quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O natal do divorciado

Natal! No Natal ninguém pensa nesses desgraçados, nessa casta de desperados que são os divorciados. Eu penso e estou solidária. O divorciado passa por cinco estágios ao longo da sua condição de divorciado: O primeiro é a Negação: o tipo ainda não percebeu, sabem, aquele momento que acontece quando, por ex. um puto tira um chupa chupa ao outro e este fica ali um segundo a tentar perceber o que lhe aconteceu antes de começar a chorar desalmadamente? No Natal ainda toma banho, perfuma-se, compra a prenda certa e tem esperança que ela se comova com a tristeza dele, apesar dos 50 sms diários sem resposta. É um crente.
Com o segundo estágio vem a raiva e tudo descamba. Aos 50 sms de amor seguem-se 50 sms mortíferos onde o Stephen king se poderá inspirar. É um estádio de insanidade normalmente temporária. Convém fazer um seguro contra todos os riscos, do carro também e todos os bens perecíveis. O Natal é explosivo e imprevisível. O presente comprado foi queimado num ritual satânico. As fotografias em comum tb.
No dia seguinte, ele negoceia. Já se esqueceu das figurinhas que fez no dia ou na semana anterior e faz muitas promessas, daquelas muito impossíveis. Pede muitas desculpas pelos pneus do carro e jura todo o tipo de disparates, é a altura em que o mentiroso jura a pés juntos de que fala verdade. O Natal volta a ser possível, o mundo está repleto de esperança, os 50 sms passam a 100 sms de amor enjooso e faz-se marcação cerrada ao quarteirão.
No quarto estágio já está o tipo deprimido. Olhar esgazeado, rameloso, magro, desmazelado. Não muda os lençóis da cama há um mês e alimenta-se do amor perdido. No Natal, se conseguir transpor a porta da pocilga onde vive vai criar má onda no jantar da consoada. Ora ri desalmadamente e conta piadas picantes ao priminho de 10 anos, ora bebe que nem um porco e adormece no sofá da entrada com os gatos da casa por companhia. Anda assim até ir parar ao hospital por uma alergia fenomenal a picadas de pulgas de uma infestação que teve em casa. Não pode descer mais baixo, o degredo é total. O senhorio ameaça-o com um despejo, ele arranja um cão para ir fazer companhia às pulgas. O cão passeia-o pela cidade porque já não o pode ver assim. 
Em chegando ao 5º estágio, está a casa ingovernável e para o cão já chega.  Inexplicavelmente, toma banho, já não se lembrava, fica com o corpo cheio de comichão de estar limpo, apanha uma pancada de ar, vai parar ao hospital pela 2ª vez numa semana, a camada de sebo só lhe fazia bem. Faz uma cura de sono no hospital e dá por si a apreciar o rabo de uma enfermeira.
Considera-se curado, aceita o seu estado de divorciado, pede o número de telefone à enfermeira, e vai à procura do cão que não quer ver nem morto. Sente que tem algo agora pelo que lutar. A enfermeira dá-lhe uma ajuda, é tão permeável a ajudas. O mundo é risonho novamente.
Este é o final feliz da história. Há outras.


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Auschwitz - para que nunca se esqueça!


Auschwitz I
"O trabalho liberta"






Câmara de gás

Forno crematório (sala imediatamente ao lado da câmara de gás. Os alemães sempre altamente práticos)


Cada prisioneiro aprendia muito rapidamente que era importante passar despercebido; não levantar o olhar, não transparecer uma emoção, um lampejo de raiva, de dor, de indignação, o comportamento volátil e imprevisível dos soldados e oficiais alemães tornava a existência de cada um como um jogo de dados. A sorte ou o azar ditou o destino de muitos. Os castigos, se o prisioneiro tinha sorte de não ser sumariamente fuzilado, podiam passar por ser encerrado num espaço exíguo junto com outros com igual sorte, durante uma noite, de tal forma exíguo que, de manhã, na abertura do buraco nem todos estavam vivos. 
O trabalho da maioria era ao ar livre a vários km do campo, com sol abrasador ou temperaturas de -20 ou 30 graus, sem um agasalho ou um abrigo. Sobreviviam os que tinham um espírito teimoso e um corpo que se alimentava de algo mais do que simples comida. 
A cantina dos oficiais do campo situava-se a 10 metros das câmaras de gás: enquanto seres humanos morriam às mãos de outros seres humanos, estes comiam e bebiam e soltavam as suas gargalhadas alheados do sofrimento causado. A indiferença!



