terça-feira, 4 de outubro de 2016

Pensar na vida...

   Pensar na vida...

   Há quem o faça no ano novo, com a promessa de um novo recomeço.
   Há quem o faça sem promessas, simplesmente pensar na vida.
   Eu penso, penso muito!

   Quando tinha vinte anos pensava que ia morrer antes dos trinta.

   Aos oito anos tinha a certeza absoluta que não ia chegar aos nove. Nunca tinha beijado um rapaz na boca, os beijos que dava ao espelho, que o deixava todo embaciado e babado, não me satisfaziam.

   Não ia ter bebés!
   Não ia fazer todas as coisa que os adultos fazem! Que imbecil!

   Passada a barreira dos nove, estive uns anos ocupada a crescer saudável, a dar cabo do juizo dos meus pais, até que aos 17 anos me deu forte maluqueira: agora é que ia ser, que iria morrer de uma forma horrível.
   Desenvolvi um gosto obsessivo por ligar e desligar interruptores de luz, acertar os livros nas estantes por tamanhos e emparelhar os pares de sapatos por texturas e cores.
   Saia de casa e entrava em casa uma dúzia de vezes  para me convencer que a luz da casa de banho estava desligada e que a porta do frigorífico não tinha ficado encostada; um alien, quem sabe, um monstro, podia andar a brincar às escondidas comigo!
   Tinha desafios mentais do tipo - se não conseguir ligar e desligar a luz 5x em 5 segundos, morro!.
   Tornei-me intima da psicóloga que me punha a desenhar o meu " Eu" de olhos fechados e a fazer joguinhos para travar os meus ímpetos obsessivos.
   Tinha várias doenças físicas gravíssimas...todas na minha cabeça.
   Fazia filmes diários: a pontadinha nas costelas? Iminência de um ataque cardíaco fulminante. Dor na base da coluna? Cancro ósseo. Mau estar no estômago? Aneurisma abdominal.
   As desgraças estavam sempre, prestes a acontecer-me, contradizendo os vulgares mortais que vivem ignorantes, certos que as desgraças só acontecem aos outros.
   Não, a mim a doença não me apanhava desprevenida.

   E os ataques de ansiedade?
   Que experiência poderosa! Poderosa e dispensável, antes um par de estalos nas ventas.
   Aquele frio subito que sobe pela espinha, que te acelera a respiração até parecer que te saem os bofes pela boca e o coração pelas orelhas.
   Um panicoso consegue reconhecer outro panicoso à distância, já todos se humilharam com cenas deploráveis à porta dos hospitais.
   Figuras tristes!

   Certo, certo é que chegas aos 30, passas os 40 e chegas quase, quase, aos 50...viva!
   Depois pensas:

" Aos 50 já te vai faltando o tempo, não é, a margem agora está a ficar curta, afinal se calhar até tinhas razão!"
   Estão a ver a lógica torcida? É que a cabeça não pára!

   Chegas lá, aos 40, dizem-te que estás no teu auge, que agora é que aprecias a vida devidamente. Que agora é que estás madura sem teres perdido a frescura?!

Pffff!

   Com uma cabeça que não pára, a conta bancária à mingua, o cabelo a esbranquiçar, a pele do pescoço a parecer o de uma galinha depenada?!

   Acrescenta aí, os filhos...adolescentes!

   Que farejam o frigorífico de 10 em 10 minutos a ver se o génio que vive lá dentro repôs o stock, deixam esqueletos de maças debaixo do sofá e as cuecas selada penduradas, do avesso, no cesto de roupa suja.
   Que dizem que não percebem nada do que falas e que a tua onda não é a deles.
   Quando eram pequenos tu eras o mundo deles, agora não te querem no mundo deles.
   És um adulto mainstream aborrecido e comum, que os envergonhas junto dos seus amigos quando abres a boca e procuras aproximar-te deles com as tuas piadas sem graça.
   És o chauffer deles mas pedem-te que os deixes a 100 metros da escola a fim de que o não vejam contigo...a Mãe!...E professora... e todos sabemos como, nos tempos que correm, ser professor se confunde com a base da cadeia alimentar...Não recomendável!
 
