quarta-feira, 30 de maio de 2012

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sindroma do Domingo à tarde

   Efectivamente as putas das almôndegas da bimby estavam boas como o caralho! Foi de resto a única coisa que se aproveitou desta merda do feriado à tarde e se se chocarem com o meu vernáculo carroceiro fiquem desde já a saber que é o que mais me ocorre dizer nas tardes de qualquer feriado e que portanto não retiro qualquer palavrinha mais inconveniente. A tarde só começou bem quando enxotada a sorna insuportável de uma tarde obscura, dormida a ver se a coisa passava mais depressa, me resolvi a preparar a porra do jantar.  
   Sofro do síndroma do domingo à tarde e pior é quando o síndroma do domingo à tarde acontece sem ser domingo à tarde. É desonesto, faz-me sofrer dois dias na semana, o dia do verdadeiro síndroma e o dia do síndroma a fingir. Desregula-me todo o relógio sistémico, deixa-me prostrada e pronta a soltar imprecações! Dá-me para dizer asneiras, que querem, é assim que consigo escapar a esta tortura. O síndroma do domingo à tarde, surge pronto e traiçoeiro, mal dou a ultima garfada do almoço e preparo-me para me levantar. O embate é súbito e não há escapatória. Não há café com amigos, passeio higiénico ou filme a aguardar há meses que me faça esquecer o que aí vem. Quando penso em domingos à tarde só me lembro de relatos de futebol e pronto, basta isso para me agarrar aos cabelos em histeria. É como um daqueles pesadelos de infância, só que este é real! E que fazer se me dizem, já ninguém ouve futebol pela rádio, ainda parece que ouço os locutores, em frenesim doentio, circunstância que ainda pequena me deixava deprimida. 
   O domingo à tarde é tristonho mesmo quando está sol, é independente do tempo e no entanto teima em ser o momento da semana que passa mais devagar!
   Dá-me o sono nos domingos à tarde, não apetece abrir as pálpebras quanto mais mexer as pernas. O que é preciso fazer, porque todos os dias é preciso fazer alguma coisa, é difícil de concretizar, a cabeça não ajuda, o espírito anda disperso, a genica  partiu para parte incerta. Ali entre as 15 e as 17 horas, atinge-se o auge do desanimo absoluto. Olha-se para a casa em desalinho com indiferença e enxota-se  o gato dengoso sem paciência para lhe fazer festas. O trinado dos pássaros é ofensivo, não apetece ler, não apetece conversar, não apetece fazer nada. 
   E de repente, surge o jantar, no caso umas almôndegas maravilhosamente simples com um arroz de salsa, bebe-se um bom vinho e como por milagre o estupor do síndroma desaparece. Adapta-se o organismo à rotina, engrena finalmente em modo semana e presta-se a um bom filme, aguarda-se o último episódio do House com expectativa e sossega-se o espírito que andava inquieto.Fazem-se tréguas por uma semana.

domingo, 20 de maio de 2012

Desesperadamente à procura de uma casa!

