sexta-feira, 30 de agosto de 2013

   Imaginem o seguinte cenário: um homem, uma mulher,pode ser uma mulher, um lugar publico, um café, um supermercado, um banco, uma repartição de finanças...imaginem que, subitamente, essa mulher que se conduz de uma forma absolutamente corriqueira, ocupada nos seus afazeres, mostra uma ligeira, no início, alteração de comportamento; algo imperceptível a principio, uma súbita mão que sobe ao rosto, que percorre a testa, alguma contracção no músculos da face, os lábios que se cerram, olhando mais atentamente, parece ansiosa; se sentada levanta-se num ápice,  o peito sobe e desce mais rápido como se atacada por uma comoção súbita, olha em todas as direcções, pode até tornar-se frenética, coloca a mão no peito, no rosto, no cabelo, demonstra grande intranquilidade; acaba por abandonar o que está a fazer e sai.

   O cenário mudou: estão dentro dessa mulher no momento imediatamente anterior à descrição que acabei de fazer: são essa mulher! Estão na vossa vida de todos os dias, em qualquer lugar, em qualquer momento do dia, da noite, nos vossos afazeres profissionais ou em casa, numa caminhada, a ouvir música, a dormir ou acordados; e acontece: algo muda, primeiro uma ténue e imprecisa sensação de alerta, logo seguida de uma onda térmica entre o calor abrasador e o gelo quase  absoluto que sobe algures, num percurso sempre igual que começa na base da coluna, sobe por ela acima e termina na base da nuca onde se dissemina pela cabeça causando a primeira tontura e a constatação  de perigo iminente! O medo e o terror instalam-se! Lá fora, o sol continua a brilhar, o mundo ainda roda nos seus eixos e os estranhos que passam por vós mantém as mesmas rotinas, nada mudou! No entanto, tudo mudou, a qualquer momento sabem que vão desfalecer, perder a consciência, morrer e ninguém vos vai conseguir acudir. Entram num mundo paralelo onde a vossa vida como a conheceram vai deixar de existir, têm a certeza disso, sentem isso! O vosso coração, por essa altura, está assustadoramente num ritmo insustentável, sentem as veias do pescoço a latejarem; uma necessidade imperiosa de saírem de dentro de vós, de fugirem, de procurarem saída, de fazer com que pare; se caminham, apressam o passo ou tornam-se indecisos no rumo a seguir,  se estão deitados é urgente que se levantem, saiem da  cama se estiverem já deitados e abandonam o vosso quarto; O Medo persegue-vos, acompanha-vos, não vos deixa respirar; tentam combatê-lo, expiram fundo, tentam relembrar as técnicas, o que leram e o que experimentaram e que deu resultado; no entanto, respiram demasiado depressa, sentem a progressiva dormência nas pernas e nos braços, sentem ser só uma cabeça e um tronco e nada mais; as tonturas tornam-se vertigens e sabem que é agora, é agora que desfalecem, que caiem redondos no chão e que não há ninguém se estão sozinhos; se estão acompanhados desesperam quem está convosco porque não vos entende, e se vos entende e vos diz " calma, respira, vai passar!" e se estiverem ainda em modo receptivo, respiram e por momentos julgam que o pior já passou... no entanto, têm descargas de adrenalina contínuas, o vosso coração bombeia mais sangue do que o necessário, a adrenalina que precisam para combater o perigo que o corpo julga precisar, não serve para nada a não deixar-vos mais aterrorizados; se estão a conduzir e já sabem, abrem os vidros do carro, batem-se de forma a que doa a valer, tentam estacionar o carro no primeiro buraco que encontram e saem porque vos atormenta o espaço fechado. Tentam raciocinar no meio do caos que é, por essa altura, a vossa mente; pensam, já aconteceu, já aconteceu, não é a primeira vez, nem a segunda nem a terceira, não será a última e o desenlace foi sempre  o mesmo, não morreram! Respiram em ciclos de 10 segundos, concentram-se só nesse procedimento, respirar devagar, tão devagar quanto a vossa concentração que por essa altura anda tão dispersa, conseguir; se estão em casa enfiam a cabeça debaixo de água e dão mais umas estaladas para quebrar o ciclo; com o tempo, percebem que há procedimentos que resultam; se não , enfiam um diazepan debaixo da língua e esperam que passe; e passa sempre. Se sentiram isso tudo e sobreviveram, perceberam ter passado por mais um Ataque de Pânico e aguardam o próximo, que sabem,  irá chegar! 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Rabos versus Mamas