   À beira dos 50 anos, a ficar quase velha mas sem ser velha, não suficientemente velha para que parem de implicar contigo porque envelheces. Observam as rugas do teu rosto, as peles dos teus braços e a qualidade das tuas mamas e pensam:
   " Ai coitada, calha a todos, era tão gira, quem a viu e quem a vê, que pele tão maltratada, um hidratante pelo menos, quer dizer, incrível como as pessoas se tornam tão desmazeladas!

   Ou seja, andaste todo este tempo a melhorar em conhecimento e sabedoria, a aperfeicoar-te enquanto ser humano, a separar o acessório do que importa, para que, no fim, o que conte é que foste mais gira do que és agora. E tu sabes que, para eles, tudo não passa de uma tentativa deprimente, de esquecerem o seu próprio envelhecimento.
   Mas aos 50 anos marimbas-te para o que de ti dizem, as rugas são tuas, as peles também, a celulite demorou muito tempo a apurar... ignoras e ignorar é um privilégio teu!

   Gostas de ti e pronto, à beira dos 50, ex obsessivo.compulsiva, hipocondriaca envergonhada, 3 filhos indisponíveis e arruinada.

    Que currículo extraordinário!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O amigo lambe cus


   Os amigos lambe cus são como qualquer outro lambe cu mas em amigo. São  os  açucarados que, por mais asneiras que se faça nas nossas vidas e nos comportemos como uns perfeitos idiotas, nos dizem que procedemos bem e que nos incitam a continuar. São os amigos que escondem as nossas próprias misérias com receio de que nós ainda não as tenhamos descoberto. São aqueles que passam a outro a inconveniência de dizer que agimos mal porque não querem que a amizade que os une a nós sofra alguma beliscadura. Dá-nos jeito tê-los quando  não conseguimos levantar a cabeça com o peso da merda que fizemos. São o alívio da nossa consciência. É para eles que corremos quando damos cabo da boneca da outra menina e gritamos " Foi ela que começou!" certos que , em vez de nos darem um açoite, nos dizem " não chores pequenita, a outra menina foi má, só teve o que mereceu! "
   Os amigos lambe cus são sempre muito nossos amigos e vivem a nossa vida como se fosse a sua própria, pensam como nós, agem como nós, são sempre os primeiros, fazem questão de serem sempre os primeiros em tudo. Os amigos lambe cus lutam entre si a ver quem lambe melhor.
   Por egoísmo, por medo de nos perderem, por inexistência de coluna, por preguiça, porque não se querem maçam, porque estão tão interessados em nós como o cão pela pulga, porque gostam que deles digam que são os amigos mais maravilhosos do mundo e isso lhes afaga o ego! Alimentam-se de nós mas não nos dão nada em troca a não ser lisonja e  bajulação. E no entanto, aos olhos dos outros defendem-nos do mundo cruel e batem-se por nós.

 Lambem-nos o cu até fazer ferida! Que não sara!


   

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A divorciada


   A mulher divorciada...
...desquitada...
...desemparelhada...
...desirmanada...