   Devo ser das pessoas nesta ilha que mais corre sites de agências imobiliárias, tirando a minha colega Graciete que deve estar empatada comigo. Uma cena meia voyerista com implicações menos perversas mas mesmo assim uma tendência de que não me orgulho especialmente, uma certa forma de ser a que não consigo resistir. De tempos a tempos, com uma sazonalidade persistente, lá vou eu dar mais uma espreitadela na esperança que haja algo que me encha o olho e me faça sonhar! A procura do meu cantinho, talvez, uma casa com alma, que tenha sido vivida e onde cada canto me conte histórias passadas. E elas existem aqui nesta terra! Existem mas estão-me vedadas! 
   Quem vende na Terceira tem, regra geral, uma incapacidade total para atribuir um valor real à sua propriedade: tugúrios mal engendrados, pardieiros para albergar humanos de valores absurdos, palhotas bafientas de materiais de construção medíocres mas, salve-se isso "com vista"! Aquilo a que chamam casa pode ser e tantas vezes é, a maior choldra mas se tiver uma nesga de vista para o mar passa a artigo de luxo e sendo assim pedem-se valores estratosféricos! Casas há que estão anunciadas na net desde que vim para cá há 3 anos, incapazes de se vender porque ninguém no seu perfeito juízo as vai comprar, mas nem por isso se baixam os valores para facilitar o negócio. No mercado do arrendamento a coisa piora ainda mais, são poucos os apartamentos ou moradias e as que existem são pombais transformados em habitações ou sendo boas casas pedem-se quantias que ninguém pode pagar.
   Nas quatro casas onde vivi houve um apelo irresistível para meter-me na merda, literalmente falando: nas casa número um, com chuvadas intensas o escoamento das águas, todas as águas, extravazavam e  deixavam-me com a pata na poça quando vinha para o exterior; a casa número dois encheu-me a casa de banho com água até ao tornozelo, casa nova e a estrear com problemas de canalização que implicaram abrir uma vala até à fossa para resolver o problema; a casa número três e a casa número quatro ainda foram mais requintadas; os baldes de merda que andei a acartar permitiram-me criar, ainda que a contragosto, um espaço de armazenamento de resíduos orgânicos romanticamente apelidados de compostagem domestica a que não dei grande uso porque não tenho terra para cultivar! Ficará, no entanto, este último como presente de despedida ao meu  senhorio que tão simpaticamente recusou resolver a merda do assunto! 
     Na casa número um, pagava 650 euros/mês para ter o luxo de viver na cidade e ter uma casa de traça regional com todas as implicações daí resultantes: humidade com fartura, janelas mal vedadas, estuque a ceder, enchentes sazonais a atingir a cozinha; a casa número dois com uma  renda de 600 euros foi campeã da desgraça, casa nova com infiltrações tais que me deixaram a casa de banho preta, uma janela enorme em frente à banheira para que o vizinho do lado, de cadeira pudesse ver-me, nuinha nas minha abluções matinais, uma cozinha visualmente perfeita mas cujos tampos não aguentaram 4 meses de uso e incharam com as águas que se escoaram pelas  juntas, um sistema eléctrico de tipo pisca-pisca como as luzes de natal, uma sanita linda de morrer mas onde o autoclismo funcionou uma semana! Quando fui para a casa número três já estava avisada no que me ia meter mas em choque por causa da anterior, investi qualquer coisa e esse facto fez-me lá ficar um ano inteirinho. Pagava 400 euros e o senhorio não me merece qualquer reparo, nada a dizer, simplesmente a casa não valia metade do que dei por ela. Nesta começaram as minhas visitas à fossa! Digo-vos, depois de ficar atolada em merda tudo o resto são rosas, não houve luvas que aguentassem, um dia houve que pensei em lavar-me toda com criolina mas detive-me quando percebi que teria que ir à loja de ferragens a cheirar a material infesto e percebi que dessa experiência não conseguiria sair incólume! A casa número quatro, casa que reúne tudo aquilo que gosto numa casa, pareceu-me perfeita à primeira vista e de certo modo ainda é! O que não tem é um senhorio sério e isso fui percebendo à medida que o tempo vai passando. Esta casa tem uma coisa nunca vista, ou melhor não tem... não tem sequer uma fossa, tem uma caixa que recebe todas as águas, as limpas e as sujas e supostamente um tubo que desce verticalmente para escoar, lá em baixo, à vista de quem queira ver, na entrada do sistema de esgotos. Quando chove demasiado ou o pessoal cá de casa anda desarranjado dos intestinos, quem tem que resolver o problema sou eu, pois então! E não é bonito de se ver! A estúpida da caixa é profunda como o raio e para tentar descobrir o tubo que escoa "aquilo" ( que nunca descobri  porque tem detritos de anos ) já me introduzi até à cintura só com as perninhas de fora; pensando agora à distância se cedesse mais um pouco ficaria a fazer o pino lá dentro sem hipóteses de rodar sobre mim e safar-me daquela posição ridícula; as coisas que uma pessoa faz! Levou tempo mas percebi: 300 euros por esta casa quando o normal é de 400 (com sorte) ou 500, normalmente, deveria ter acendido logo uma luzinha de alarme! Sou burra, admito, ou como  diz alguém a quem devo passar a ouvir mais vezes " muito esperta para algumas coisas mas burra que nem um cepo para outras!". Desisto e sendo assim não antevejo outra solução que não procurar a casa número cinco! Já tenho duas em vista: uma tem térmitas e a outra ainda é uma incógnita! Como catedrática no assunto, primeira pergunta a fazer nas minhas visitas próximas: " Como é que estamos de fossa?!" 
   