  É assunto recorrente: onde se encontrem amigos, dos dois sexos ou um apenas ou mesmo de sexo indefinido, mais cedo ou mais tarde surge a questão: rabos ou mamas, o que dá mais pica? Quanto olhas para uma mulher mas onde resvalam os teus olhos primeiro? E deixa-te de tretas e responde sem falsidades, se tivesses que escolher e te dessem uma mulher às peças para montares tipo puzzle, qual era a parte que montavas primeiro a ver o que saia dali?  Aliás, este assunto é tão batido e universalmente aceite, desde a distante Islândia até à ilha do Corvo,  que amigos que se prezem, se intitulem de amigos, já o tiveram e quanto mais descritivas, picantes e explicitas forem as explicações mais unidos se sentem; os homens já não guardam nada das mulheres, as mulheres não se inibem de comentar o que quer que seja com os seus homens, amantes ou amigos. Portanto, se uma amiga perguntar a um amigo " olha lá, gostas mais de rabos ou mamas?" é sinónimo de " vês como sou tua amiga, dou-te o privilégio de responderes a um assunto de alguma intimidade, mas como a tua amizade não tem segredos nem preço para mim, tens o direito a responder a esta questão!" A esta questão eles descodificam da seguinte forma " acho-te muito giro, se esta questão tão impeditiva de seres namorado da minha melhor amiga não surgisse entre nós, podes crer que antes de responderes eu mostrava-te que era para poderes decidir melhor ou mesmo mudares o sentido da tua resposta". Ultrapassada esta óbvia falha de comunicação  o homem sente-se compelido a responder; se a pergunta for feita por um homem a resposta é mais simples, não há cá alterações no código de linguagem que é para não haver más interpretações: a resposta seria: as mamas! ou o cu! ponto. Sendo a pergunta formulada por uma ela a resposta quer-se mais elaborada se bem que com mais ou menos floreados a resposta é sempre a mesma: " gosto de um rabinho bem torneadinho, desperta-me muito mais a atenção que um(uns) peito/seios/colo (esta última expressão é para quem andou a ler muita literatura do século dezanove)!" ou o contrário " umas maminhas redondas, tipo laranja, nada de excessivas nem muito pesadas ( quando eles aplicam o termo pesadas significa tão só que quanto maiores melhor, não acreditar em tudo o que dizem), são esteticamente perfeitas e representam a verdadeira essência da mulher, enquanto fêmea,  a sua verdadeira condição feminina, o rabo parece-me muito secundário ante a visão de um peito bem formado" na verdade, nenhum homem diz assim mas seria assim que o faria caso pudesse, para poder esconder das mulheres que gosta mesmo é de " mamas para caso seja possível me afogar nelas!". Consoante a resposta assim argumentam elas: " a sério, preferes rabos? então porquê? Mas que tipos de rabos, grandes, medianos, pequenos, arrebitados?! ou mamas, não achas uma escolha demasiado óbvia? Afinal de contas o que é que vocês encontram de especial nas mamas? E tantas que andam por aí de mamas siliconizadas? também te agradam? Explica-me que eu quero perceber! " E eles, coitadinhos caiem na asneira de responderem. A cada argumento, contra argumentam elas e nunca a resposta dada as satisfaz, mas mesmo nunca! Pode o homem esmiufrar-se em explicações de mais ou menos complexidade para além do óbvio desejo carnal do homem pela mulher, elevar a discussão a uma questão de alguma complexidade filosófica que elas nunca ficarão satisfeitas, pelo que é, à partida uma discussão que nunca terá fim nem apaziguará ninguém! No entanto, tem-na porque lhes transmite um bom sentido de grupo. Elas sentem-se tolerantes, compreensivas, maternais para com as escolhas estranhas deles, eles exaustos e incapazes de pensar em mamas e rabos durante a semana seguinte. 

