sábado, 28 de janeiro de 2012

Os Romeiros


   Os romeiros estão quase aí! É uma das tradições religiosas açorianas que mais me impressiona, grupos de homens, exclusivamente homens, que aquando da época santa da Páscoa, percorrem as ilhas rezando e cumprindo as penitências que muitos lhes encomendaram e por todos aqueles que,  abordando-os no caminho lhes pedem que rezem por eles e pelas suas famílias.
   Existe um livro muito interessante sobre esta prática religiosa com imensas fotografias, incidindo exclusivamente sobre a ilha de São Miguel, onde esta tradição tem maior expressividade e onde se iniciou. Contudo, a ilha Terceira também a realiza tendo um grupo activo que pode variar entre 40 a 60 elementos, entre adultos e crianças.
   A primeira vez que vi um grupo de romeiros foi justamente em São Miguel, estava eu lá de férias com os meus filhos. A visão de tal agrupamento de homens, de roupagens características envoltos em lenços grandes e garridos, a contrabalançar  as calças e casacos escuros de aparência grosseira, adornados com inúmeros adereços com símbolos religiosos, terços, crucifixos, é forte e põe-nos em sentido. Curvo-me perante tal expressão de religiosidade; não é sequer aparentado a uma qualquer interessante curiosidade turística, é muito mais do que isso, a demonstração de fé daqueles homens, é pungente e comove até às lágrimas.
   Em conversa com alguns dos meus alunos durante uma aula, apercebi-me que um deles, miúdo franzino de 14 anos, faz parte do grupo dos romeiros da ilha Terceira. Entusiasmada, sujeitei-o logo ali a um interrogatório a que respondeu satisfeito e solicito. Diz que sempre pertencerá aos romeiros, que o irmão mais velho já o é há muitos anos, ele próprio iniciou-se há 3 anos com apenas 10 anos; diz que é uma caminhada dura, que se põem em marcha, todas as madrugadas, às 4 horas, para terminarem, regra geral, por volta da meia-noite. Diz-me também que o percurso inicial tem partida na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Angra terminando na freguesia de Santa Bárbara. 
    Os alojamentos e as refeições ficam a cargo das pessoas da freguesia onde terminam o seu dia, de uma forma espontânea e quase aleatória: no átrio da igreja e após as cerimónias religiosas que encerram o dia de romagem, os romeiros agrupam-se e a população escolhe quantas pessoas deseja albergar: uns recebem dois, outros três, ficando o número dependente da disponibilidade de cada qual. Já na casa do hospitaleiro, continuam as rezas, frequentemente rezam o terço por alma do dono da casa e da sua família e no repasto nocturno, o dono da casa é sempre o primeiro a servir-se, seguido da sua família e só depois se servem os romeiros, se houver comida que reste. Diz-me o meu aluno que, houve uma ocasião em que ficou sem comer, simplesmente não havia e foi deitar-se de barriga vazia.Perguntei-lhe se não ficou zangado, encolheu os ombros como se tal pergunta não fizesse sentido algum, respondeu-me que os romeiros estão em romaria para servir e para se sacrificarem, para ele foi naturalíssimo esse sacrifício! És estúpida! recriminei-me mas... afinal de contas não passa de uma criança; entendo contudo que este miúdo não é uma criança qualquer, eu sei, afinal, lido com elas todos os dias! 
   Continuou dizendo que o terceiro e o quarto dias são aqueles onde, regra geral, os romeiros se vão mais abaixo, onde sentem todo o cansaço a cair-lhes em cima, que sempre fez a romaria toda, ao contrário dos mais pequenos que por vezes a iniciam alguns dias mais tarde, diz-me isso com orgulho visível no rosto, que sempre aguentou o cansaço de tantas horas de caminhada, o peso da roupa, tantas vezes encharcada com as chuvas torrenciais, o calor insuportável, as dores nas pernas, mas nada que o faça vacilar! 
   Peço-lhe que me avise do dia do início da romaria deste ano, quero ir apoiá-lo e ajudá-lo se precisar. Responde que sim, risonho, aguardo com expectativa a sua caminhada.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Das mazelas dos outros...