Zona dos fuzilamentos (muitas vezes precedidos por torturas, das quais a mais recorrente era a de suspenderem o prisioneiro pelos pulsos atados atrás das costas o que acabava por provocar o deslocamento total dos ombros)


Guarita do soldado para se abrigar da chuva. Os prisioneiros artistas (os que sabiam musica) eram "convidados" a integrar um grupo de músicos que tocavam peças de animo patriótico para levantar a moral. Muitos oficiais das SS eram melómanos e a orquestra servia os seus intentos. Ouvia-se musica clássica, com Wagner à cabeça, no caminho para a morte. 

Os prisioneiros desprovidos de todos os seus bens e de toda a sua dignidade eram obrigados a trabalhar jornadas de doze horas; o seu trabalho (os que conseguiam ainda trabalhar) contribuía para o esforço de guerra. Os seus cabelos, rapados logo à chegada serviam para fabrico de sabonetes. Marcados com tatuagens onde um número lhes tirava qualquer réstia de humanidade, marcados como gado. Os dentes de oiro eram extraídos, todos os seus valores eram confiscados, a sua marmita da comida, pouca, rala, água com alguns legumes e um pedaço de pão diário era o seu bem mais precioso. Também à chegada era feita uma triagem, no início, Auschwitz I só recebia prisioneiros homens, posteriormente também mulheres e crianças. Na triagem inicial e quando já a solução final tinha sido adoptada, mal saiam dos comboios, onde se tinham amontoados como animais, por vezes durante dias, em condições de frio ou de calor incomportáveis, e de onde já alguns não saiam vivos, eram encaminhados para duas filas. A da esquerda era constituída quase exclusivamente de mulheres, velhos e crianças pequenas que eram conduzidos directamente para as câmaras de gás onde lhes diziam que iriam ser desinfectados e portanto lavados e os mandavam despir-se. Fechadas as portas estanques e lançadas as latas de pesticida pelas aberturas no tecto das câmaras, a morte era em tortura e sofrimento, muitas pessoas, as mais fortes demoravam entre 15 a 20 minutos para morrerem.  

Os homens, os que aparentavam mais força física eram conduzidos para a direita, para uma vida de trabalho em morte lenta e dolorosa. Se morriam eram rapidamente substituídos, a vida humana valia tanto quanto um prato de sopa. 


Os kapos, prisioneiros com privilégios asseguravam, em grande parte, o controlo dos outros prisioneiros, e na sua ânsia de assegurarem também a sua sobrevivência, tornaram-se verdadeiros carrascos: denunciavam, delatavam, castigavam e roubavam. Na miséria extrema do campo tinham as funções que nenhum soldado desejava, lidavam de perto com os prisioneiros e asseguravam o funcionamento dos fornos crematórios. Tinham uma ração melhorada, dormiam em melhores condições e tinham roupa reforçada. 



Rudolf Höss foi o comandante do campo durante dois anos e após a rendição da Alemanha, um tribunal polaco acusou-o de ter sido o responsável pela morte de 3 milhões de pessoas ao que este respondeu friamente que não, era responsável pela morte de 2,5 milhões, uma vez que os outros 500 mil tinham morrido devido à fome e às doenças. Foi condenado à morte e enforcado a 16 de Abril junto aos fornos crematórios do campo. 
Segundo consta, e dado que a casa que habitava era contigua ao campo, separada apenas pelo arame farpado, os 5 filhos brincavam paredes meias com todo o sofrimento e maldade à frente dos seus olhos. 




Edifício principal de Auschwitz II- Birkenau



A via férrea infame que conduzia intermináveis comboios à linha final, do qual só saiam vivos, os mais fortes, os mais saudáveis ou aqueles que por um conjunto de circunstâncias foram os de maior sorte. 