   E no entanto, os homens quando olham para uma mulher, olham para mamas e rabos, alguns, uma minoria, um grupo mais ou menos restrito olha para olhos, bocas e dentes e para pernas, se bem que os que olham para pernas são um subgrupo dos pró-rabos e portanto não têm identidade independente. Para além destes, os quase excêntricos, existe um outro grupo, o dos bizarros, aqueles que olham para partes de uma mulher em que mais ninguém olha, a curva do pescoço, os lóbulos das orelhas, a testa e a ossatura do rosto ou mesmo o prognatismo do maxilar inferior em relação ao superior: há quem ache que se vê aqui o carácter e a força de uma mulher e isso fá-los voar !!!! Há um grupo intermédio entre os estranhos e os comuns ( os das mamas e rabos) que são os que gostam das extremidades superiores, os adeptos das mãos; no topo inferior, os mesmo muito estranhos e em  número muito restrito , enclausurados num mundo só deles, os adeptos ferrenhos se não doentios, dos pés. Estes elevam-nos a uma condição divinal e são os fundamentalistas da mulher à peça para além de serem altamente criativos. Sabe-se lá o que podem fazer com eles! 
   Todos estes seres, de escolhas mais refinadas são olhados pelos seus pares, os comuns, com algum desdém. Uma conversa de café " olha-me aquele avião que acabou em entrar!" (existe uma corrente também recente de associar as mulheres à aeronáutica,  desconhece-se a causa!) " Bonita, reparaste na curva da sua sobrancelha?! " O outro olhando-o como quem não acredita no que ouviu: " Quem é que olha para a sobrancelha quando vê uma gaja com aquele par de airbags?" O outro, poeta, insiste: " Eu perdia-me naqueles olhos!" Diz o primeiro: " Ouve lá, estás doente, mano?! vai-te tratar!" O outro ainda refuta: " Uma mulher não se resume a mamas e rabo! " ao que o outro responde numa sonora gargalhada. " pois, pois, o importante é ser bonita por dentro! "