   Existe uma espécie de gente com a qual é inutil tentar passar para um nível  de maior intimidade, confessando-nos e abrindo-nos sobre aquilo que nos consome, nos magoa, nos doi.  Se dantes, a essa gente desabafava sobre o que me apoquentava, se carpia as minhas mágoas e se me queixava das minhas maleitas físicas, agora deixei-me disso! Não vale a pena! Estar para ali carente de receber um mimo, um colo, uma mão pela cabeça, uma palavra animadora e, ao invés,  acabo eu por servir de receptáculo das magoas mais profundas, de doenças ainda mais incapacitantes do que as minhas, de toda uma panóplia de dores e injustiças várias, susceptíveis de tornar os meus pequenos males de corpo e de alma, ridicularias mesquinhas e egoístas. Numa batalha onde se degladiem maleitas e mazelas eu estarei sempre a perder pelo que, me dou por vencida mesmo antes de iniciada a contenda. Esses seres sofredores existem para nos fazer lembrar o quao ingratos somos por nos queixarmos da vida privilegiada que temos.

   Outro grupo interessante de pessoas que, bastas vezes se confundem com os primeiros, é aquele que, a cada relato nosso de experiências que nos empolgaram, raramente ouvem o que dizemos porque já estão eles próprios a pensar nas suas próprias experiências que, regra geral,  foram sempre melhores que as nossas; são aquelas pessoas que se estão completamente nas tintas para as nossas impressões, sensações e descrições do que nos faz vibrar; em contrapartida,insistem em partilharem connosco, impõem-nos sem pudor o que fazem e o que deixam de fazer, numa especie de momento de transcendência zen, que deveremos sempre aceitar como um privilégio.  Eles foram sempre mais longe, aprenderam mais, têm relatos muitos mais emocionantes: se eu fiz o interrail pela europa com 17 anos, ela fez o trans-siberiano com 16, se eu fiz o expresso do oriente ela fez a travessia do deserto australiano... se eu já passeei no comboio de alta velocidade entre França e Inglaterra esses seres já andaram no comboio de alta velocidade japonês e tiveram o privilegio supremo de tomar o pequeno almoço vislumbrando o Monte Fuji comodamente sentados no japonês voador! Se eu pesquei um atum, ele pescou dois atuns, se eu vi uma baleia de bossa bem lá longe na sua rota migratória, ele viu uma orca a abocanhar um golfinho e mais, o golfinho olhou para ele a implorar socorro antes de desaparecer para sempre na bocarra da bicha! Se eu, entusiasmada, digo que experimentei o mergulho, finalmente, depois de tantos anos a pensar nisso, sem coragem para me inscrever num curso, ele já experimentou e não achou piada nenhuma, mudou-se para o rafting há já alguns meses a esta parte e aconselha-me o mesmo. Se eu, na vã tentativa de lhe passar uma rasteira lhe digo que me iniciei no tapete de arraiolos, que não é tão dificil como parece à primeira vista, ele responde que arraiolos é para coxos, renda de bilros é que é, "vais ver o que é difícil!". 
   São seres pertencentes a outra dimensão, que têm opinião para tudo, dominam todos os assuntos, discorrem sobre uma variedade de temas quase infinita, têm e vivem uma vida incomensuravelmente mais interessante que a nossa, encostam-nos a um canto com a sua superioridade moral e intelectual, experiência de vida e bagagem de sofrimentos pessoais que daria para várias vidas das ordinárias. 
   Sinto-me obtusa quando constato, em pânico que em 80% dos temas não tenho opinião formada, não me apraz dizer nada, nem bem nem mal nem nada, nem nunca pensei no assunto; felizmente para nós, existe alguém que anda sempre à nossa frente para pensar nesses assuntos por nós: e pensam bem, normalmente não há como não concordar com o que dizem, são tão incrivelmente brilhantes... e no entanto, tão enfadonhos! São os betinhos do intelecto, os nossos novos gurus, seres bonitos e maçadores, que discorrem sobre tudo e nada e que normalmente passam tudo isso para o papel! Escritores prolixos e profiquos, donos de verdades absolutas que conduzem multidões rendidas. Uns chatos, entenda-se! Mas, nos tempos que correm, não há como viver sem eles!

   