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Take it easy!

   Ontem fui à farmácia a que habitualmente recorro, comprar um medicamento de venda livre que infelizmente não tinham na loja mas que o farmacêutico, solicito, iria averiguar da existência no armazém. Assaltou-me um dilema: esperar que telefonasse e aguardar a vinda do dito ou ir ali, ao virar da esquina, e entrar na farmácia do lado?! Dilema prontamente resolvido, não há escrúpulos de fidelidade que aguentem 4 farmácias todas juntinhas à mão de semear! Existem 7 farmácias nesta cidade: uma delas, dou-lhe o número sete  porque é a última a que recorro, está estratégicamente colocada perto do antigo hospital, onde toda a gente parava depois de ir às urgências ou às consultas externas - lembra-me aquela agência funerária grotescamente plantada a poucos metros da saída principal do hospital. Estratégia decerto eficaz uma vez que a encontro sempre com clientes,  um pouco como os artigos estudadamente colocados nas prateleiras dos supermercados; quem é que procura os produtos colocados inacessíveis a dois metros se tem produtos iguais, mais caros, ao nível dos olhos?!Pois é, a essa farmácia, recorria quem ia ao hospital e não queria ter que entrar na confusão da cidade! A mim algumas vezes me enganaram, não já que agora só a frequento se não tiver outra hipótese; os funcionários são, regra geral, antipáticos, com pouco jogo de cintura, com pouca visão periférica e a mim, um bom profissional que lide com o público tem que ter boa visão periférica.  Com grande satisfação minha, subitamente, a posição estratégica desta farmácia alterou-se, o hospital mudou de sitio mas no entanto ainda está situada numa zona de entrada da cidade e só esse facto a privilegia no número de clientes que a frequentam... infelizmente! 
   As quatro já faladas, agrupadas junto à Sé Catedral, estão tão pertinho umas das outras que devem bater o recorde de mais farmácias por metro quadrado em qualquer cidade de Portugal, quiçá do universo conhecido! Uma quinta, a mais bonita e imponente de todas, com um grande varandim em madeira escura a fazer as vezes de balcão e renitente a substituir os seus belos armários antigos por aqueles compartimentos/gavetas que tanto encontramos nestas casas comerciais, está situada na zona mais nobre da cidade, na Rua Direita e só lá vou porque gosto de olhar para ela, não que os empregados sejam especialmente simpáticos, simplesmente posso esperar pela minha vez apreciando a sua imensa graça. A farmácia número seis, é a ranhosa do grupo, foi enxotada para o fimzinho da Rua da Palha, junto à rocha e por estar ali, tão fora de mão não se renovou e é pequena e encafinhada no rés-do-chão dum prédio pequeno mas airoso. Algo me diz que ali só vai quem não pode ir a mais lado nenhum. 
   Para se ir a uma farmácia desta cidade, exceptuando as pessoas que vivem no centro e a ela recorrem a pé, utiliza-se invariavelmente a táctica de deixar o carro em plena via, em frente mas mesmo em frente da cuja, como se o facto de ir comprar medicamentos, quer o mais imprescindível quer a lima para os calos nos pés, seja uma questão de vida ou morte e o fluidez do trânsito passe para um sector secundário. Que importam as filas que se acumulam em plena rua da Sé e o caos que se instala, perante uma necessidade tão dramática. E nem vale a pena protestar, já se sabe, iremos ser mimados com uma resposta adequada e olhados com desdém pelos outros automobilistas, que na primeira oportunidade farão a mesma coisa. É um facto, os terceirenses estão sempre a fazer coisas muito importantes: parar o carro na via para ir à loja de ferragens perguntar se tem porcas número 5 é uma questão decisiva para aquele ser vivo pelo que todas as outras pessoas terão que ser solidárias e aguentar de bico calado; a expressão ofendida de um terceirense é algo a que ninguém se quer sujeitar de ânimo leve! Por inexperiência, já por duas vezes experimentei protestar, se da primeira me disseram " vai para a porra!", da segunda fizeram um revelador gesto com os dedos. O pessoal tem sempre pressa e exige paciência e compreensão! Que importa que o Alto das Covas fique intransitável na saída da escola primária, são pelas crianças que os papás esperam, e isso é prioritário. Procurar espaço de estacionamento?! Estão loucos, o tempo que se perde, chega-se o carro um pedacinho mais para a direita que com jeitinho cabem todos! 
   Os polícias olham com benevolência estas manobras, em grupos de dois e três passeiam-se com tranquilidade pelas ruas da cidade e assobiam para o lado; advertir, admoestar, mandar tirar carros de vias onde é proibido parar quanto mais estacionar? Que aborrecido!! É muito mais cómodo passar multas a infractores dos parquímetros, de preferência quando os condutores não estiverem por perto para não serem importunados com pedinchices lamechas e desculpas patéticas. Tudo o que der menos trabalho! Tudo se faz no sentido de abreviar o trabalho... para o próprio, evidentemente!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo?!