   É tema sumarento e cheio que derivações, afluentes e sentimentos poderosos. Sem saber bem como começar mas  dado que sou habilitada para falar desta casta tão especial, resolvi ir pesquisar sobre o tema e dei com triliões de blogues especializados  no assunto. São blogues densos, escritos por quem sabe, elas! Eles também poderiam mas faltaria o essencial, o fel.  São tantos que é caso para dizer que em cada blogger há uma divorciada; excepção das bloggers de culinária e de bricolage, essas são casadas, muito bem casadas e o sonho maior das suas vidas é alimentar e vestir o marido e os filhos, com pratos económicos mas saudáveis e roupas amigas do ambiente.
 Os blogues sobre o divorcio têm sucesso e muitas visualizações, só são batidos pelos blogues especializados em unhas de gel e depilação com linha, porque giram em roda de dois subtemas: o quão maravilhosas as mulheres divorciadas são e o quão javardos os ex maridos foram!  A divorciada típica é a mulher que se descobriu maravilhosa para não se atirar de uma ponte, que começou a pintar as beiças e a gostar de si própria ainda que viva com os olhos inchados. Descobriu também que será a única altura da sua vida em que não precisa de fazer dieta para emagrecer. Mais tarde, muito mais tarde, quando recuperar os quilos todos e porque é estóica na dor e sabe aguentá-la melhor que ninguém sentirá alguma nostalgia do único tempo em que vestiu o 36.
 A divorciada apercebe-se que há vida para além do casamento que já era, e no entanto vive ensimesmada com aquilo que podia ter sido e já não é. Rumina sobre a vida e sobre o sentido dela, sofre de constantes ataques de pena de si própria e do quanto o mundo é injusto. É uma calimero com filhos que vai batendo as asas a medo a ver se arrebita.

 O ex marido é para o resto da vida, como sarna sem cura, uma rémora bem atarraxada ao corpo de um tubarão martelo.
Adquirir o estatuto de solteira pós divórcio é uma impossibilidade! Pode casar e aí aumenta novamente de estatuto, não pode é insolteirar, está maculada para tal, só se redime se se atrelar novamente.  É uma cena tipo castigo, foste casada e não soubeste aproveitar, toma lá agora, aguenta - te! Ou então casa-te novamente! Existe enquanto esposa, divorciada é um embaraço! Uma falhada. Aí és divorciada? Não deu certo?! (acenos de cabeça com expressão de comiseração, boca franzida em desaprovação)... pois..... as pessoas hoje em dia não estão para aguentar os defeitos dos outros, dá trabalho. A divorciada não tem estaleca para casada, por culpa própria. Não sabe aguentar as contrariedades próprias do casamento, não tem fibra de monja, uma deficiência cromossómica.

   Enquanto recém sozinha alimenta-se principalmente  de rancor, e toda a gente sabe como esta ração é pouco calórica. Deixa de ter vida própria, passa pelo processo todo do luto pós divórcio enquanto o divorciado arranja uma forma mais prosaica, arranja outra mulher! É muito mais fácil passar pelo processo, com outra ao lado. Sentido prático é qualidade que falta a qualquer mulher, o homem utiliza-o muito bem em momentos de aperto. A divorciada não entende a simplicidade  da coisa, anda ainda às voltas com as questões de lealdade e tretas.
   Meses mais tarde é que se apercebe que ele não volta, ele percebeu isso no momento em que saiu de casa, Andou este tempo todo a matutar no que podia ser e não foi, enquanto ele tira a barriga de miséria. Na corrida para a emancipação de espírito anda uns seis meses atrás.               
   Quando se apercebe que é para sempre, consciente e conscienciosamente, contraria o mais possível o resto do bom entendimento que lhe resta com o ex marido. Fazê-lo penar um pouco dá-lhe um certo alívio às suas dores ainda que a dor passe a ser crónica.
   Como é uma sobrevivente, dá-se conta com alguma lentidão que não morrerá de sofrimento e finalmente arrebita. Começa a cuidar de si, a sair com as amigas e após um curto período em que o seu maior desejo era ser lésbica, lança os olhares a seres do sexo oposto. A medo e com vergonha a princípio, mais afoita após alguns ensaios. O ex sempre como comparação, o que se torna algo injusto para o ex que com a experiência, sai beliscado. Percebe finalmente que há mais mouros na costa e que a sua consumição era a de uma alma tola que só estava à espera de ser preenchida. E aí chegada é vê-la a desabrochar em toda a sua plenitude e desejo. O ex marido olha-a com outros olhos e chega a pensar se não cometeu um erro. Mas aí é tarde, o anátema da mulher casada já se diluiu na voragem dos dias e lhe parece a vida passada, irreal. 
   Adapta-se, reorganiza-se, descobre-se! 