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pais e filhos

   O meu primogénito faz hoje 21 anos, data em que atinge, na minha perspectiva, a maioridade, que não o juízo definitivo que esse é, uma qualidade inatingível; penso que, em décadas de demanda,  o juízo nunca será alcançado. Veja-se só  os exemplos do que os homens andam a fazer pelo mundo já com mais do que idade para terem juízo!  Mas isso são outras histórias, o que eu quero falar é de filhos, dos meus filhos. Os filhos são uns seres que em certa e por vezes imprevista altura das nossas vidas, nos escolhem, não sei se aleatoriamente se fazem primeiro uma pesquisa de mercado e aparecem para, basicamente, nos desassossegar para sempre. Trazem primeiro a pequenez e a fragilidade dos seus seres e permitem que nos apaixonemos irremediavelmente para o resto das nossas vidas; seguem depois com a descoberta do mundo e a devoção aos seres a quem acharam por bem acolher como pais, a quem recorrem e para quem correm sempre , na procura do seu colo e do calor do seu corpo onde se aninham na única segurança em que confiam, fazendo-nos pensar como somos importantes, como existimos para além da nossa condição humana, como evoluimos para uma condição superior, que é  nossa condição de pais; após isso descobrem-se como seres individuais e percebem que os país, afinal,  não são o centro de tudo, estão a modos que enviesados no equilíbrio do mundo em que vivem e, é por essa altura que começa tudo a descambar, primeiro devagarinho em cambiantes discretos e depois à descarada; quando entram na adolescência, descobrem que os pais  não são nada daquilo que andaram tantos anos a apregoar e que existem basicamente para os envergonhar; passam a fase, normalmente passageira  do conservadorismo marreta com os pais a servirem de saco de pancada! É  deles recriminações do tipo " comporta-te, já viste a idade que tens?!" ou " não percebo o que a vida te andou a ensinar que com os anos que tens parece que não aprendeste nada!" Tentam, a todo o custo, não serem associados com semelhante tipo de pessoas, os pais, digo; estes só lhes causam constrangimento e embaraço e em público não sabem quase nunca comportar-se. No entanto, toleram-se porque são o sustento das suas vidas e acreditam que, mais cedo ou mais tarde, com os seus constantes ensinamentos, irão aprender a comportar-se, ou pelo menos e muito mais importante, aprenderem a comportarem-se quando em presença dos filhos junto dos amigos. Os pais há muito que perderam a importância central no mundo que os rege, os amigos são a referência primeira e destes querem mais do que tudo, o agrado, o apoio, a aceitação. As confidências que antes se reservavam aos pais dão-se agora aos amigos, os pais ainda tentam em investidas mais ou menos desajeitadas mas a resposta é "não te metas nisso! "  ou " sabes, o mundo que era o teu já evoluiu, actualiza-te".  
   É que do ponto de vista dos filhos, crescer não é fácil e os pais não são fáceis, muitas vezes trapalhões, os pais devem ser os seres menos coerentes que se conhecem: primeiro, fazem experimentações pedagógicas: se os filhos são pequeninos as receitas que se conhecem para educá-los são simples e normalmente dão resultado; à medida que os miúdos pensam e tornam-se críticos a frase " Obedeces, porque sim! " já não faz sentido porque a esta frase segue-se outra " obedeço-te porque sim, porquê?! Já viste que raio de treta de argumentação é essa?" e outros exemplos do género. Uma coisa é ensinar e educar crianças pequenas, está tudo escrito e mais ou menos com mais ou menos nuances a coisa funciona, com  adolescentes e adultos jovens a empreitada é muito mais complicada; afinal de contas os jovens gostam de argumentar e de tal forma gostam que na dialéctica entre pais e filhos, os primeiros desistem por cansaço e muito por desespero; coisa que os filhos sabem é discutir e nada melhor para eles que discutir com os pais, é coisa que nasce e cresce com eles e que se reserva para quando chega a altura e nessas ocasiões, nas discussões eles brilham! Quando por fim, a tão utilizada " Encerrou a conversa!" surge, eles os filhos argumentam e bem que é impossível discutir como gente crescida se os pais se arrogam da sua condição autoritária latente para impor algo que deveria ser resolvido pelo diálogo. Uma canseira! Se nenhuma das experimentações pedagógicas utilizadas funciona, a chantagem emocional paterna também pode ter que ser usada mas nesse ponto já o pai está desesperado e grosso modo, em jovens batidos e já avisados tais estratégias  não surtem nenhum tipo de efeito para além das frases de censura " isso, faz-te de vitima, fica-te muito bem!" Uma luta constante! 
    O meu filho mais velho,  o que faz 21 anos hoje, que sendo um adulto ainda é um miúdo,  sábio nas disputas de boca e na destruição de todas as minhas argumentações mais bacocas, gosta de mim; o meu filho mais velho gosta verdadeiramente de mim, o amor filial que sente transparece mesmo no momento mais aceso de disputa típica entre mãe e filho; receia por mim, antes de se deitar, discretamente mas não tão discreto que não  o sinta, abre de mansinho a porta do meu quarto a ver se respiro, se estou bem; pergunta-me se já comi, se lhe digo que não tenho fome, diz-me, achas bem passar tanto tempo sem comer, não vês que tens 3 filhos para cuidar? Telefona-me se está longe, sem nada verdadeiramente importante para dizer a não ser ouvir a minha voz e recriminar-me " Já viste há quanto tempo não me telefonas?! Achas bem?" De uma forma não muito expansiva, porque nenhum filho é igual e nenhum filho se expande na expressão do seu amor pelos pais da mesma forma, o meu filho mostra-me todos os dias que me ama, apesar de todas as recriminações, discussões, amuos mas principalmente pela partilha de todos os momentos de cumplicidade. 
   Foi há 21 anos que surgiu para nada voltar a ser como dantes.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Pontual

