quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

As festas da Ilha Terceira segundo o ponto de vista de uma quase estranha mas em perigosa condição de o deixar de ser

   Na ilha Terceira festeja-se muito! É um facto indesmentível. Os terceirenses são famosos pela sua vertente pândega, pela atracção indómita para o prazer! Gerem a sua vida não segundo as estações do ano ou as semanas de trabalho mas de acordo com as festas! E quando pensam em semanas de trabalho é para afirmarem com um brilho nos olhos " faltam 3 semanas para o início das touradas à corda" ou " daqui a um mês vou encomendar os meus sapatos para as marchas".  E há festas com fartura que aplacam  o terceirense na sua ânsia de divertimento. O terceirense de gema tem também uma visão de futuro, vê sempre mais à frente, no caso e dando um exemplo que se perceba, se está nos festejos de carnaval e imbuído até ao sabugo na organização e no espírito da coisa, uma parte de si, pensa já,  nas marchas das sanjoaninas. Não tem uma visão redutora, pelo contrário, está sempre à frente no seu tempo. De tal forma é assim que um terceirense que se considere puro senta-se para almoçar pensando já no que irá comer ao jantar. Têm uma alma previdente. São deles as famosas frases " antes sobrar que faltar" ou a maravilhosa " Ó Maria bem comi, estou amanhado até cear!".  Ainda o perú de Natal  não arrefeceu no bucho e já o terceirense a sério se lembra da  proximidade  daquelas deliciosas quintas-feiras dos amigos e dos compadres. Não sei o porquê de serem às quintas-feiras mas acredito que haja uma explicação esperta: se as festividades forem nas quintas não se gastam as sextas com essas comemorações e ainda têm as sextas à noite livres para a continuação da farra, um fim de semana alargado sem ponte visível mas com o mesmo espirito folião. São 4 dias extras em crescendo até que explodem no Carnaval:  começam com os Amigos, passam para as Amigas, continuam nos Compadres e terminam nas Comadres e quando se vai a ver, dois dias depois, no sábado seguinte  rebenta o Carnaval e a loucura que já vai grande torna-se demente. E a doença pega-se: eu estou irremediavelmente convertida à loucura carnavalesca e a todas as outras, aliás!  Os terceirenses nestas coisas de inventarem formas de se divertir são grandes, é deles os excessos dos Amigos, das Touradas à corda, dos Bailinhos de Carnaval ( que passa por ser uma das maiores manifestações teatrais amadoras do mundo, leram bem!), dos bonecos chamados de Maios no feriado do dia 1, dos Bodos de Leite associados às celebrações do Divino Espirito Santo a iniciarem-se no domingo de Pentecostes e prolongando-se para o domingo seguinte, o da Trindade,   das festas de S. João em Angra seguida da concorrente na Praia no início de Agosto. Que nisto de festas pagãs ou cristãs, os terceirenses não são nada esquisitos nem preconceituosos, se é para comer e beber com fartura, comemoram-nas com a mesma vontade e empenho.


   Em Setembro entra-se num momento breve de algum recolhimento, vai-se a pé até à Serreta para pagar diversas promessas, mas estou em  crer que no fundo, no fundo, o Terceirense vai lá para expiar os seus inumeros pecados da gula e do prazer, cometidos ao longo de nove intensos meses. Mesmo aí, com o espirito cristão um pouco mais despertado, consegue-se um feriado à segunda-feira à custa de tanta devoção o que é aproveitado para mais uns festejos, mais recatados, sendo certo, que nestas coisas religiosas o terceirense é muito respeitador. De Setembro a Dezembro entra numa morrinha em que se festeja pouco...socorre-se ainda das festas de S. Carlos, lá se consegue enfim mais uma tarde em que não se trabalha, meio feriado de umas festividades de 2ª categoria mas de que não se prescinde, não tendo outras a que  se agarrar.  Esgotadas as festas a que recorrer, é prioritariamente nos meses de outono, início do inverno que os terceirenses aproveitam para trabalhar nos ofícios que os sustentam e lhe dão o substrato para as festas, de que se alimentam verdadeiramente, algo a que se desabituaram nos restantes meses do ano. Que não se pense que o terceirense não é trabalhador, grande engano, no entanto trabalha melhor quando o faz por gosto e que mais gosto poderá este ter do que trabalhar para as suas festas?! É um ser festivaleiro e alimenta-se disso como de pão para a boca; no caso do terceirense, alimenta-se dos dois em igual medida! Tenho uma amiga médica que me contou esta história que poderá ser repetida com outras personagens, em outras situações, que não faltará à verdade:  Internamentos hospitalares de senhoras e senhores doentes seus em épocas de festas nas suas freguesias, touradas à corda famosas, Sanjoaninas?! Doentes a sério que precisam de exames médicos, cuidados específicos hospitalares na época alta da pândega colectiva??!! Credo! Nem pensar!  Venham as festas que a doença pode esperar! Ou  como diria o nosso Luís de Camões e aí absolutamente de acordo " Antes a morte que tal sorte!"

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