Mas nem sempre, umas de luto ficam e carregam o mundo, Deus e o Diabo no lombo e sentem prazer nisso! 
  


terça-feira, 10 de maio de 2016

Alegrias de quem ensina

   Já desesperei a explicar a um aluno que me disse "as pessoas têm o direito de dizer asneiras, se quiserem" que a sua afirmação é falsa; já testei a minha paciência a explicar a outros que não podem andar a roçar-se uns nos outros só porque estão a descobrir a sexualidade e o seu impulso primeiro é o de concretizarem o que apetece no momento; não é aceitável, meus caros, roçarem os vossos órgãos genitais no rabo de colegas do mesmo sexo ou outro. Assim como não é aceitável coçarem os testículos e puxarem o pénis para o lado porque ficou preso na cueca e o mal estar é grande; nunca é tão mau  quanto quem tem que assistir á cena. Não quero passar pelo corredor da minha escola e ter que assistir à introdução da língua do gajo na faringe da gaja. Dispenso que um rapaz de 15 anos refile, durante a aula, com um colega porque " acertaste-me com a bola nos tomates" e muito menos me agrada que o a resposta seja "sacode que isso passa". E ir na paz no Senhor e vem um tipo, no corredor, um fulano ainda sem pêlos a refilar para o outro " foda-se, larga isso, caralho". Não preciso disso. Assim, como não me apetece que haja um tipo a enfiar o dedo no nariz e a trazer matéria viscosa para fora enquanto eu explico como se faz um passe de ombro no andebol. Cuspir no campo sintético enquanto se joga basquetebol leva a que se termine a aula com a mão pegajosa; explicar esse facto ao gajo com catarro precoce é o mesmo que ensiná-lo a fazer ponto cruz. Se digo ao corrécio do 7º ano que apanhe o que atirou para o chão e ele me responde que não foi ele, comigo a olhar, não é conveniente torcer-lhe o braço ainda que apeteça; se digo a um grupo que aproveite o que acabou de colocar no lixo e apanhe o pacote de leite que está logo ali e me respondem que não foram eles a sujar, apetece dizer "fazes isso porque eu mando" e não " vá, melhora a tua consciência cívica e ecológica, a natureza agradece". Ter que ensinar boas maneiras e regras de cidadania é giro mas cansativo sobretudo se se explica essas regras aos mesmos. Com um desenho não vai lá, com o exemplo também não, um suborno não é bem visto, porrada é inadmissível. Toma uma merda de um comprimido a ver se acalmas.
Chamem-me amarga!







