domingo, 30 de dezembro de 2012

Uma espécie de loucura

   É a inevitabilidade dos finais de ano: retrospectivas de tudo e mais alguma coisa e promessas de que o próximo será diferente e que para isso se moverá montanhas se preciso for para que se cumpra o que se prometeu! Eu cá normalmente não faço promessas, peço é a Deus e a mim, de que tudo depende, que não fique mais doida do que já penso que sou. Explico-me: eu sou uma alma positiva no entanto cheia de minhoquices na cabeça. Uma certa forma de ser louca mas consciente desse facto, o que por si já deve significar que não deve ser coisa de grande gravidade! Penso eu... Quando tinha vinte anos achava que ia morrer antes dos trinta. Já muito antes, quando tinha oito anos tinha a franca percepção que não chegava aos nove. Cheguei ao dia em que fiz os nove anos e fiquei surpreendida, andava já a preparar-me há muito tempo para que a passagem da minha vida por este mundo fosse breve e não tivesse nada verdadeiramente importante para levar dele. A ideia era tão clara na minha cabeça que nos dias que antecederam os meus nove anos não conseguia pensar em nada a não ser que era injusto, ainda não tinha beijado um rapaz na boca, já agora em outro sítio qualquer e duvidava que as experiências que fazia no espelho ou na pele do meu braço me desse uma ideia aproximada da sensação, não ia ter bebés e pouca marca deixaria nesta minha breve experiência terrestre. Passada a barreira dos 9 estive uns anos apaziguada com as minhas merdas até que aos 17 anos me deu forte outra paranóia; tinha a certeza que iria morrer subitamente de um mal muito raro e a quem falei a pouca gente. Os meus pais esperaram um pouco a ver se passava, não passou pelo que não tiveram outro remédio senão levar-me a uma psicóloga. Dessa época era também a minha obsessão por ligar e desligar interruptores, fazer certos rituais na ordem correcta, as vezes que fossem necessárias até me sentir apaziguada, o que era raro e a minha paixão pelo Steve Mcqueen. A  maluqueira era pesada e deve ter doído muito à pobre da minha mãe que era aquela que visivelmente sofria mais com as minhas maluquices.  Nessa época surgiram também os ataques de pânico. Toda eu achava que iria morrer de repente e subitamente começa a dar-me aqueles sintomas que os panicosos crónicos sentem; junta-se a fome com a vontade de comer e imagine-se como eu andava. Tudo isto sem um diazepanzinho para ajudar nem antidepressivos, fui curada a poder de conversa psicológica. Chegou uma altura em que me passaram as maluquices dos comportamentos repetitivos dos obsessivos-compulsivos, simplesmente disse a mim mesma que iria deixar de os fazer e se morresse por esse motivo, paciência que eu já não tinha pachorra para tanta parvoeira! O que é certo é que não morri nessa altura, não morri mais tarde, tive direito ao meu primeiro beijo na boca que achei na altura nojento, tive os bebés que tanto desejava, passei os 35, os 40 e eis-me chegada aos 45 anos, quando no melhor dos meus palpites já deveria estar a servir de alimento na inevitável cadeia alimentar há uns bons 15 anos. No entanto, continuo a achar que de velha não morro! Há certas coisas que não mudam, serei sempre hipocondríaca, uma hipocondríaca controlada, numa dose suave, no entanto, uma coisinha insidiosa que está cá sempre para nos moer! Há coisa de 6 anos regressaram os ataques de pânico, aquilo é que foi dar espectáculo! Quem assistiu aos meus descontrolos não esquece, é memorável, eu própria, friamente,  pergunto de mim para comigo como é possível não me dar mais vezes vontade de bater com a mona na parede para ganhar algum juizo! No entanto, visto de fora, a coisa deve dar vontade de rir, tenho pena que não haja uma forma de podermos rever os nossos comportamentos sem ser através do nosso pensamento. No nosso mundo já tão virtual deveríamos poder observar comportamentos da nossa vida em momentos específicos  tipo introduzíamos os dados,  dia tal às tantas horas, local tal e termos acesso a pedaços da nossa vida! Tenho curiosidade de me ver de fora para dentro em pleno ataque de pânico, penso que seria a forma mas eficaz de me curar, se mais não fosse pela vergonha da figura que fiz! 

   Não sei se os panicosos diplomados, os dos fóruns temáticos gostarão do que digo aqui, é que eles levam muito a sério esta praga que são os ataques de pânico! Eu também levo mas tem piada  brincar com coisas sérias, eu pelo menos já tenho o diploma que me permite gozar com isto tudo. Não há outra saída para tanto mal de cabeça.








domingo, 16 de dezembro de 2012

Loucos... professores!

