pétalas mais pontiagudas; em cada casa plantei uma buganvília e nela ficou quando me vim embora, obviamente! (com a excepção da casa de S. Bartolomeu mas essa é outra história!!!!)  

   A minha buganvília da casa da Riberirinha já lá está, bonita e viçosa a tentar crescer no meio de outras flores, escondida do vento e dos meus cães! Tenho fé que a esta vou ver crescer mas ... nunca se sabe!



   Não, estas buganvílias não me pertencem, nunca tive a alegria de ter buganvílias tão grandes e tão exuberantes! Estão na casa dos meus sogros, nos Biscoitos!



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A minha despensa

  


 A minha despensa é um armário! A minha despensa não fica na cozinha mas sim no corredor! A minha despensa não tem objectos inúteis, é tão despojada de coisas que chega a ser aflitiva! Quem abrir a porta do armário à procura de vitualhas, guloseimas e aperitivos terá uma amarga surpresa! Tem o indispensável para a vida diária de uma casa e pouco mais; as bolachas, chocolates e outros miminhos, se os houver, nunca lá estarão guardados; estarão escondidos e sempre num esconderijo diferente! Não preciso de mais, sinceramente não preciso! Nunca me habituei a fazer compras para a semana ou para o mês; prefiro ir todos os dias ao supermercado e comprar comida para o dia! Funciona para mim e permite-me ter em casa o mínimo indispensável!
  E no entanto ... gostaria de ter uma despensa decente, de tamanho adequado onde se pudesse acumular o que interessa e também tudo o que é verdadeiramente tralha e de utilidade zero para qualquer casa! É verdade! Uma casa  só é um lar se tiver uma divisão a que se possa chamar despensa; onde se guardem os boiões e os frascos de vários tamanhos e feitios, a garrafas já abertas e por abrir, as latas, latinhas, as caixas de cartão e as caixas de sapatos; os frascos das massas, do arroz, do açúcar e da farinha, os cestos de vime e as prateleiras para as batatas, as cebolas e os alhos, a lata das bolachas, a caixinha de madeira com as divisórias para o chá, todos os pequenos electrodomésticos, os de uso corrente e todos aqueles que já se estragaram há anos incontáveis. As inúmeras caixas tupperware, quantas delas já sem tampas e quantas tampas sem caixas; mercearias dispostas nas prateleiras, decoradas com tirinhas de ponto cruz de motivos culinários; os cheiros sobrepostos dos produtos de limpeza com as especiarias e as cebolas; as prateleiras mais altas reservadas para tudo aquilo que, se sabe, não se irá mexer nunca mais nesta vida mas que, contudo, não se quer deitar fora; 

   O que cada um de nós acumula ao longo da sua vida é impressionante! Apesar de haver hoje em dia a possibilidade de reciclar o papel dos jornais e das revistas que vamos adquirindo ao longo dos anos e que chegam às toneladas ou de darmos a roupa que já não usamos, o que é certo é que cada um de nós fica com uma quantidade de objectos de utilidade e uso mais ou menos obscuro mas que não nos atrevemos a deitar fora com a suposição meia tonta de que um dia nos fará falta! Esses objectos acabam por criar  um lugar cativo nas nossas casas e muitas vezes acompanham-nos nas nossas mudanças! 
   As mudanças de casa são uma boa forma de nos inteirarmos do quanto se acumula de lixo e tralha! É exasperante todo esse processo: o que custa numa mudança não são os móveis de que precisamos verdadeiramente, a cama para dormir, a cómoda para colocar a roupa ou a máquina de lavar; o que é insuportável é acondicionar todos os acessórios de uma casa, dentro de caixas de cartão em número considerável! Os tarecos que para nada servem a não ser fazer monte e pó numa estante, os livros que nunca se lerão novamente e todos aqueles de qualidade duvidosa! Eu tenho uma técnica que uso e que fui aprimorando ao longo das várias mudanças: os caixotes vão sendo cheios por critérios óbvios: roupa de cama, roupa de uso corrente, toalhas de banho, toalhas de mesa, etc etc. Todos aqueles objectos que não se integram em nenhum critério pré-estabelecido vão sendo deixados de lado a fim de se averiguar se ainda serão elegíveis para outro caixote! Normalmente, os caixotes com manuais escolares e material escolar, últimos a serem feitos, podem abarcar alguns destes trastes mas... através desta técnica e respondida à questão fulcral, eu preciso mesmo disto? com a maior sinceridade possível e esquecendo totalmente aquela teoria de que normalmente aquilo de que nos desfazemos acaba por nos fazer falta mais tarde, teoria inexacta e maçadora para os nossos propósitos de tornarmos a nossa vida mais fácil, consigo deitar 1/5 da casa fora! Se pensar nas inúmeras casas que tive e no que já deitei fora, sinto vontade de me esbofetear! Somos, por natureza os maiores inimigos de nós próprios, em vez de simplicarmos a nossa vida, gostamos de a complicar! Em muitos domínios e neste também!