   

   O dito popular é uma grande treta! Qual será a relação de proporcionalidade entre aqueles a quem Deus apara e aqueles que caiem estatelados no chão? Haverá algum critério superior que escolha os que são agarrados ou Deus brinca aos dados? Quero muito crer que a cada sofrimento infantil exista uma explicação divina que a  nós, imperfeitos mortais não nos é permitido aceder. Só assim poderemos tornar a  nossa existência mais suportável, saber que alguém orquestra a nossa vida, de um forma nada aleatória! O contrário é inconcebivel! O viver por viver sem outro objectivo que não a existência física é redundante, vazia, deprimente. 
   O Gui, o benjamim cá de casa, estatelou-se ao comprido este fim-de-semana e não teve colchão de queda que o aparasse! Podia ser pior, dizem-me as pessoas bem intencionadas e inquietas por me aliviarem a preocupação. Imagina que tem sido num olho, imagina que... Pois, devo ficar efectivamente grata por ao meu filho só lhe terem saltado três dentes da boca, de se terem encontrado, de ter sido rápido o socorro. No entanto, porque será que tal constatação não me alivia?!
  Devia ser estipulado, por ordem superior, por decreto divino que às crianças deveria ser sempre posto a mão por baixo e não só de vez em quando. Que as elas, estariam sempre interditos sofrimentos, uma idade mínima a partir do qual, alguns tipos de sofrimentos ou contrariedades poderiam ser incluídas no seu currículo de vida. Uma especie de diploma onde atestasse que se encontram aptos a experimentar o sofrimento, um estágio de preparação para a vida adulta. Ao Gui, a partir de sábado ficou decretado que daqui até a sua idade adulta andará em bolandas em dentistas e com cuidados especiais. Nada de especial, dirão, pensa quantas são as crianças que passam por sofrimentos atrozes, por esse mundo fora! Bem que tento, palavra que tento mas nenhum deles é meu filho, filho é este que ficou com boca feito num oito e tem uma vergonha enorme de voltar para a escola, na quarta-feira porque não sabe o que os colegas lhe vão dizer, porque quer a aceitação dos seus pares e temem que estes trocem dele. 
   Se vai ficar traumatizado?! Não vai, é certo que irá ultrapassar tudo isto com uma perna às costas, porque apesar de pequeno é rijo e mostrou no fim-de-semana que tem estofo de campeão! Todos os pequenos que sofrem têm esse estofo, o meu filho não é diferente dos outros. Mas para quê ter que o demonstrar já tão cedo? Traumatizada fico eu com a evidência crua que , ainda que de sentinela a antecipar, a prever,a aconselhar, algumas serão as vezes que falharei as coordenadas e eles caiem mesmo ao lado sem que possa fazer nada a não ser lamber-lhes as feridas!


    Hoje chove estupidamente nesta terra açoriana e a minha disposição é sombria tal qual a cor deste céu! 









   