segunda-feira, 9 de maio de 2016



 "Então pá, define-te lá, anda?! É verdade que o melhor da vida de qualquer mulher começa depois dos 40?! Que é nessa altura que estão maduras sem terem perdido a frescura e muito, mas muito mais marotas do que as verdes vintonas e as insípidas trintonas?! " Pfff, quem te disse isso anda em negação! Meu amigo, com a algibeira vazia, o cabelo a esbranquiçar, as peles dos braços a abanarem como pelancas velhas, estamos aqui é a desejar o consolo de chegarmos à terceira idade, porque aí estamos velhos e ninguém quer saber se estamos velhos e as pelancas dos braços são as pelancas dos braços que os velhos têm e os filhos há muito deixaram de ser os adolescentes egoístas e agora são só adultos e egoístas e os adultos não nos arruínam o orçamento. Enquanto adolescentes despejam o nosso frigorífico a horas pontuais, semeando esqueletos de maças roídas por baixo das almofadas dos sofás e cuecas sujas entre a porta da casa de banho e o cesto da roupa suja. Dizem-te que não percebem nada do que falas e que não entendes mesmo a ponta de um corno do que é a onda deles. Que não passas de um adulto "mainstream" aborrecido e comum, nome cientifico que usam para designar a mãe ou o pai  e que não queiras ter a veleidade de te aproximar deles, o seu mundo não é o teu e nesse mundo eles não te querem; a não ser que, desse mundo, os tipos façam um interregno a fim de que possas ter o privilégio de lhes preparar um leite estupidamente frio  com bolachas.  
" Defino-me?!! Ora deixa cá ver: à beira dos 50 anos, sem nada de meu a não ser um carro azul tipo carrinha do pão e que me dá aquele estilo extra, o toque final, o glamour da tipa desportiva descontraída que tem um carro de sete lugares para transportar canalha. Isso e as dívidas; não é que elas não me consolem, afinal de contas já convivo com elas há tanto tempo que se não as tiver é como se me falte algo. Para compor o ramalhete final, dizer que sou funcionária pública,  dou aulas, parece que tento ensinar umas coisas a uns seres e parece que esses seres vão aprendendo algumas coisas comigo, de vez em quando e se apetece. E nestes tempos de incerteza sobre o que quer ou não quer o adolescente, só sei mesmo se querem aprender, no próprio momento e de instante a instante, de manhã podem querer, à tarde arrependeram-se e já não querem e eu adapto-me. 
   Estou a ficar velha mas não sou velha, no limbo entre a perda do viço da minha condição de mulher mas não suficientemente velha para que parem de implicar comigo porque envelheço. Nesta fase transitória vistoriam-me as rugas do rosto, as peles das pernas e a flacidez das mamas e interiormente pensam, coitada, calha a todos, esta já passou a sua fase ascendente, agora é sempre para baixo mas vá lá, vá lá, podia estar pior, ainda se aguenta bem, se disfarçasse esses brancos e onde é que já se viu, tem a pele tão maltratada, é inacreditável como as pessoas não tratam de si. És uma mulher gira mas já não tão gira, estás na fase em que de ti dizem: é bonita mas haviam de ver quando tinha 20 anos, aí é que era uma brasa. Andaste estes anos todos a madurar em conhecimento e sabedoria, a separar o trigo e o joio, o acessório do que importa para que no final, o que conte é que foste muito mais gira do que és agora. E depois vêm com tretas que agora é que é, que a maturidade não tem preço, numa tentativa bacoca para esquecerem a inevitabilidade do seu próprio envelhecimento. 
  Mas à beira dos 50, tens uma prerrogativa que te assenta como uma luva, estás completamente nas tintas para o que dizem de ti, as rugas são tuas, as pelancas abanam nos teus braços e a celulite levou-te muitos anos em estágio e é-te de grande consolo mandar certa gente e todos e tudo para onde te apetecer, quando te apetece e sem saberes bem porquê. dá para tudo, mandas simplesmente e nisso vês consolo, ainda que não te sirva de grande coisa, para além de um alívio imediato. Como é temporário tendes a mandar cada vez mais vezes, porque o efeito é como nos ansiolíticos, quantos mais mandas mais tens de mandar. E é um privilégio que podes dosear a teu gosto!

Dirás, eu cá preferiria ser rico! Esse é que é um privilégio!

A sério?! Pois, olha que novidade, eu também e sabes, também preferiria ser a verde vintona ou a insípida trintona se conseguisse nessa idade ser menos estúpida ou menos sensaborona, ou menos desinteressante do que fui. Sendo assim e porque não posso, e com as peles todas e os primeiros achaques próprios da idade, vou dizendo que vou gostando do que sou mas se tivesse um milhão no banco ainda gostava muito mais.  Assim sendo e para ser sucinta, respondo:

À beira dos cinquenta , três filhos adolescentes indisponíveis e arruinada! 

quinta-feira, 3 de março de 2016

De avião...