   Ser pontual é uma qualidade (duvidosa)  que não traz quaisquer benefícios, no entanto traz inúmeras secas pelo que, a pontualidade é, em definição, a capacidade que alguns seres humanos, poucos, muito poucos, tão poucos que poderão incluir-se no grupo restrito dos que padecem de bizarrias, têm de apanhar secas monumentais e com estas não aprenderem nada. Os pontuais são seres que, mesmo que o queiram, não deixam de o ser; impossível aprender a falta de pontualidade porque, o relógio biológico, em tal exercício, já avisado, adianta-se instantaneamente meia-hora, no mínimo. O pontual, quando lhe dizem " O jantar é às nove!" ouve e guarda a informação tal qual foi proferida. Os outros ouvem a mesma informação mas processam-na da seguinte forma " o jantar é às nove, se puderes... se conseguires.... se te der jeito, vê lá... se não coincidir com os teus afazeres....". Para o pontual, se o jantar é às nove, esquece-se do ponteiro dos minutos e automaticamente integra num circuito fechado, não susceptível de corrupção, num espaço qualquer do seu corpo que será às nove que chegará; não será nem às nove e um nem faltando um minuto para as nove, margem de erro intolerável! A partir do momento em que o cronómetro interno começa a contar, tudo o que faz se resume a ser feito de forma para que às nove, sharp, se encontre onde quer que esteja previsto estar; e fá-lo de tal forma bem que não deixa nada por fazer antes de fazer o que tem obrigatoriamente que ser feito, que é chegar a horas. 
   Nas festas, qualquer festa, o pontual padece horrores porque sendo dos poucos que o é, tem contactos prolongados e atentos com as paredes, conhece bem as cores, texturas e cambiantes de sofás, mesas, cadeiras e móveis de cozinha.  Quando, meia-hora passada ou mais, chegam os outros, o pontual já emborcou umas quantas bebidas, para passar o tempo, para além de ter, eventualmente, metido conversa com outro pontual cuja única afinidade é de padecerem do mesmo mal, de ter desabafado sobre o cansaço da sua condição de pontual e de ter questionado o outro sobre se não haverá, da mesma forma que para os Alcoólicos Anónimos, uma associação que ajude gente nesta situação, tudo sentado num circulo, com um tipo de frase de abertura standard do género " Sou pontual e já consigo atrasar-me com regularidade há .... 2 dias!" e  partilhando " Outro dia fui fraco e prevariquei mas, no dia seguinte, perdi o autocarro de propósito! E fui requintado! Eu já estava na paragem quando ele chegou, no entanto, num momento espontâneo de rebeldia, virei-lhe costas e resolvi ir beber uma bica ao café da esquina e quando cheguei ele já tinha partido. Senti-me bem, na verdade, uma grande libertação!"  seguido das habituais palmadas nas costas e frases de incentivo pelos progressos alcançados.
   Quando, finalmente, chegam os outros à festa, vêm frescos e airosos e o pontual já meio entornado; chegando à fala com o pontual perguntam com a maior naturalidade: " Já chegaste há muito tempo?!". De sorriso amarelo o pontual por vezes inventa " Há um bocadinho!".  Ao que se espanta o outro " Não posso, tu que és normalmente tão pontual!" . Outras vezes perde as estribeiras, e responde " Desde a hora em que estava previsto o início da festa ó minha grande besta!". Ao que ouve em resposta, condescendente " Só tu mesmo para acreditares em tudo o que te dizem, és um ingénuo, pá! " E perante isto só lhe resta ir buscar uma bebida ou duas e reflectir sobre a sua condição mais logo, mais tarde, mas sem hora marcada.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Os sedutores ou os que o querendo nunca o serão!

   Entre as muitas caracterizações e agrupamentos que podemos fazer dos homens, enquanto género sexual, há aquela de que gosto particularmente e  que os divide em duas categorias: os sedutores e os incapazes de seduzir, sem categorias intermédias; ou sabe ou não sabe e pelo que vejo o que não sabe não irá passar a saber e o que sabe não consegue deixar de o ser; estão presos à sua condição de sedutor ou de anti-sedutor ( para não dizer palavra mais forte) sem dela conseguirem sair. O iletrado da sedução mete dó de ver: pode ser o gajo mais giro, de corpo mais torneado em masculinidade exuberante, o penteado mais cool e displicente desmazelo de cuidado com a roupa, o calção estrategicamente descaído abaixo da anca, em que não raras vezes se vê o vinco em triângulo da púbis, tudo neles é físico; pode ter a barba de 3 dias e o ar cansado de quem anda distraído  não se dando conta das feromonas que lança para o espaço; pode até ter um harém de gajas a trabalhar para ele e por ele; que nada disso interessa porque não trabalha para seduzir: julga erradamente que tudo lhe cai no prato e que seduzir é um acto menor! Desvaloriza o que é de valorizar, os sinais, os pequenos sinais, os olhares, o jogo de movimentações, a dança dos corpos das mulheres à sua roda. Esta qualidade de homens não merece um décimo do que as mulheres lhe proporcionam; não trabalham para isso! São burros julgando que lhes basta serem giros e durante uns tempos, enquanto dura o seu viço, têm sucesso, porque assim como burros que são, atraem mulheres burras e como tal sustentam-se uns aos outros. 

