sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Carta Aberta ao CR

Carta aberta ao Cristiano Ronaldo.

Meu caro Ronaldo, tu não me conheces e duvido que venhas a conhecer como acontecerá a 99,9% das pessoas deste país e do universo conhecido. As hipóteses de tal suceder são tantas como tantas são as hipóteses de 99,9% dos homens deste planeta virem a ter a projecção mundial que tu tens. O que é, logo à partida, uma chatice para ti porque a ti todos te vêem e tens que aguentar pancada a torto e a direito.Deixa-me que te diga que não te aprecio mais do que a qualquer jogador que nos represente ( apesar de confessar que por motivos não propriamente importantes fiquei bastante sensibilizada com o visual daquele Nelson, o Oliveira, como qualquer mulher gosto de apreciar uma coisa bem feita e o cabelo do Nelson estava insuperável!). Hoje estiveste mal, erros clamorosos, dois golos em frente à baliza, não foste o super homem que tens a obrigação de ser para o dinheiro que ganhas. Não levaste a selecção às costas, parece que te atrapalhaste todo, tinhas as pernas pesadas, a tua cabeça não esteve ali e em dado momento claudicaste completamente. É aliás uma das grandes criticas que te fazem, não fazes milagres e lá está, alguém como tu tem que fazer milagres, ponto. Hoje, com tanta gente a falar mal de ti pensei mais em ti do que todos os pensamentos a teu respeito desde que sei que existes e andas a importunar uma data de gente. Uma questão: será que tiveste, desde sempre, uma sorte de tal forma monstruosa, os planetas na hora do teu nascimento estavam de tal forma alinhados no sentido de te receberem de braços abertos, que o teu trabalho desde que nasceste foi só o de te aninhares no seu regaço e esperares que tudo fosse feito como estava já determinado?! Se foi assim, o destino foi manhoso e cheio de sentido de humor e com tanta soberba que te plantou numa ilhota perdida no meio de um oceano, governado por um louco, numa família de gente humilde e disse-te: " agora desenrasca-te!" Não terá tido, ainda que breves, hesitações em tornar-te a vida difícil no inicio?! Estaria tão certo que irias vingar que se permitiu a um teste primeiro afim de confirmar o que já sabia?! Não estaria afinal certo que o que faltava nessa intrincada equação eram algumas das qualidades que tornam possível que o ser humano suba mais que outros seres humanos, o talento, a perseverança, o trabalho, a persistência e tão importante, a vontade de vencer?! E é justamente essa uma das criticas que tantas vezes te fazem: és ambicioso e queres ganhar e esse, meu caro é um erro clamoroso! Acusam-te de arrogância, outro erro que tens que rever, e pior do que isso, tiveste o atrevimento supremo de teres nascido pobre e agora coleccionares carros e permitires oferecer à tua família o que te apetecer. A inveja encapotada de belos e dignos princípios é fodida, meu caro Ronaldo, deverias desde logo ter doado 90% do teu ordenado mais tudo o que ganhas em publicidade a ajudares os pobres, afinal tu vieste de baixo e fica sempre bem não te esqueceres das tuas origens, o pobre que renega a pobreza e se arma em rico é crime capital! Para além disso tiveste o atrevimento de andar a comer umas gajas ( não sou eu que digo, são eles), parece que papaste muitas e isso é insuportável. Queriam-te casto e casado aos 27 anos, com um filho feito pelas vias normais! Não quiseste ceder também nesse ponto, namoras uma miúda gira que com toda a certeza, dizem eles, só está contigo pelo dinheiro e pela fama! Ganhas mais do que muitos, os que verdadeiramente trabalham, esquecem-se que não foste tu que ditaste as regras, elas já estavam feitas! Valores vergonhosos, com tanta gente a passar fome, digo-te desde já que não me importava de apanhar as tuas migalhas, cairiam bem no meu orçamento familiar mas também te digo que não te culpo, não és tu o culpado desde desvario futebolístico.
Não percebo a ponta de um corno de futebol e aborreço-me de morte com todas as questiúnculazinhas que movem o futebol, o que a mim me move é algo mais transcendental como é a nossa selecção, não a de futebol, mas qualquer conjunto ou pessoa que nos represente a nós, enquanto povo. Tanto vibro com o futebol da selecção quanto com o hóquei em patins do Cristiano ou do Vitor Hugo, ou o atletismo do nosso Fernando Mamede ( que em tempos idos também foi cobardemente maltratado mas por outros motivos). Parece-me que mereces mais respeito! Se no domingo marcares um golo à Holanda passas a deus novamente e quem te vaiou será o primeiro a aclamar-te. Ter que viver com estas permanentes mudanças de humor histéricas de quem te vê deve ser uma porra mas tu disfarças bem. Mas lá no fundo a coisa deve moer um bocado! Penso que aquele golo que todos, eu incluída, exigem que faças terá certamente um sabor amargo porque tu mais do que muita gente percebe como a fama é efémera e a memória curta. E sempre te exigirão mais um, e mais golo até que te fartes de vez e mandes outro no teu lugar!