   Uma hora antes de entrar no avião toma um calmante. Quando vislumbra o bicho  dá-lhe a primeira contractura cardíaca, sente piquinhos nas unhas dos pés e eriçam-se os pêlos do corpo. Respira fundo e pensa mais uma vez, que não se aguenta de tão parva. Senta-se no seu lugar, não sem antes fazer o primeiro reconhecimento do local, a ver qual a melhor forma de fugir, se pela frente, se por trás. Abre pela primeira vez o livro com a descontracção total de uma tipa a ferver por dentro. E começa os raciocínios, aqueles retorcidos que qualquer verdadeiro fóbico elabora com requinte. Olha disfarçadamente os companheiros de viagem a ver se vislumbra neles, indícios de quem espera, não tarda, a sua ultima hora. Se encontra alguém que conhece sente-se safa, agradecida, permite-se respirar um pouco melhor durante um breve momento. Homens a ler jornais ainda melhor, quem lê com tanta desfaçatez perante tão grande perigo, só pode ser um vencedor e não é ali, naquela casca de lata, que encerrará o derradeiro capitulo da sua vida. Gosta de viagens em que a partilha com muita gente nova, estatisticamente têm maior esperança de vida; um pouco como os tipos anti-vacinas que não vacinam os seus filhos mas que, obtém pela vacinação dos outros, a benesse da coisa. Sente, por essa altura, que todas as reflexões que fez para se convencer de que não vai morrer já, não ali, não agora, são tão estúpidas e inúteis que se apetece esbofetear até perder a consciência. O comprimido fez um bocadinho de efeito, um bocadinho só, a cabecinha fica leve mas basta um tremelique do passageiro a espirrar no banco de trás para ligar as antenas, instantaneamente. Abre o livro pela décima quinta vez e a frase que começou a ler tem as letras a rodopiar. Faz um esforço de concentração e  lê novamente só para perceber 5 minutos depois que não percebeu nada porque em todo o tempo que tentava juntar as palavras, só a atenção se concentrou nos vinte poços de ar inexistentes, nas alterações do ruído do motor e até a luzinha vermelha das asas lhe parece um curto-circuito antes de perceber para que serve.  Mas até que perceba houve mais um friozinho na espinha, por aquela altura já foram vários e tem os pés, as mãos e a ponta do nariz gelados. As desacelerações do motor, simples desacelerações de motor, são segundo a sua percepção, inicio da falha do motor esquerdo. Sempre lhe disseram que um avião funciona com um motor só, de banda talvez mas funciona,  mas também sabe que, segundo a lei de Murphy, se algo corre mal, as probabilidades de que tudo corra mal são altas e sendo assim, a seguir ao motor esquerdo vem o motor direito e não lhe parece plausível que um monstro de 100 toneladas plane qual gaivota serena no cimo de uma falésia, sustentada pelas correntes ascendentes. Com toda a probabilidade, neste caso os ventos seriam descendentes e a afunilar para  o caos lá em baixo, dez quilómetros a pique até não sobrar cacos.
   Por esta altura já se consumiram 30 minutos de voo e contra todas as previsões, o avião continua no ar o que, só diminui a probabilidade de se manter assim. A catástrofe está iminente e não percebe do que se está à espera para que aconteça. A espera mata-a! O comandante a querer ser solicito só enerva mais com conversas parvas do tipo " a viagem prevê-se sossegada a 11 km de altitude com -40 graus celsius e a voar a uma velocidade de 900 km/h". Dispensa-se tanta informação porque já se sabe o que fará com ela, tudo questões pertinentes e plausíveis para quem não tem os pés assentes no chão: Quantos minutos para passar da altitude 11 à altitude 0 a uma aceleração de 9.8m/s em queda livre?! Qual a velocidade de congelamento do corpo humano com temperaturas de menos 40 graus?! Com a cabina despressurizada qual a capacidade do ser humano resistir com o ar rarefeito caso a máscara de oxigénio encravar e não cair?! Com os nervos quer fazer xixi mas não se atreve não vá a porta de emergência, ao passar por ela, ser sugada para fora por um qualquer fenómeno inexplicável. Não aproxima a cabeça da janela, pede sempre um lugar na coxia, não vá a gaja rebentar, foi por isso que as fizeram redondas, para que não haja pontos fracos que cedam, os cantos. Se elas são redondas é porque já as houve quadradas, ninguém no seu perfeito juízo pensa em fazer janelas redondas, a não ser que já tenha havido merda! E no entanto, as redondas também não lhe inspiram confiança, as borrachas do vidro exterior estão meio encarquilhadas, daí até o vidro estilhaçar-se e lhe puxar a cabeça como uma rolha numa garrafa de champanhe é um passo.
Uma hora passou, já toda a gente comeu o manjar oferecido menos ela, a comida não passa, mais vale oferecer ao esfomeado do lado, daqueles que do avião aproveita tudo, só não come a toalhita refrescante porque nunca gostou do sabor a alfazema. Fecha os olhos a ver se deixa de pensar, mas se deixar de pensar deixa de estar alerta. Tem que controlar tudo, se controlar tudo, nada lhe passa despercebido. Por altura da aterragem surge a primeira ideia consoladora, tenta convencer-se a si própria que cair de uma altitude de 5000 pés deverá ser mais simpático que desde lá de cima, Pelo menos não deve estar tanto frio. Batalha com a perspectiva de ouvir o trem de aterragem a descer, pondera se será melhor em caso de despenhamento o avião cair na terra ou no mar, se a morte por afogamento será pior ou melhor que pelo fogo, não chega a nenhuma conclusão, Com a profundidade das suas reflexões entra num momento de transe em que, o mundo fica suspenso, até que depois de um tempo que lhe parece sempre comprido, sente a sacudidela do trem na pista e tal como sente fora de si os motores  a travarem, um imensurável alivio percorre todo o seu ser e suspira profundamente.
   E no final de tudo, fica maravilhada como, contra todas as perspectivas e previsões, nada se passou.