 Ainda dentro desta categoria dos anti-sedutores há os que, o são por convicção, consideram que as mulheres não os merecem, que mais cedo ou mais tarde as gajas irão decepcioná-los e que são todas iguais e que portanto não vale a pena investir um cêntimo na conquista; são os cínicos de serviço e atraem todas as mulheres que têm o seu lado masoquista bem desenvolvido e que curiosamente são seduzidas pela forma desprendida para não dizer, grosseira com que eles as tratam! Outra categoria pertence ao iletrados trapalhões, os que até quereriam seduzir e fartam-se de o fazer mas por incapacidade para dosear a forma e o modo como seduzem, fazem normalmente asneira; são os que não sabem temperar o peso das mãos no vestido delas, que atacam em rompantes muito despropositados, que as assustam antes mesmo de terem usufruído algo de valor! Ficam-se sempre pelos preliminares da arte de sedução e não aprendem com os erros, cometem sempre os mesmos! Os tímidos da sedução são um grupo acarinhado pelas mulheres, porque elas sabem, por experiência ou por instinto que por detrás de tanta reserva se escondem homens fogosos de bons instintos e que para que assim seja só basta rasgar a capa detrás da qual eles se escondem; no entanto são muitas vezes relegados por culpa delas, que impacientes e  apressadas na escolha dos seus homens escolhem erradamente com os olhos. No entanto, seja a mulher visada sábia e paciente e revelam-se seres maravilhosos, podendo até, com o hábito, passar para a categoria dos sedutores; são mesmo os únicos que o poderão fazer.

    Quanto a esta, a dos sedutores puros, têm em comum, nada fazerem objectivamente para o serem; é do seu código genético, seduzem como comem, como respiram, como ouvem música, não é independente de si; os seus gestos e os seus olhares, as suas inflexões de voz, a movimentação do seu corpo, a forma como se movem, tudo se conjuga na mesma direcção: o acto puro de sedução; normalmente são bem sucedidos no entanto prejudicados pelo preconceito feminino que nestas coisas da sedução anda muito mal habituada; a mulher dos tempos modernos não reconhece o gesto singelo de uma mão suavemente colocada pelas costas, um gesto quase de protecção, um olhar mais prolongado, um calor inusitado na voz, a aproximação quase imperceptível de um corpo na direcção do outro sem que, o julgue como um avanço atrevido no sentido único da cama. Para sua grande tristeza, as novas mulheres não são bem seduzidas, a arte e o esforço e o empenho de épocas passadas, perdeu-se algures no tempo. Os verdadeiros sedutores são uma classe minoritária, tão pequena que estranha! Estranha à mulher que a ela deveria ser sensível!  Sensível no início, permeável com o tempo, que o sedutor é paciente e sabe esperar!
   Na verdade, na grande parte das vezes é no sentido da cama que o sedutor seduz, é tão natural que assim o seja, no entanto fica ofendido quando a mulher o julga e o reduz a uma simples máquina sexual; o sedutor sente um prazer enorme no jogo de sedução, mesmo que recta final da sua sedução não se traduza no acto sexual como o ser humano a entende, acredita e sente grande prazer, nos preliminares e aceita que a sedução seja um fim em si mesmo, que lhe dá um grau de satisfação sexual tão grande ou maior que a conclusão dos seus esforços. Que não são esforços, afinal, o sedutor não se esforça, tudo lhe sai naturalmente.E ama a Mulher como a si mesmo!

Nota importante: existe outra categoria de homem a meio caminho entre o trapalhão mas acima deste porque esforçado e mais refinado mas abaixo do sedutor puro porque não seduz efectivamente nada! É uma categoria consubstanciada num ser, por enquanto num ser único, o grande Melro Preto mas a este já dediquei uma crónica inteira e como ser único que é seria, no mínimo  desrespeitoso que o enquadrasse com os outros. Quem estiver curioso pode procurá-lo aqui, algures no blogue. Fica a nota.

domingo, 4 de agosto de 2013

António Ambrósio

   O António Ambrósio entrou nas nossas vidas no dia 20 de julho, para algumas, as verdadeiramente privilegiadas entrou um dia mais cedo. O encontro com estas foi de tal forma inolvidável que, nós, as atrasadas a tal encontro vivemos o breve momento que foi a permanência na Calheta de S. Jorge com a expectativa fremente do momento em que, por fim, o nosso destino se cumpriria: e era, na verdade, certo que em algum ponto daquela maravilhosa ilha, o extase total seria aquele em que, as suas melenas raiadas de amarelo, o corpo franzino de porte marialva, o olhar penetrante em nariz afilado e farejador, se cruzariam connosco e em nós deixariam uma marca indelével que em vão tentaríamos apagar dos nossos pensamentos, tarefa ridícula porque impossível!

