terça-feira, 9 de junho de 2015

O Caga-na-saquinha

Há expressões poderosas, algumas facilmente entendiveis na sua forma e conteúdo e outras nem por isso; umas quantas, se as dissecarmos, palavra por palavra, parecem-nos absurdas e no entanto, aplicam-se maravilhosamente bem. A "caga-na-saquinha" é daquelas indecifráveis na forma mas que se aplicam, em pleno, a certo tipo de pessoas, aquelas que não conseguimos definir melhor senão dizendo que, são os verdadeiros "caga-na-saquinha". O tipo "caga-na-saquinha é  medroso, tristonho, injustiçado pela vida, pelos outros, pelo estado do tempo, pelo carro que furou o pneu, pelo cão que lhe alçou a pata, pela namorada que foi apanhada na cama com outra, na sua cama, o Calimero dos tempos modernos que diz compungido " It's an injustice, it is!" Aquele que, quando se lhe aperta o esfincter para o inevitável  e está a céu aberto com o cu a roçar a erva fresquinha, pensa que será uma grande injustiça, logo com todas as probabilidades que, logo ali, que tanto precisa, venha uma vespa e lhe  pregue um ferrão numa das bordas. O caga-na-saquinha para além de tristonho e de olhos sofridos e lacrimejantes mendiga a atenção dos outros com tal afinco que cria clareiras à medida que avança. De mãos nos bolsos, tímido e dissimulado, vai-se aproximando, medroso mas tenaz, que isso ele é: tenaz! Tenaz na seca que dá aos outros, na doutrinação das suas convicções teóricas e éticas sobre a vida e sobre o mundo, ainda que não as aplique no seu caso em concreto. Tenaz no egoísmo extremo também. O caga-na-saquinha pensa nele e depois nos outros, se lhe restar algum ímpeto depois de gastar as forças a pensar em si.  Gosta de ter razão e se posto em confronto reaje mal, levanta a voz ameaçando coragem que, rápido se esvai, se do lado de lá, quem o confronta mantém o tom. Seria eclesiástico se do tipo religioso, ou eco guerrilheiro se não desse tanto trabalho, como é laico e gosta pouco de trabalhar, fica-se pela mansidão de um trabalho de que não gosta, chorando o que não tem e suspirando pelo mundo de possibilidades do que gostaria de fazer mas que não faz, porque se encontra sempre no local errado do mundo que não é o dele.  É uma carraça mal alimentada que vai sugando como pode.  Enxota-se como as moscas quando vareja demasiado para os nossos lados. É um sugadoiro de forças alheias, um parasita do tipo intestinal que em nada contribui para a nossa digestão.  Uma consumição! 

sábado, 6 de junho de 2015

O presidente da junta



Tive, hoje, uma conversa muito profícua com alguns alunos de uma daquelas turmas ‘especiais’, alunos de 16 anos, com um historial de insucesso recorrente e desajustados do mundo escolar. Alunos que invariavelmente se esquecem do equipamento para a aula, alunos que por vezes vêm as aulas e por vezes não vêm, é quando lhes apetece ou quando os obrigam ou ameaçam com a proteção de menores. Sentei-me um momento junto deles e a conversa entre nós foi fluindo, eu no meu sermão de cátedra, pela sexagésima oitava vez, não muito inspirada, concedo que tê-los ali, na sala, junto a mim já é uma vitória, eles com a correspondente desculpa da praxe. Vai daí, sem combinarem começam os dois, um rapaz e uma rapariga a fazerem-me perguntas: Quantos anos tem, tem marido, e namorado, quantos filhos, com o à-vontade e a condescendência com que, por vezes, nos tratam, como se os putos fossemos nós. Um outro, aproxima-se e curioso com o correr da conversa lança como que orgulhoso: “Professora, já teve alguma turma pior do que a nossa?!” Regra de oiro a perguntas com truque – Nunca ceder! - “Claro, vocês são uns anjinhos!” Afastou-se a remoer a resposta. Continuando a conversa, a rapariga quis saber de onde vinha, ao que eu respondi: “Almada”. “Onde é isso?! Nunca ouvi falar!” “Conheces Lisboa?! Tem um rio, não tem?!” “ Sim?!” “Sim!  Como se chama o rio, sabes?!” “Sei lá como se chama o rio!” O rapaz pensativo diz, passado um breve momento de hesitação: “O Tejo?!” “ Sim, claro que é o Tejo! Então, tens Lisboa e tens o Tejo. Na outra margem do rio fica Almada. Já ouviram falar na Costa da Caparica?!” A distraída: “Não!” Ele: “Sim, aquela praia cheia de gajas boas!” “Pois, entre tanta gente que a frequenta deve ter algumas gajas boas!” Continuei: “As praias da Costa pertencem ao concelho de Almada, a casa dos meus pais fica a uns 5 km da costa!” Um pouco questão: "Já agora, qual é a capital de Portugal?!” A sempre desinformada encolheu os ombros, o outro respondeu rápido com ar de incredulidade: “É Lisboa!” “Pois é. E qual a capital de França!” Ele: “Londres!” “Pensa lá melhor, em Londres falas inglês! Em Pa-ris, falas francês, a sua capital! E de Itália?” Ele novamente: “Veneza!” “A cidade é italiana mas não é a capital. Começa com um R! “A rapariga subitamente entusiasmada: “ Roménia!” “Não, Roménia é um país, não uma cidade”. O rapaz, sabedor, cansado de ser posto à prova e querendo ripostar numa área que dominava, contra-atacou: “Sabe o que é um úbero?!” “Sim, a teta das vacas!” “E uma rabada?!” “O rabo da vaca ou do boi!” “E a veia do leite?!” “Não faço a mínima ideia! “. Sorriu. Voltei à carga: “Quem é o presidente de Portugal?!E o primeiro-ministro?!” A rapariga suspirou: “ Eiiiii, outro dia falámos disso na aula, era qualquer coisa Passos Coelho!” “Sim, o Pedro Passos Coelho é o primeiro-ministro e o Aníbal Cavaco Silva o Presidente! E já agora, quem foi o 1º Rei de Portugal?” O rapaz, sempre o rapaz: “Essa é fácil, foi D. Afonso Henriques!” “Boa, e o último rei?!” Dei-lhes algumas pistas mas não chegaram lá, ao invés diz o espertalhão: “Ó professora, como quer que eu saiba, foi há tanto tempo!” Respondo: “O D. Afonso Henriques é muito mais velho e tu sabias!”. E o meu aluno a ficar aborrecido, subitamente lança como quem pensa “ vou-te tramar!”: “Então, muito bem! Diga lá se sabe, quem é o Presidente da junta de freguesia da Feteira?!” Pois bem, tramou-me, a conversa encerrou ali mesmo, fui ver dos outros.