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Os bichos cá de casa

   Tenho uma certa tendência para complicar a minha vida! Gosto de bichos e os bichos gostam de mim, gosto demasiado de bichos e os bichos respondem da mesma forma, um íman invisivel que nos atrai; não há gatinho na rua a quem não me apeteça fazer festas, cão rafeiro que não se aproxime de olhos mansos e perdidos.
   Quando vim para os Açores, trouxe 3 cães, o que muito me custou, que sai imensamente caro transportá-los por avião, sem falar nas caixas transportadoras, caras e de utilidade pouco recíclável. Ainda pensei deixar um dos cães com uma pessoa amiga mas achei injusto trazer uns e deixar o outro. Lá vieram todo, cães e filhos em igual proporção.
   Pouco tempo passado cá na terra oferecem-me um coelho branco, ainda gaguejei uma primeira recusa mas o entusiasmo de ter um novo inquilino, parou-me a tempo e um dia depois o coelho branco de olhos vermelhos instalou-se lá em casa. Ficou ao cuidado de todos e teve uma vida feliz e despreocupada durante dois anos até que por um descuído do filho do meio, em plena crise de adolescência, um bicho do mato em forma de gente, o coelho, em menos de um farelo, tornou-se brinquedo para os cães, que com a alegria exfusiante de todos os cães, não souberam cuidar do brinquedo e partiram-no em dois tempos. Quando dei pela coisa já o felpudo branquinho jazia mortiço no quintal, cuidadosamente guardado por 4 cães em decepção. A tristeza dos filhos foi insuportável de aguentar e já no dia seguinte novo inquilino se instalou lá em casa, não branco, mas castanho versão anã do primeiro mas igualmente fofo e frágil. A este o destino foi mais severo, envergonha-me de dizer que foi cruel! O adolescente, cada vez mais desleixado, esqueceu-se, imagine-se, esqueceu-se de dar comida ao animal e este finou-se, por inanição depois de 4 dias de penúria em que não soube protestar, chamar a atençao. Inconcebível! O meu filho está mortificado, com razão mas desta vez não lhe vou aparar a dor, quero que compreenda que o que aconteceu foi grave, que por sua única responsabilidade, um animal a seu cargo morreu. E, acabaram-se os coelhos cá em casa, não aguento passar por mais uma desilusão.
   No domínio dos gatos, surgiu o primeiro há dois anos, ainda vive, por qualquer razão obscura que protege uns bichos mais do que outros, é a matriarca felina e tem-se sabido aguentar incólume, absurdamente chata e antipática! Há coisa de oito meses apareceu a princesa lá de casa, uma gatinha deliciosa de pêlo comprido, com uma qualquer deficiencia nas patas traseiras que lhe dava um andar absurdo e encantador. Essa gata era a menina dos meus filhos e foi mimada como nenhum outro animal o tinha sido até então. O seu fim foi trágico, o conjunto das circunstâncias que o proporcionaram estavam perfeitamente alinhadas e a gata caminhou irremediavelmente para o seu fim. Os cães, outra vez eles! Novo brinquedo, este não tão colaborador! Agarrei na princesa já toda desalinhada e em choque e observei-a achando que tirando uma incapacidade de mover as pernas que pensei ter a ver com a sua deficiencia e estar dorida e em choque, ela iria sobreviver. Era de noite, já muito de noite! Não me ocorreu ligar ao veterinário, achei que iria sobreviver, sempre achei isso! Mas a gata estava condenada, rapidamente o estado dela se deteriorou e eu, a velâ-la percebi finalmente que ela iria morrer e essa constatação foi insuportável. E como dizer aos meus filhos que o bicho adorado lá de casa tinha morrido?! Foi uma noite de pesadelo, a gatinha exalou o seu último suspiro com algum sofrimento e eu fiquei inconsolável! Os miúdos foram mais valentes, choraram, fizeram-lhe um funeral e um enterro bonito, o Gui fez um desenho que colocou na campa. Uma semana depois, e depois de concordarmos em família que as saudades da princesa estavam a ser muitas e penosas, fui com o Gui buscar uma gatinha ao gatil municipal: não foi difícil escolher: surge-nos uma gatinha enfezada de várias cores que mal vem para o meu colo, calma, muito calma, se põe a ronronar como se pertencesse aquele colo, desde sempre! Não nos tirou as saudades da princesa mas ajuda! Como todos os humanos também todos os bichos são insubstituíveis!
   As minhas gatas tem um convívio frio, a pequena gostaria de uma maior aproximação, a grande olha-a com desdém. A pequena entendeu desde cedo que a grande é antipática por natureza e resigna-se a ser bufada de tempos a tempos e importunada com brincadeiras um tanto ou quanto abrutalhadas quando a grande lhe apetece brincar.A grande trata a pequena com sobranceria, um pequeno monte de pelos com pernas em que pode treinar algumas movimentações atacantes em que não raras vezes ferra os maxilares com maior ímpeto que o desejado.
   Quanto aos cães admito o meu cansaço! Os cães são cansativos, de tanta necessidade afectiva tornam-se aborrecidos! Confesso a minha incapacidade para distribuir atenção a tantos seres vivos! Os quatro que tenho esgotam-me a minha paciência! Houve tempo em que preferia cães a gatos, agora admito dizer que prefiro os gatos aos cães. Os meus cães em competição unem-se dois a dois excepto quando o assunto é comida, neste caso é cada um por si! A Dalila, uma husky valente, cadela apanhada na rua a vaguear perto da lixeira municipal gostaria de ser a chefe e consegue-o de tempos a tempos quando o pretinho Barnabé lhe dá oportunidade, o que não sucede sempre, porque de ser tão mandona, ao Barnabé esgota-se a paciência e aí o caldo entorna-se. E ainda não referi o mais problemático, Gastão Elias, ser de difícil definição, um fox terrier de pêlo na venta e muito pouco juízo que pensa que pode com todos, e já teve motivos mais do que muitos para pensar o contrário;sim porque eles pensam, não tenho quanto a isso a menor dúvida! O Gastão é um hiperactivo com défice de atenção, incapaz de aprender uma ordem, mais, sem vontade de aprender uma ordem porque isso dá trabalho e concentração e isso é coisa que lhe falta. Um ser tão stressado que respira ruidosamente com a expectativa do disparate, capaz de saltar nas 4 patas em simultâneo, como se tivesse molas nos pés! Finalmente, a Minerva, mãe do Gastão, outrora stressada, hoje em dia com os seus venerados 12 anos um pouco mais serena, a matriarca dos quatro a quem ninguém pede conselhos e que perdeu a sua autoridade faz tempo e conformou-se com isso. É a única com autorização para entrar em casa porque é também a única a não querer comer os gatos à primeira oportunidade. O equilibrio entre os quatro é precário e obriga-me a um esforço hercúleo para manter a troupe estável! Nem sempre isso se consegue e sucedem lutas fratricidas  de resultado incerto! Por vezes desespero mas penso que para o bem ou para o mal são meus e a eles lhes pertenço. Certo, certo é que a mais cães respondo com um redondo não! Fico-me por estes!
   