   A ver se faz menos filmes da próxima vez, e no entanto, da próxima vez há grandes probabilidades de ser dessa vez, ninguém tem assim tanta sorte, tanta vez!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

   Um dia típico de aulas da escola publica dos últimos anos é um dia em que, por mais criativa e susceptível de elaborares cenários que sejas, nada te prepara para a singularidade rotineira de cada tempo de aula. Vais armada da tua maior e quase inesgotável paciência e numa espécie de fatídica inevitabilidade enfrentas cada hora com a perseverança dos bravos ou dos loucos, de acordo com a perspectiva. Surpreendes-te, no final, que ainda te mantenhas sã e capaz de um raciocínio lúcido e critico. Passas uma esponja pelo assunto ainda que não esqueças para que possas, no dia seguinte voltar à batalha de nervos e palavras e acções e saíres inteira no processo. No final de tudo, do mês, do ano, da década, curiosamente, ainda acreditas que ajudaste na mudança de algo, de uma visão, de um desabrochar de alma, de um despertar de mente, de uma luz , de uma escolha para a vida. 

   Caminhas para a última aula do dia, vens cansada e anseias por esticar as pernas, libertar-te das sapatilhas, e fechares os olhos em silêncio. Tu sabes o valor do silencio, quando o tens tão pouco. És avistada pelos pré-delinquentes de serviço à escola, os enjeitados da casa onde vivem, os que a escola recebe como o último reduto antes de passarem a delinquentes de mão cheia. A ti dizem-te que tens que os aturar porque só tu é que o fazes, se não lhes dás a mão, eles rebolam por ali abaixo até a uma qualquer cela de qualquer prisão, ou nas garras da droga e do álcool, atoleimados e ignorantes antes de cumpridos os 30. Tens que aguentar porque a sociedade agradece. Aguentas! 
   Lá em cima simulam que cospem para ti, puxam o cuspo para dentro em esgares e ruídos de besta e retraem-se no último momento num qualquer acto de contrição. Os mais burros cospem-te mesmo mas como o percurso é longo, o cuspo prende-se na árvore mais próxima e fica a escorrer num fio viscoso. Com a calma só possível pelo engrossar da casca em muitos anos de uso, avisas que não entram, confirmas com o funcionário e são recambiados para outras paragens, que na tua não ficam,  Limpam vidros ou o que houver que lhes limpe o sujo de dentro.  Não percebem, estavam a brincar e nesse pressuposto que pela brincadeira tudo se consente, assentam todas as constantes boçalidades das suas vidas.

