quinta-feira, 6 de março de 2014

   Ainda que o termo de raça dentro do ser humano esteja em desuso há quem o faça e que insista nas suas derivações linguísticas mais ou menos preconceituosas   numa tentativa de separação das diferenças mas esquecendo-se que é maior aquilo que nos une do que aquilo que nos separa; e no entanto também eu fico ofendida com certas utilizações da língua em que não me revejo: eu também não gosto que me chamem de branca ou branquela e outras palavras da mesma família; eu não devo chamar de preto a alguém de “raça” negra, por óbvia inexactidão da palavra;  a mim não me devem tratar por branca, por óbvia inexactidão da palavra; é que eu não sou branca da cor do papel assim como o de raça negra não é preto da cor da fuligem, e no entanto sou branca para tanta gente e isso chateia-me; chateia-me por até nem gosto da cor branca, é aborrecida e monótona e só fica bem nas paredes e nos lençóis da cama;  e depois há  esta coisa estranha de pertencer ao grupo dos que não têm cor  em oposição a gente de cor, porque alguém disse, provavelmente algum ser desbotado de tons a tenderem para o esverdeado; não quero pertencer a esse grupo, isto deixa-me deixa-me mais lívida que a minha cor habitual. É incoerente, porque umas vezes sou branca e outras vezes já não tenho cor, posso não tem uma corzinha tão bronzeada e só a conseguir à conta de sol mas ainda assim tenho alguma corzinha, anda alí pela cor-de-rosa meia clara com algumas pinceladas de vermelho ou amarelo em dias mais biliosos, mas se pensarmos bem percorro mais camadas do arco-íris do que a gente de cor de tons acastanhados pelo que quero ser também incluída no grupo das pessoas de cor. E nem é por inveja, é por uma simples e mera constatação: Eu tenho cor e não prescindo dela, é uma mescla de tons que se confunde, gradação de cor de que sofrem todos os outros, os pretos e os amarelos e vermelhos! E nisso reside a nossa menor diferença.

sábado, 1 de março de 2014

Está a dar peixe?!

   Foi observado na Silveira mas estou em crer que será igual em qualquer outro lugar; existem dois tipos de pescadores básicos, com algumas variações tenues mas que se enquadram de uma forma geral dentro do mesmo padrão: os pescadores que pescam e os pescadores que pescam coisa nenhuma; e dizendo isto impõe-se algumas correções, desde logo: primeiro, os segundos, se nada pescam, não devem em rigor da palavra serem denominados de pescadores, porque só merece o titulo quem traz peixe para o cesto; segundo, para além de não pescarem peixe também não pescam nada em sentido figurado, ou seja, a pesca para eles é exatamente aquilo que eles não fazem; e no entanto, parece que pescam, nos dois sentidos, peixe e arte; quanto ao primeiro, é lançar o olho para o cesto ou balde ( quando há um ou outro, afinal de contas este utensílio é justamente aquele que estes pescadores não precisam levar para a pescaria, virá invariavelmente vazio); quanto à arte é discutível, esses seres confundem –se com os pescadores, andam de cana ou de caniço sofisticado, com os materiais associados, a roupagem com que se cobrem assemelha-se a de um pescador, os gestos e a postura é que de quem domina a arte a sério; confundem quem está de fora e se sente impressionado com o aparato, aqueles que nunca pescaram nada também mas que nunca tiveram intenção de o fazer, aproximando-se curiosamente nos propósitos dos do estudo em apreço no objectivo que ambos não têm: o peixe; não confundem, contudo, os pescadores a sério, aqueles que em 10 segundos põem o isco e o anzol e a linha na água e em 30 segundos tiram o peixe; os pescadores que lançam a linha e a linha cai efectivamente no mar; os não pescadores levam muito mais tempo, essa coisa primária de lançar o isco ao mar e retirar sem haver no entretanto o ritual associado não faz sentido para eles; antes do acto em si, o peixe que é puxado, que para eles não lhes diz nada, impõe-se um conjunto de medidas inúteis, para quem vê de fora e para os pescadores, os que pescam, porque de eficácia zero; e são , no entanto, essas medidas que dão a graça à coisa: primeiro, abre-se a caixa, aquela articulada de plástico com 3 andares e cheia de um manancial de tretas piscatórias, isco a fingir sempre, que ir à apanha da minhoca ou comprar a minhoca ali na venda é um comportamento absurdo. Anzóis são mais do que muitos, para todos os tipos de peixe e de acordo com o diamêtro da linha; o canivete não falta , os suiços que integram 200 funções num único objecto e que cabe inteirinho numa palma da mão (daqueles em que só a faca é que é usada porque se desconhece a utilidade dos outros 199), o pano ou toalhitas que têm cheiro para manter as mãos imaculadas, que isto de pescar e ter as mãos a cheirar a peixe não lembra ao diabo; seguidamente vem a cana de respeito porque não é qualquer  caniço desconchavado que se corta do caniçal das traseiras da casa que se traz para  o mar, foi encomendada por catálogo e traz garantia de 5 anos; é cheia de cromados e brilha de tal forma que todo e qualquer peixe a vê a vários quilómetros de distância; a preparação da linha e o carreto leva algum tempo, tempo esse ocupado pelos outros pescadores, para apanharem o seu almoço e ainda irem beber uma mini à tasca mais próxima; entre a chegada à beira do mar e lançar a linha à água, a maioria dos pescadores debandou do local e ainda o nosso heroi prepara o banho ao isco, que é isso que sucede, dar banho ao isco; os peixes, os sobreviventes, matreiros e avisados, rondam perto e é só; e é nesse pequeno período em que o peixe, como qualquer peixe, dotado de curiosidade de peixe se aproxima do anzol que o pescador tem um breve vislumbre da sua pescaria, mas é só isso; recolhe a linha mais breve que um fuso porque cedo verificou que afinal de contas, lançou a linha curta e que aí não há cardumes de peixes, revê os azimutes e deleita-se com mais um conjuntos de procedimentos de complexidade grande e eficácia duvidosa e enquanto vai e não vai, faz e não faz, recolhe de vez a cana, contrito mas não triste, dizendo que hoje o mar não estava para peixe e que no dia seguinte a pescaria será melhor, de alma tão cheia quanto o balde do outro.