Vai com calma e pela sombra! 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Desvario de amor

A conjugação entre uma lua quase cheia e uma cadela no cio resultou na miséria física e psicológica de um cão cá de casa, o único que ainda os tem no sitio e por via dessa circunstância está a penar horrores, as we speak. São 2:48 da matina e nem ele nem eu pregamos olho, a cadela essa, dorme o sono dos justos, absolutamente desconhecedora do rebuliço causado. O cão, no pátio de trás, já foi mudado para o pátio da frente e já voltou para o pátio de trás outra vez que apesar de tudo é o local mais afastado da vizinhança; já ganiu, uivou, arranhou a porta e levou com uns esguichos de água a ver se acalma; entretanto, eu já fui à porta acima de vinte vezes e encenamos o jogo da apanhada, eu a correr atrás dele e ele e esconder-se de mim para regressar mal eu fecho a porta; já lhe roguei pragas e  já o ameacei com a vassoura, nada o demoveu; está positivamente fora de si, transtornado, alterado, endemoninhado e completamente incapaz de raciocinar, isto se se revelar que os cães raciocinam coisa que pela amostra dada cada vez me afasta mais desta possibilidade;  dormir está num horizonte longínquo e receosa que a vizinhança me venha bater à porta,  tão cheios de razão; são agora 2:57 e há 15 minutos que tomei um diazepan a ver se me esvai a camada de nervos com que me cubro, cada latido e ganido é um  estrondo aos meus ouvidos; levanto-me pela milionésima vez e percorro o corredor a lançar impropérios ditos a meia voz;  aproveito e pesquiso na net quais as consequências de um diazepan a um cão bem constituído, e vendo que os riscos são mínimos, aproveito o embalo e enfio-lhe outro comprimido pela goela abaixo; neste momento averiguo com a maior paciência que me é permitida ter às 3 da manhã, qual a frequência de uivos e latidos a fim de determinar se a droga está a fazer efeito. Pois ele mantém-se firme e convicto na sua lengalenga de protestos e declarações de amor arrebatadas e extemporâneas. Afinfo-lhe mais uma dose certa que é desta que ele se estica para um canto e namora a sonhar. Estou furiosa com a inconstância de humor dos meus bichos; este em especial  que entra em guerras fratricidas com a cadela que por ora adora, quanto se trata de comida: é sempre uma luta assanhada com roubos reciprocos de gamelas e pedaços de pêlo a voar pelo ar, no entanto, se vislumbra a hipótese de um interlúdio amoroso é só poesia e protestos de amor; às 3:05 ladra com a mesma intensidade de há vinte minutos atrás, nem um bocejo ou um vacilamento...extraordinário... e este desvario dura desde as 22 horas altura em que lhe cheirou...tão simples assim, cheirou uma cadela com o cio e vai daí o mundo tal como o conhecia até então mudou;
Já não penso com clareza há coisa de 30 minutos; ao cão, a esse ser que estou a ver de esguelha, o comprimido não fez nada, esgravata a porta com a mesma pujança e sinto-o capaz de uma maratona de sexo ou uma síncope nervosa, reconsideraria não houvesse consequências graves posteriores; às 3:30 já o cão ladra rouco, intercala com uivos de amor, arqueja de cansaço, exausto mas investe na porta mais uma e outra vez, o único obstáculo que o separa da sua amada, e isso para ele é insuportável.  Quase que sentiria pena dele não sentisse ainda mais pena de mim própria: é que amanhã não posso mandá-lo no meu lugar para dar aulas; fica ele a dormir o que não dormiu nesta noite em que deu cabo dela. 
   Menosprezei o poder do amor (ou de algo mais carnal), este meu cão é um romântico descarado que o descobriu de uma forma brusca e avassaladora e que à conta disso está a dar-me cabo da porta da cozinha e de mim. O diazepan é contudo relaxante e se há coisa de uma hora apetecia-me estrafegá-lo, agora vejo a experiência duma forma mais pacifica; aguardo que se acalme, o que é uma noite perdida se um ser descobriu o amor; no entanto, amar é sofrer e isso ele aprendeu; outro ensinamento, nem sempre se consegue o que se deseja e viver não é fácil; finalmente, dar-me cabo da noite traz consequências, quais não sei, penso nelas mais tarde.

  

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Respira e espera que passe...