Latrinas públicas (uma por fileira de casernas. Em cada fileira existem à volta de 15 casernas. Cada caserna "acolhia" 800 prisioneiros que dormiam em beliches de 3 ou 4 níveis, onde se acotovelavam por níveis, cerca de 8 prisioneiros).
As latrinas públicas eram muito cobiçadas como trabalho por vários motivos, todos eles a ver com a sobrevivência do prisioneiro: era um local quente no inverno, no início as latrinas eram despejadas à mão, o calor dos dejectos humanos eram acolhidos como uma forma de se manterem quentes; nas latrinas os soldados não se atreviam a entrar receosos das doenças, os prisioneiros não tinham esses pruridos; era um local de transacção dos bens escassos, uns sapatos por um pedaço de pão, uma manta rota e cheia de percevejos por um sabonete. 


De grande parte de Auschwitz II restam apenas umas poucas fileiras de casernas de madeira, e os desenhos das implantações das restantes, com um forno de aquecimento (que nunca se acendia), único artefacto em tijolo. 



Os dois fornos crematórios de Auschwitz foram destruídos antes da libertação do campo. Apenas se mantiveram integras as câmaras de gás do campo Auschwitz I bem como os seus fornos crematórios. 


Latas vazias de Zyclon -B, pesticida usado pelos alemães, no início para desinfestação de piolhos e evitar a febre tifóide. A partir do momento em que os alemães adoptaram a solução final, este pesticida, constituído fundamentalmente por ácido cianídrico, cloro e nitrogénio, foi a ferramenta da morte de milhoes de seres humanos. Em Auschwitz, apesar dos números não serem absolutamente certos, estima-se que à volta de 1.500.000 seres foram mortos quer por fulizamento, quer através deste processo de envenenamento quer através de fome e doenças. Desses, 90% eram judeus!
As cobaias para o início deste método de morte massiva foram 300 soldados russos capturados pelos alemães. Nestes foram experimentadas doses a fim de saberem qual a quantidade necessária e suficiente para matar um ser humanos. Além de práticos, os alemães eram também poupados.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Retrospectiva

Cinquenta e seis anos passados
Meio século de existência
Anos de vida dedicados
Ao mar, misto de enleio e obediência.

No dia em que veio ao mundo
Uma estrela brilhou no céu,
Nasceu para ser vagabundo
Neste mundo de homens foi feito réu.

A vida sempre lhe foi infiel e dura
Feita de trabalhos e canseiras
Mas o desconhecido e a desventura
Nunca lhe impuseram barreiras.

Cedo ingressou na Marinha
Em busca de novos horizontes
E a vida que sempre parecera mesquinha
Tomou novas formas, surgiram novos "montes"

E o mundo foi todo percorrido
Mês após mês, no mar navegando
Lembranças da terra, num tempo ido
Foram pouco a pouco se dispersando.

Conheceu numa festa da aldeia
Aquela prima desconhecida, tão esbelta
Seus cabelos negros, seus olhos de sereia
Puseram-lhe o coração em estado de alerta.

E o dia de casamento chegou
A noiva de branco, ele de fato
A hora que tanto ansiou
Fora chegada; heróico acto.

Nasceu o Rui; botão de rosa
Num jardim, ainda por semear
E para aquela família venturosa
Era mais alguém para se amar.

Moçambique foi a meta seguinte,
Terra das mil e uma cores
Terra de anseios, como um pedinte,
Terra de milagres, terra de amores.

Lá lhe ficou o filho amado
Que Deus ao céu chamou.
Ficou a vida sem significado
Sonhos desfeitos; quanto chorou!

A roseira tornou a dar flor
A alegria voltou a reinar.
Vieram à terra com todo o amor
Juraram p'ra sempre o lhes dedicar.

A Rui e a Baba foram crescendo
Crianças primeiro, jovens depois
E a vida foi sempre correndo
A vida que até ali fora a dois.

Um homenagem aqui prestada
Aos cinquenta e seis anos de vida
lhe deixo bem vincada
De uma retrospectiva vivida.

Maria Rui Dias Loução, 16 anos