  

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A turma de oportunidades

   Tenho uma relação de amor/ódio com a minha turma de oportunidades! Certo, certo é que relação monótona não é! Aqueles gajos conseguem fazer-me sair do sério, atingir um certo patamar de loucura até que uma réstia de auto-preservação surge e me faz parar antes que cometa um acto irreflectido de que me arrependa. E por gesto irreflectido falo dumas bofetadas profilácticas bem aplicadas e comprovadamente eficazes. Em 25 anos a dar aulas não cheguei a uma dezena de bofetões; todos bem aplicados, com força q.b., nenhum com força suficiente para deixar marcas, com excepção de um, de quem vou falar agora, passado na escola da Lousã: a artista era um daqueles miúdos terriveis, rosto bolachudo, de língua afiada e inteligente, miúdo gordito, de rosetas vermelhas nas faces que achava que era ruím e fazia por mostrar isso; pertencia a uma daquelas turmas-maravilha de currículos alternativos, para quem eram destinados os professores com perfil para os aguentar - vim a saber, na altura, que tinha esse perfil, apesar de não saber muito bem quais as caracteristicas necessárias para integrar esse grupo alternativo de professores. A turma onde esse aluno estava integrado era tão má, mas tão má que se abria uma clareira sempre que eles passavam; um deles andava sempre a fazer companhia à polícia, outros saltavam as redes e desapareciam, numa turma que não chegava a 10 pessoas!! Os professores da turma, eles próprios, não eram também muito certos; as teorias lindinhas de pedagogia aqui não funcionavam; a teoria certa era a que desse resultado no momento, tanto podia ser o comentário mais odioso para o aluno de forma a humilhá-lo como uma pancada nas costas! Era o que desse certo a curto prazo! E nem sempre dava certo a mesma para situação similar, era uma autentica luta de tentativa e erro! Por vezes resultava, por vezes era horrível, tão horrível que em  dias em que lhes tinha que dar aulas, já tinha os nervos à flor da pele e preparava-me mentalmente para o embate. E os estupores parece que intuiam isso! Basicamente faziam-me a vida negra e uniam-se para me dificultar as aulas o mais possível! A mim e a todo o grupo de professores da turma! Aquela ideia gira de que os putos gostam todos de educação física é um mito: estes detestavam educação física, não jogavam futebol, as bolas em geral eram aborrecidas e quando lhes punham as mãos em cima era geralmente para as fazer voar para o espaço ou para a estrada, não tinham habilidade sequer para correr; aquelas bestas, que grandes eles eram, só gostavam de uma coisa, pasme-se: de fazerem ondular as fitas de ginástica ritmica; era vê-los pelo pavilhão de fitinhas cor-de-rosa, cor-de-laranja ou azul bébé a fazerem serpentinas, circulos, saltarem por cima das fitas, um encanto, uma ternura, um momento de bizarria!
   Adolescentes em plena crise de puberdade sentiam uma necessidade enorme de falar de sexo e muitas vezes eram grosseiros e ordinários nos comentários para colegas e até professoras. Esse tal artista, certo dia, resolveu fazer um comentario sobre as minhas pretensas performances sexuais e ainda antes de se ter apercebido do comentário já lhe tinha caído nas rosetas rosadas uma mão, em modo vaivém, bate com a palma e regressa com as costas! Durante um breve instante em que o tempo parou, ele olhou para mim, o rosto avermelhou de tal forma que temi uma apoplexia e desde esse momento começamos a entender-nos melhor, achei comovente o dia em que ele me pediu amizade pelo facebook e eu, um coração mole, aceitei. A esse foi impossível disfarçar os dedos marcados no rosto, a força aplicada foi pensada para magoar e para que ele soubesse que lhe estava a arriar com vontade! E ele que era inteligente percebeu! As outras palmadinhas que fui dando ao longo dos anos, foram mais suaves mas ainda assim, serviram para impor o meu ponto de vista quando a situação se extremava: a minha autoridade como professora! Perdida essa autoridade, antes dedicar-me ao canto lírico ou à apanha da azeitona ou do tomate porque para o ensino estaria perdida!