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Golfe no cerrado

   
Aula amanhã com o professor, tinha hoje que ir bater umas bolas, esqueci-me mais uma vez que hoje o clube de golfe está fechado; dei com o nariz na porta e apetecia-me esbofetear-me por mais este esquecimento: não é a primeira vez que isto me acontece! Começo a preocupar-me, uma vez ainda se percebe, duas vezes ou é estupidez ou pré-demência!!! Quando encasqueto qualquer coisa é uma inquietação para fazer a rebobinagem e alterar a programação que na minha cabeça já estava perfeitamente definida pelo que não demorou muito até decidir ir à procura de um cerrado para o meu objectivo: nada difícil descobrir um cerrado nesta terra, o problema era escolher. Resolvi ir à cidade, atestar o depósito e ir pela ilha a dentro até descobrir um que cumprisse os meus requisitos, que era basicamente  um só: não ter touros lá dentro! Nada mais fácil, Terra-Chã acima, pela estrada que leva às Veredas, numa bifurcação corto à esquerda, subo uma canada e chego a uma zona de lavradores, de cerrados com vaquinhas brancas e pretas sem cornos maus à vista. A erva estava um bocado alta, a terra muito fofa devido a chuvas recentes, poias de vacas com fartura, silêncio absoluto exceptuando o grito de algumas gaivotas e o mugido das vacas. Um sonho! O cerradinho ficou marcado, alguns lavradores já me viram, quando passaram nas suas carrinhas a buscar o leite, nenhum deles me enxotou dali pelo que penso que vou regressar; o treino correu bem, perdi montes de bolas  mas fiquei feliz! Estes pequenos momentos são o melhor da vida, decididamente!








quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Tralha ou nem por isso...

   A escolinha primária onde dou aulas está em pinturas, altura oportuna para a directora da escola fazer umas limpezas ao seu espólio, contudo, para além de se desfazerem do que já não é útil e só está a ocupar lugar também se prepararam para o fazer com uma peça que, não sendo nenhuma preciosidade do mobiliário português, é uma peça com graça que, com algum restauro fica um verdadeiro mimo! Já anteriormente tinha olhado para aquele armário e sempre que o via pensava o quanto gostaria de o ter; hoje, num daqueles momentos em que o instinto funciona na perfeição, a passar novamente pelo corredor onde o armário se encontra resolvi propor a compra do armário à directora, certa que tal propósito seria impossível. Encontrando-a fiz-lhe a proposta, respondeu-me sorrindo que os pintores se preparavam para o por no lixo, mais uns momentos e não  o encontrava!!! "Não, não façam isso, se não te importares eu fico com ele!" A minha colega olhou para mim com um ar divertido, é sempre interessante observar o rosto das pessoas quando consideram que estamos com comportamentos extravagantes, ficou claro para mim que ela me achou estranha por estar quase a implorar por um armário carunchoso, sem dois vidros nas portas meias empenadas. Ficou, no entanto, toda contente por se desfazer daquele " mono" e eu contente pelo achado: uma relação que na biologia se denomina de simbiose, uma relação entre dois seres em que ambos saem beneficiados, o que me parece ter sido o caso!







quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Experiências golfísticas

   Uma hora e meia a bater bolas:  controlei bem o tempo, tinha que o fazer porque ainda tinha uma aula para dar, em Angra. O professor tinha-me dito " venha treinar um dia sozinha antes da próxima aula" e eu, bem mandada, quando quem manda sabe mandar, fiz o que me foi dito: saí das aulas, controlei o tempo entre a escola e o clube de golfe a fim de poder organizar a minha vida em dias futuros, e surge-me a primeira grande dúvida do dia: devoro ou não um duplo cheeseburger com batatas antes do treino? Argumentos contra e a favor, os últimos prevaleceram, sem grande esforço, mas condescendi num ponto: esquece o duplo cheese, é nessa fatia a mais que não comerás que se encontra toda a gordura que sabes irá direitinha para a barriga!!! Reconciliada comigo própria e com a minha gula surge-me a primeira ansiedade do dia: será que vou conseguir tocar, sequer, num raio de uma bola? será que consigo, tocando numa bola, pôr a maldita  a subir num arco decente? Será que terei toda a privacidade para fazer toda a merda que sei que vou fazer sem que ninguém esteja a observar e de ar imperturbável? Digo, muito mais irritante do que alguém a sorrir da minha falta de jeito, o riso sincero de alguém descontrai-nos e faz-nos bem, é haver alguém, ali perto, que se consegue manter de facies impenetrável mas que por dentro se está a desconjunturar a rir! Eu farejo esse tipo de pessoas e normalmente esse tipo de pessoas surge, cruzando-se comigo quando menos se deseja ( a velha teoria do Murphy, novamente!) Topo-as à légua, é impossível que alguém que me veja a fazer um drive não se ria, é na verdade inconcebível manter a impassibilidade na expressão do rosto!!  Desconfio desse pessoal, dos bem-educados, seres lacónicos e insondáveis que, a mais um movimento nosso, de pungente falta de jeito, respondem com um meio bocejo; são esses os piores, o que riem para dentro e que tão cedo não esquecem a figura que fizemos e que a vão comentar com os amigos; os outros, os de gargalhada franca já se expandiram naquele momento, não guardam nada para dizer depois.
   Ultrapassada mais essa barreira, surge a técnica propriamente dita: lembrar o que o professor disse, lembrar, lembrar, conjugar tudo, fazer um movimento fluído, continuo, relaxado. A pega do taco, a posição dos pés e dos ombros, a flexão dos joelhos, o movimento inicial, a posição da cabeça, o olhar da bola... toda essa informação, os neurónios a processarem toda essa informação, para que o movimento final saia correcto e ... raios me partam, eficaz! EFICAZ! O professor, coitado, aproveito para dizer que é muito boa pessoa ( ofereceu-me 3 aulas - penso que já percebeu que com o pacote normal de 5 aulas não vou lá), o professor, dizia, fartou-se de falar bem do meu movimento global, usou o adjectivo " perfeito" em algumas ocasiões: desconfio que utiliza essa expressão muitas vezes, uma espécie de rotina linguística, sem grande verdade intrínseca. Questiono-me: como pode ser um movimento perfeito que depois não tem eficácia? Ok, já consigo quase sempre bater na bola, por vezes a bola sobe, por vezes a bola vai dirigida mas na maior parte das vezes a bola vai rasteira, de viés e, deixando a melhor para o final, adopta uma trajectória perpendicular à trajectoria pretendida, e que entra, na verdade, no domínio do fantástico! Quando tal maravilha aconteceu hoje, pela primeira vez, o professor sentiu-se na obrigação de observar que, é para isso que servem aquelas divisórias entre os tapetes de treino no driving range, para que não se magoem outros praticantes sendo " comum entre senhoras e crianças que tais pancadas aconteçam"; fiquei a saber que tal pancada absolutamente antinatural e no topo das vergonhas pessoais de qualquer praticante de golfe é quase exclusiva destes dois grupos; tal explicação não me aliviou apesar da expressão de bonomia condescendente com que foi dita. 