   Quando resolvi vir para a Terceira, decidi que traria para cá todo o mobiliário verdadeiramente indispensável; tudo o resto seria vendido! Assim, no mês de Junho de 2009 fiz uma venda de garagem: elaborei uns prospectos a dar conta do que iria fazer e distribuí-os  pela vizinhança; a cada sábado desse mês iria abrir a minha casa a quem estivesse interessado e tudo era vendável! Organizei a banca dos livros, dos utensílios de cozinha, algum mobiliário, roupa, tarecos, e tralha, muita tralha! Mesmo o que, inicialmente, não era suposto vender, se recebesse uma proposta, iria também! Inacreditavelmente tive imensos visitantes, e desfiz-me de quase tudo com um lucro engraçado! Os primeiros a chegar foram os ingleses, que já têm uma comunidade muito interessante na Lousã e arredores, vieram logo para manhãzinha para conseguirem as pechinchas mais interessantes: e efectivamente saíram de lá com objectos interessantes e a um preço de chuva; os portugueses serranos adoraram a ideia, alguns até bisaram, vieram primeiro sozinhos meio receosos, meio envergonhados, ainda não tinham compreendido muito bem o que era aquela coisa da feira de garagem, mas gostaram tanto que regressaram mais tarde com a família; penso que me acharam meia estranha, um pouco como os hippies das aldeias serranas, uma mulher sozinha a vender o recheio da casa mas o que pensaram, guardaram lá para eles porque deram pelo fim-de-semana bem empregue e compraram-me imensas coisas; um velhinho meu vizinho, com quem tinha trocado meia dúzia de palavras nos 7 anos que vivi naquela casa, um senhor a quem eu só tinha visto a fazer a lida do campo, andando para lá e para cá entre a sua casa e o seu terreno onde tinha algum cultivo, apareceu com um cunhado também já velhote e perguntou-me se tinha livros de história, adorava o período do Napoleão Bonaparte! Disse-lhe que não tinha nenhum livro sobre Napoleão mas mostrei-lhe outros livros, alguns romances históricos de que tinha gostado e este senhor, que nunca me passaria pela cabeça que gostasse de ler, foi-se embora visivelmente satisfeito levando um saco cheio de livros! Outro senhor tive, que só dizia " ai que engraçado!" fazia mais umas perguntas e mais uma vez dizia " ai que engraçado!" À conta de tanta graça levou-me as ferramentas quase todas e tudo aquilo que pensei nunca conseguir desfazer-me: " então não quer levar isto também?" o "que é isso minha senhora?" "não sei bem!"  "ai que engraçado, vá, ponha lá isso também!" e assim de objecto em objecto, o homem limpou-me o exterior da casa e ainda me pagou por isso!

   

domingo, 4 de setembro de 2011

Alma de cigana!

   Tenho alma de cigana, personalidade meia irrequieta, revejo-me tanto no que canta o António Variações em Estou Além!