   Hoje os queridos dos meus meninos de oportunidades andam a dar-me água pelas barbas e sinto que já passei por isto tantas vezes e juro que por vezes o sentimento é insuportável de aguentar! Por vezes já vou a atacar antes mesmo de eles abrirem a boca "respiraste, rua!" Outras vezes é passar-lhes a mão pelo pêlo, tadinhos que sofridos que são, que ausência de tudo! Certa que a generosidade e o carinho nem sempre se respondem com gratidão, muito pelo contrário! Nestes rapazes e raparigas o retorno do investimento é observado muitos anos depois, quando passando na rua, um ser vagamente conhecido nos aborda e nos diz " xii setora, eramos horriveis, turma horrivel, não percebo como nos aguentou, e a setora está boa, ainda continua a dar aulas?" Engraçado que fazem sempre a mesma pergunta " a professora continua a dar aulas?" como se não concebam a inusitada possibilidade de ainda andarmos nisto e não termos já resvalado para a loucura total.
  Outro dia, contratei uns quantos ( com autorização parental ) para me irem limpar as ervas do quintal! Fui buscá-los, paguei-lhes o preço justo pelo seu trabalho, alimentei-os a pizzas e coca-colas como mimo final e fui levá-los a casa. Trabalharam bem, um deles topa-se que não faz outra coisa, tem já mãos de cavador e apesar de ainda miúdo, é musculado e seco de carnes, adivinha-se que por aqueles braços tatuados já passou muita carga, de pancada também. No dia seguinte cumprimentavam-me de "Olá Patroa!". Hoje, o trabalhador resolveu não colaborar, parecia claramente possuído, aqui entre nós, roda muita droga por esta terra e não sei até que ponto estes miúdos não andaram já a snifar umas coisas! Que grande merda! Quando julgamos que já os temos do nosso lado, que finalmente conseguimos abrir uma brecha naquelas suas carapaças duras e renitentes, eles esgueiram-se para o lado! Foi mandado sair da aula, uma sensação de impotência do caraças! Saiu em soberba arrogância! Daqui a dias é capaz de vir ter comigo mansinho e a querer colo, vou ser bruta, uma besta como também sei ser, ou o contrário, ou as duas coisas em alternância e vamos andar nisto até que um dia, muito mais tarde, me encontre na rua e me interpele " Setora, lembra-se de mim? Que turma horrivel! A setora ainda dá aulas?"