  Uma hora e meia a fazer o taco raspar a alcatifa, a levantar pequenos pedaços de tees, antes de passar para a bola; boa pancada, continua, má pancada, volta a raspar alcatifa, volta a bater nos tees, passa para a bola...

   Ainda não é desta que saio vergada! Sou mais teimosa que um burro anão!

   

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Angra do Heroísmo outra vez!




A Explicação de Inglês da Dona Lucínia

   Mal cheguei à Terceira em 1977 percebi que esta terra não era igual às que conhecera até então; o primeiro bafo a mofo da casa da Rua da Palha deu-me as boas vindas aos Açores e ainda hoje gosto deste cheiro... as gavetas do armário embutido que tenho ao fundo do corredor da casa onde vivo têm este  mesmíssimo cheiro. Quando tenho que abrir uma delas, para tirar uma ferramenta que preciso, inspiro uma ou duas vezes e a recordação é instantânea: viajo de sopetão para a casa da Rua da Palha ( que na altura ainda se chamava Rua Padre António Cordeiro)!  Quando, nesse dia ido de boa memória a minha mãe atravessou o umbral da porta número 89, exclamou horrorizada: " Meu Deus, entrámos num mausoléu!" Durante os 5  anos de cumprimento do serviço militar do meu pai, sempre a ouvi dizer mal daquela casa: que era muito escura, que tinha um pátio que era um buraco, que tinha a roupa sempre a cheirar a mofo e que as paredes criavam bolor, e que saudades tenho da minha casa, que saudades de uma casa que apanhe sol, que tempo do inferno que dá cabo da saúde de qualquer pessoa... e por aí fora! Quanto a mim, eu adorava a casa da Rua da Palha, tinha divisões amplas, tectos altos, janelas de vidrinhos, portadas interiores que embutiam na parede quando abertas, recantos, armários metidos nas paredes, parede forrada a madeira do rodapé até 1,5 de altura, paredes pintadas de um amarelo suave, chão em madeira escura, tudo características que, 35 anos depois, é o que mais aprecio numa casa. 