     O Ambrósio foi um dos nossos motoristas nesta breve permanência na ilha de São Jorge; no entanto, o Ambrósio não era e não foi um motorista qualquer; o Ambrósio tinha a lábia ladina de quem sabe levá-las (levar-nos) à certa; o Ambrósio era puro sexo, emanava de todo o seu ser uma tensão sexual que se pressentia ainda ele vinha longe; tinha um discurso rico e diversificado e a segurança de quem está  habituado à conquista pela simples condição de existir;  algumas das meninas afirmaram, mais tarde, terem sentido um arrepio na espinha e um eriçamento dos pêlos, um qualquer instinto não previsto mas sentido no mais profundo de cada uma; tal sensação deixou-as confusas e causou preocupação numa de nós, a nossa líder natural,  rapariga miúda mas de tempera gigante e nada impressionável que temeu desde logo, pela virtude delas; temente também da inocência de  nós, aquelas que ainda desconhecedoras da sua sedução arrasadora, sabia ela não conseguirmos fugir do seu jugo fortíssimo de testosterona. Assim, secretamente, teceu um plano; conjurou sozinha uma forma de nos afastar da sua influência que sabia ela nos perderia para sempre. Na hora de partida sentia-se a tensão no ar, procurávamos disfarçadamente a carrinha azul,  prenunciadora do seu formidável ocupante, tentavamos sossegar o coração que insistia em bater em correria, um afogueamento de rosto que nos deixavam lânguidas e prostradas; nesse entremeio a nossa líder perscrutava o início da estrada, já tinha dado instruções sobre a preparação da nossa partida e quando finalmente, as duas carrinhas chegaram, a branca e a aguardada azul, em tom de comando, que não admitia réplica alguma, afirmou: " As meninas todas para a carrinha branca, os homens vão todos na carrinha azul!" e juntando a afirmação à acção, conduziu-nos com firmeza às traseiras da carrinha branca e mais rápido que um relâmpago, juntou-nos a todas como um pastor conduz o seu rebanho de ovelhas; nesse entretanto, o seu olhar não se dirigiu um instante que fosse para aquele em que todas pensávamos,  ela não mas eu sim! E o que vi amoleceu o meu coração generoso: vi a transformação de um ser, um expressão de rosto que alterna do ufano para o desgostoso, olhar que de brilhante e vivo se torna toldado numa sombra de desespero, um curvar de ombros em desânimo de vida; quis aproximar-me dele e ensaiar uma justificação; no entanto não  o fiz! Em cobardia baixei os meus olhos e virei-lhe as costas! Dentro da carrinha e já em marcha lenta vi ainda o nosso motorista a lidar com a indignidade de um motor que não pega, um prolongamento do desanimo de alma do condutor. A carrinha azul vinha a soluçar, aos solavancos, partilhava da dor do seu dono! Na carrinha os sentimentos eram dispares, alivio, resignação, alguma histeria. Procuravamos confortar-nos a todas, concordamos que tinha sido melhor assim, temiamos a nossa perdição, sabiamos que o sacrifício do corpo determinava a salvação da nossa alma. 

   Chegamos ao nosso destino! Ele também, um pouco mais tarde! Disfarçadamente observei o seu rosto; parecia conformado, não lhe notei já o desespero, aceitou a fatalidade deste destino não cumprido. Respirei de alívio e procurei a nossa líder pedindo-lhe que, passado o perigo, se não considerava a possibilidade de uma recordação de homem tão original, que tantas sensações nos tinha proporcionado e com tanta generosidade; pedi-lhe uma foto! Ela aceitou! 

   Digo com a convição e a certeza das alegrias partilhadas que o momento que de seguida descrevo foi um dos mais importantes destes dois dias maravilhosos; a nossa líder no seu tom de voz assertivo chama-o e diz-lhe: " venha tirar uma foto com as meninas!" Maravilhosa transformação que o faz partir em corrida cais abaixo na nossa direção e em risco de partir o pescoço,  abrir os braços para a pose como que dizendo " Ah, finalmente tudo está como deve estar, o mundo ainda funciona como devia, tudo volta ao normal! O pesadelo terminou!"