   Há momentos na vida em que, dê lá por onde der, façamos o que fizermos, no final, tudo correrá mal; no final, ou no principio ou mesmo no meio; por vezes é um dia desses, outras vezes são vários dias, juntinhos uns aos outros e de tal forma desastrosos que a sensação suprema é de que o mundo não gosta de nós, a entidade que nos regula seja lá ela qual for, as pessoas, todos os seres animados e inanimados que se movem à nossa volta, nos olham indiferentes ou em conluio face à nossa desgraça. Esses dias desgraçados de todo e não há um presságio que os previna e mesmo que haja, uma ténue sensação de algo diferente, estranho, um desconforto, nunca vamos a tempo, tudo corre mal numa sucessão vertiginosa no sentido único de sempre correr mal. Não há coisas que correm assim assim nem coisas que tendencialmente parecem que se encaminham para o bem correr, é tudo no mau sentido a caminho acelerado para o catastrófico. E nós a vemos a sucessão de episódios e não termos o poder para inverter a tendência. Os episódios podem variar da gravidade máxima de acidentes diversos em risco da nossa integridade física, é o tempo em que te cortas e por vezes duas vezes no mesmo sitio, o tempo em que inicias as topadas consecutivas nos dedos dos pés, em que roças coxas e braços quase a saírem lascas de carne, nas chaves hirtas dos armários, em que trincas dedos mesmo nas pontinhas que é onde dói mais,  nas juntas das portas, em que te levantas de ir buscar um tacho aos armários de baixo e  traulitas a cabeça na porta do armário de cima na altura e medida exatas em que a mola que já não funciona bem deixou de funcionar de todo, a fim de te deixar um lanho no escalpe com o embate num ângulo estranho para doer mais, de tal forma que não consegues evitar que te saltem as lágrimas dos olhos… até às vergonhas várias, de  teres que descalçar os sapatos e verificares, tu e o centro de saúde inteiro que calçaste com a pressa duas meias diferentes, em textura e cor e por vezes em tamanho, porque na escuridão do teu armário, depois de não teres acendido a luz porque não estava ali à mão e quiseste abreviar caminho e  teres, entretanto, batido com a testa na quina da porta do roupeiro- típico -, agarraste o monte que estava mais perto e o preto pareceu-te azul e vice-versa e na claridade do centro de saúde, o azul é azul e o preto é preto, não há que enganar ou de te aperceberes que, a nódoa de café que fizeste de manhã na tua única t-shirt branca, na vez primeira, em décadas, em que derramaste café em cima de ti e logo tinhas que vir de branco, te faz passar por desmazelada quando, na verdade, até dominas bem todos os procedimentos de levar comida e bebida à boca sem que pareças padecer do mal de Parkinson. Episódios em que não respiras de um para outro, ainda te tentas recuperar do anterior e já te sucede o seguinte: por exemplo, recebes a notícia logo pela manhã que alguém que te é próximo e que deveria ser o teu apoio porque sim, te falhou mais uma vez e que nesse detalhe se jogam alguns dias seguintes na tua vida em que ela, inevitavelmente, se complicará (episódio de gravidade máxima, portanto); respiras fundo depois de sentires a fúria subir, descer e acalmar, levantas-te da cama já sem vontade alguma e dás com o puto mais pequeno a chorar pelos cantos; enches-te de paciência e perguntas o que sucedeu, continua a chorar como se o mundo tivesse terminado ali e não te responde e tu que já tens a paciência penosamente massacrada insistes para que te conte, já alarmada não seja coisa grave; mostra-te que acabou de partir o vidro de um quadro que gostas; suspiras quase bufando naquele desalento de quem sabe que, quando na casa se começam a partir coisas, normalmente se continuam a partir coisas durante uma semana, e podes usar luvas antiderrapantes e acender velinhas a esconjurar más vibrações na casa  que, algo cairá, cairá e partir-se-à  por mais malabarismos que faças antes que chegue ao chão; antes de ontem foi um prato (episódio sem gravidade alguma), no dia seguinte o telemóvel ganhou vida própria e saltou-me das mãos, caindo, lá está, de outra forma não poderia ser, não teria a mesma graça, com o vidro para baixo, em centésimos de segundo artisticamente feito em pedacinhos tenuemente mantidos no lugar pelo que funciona; retens a vontade louca de o agarrares e de acabares com ele de vez, fúria passageira que dominas, no fim de contas já és batida neste tipo de coisas, ganhaste um domínio sobre a adversidade; hoje foi o quadro, amanhã quem sabe, outro pneu do carro, afinal de contas posso contar com uma certa persistência na forma como os pneus do meu carro se furam: não porque ande a passar por cima de coisas estranhas ou a trilhar rodas em passeios, sei simplesmente que neste carro, os pneus têm uma lógica de tempo de vida que me ultrapassa. Um pouco como a lógica do tempo em que os telemóveis na minha mão se mantêm intactos. E não porque ande a fazer coisas estranhas com eles, simplesmente acontecem coisas, coisas paranormais, temo, e posso andar precavida e sempre atenta a prever acidentes que, eles sucedem, de uma forma ou de outra; uma espécie de fatalidade para acidentes domésticos. Querem ver?! Outro dia mudei os vasos de lugar porque tive que colocar os cães no pátio da frente, temporariamente. Cães e vasos não combinam pelo que não podem repartir o mesmo espaço; olhando para os vasos com plantas airosas de muita chuva fico contente que se mantenham assim, intactos; insidiosamente um pensamento atravessa-me o espírito em lapsos de segundos, imagino instantaneamente um momento de caos, livro essa imagem da minha cabeça; meia hora depois, um dos vasos está revirado, partido e o interior extravasou para fora: e não foi um dos cães, desta vez não os posso culpar, a gata, aquela medrosa que nunca vai para a rua, teve o seu grito de Ipiranga, em sintonia absoluta com a minha premonição, saltou para o vaso em cima do muro (qual a probabilidade daquela gata fazer aquela coisa outra vez no seu tempo de vida?! Eu diria 0,000001 % e já estarei a ser generosa) e pimba, 3 metros abaixo o resultado vê-se. O que me leva a pensar: para que te maças? Deixa o mundo desmoronar-se todo se quiser, senta-te e espera, sorri se conseguires, tudo o que faças, só vai atrapalhar, deixa o curso natural dos disparates acontecerem, há um ponto em que pára e se tudo correr bem, tu estarás mais ou menos incólume e sem os nervos em frangalhos. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Eu é que sou o árbitro!