   Foi ontem, e hoje o dia repete-se e a constância dos comportamentos também. Outros personagens, uma linha comum. Em quatro momentos de um mesmo dia, de uma mesma manhã, quatro histórias de uma prática diária:

    - A turma é para quem têm pêlo no peito, de gancho e truculenta; não te permites distracções nem confraternizações; se queres fazer humor perdes o teu tempo, ironia é língua desconhecida, se elaboras muitos o discurso ofendem-se porque muito provavelmente estás a fazer troça deles; são humoristas,  no entanto, mas num só sentido, o deles. Tentas ensinar e por vezes eles tentam aprender. Se no entanto tentas ensinar de uma forma diferente da forma como eles querem aprender, aparecem-te logo sete ou oito que te dizem como fazer, dizem-te que não, que não é assim que se faz e ofendem-se. São muito de se ofender, têm a sensibilidade à flor da pele como divas num palco enquanto vão lançando caralhadas e foda-se à discrição. Os que querem aprender, que são poucos, olham embaraçados em redor e fazem-se pequenos para que não sobre também para eles. Avanças uma e outra vez na senda de lhes fazer ver, fazer simplesmente ver a pertinência de uma acção, tentas que percebam. Dizes; "Tenta perceber que deves tentar sempre fazer a recepção da bola com as duas mãos! Um deles que pode ser qualquer um: " Eu recebo com as mãos que me apetecer!"
   - Uma hora mais tarde, outra turma, a cuspidora, rapazes de quinze, dezasseis, dezassete anos que não sabem quanto é 2x3 e que um minuto tem sessenta segundos. Porque metade da turma chega sempre tarde e faz disso gala, pergunto porque demoraram tanto nos balneários ao que um responde " estiveram a comer-se uns aos outros". Junto a turma e falo com eles, pergunto se acham adequado, correcto ou respeitoso para alguém, estou calma porque  a explosão se reserva para apenas alguns momentos. Estou calma e questiono, alguns protestam e outros riem e nesse vai e vem de comentários diz o primeiro sobre outro que o interpelou " tu deves ser a mulher lá dentro!". Encerrou a tentativa de diálogo.
   - Uma turma de miúdos pequenos de onze, doze anos  mas de problemas grandes e variados.  Formação de equipas, faço por rodar por eles todos, um deles, um dos que escolhia e que já tinha escolhido os que queria arma o burro, pergunto o que se passa, responde " JÁ não há NADA de jeito para escolher!" Interrupção de aula, esta é formada por um grande conjunto de interrupções com momentos fugazes de aula. Faço ver uma e outra vez, faço por entender porque é inadmissível dizer que não há nada de jeito, não entende porquê. Ele e os outros, os renegados também;
    Noutro momento, a miúda má de serviço, uma espevitada de fogo nas ventas, malcriada e com a língua solta mais do que a conta, porque outro a irritava e um colega o pós no seu lugar, grita bem perto dos meus ouvidos " Chupa, cabrão!" Apercebe-se do que diz mas mesmo assim tenta desculpar-se, culpando o colega. É assim que os miúdos resolvem as suas culpas, desculpando os seus actos por reacção aos actos indesculpáveis dos outros, É a turma dos miúdos que a sabem toda, até da perversidade reservada aos mais velhos, a historia dos pais e das famílias retortas  de contornos  duvidosos, de bebedeiras, abusos e relações promiscuas com gerações de permeio.

  Esses são os miúdos e os jovens das freguesias rurais da banda sudeste da ilha, entre Angra do Heroísmo e a Fonte do Bastardo,  Alguns, mas que começam a ser muitos.