   Desde logo percebi que ser criança em Angra do Heroísmo era muito bom: muitas actividades desportivas diferentes (andava no ballet, na ginástica, no basquetebol), tinha iniciação musical e piano, a catequese era sagrada e religiosamente cumprida, muitos banhos de mar mas uma das minhas actividades preferidas era a explicação da Dona Lucínia; esta explicação era uma espécie de instituto de línguas em versão caseira, não se ia à explicação da Dona Lucínia porque fossemos uma nódoa a inglês, que também os havia mas porque os pais, na altura, consideravam que era muito importante que as crianças tivessem um reforço a inglês para além  da escola.  Um aparte: tive muito boas professoras de inglês mas havia uma certa professora, que apanhei no 6ºano, era tão fraquinha que nos ensinou que o ponto de interrogação se dizia ipsis verbis, "interrogation point". Vim a saber uns tempinhos depois que afinal de contas a senhora andava a inventar e a forma correcta seria " question mark").
    A Dona Lucínia era uma senhora já idosa, teria mais de 65 anos, pelo menos assim me parecia vendo-a com os meus olhos de criança, sempre muito distinta, elegante, bem arranjada e bastante alta. O seu cabelo numa permanente mise, daquelas que não se desfazem, sem fio de cabelo algum fora do seu poiso habitual e de tom claro. Tinha uma tez muito branca (ou seria do pó de arroz que estou certa, ainda usaria?!) e a única cor que destoava era a dos seus lábios, sempre muito pintados de um tom vermelho garrido; lembro-me de lhe ver por vezes, os lábios esborratados porque o bâton se infiltrava nas pequenas rugas que nasciam nas comissuras dos seus lábios; as suas mãos sempre impecáveis mas já não sei se de unhas pintadas de vermelho também; sapatos com alguma queda, como se diz cá na terra, um salto suficientemente alto para adelgaçar-lhe a figura mas não tão alto que lhe dificultasse os movimentos. 
   A casa da Dona Lucínia  que não consigo descortinar hoje em dia, ficava muito perto da Loja do Adriano, nesse enfiamento de prédios, em plena Praça Velha; subíamos umas escadas de madeira muito íngremes e virávamos à esquerda para um pequeno vestíbulo; após  este havia a sala onde a Dona Lucínia nos recebia e que era dominada por uma grande mesa quadrada ao centro e um piano preto, vertical, com dois castiçais, colocado na parede do lado direito; as duas janelas davam para a praça velha, com a câmara municipal ao fundo. Aquela mesa que  era revestida por uma toalha de plástico estava sempre preenchida por muitas cabeças, de cadernos abertos e em actividade. Por vezes éramos dez, por vezes menos, a Dona Lucínia ia rodando segundo as nossas necessidades, ora sentando-se à beira de um ora inclinando-se por detrás de outro; nunca nos deixava sem nada para fazer, tinha uma capa cheia de pequenos papeis, alguns, metades de folhas A4, outros ainda mais pequenos que isso, dactilografadas por ela, na sua máquina que se encontrava arrumada num canto da sala; nessas folhas tinha tarefas específicas, indicações do que fazer, nunca escritas em português, sempre na língua inglesa; lembro-me que muitas dessas folhas eram já velhas, amareladas, de cantos dobrados, que gostava de desdobrar e alisar; lembro-me especialmente que a Dona Lucínia gostava de nos corrigir os trabalhos com uma caneta vermelha de feltro de bico fino - aquelas canetas luziam-me os olhos - e nunca a vi usar outros tipos de canetas,  uma mulher de hábitos certos. E, sempre com tanta canalha de roda dela, uns mais espertos do que os outros, uns mais chatos do que os outros, uns mais indolentes do que outros, nunca vi a Dona Lucínia  perder a calma. Podia ralhar e, por vezes ralhava sim, quando estávamos preguiçosos e com mais vontade de brincar do que de trabalhar mas sempre num registo muito suave, muito british. É era obedecida sem grande esforço! 
   De vez em quando desaparecia para a parte de trás da casa, onde tinha uma mãe muito velha e precisava de ir vê-la com regularidade. Nessas ocasiões nós relaxávamos um pouco e a sala tornava-se mais barulhenta. O ambiente era caloroso, aquela mesa com toalha de plástico à volta da qual nos sentavamos aproximava-nos uns dos outros.
    Lembro-me que a minha mãe, certo dia, sabendo que a minha irmã precisava de um piano para praticar , combinou com a minha explicadora a compra do piano preto. A minha irmã nunca chegou a tê-lo porque, entretanto, houve o terramoto e o piano ficou parcialmente soterrado! 

   Nunca mais soube nada da Dona Lucínia,  já deve ter morrido há muitos anos. Recordo hoje, nesta nossa memória que, por vezes, não obedece a nenhuma lógica em concreto, aquela senhora que durante uma fase tão importante da minha vida, surgiu e me marcou com a sua presença constante e amável.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Realidade





Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...


Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...


Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...


Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei...se te perdi...


                                    Florbela Espanca

Mais Impérios da Ilha Terceira

Império da Fonte do Bastardo
  Império do Galinho - Porto Judeu
 Império da Ribeira do Testo - Porto Judeu
 Império de São Sebastião




Enfeites de Natal na Praia da Vitória