     Aula hoje, actividade – futebol; hora:14,15-15,00. 
   Primeira evidência: querer qualquer comparência à aula antes das 14,30 é ser demasiado exigente, mais, esperar que estejam  na aula até 10 minutos antes de terminar entra no domínio do quase suportável,  pelo que comparecerem  às 14,30 é  tão só o cumprimento escrupuloso  da virtude da pontualidade; se se quiser ser picuinhas vai-se à procura e devem ser encontrados, algures perdidos em devaneios, nos corredores; nem sempre se faz isso porque se tem que promover a autonomia, que interessa perder-se tempo de aula se se ganhar independência?!" Jogo de futebol no sintético que é mais giro, setora" gritam logo que me vêm; 
   Segunda evidência: putos do quinto ano com furo a jogarem futebol no mesmo espaço, ok, juntam-se as duas turmas e faz-se já aqui uma jogatana de futebol que toda a gente fica contente;   
   Terceira evidência, seja com muita ou com pouca gente ( na turma são poucos e ímpares  acabam por serem sempre ímpares por mais volta que se dê, e tão poucos que a menos que venham todos - difícil - e equipados - complicado - e dispostos a isso - parapsicologia)  há sempre um que fica a mais, quem é quem é, o elemento X da equação, aquele de quem se procura sempre a identidade e que permanece sempre uma incógnita… neste caso desta turma em particular a incógnita é saber se X fica na equipa A ou na equipa B…o tal que é sempre o último a ser escolhido, tirando o caso, que também sucede, em que é ele um dos que escolhe e nesse caso,  encolhem-se os outros a ver se passam despercebidos;
   Quarta evidência- duas equipas formadas, o elemento x passeia-se pelo campo a uns estonteantes  e potencialmente perigosos  50 mt/h o que faz o humorista da turma dizer: "Ó meu amigo, és o árbitro? É que te mexes como se fosses o árbitro! Queres ser o árbitro?" Resolve-se já o problema ao X que nisto de ter que fazer que mexe as pernas e efectivamente mexê-las é algo de uma complexidade que o deixa confuso pelo que surpreso e expectante, olha para mim: “ Posso ser o árbitro?” Abro a boca para explicar a função do árbitro e a complexidade de tal função, a importância da figura, a riqueza que é a mediação imparcial de um potencial conflito como é a competição desportiva futebolística quando engulo as palavras a meio e penso que não é justo complicar o que deve ser simples pelo que devolvo a pergunta: " Queres ser o árbitro?!"  E ele que responde com outra pergunta, esperançoso:“ O árbitro não tem que fazer nada, não é?” " É como dizes, o árbitro não tem que fazer rigorosamente nada... se fizer só isso - nada -  já estará a fazer alguma coisa!" E penso : ora aqui está, um rapaz à minha maneira e que acha, tal como eu que o futebol está para além de sobrevalorizado".