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão
Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só
Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar
Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só
Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
   Acredito que este meu estar é muito inato, existirá porventura um gene muito impaciente e inquieto que está presente no bolo genético que me coube em sorte, que moldou primeiro os meus pais e que, depois, mo transmitiram a mim: fez-me e faz-me ter vontade de não me fixar em lado nenhum e em qualquer lugar me sentir bem; apegar-me , com muita facilidade, às pessoas que fui conhecendo e com a mesma facilidade desprender-me delas quando assim teve e tem que ser; não fixar raízes muito fundas para me poder soltar quando for preciso. Mas... deixar a sementinha da minha passagem, sentir que fez sentido por onde andei, o que vivi e com quem vivi! 
   Poderei dizer que tudo começou com os meus pais, eles sim os grandes responsáveis por este fogo no rabo que me assalta com alguma frequência! Por contingências da profissão do meu pai, é certo, mas que criou alguma substância no meu espírito; recordo-me da minha mãe, certo dia, ter comentado comigo que, tinha contado ter tido à volta de vinte casas ao longo da sua vida. Posso aqui dizer que vou na minha décima sétima casa em  44 anos de vida o que dá uma média de uma casa a cada 2 anos e 4 meses!  Só aqui na Terceira, já tive quatro casas! Não gosto particularmente de mudanças nem faço isto por alguma tara inconfessável: procuro o ninho, o meu ninho! Simplesmente os bons ninhos são difíceis de encontrar. Também é certo que me apaixono facilmente por casas que não valem a ponta de um chavelho, para usar um vernáculo suave! Invariavelmente velhas, pouco práticas, frequentemente frias, cheias de cantos e recantos inúteis mas... oh Meu Deus, tão lindinhas, com tanta alma, irradiando tanta graça!!!!! Inútil enunciarem-me todas os evidentes defeitos, as inumeráveis desvantagens... se a primeira abordagem for de encantamento, tudo o que é mau ou potencialmente mau naquela casa, passa a solucionável ou mesmo engraçado, perfeitamente enquadrado com o espírito da casa; que interessa que a casa tenha frinchas nas janelas e portas que deixam passar o frio... é arejamento garantido todo o ano todo, o que só beneficiará a casa! Ter só uma casa de banho?! ...e daí?!  pff... mentalidade burguesa! Janelas e portas de madeira inchadas e empenadas?! Preço a pagar por manter os materiais originais, sacrifica-se  o conforto, salva-se a tradição... Enquanto dura o período de encantamento posso jurar a pés juntos que aquela é e será durante muito tempo, a minha casa, o meu lar! Passada essa primeira fase, vem o período em que aquilo que tinha tanta graça no início, passa a ser desengraçado e a dar-me algum trabalho (o que sabia de antemão que iria suceder, dado que não sou completamente irracional nas minhas decisões!). Continuo a gostar daquela casa e a investir nela mas, devagarinho e sem dar conta perscruto com algum interesse os escritos nas janelas ou dou por mim a pesquisar, novamente, sites de imobiliárias, mera curiosidade, digo eu para comigo, em jeito de desculpa! Dessa fase até à conclusão óbvia vai um passo que, pode demorar entre 4 meses a um ano!


    Que não se pense que não me irrito comigo própria com este meu traço de personalidade! Cansativo, absorvente, quase obsessivo! Tira-me forças! Dá-me forças, ao mesmo tempo! Carrega-me as baterias diariamente, desgasta-me   e deixa-me exausta! Faço tudo por impulso, a intuição é fundamental! Funciono por paixões, por espontaneidades! É um pára e arranca contínuo! Cansa, maça, moi...mas não mata! É como sei ser! Temo que já seja tarde para mudar!




  
(em relação à casa número quatro - novos desenvolvimentos serão actualizados à medida que forem surgindo)








sábado, 3 de setembro de 2011

Preciosa!

   O brio terceirense faz com que a população, normalmente todos os anos e também por uma questão de clima, pinte ou caie as suas casas; nos meses de verão e principio de outono, com o clima mais ameno, grande parte das casas e casinhas são alindadas! Umas ficam assim, perfeitamente amorosas!