   É nas minhas idas para a vila de S. Sebastião e no regresso a casa que mais penso; normalmente penso, valha-me isso, mas aqui, no carro do pão azul de amortecedores de carroça,  o cérebro  entrechoca-se  e as sinapses nervosas dão-se mais depressa, para o melhor e amiúde para o pior! E quando digo pior quero com isso dizer que me dá para pensar mal! Pensar mal de alguma coisa, de alguém, umas vezes com razão, grande parte das vezes sem ela! Pensar como nesta vida de 45 anos me deparei já com tanta gente que tanto tempo me fez perder! Que é algo que com 45 anos já não tenho paciência: perder tempo com gente que nada me diz, nada me dirá e com quem não tenho a mínima vontade de confraternizar! E todos nós sabemos como nesta vida tantas vezes temos que aguentar, conviver, falar, partilhar tempos, momentos, instantes que, podendo nós sermos inteiramente livres de gerir as nossas vidas, nunca nos cruzariamos, nunca falariamos, nunca respirariamos o mesmo ar. Parece cruel, é cruel, é assim. Não aspiro à perfeição, não tenho espírito de monge tibetano, sou imperfeita, irrequieta, insatisfeita! E não tenho paciência para aguentar gente chata, incompetente, chica-esperta, lambe cus, submissa. No mundo do ensino, volta e meia ouve-se que um professor está de baixa por incapacidade psicológica; passou-se, fundiu a cachimónia, passou para lá do lado negro da lua e pode fazer o que quiser, acumpultura, reiki, ioga e outras cenas psicadélicas e esotéricas ou acudir-se de ansiolíticos  e antidepressivos, que não há volta a dar. Professor que endoidece, não volta a são. O ser humano doido é terrível de se ver; um professor doido é ainda pior, é requintado na sua insanidade e para além disso não há dois professores doidos iguais na expressão das suas maluqueiras; dou aulas há 25 anos pelo que me já foi dado observar muitos colegas doidos ou a caminho de o ser; posso afirmar que ver um professor a endoidecer é patético, no entanto inevitável, para quem não tem estrutura, força, jogo de cintura, um certo relaxamento professoral que muitas vezes se confunde com desmotivação. 
   Havia, e há, eu é que já lá não estou, um professor na minha escola de L. que parecia saudável; os professores doidos normalmente enganam bem, toca-se no ponto que despoleta o mecanismo gerador da loucura e é vê-los resvalar; este professor agia com uma certa sobranceria com os novos na casa, era dado a piropos a professoras jovens; este estado de graça com as professoras durava algum tempo até lhes ser dado conhecer o personagem nas reuniões de avaliação; tornava-se arrogante, dono da razão, achava que escrevia bem, ehehehehehe, deixem-me rir, era daqueles fulanos que tinha uma caligrafia sobre o comprido e inclinada, uma forma demodé de desenhar as letras e não sabia redigir uma simples acta; tinha uma tendência absolutamente irritante para ser do contra, não que tivesse argumentos que sustentassem a sua posição mas porque tinha necessidade de ser o centro das atenções. Os mais velhos já o conheciam de ginjeira,  deixavam-no falar, os novos, incrédulos e receosos calavam-e por outros motivos, aqueles que como eu lhes chegava facilmente a mostarda ao nariz, tinham algumas pegas desagradáveis. Era daquelas pessoas que conhecia toda a gente, normalmente gente importante. Nunca conseguiamos fazer bonito na conversa porque o homem conhecia sempre essa pessoa e o amigo dessa, ainda mais importante que a primeira.  Das primeiras vezes que me viu elogiava-me e chegou certa vez a dizer quando entrei na sala de professores " Chegou a primavera!" Esse estado de graça terminou quando um dia achou que eu seria uma boa parceira para formar uma lista para o conselho executivo. Tive a audácia de me rir e tal afronta nunca me perdoou. A  partir daí nunca mais me falou, se tinha que passar por mim ignorava-me, não comentava nada do que dizia, e o melhor, coibia-se de cair em cima dos mais fracos, outros colegas nossos, a quem amochava como tão bem sabia, a quem por feitio ou gentileza não tinham estrutura para lhe responder, porque sabia que se fosse bruto, indelicado, grosseiro, eu estava ali para abrir a boca. Contaram-me por esses tempos que o homem tinha uma história mal resolvida com o ultramar, umas quantas armas em casa e alguma disposição para se servir delas junto dos colegas. Nunca se confirmou, no entanto fiquei sempre a pensar que um dia chegaria à escola e seria recebida a tiros de caçadeira. Na escola de L. não havia professor mais louco e ainda assim era discreto, para quem o não conhecesse de perto. Vinda para as ilhas, novos personagens surgem, cada um deles perfeito na sua loucura. É que cada um deles não admite que está louco pelo que não consegue fazer a regulação do seu comportamento. Admitir que não se está bem permite ter mecanismos de prevenção. Assumir-se como são traz os maiores desvarios. Haviam duas, mulheres, na escola B. Uma era uma louca passiva, só fazia mal a si própria, a outra, uma louca arrogante. A primeira, cuidava cada qual de lhe passar ao largo e a coisa funcionava; a segunda era mais difícil. Uma louca com predicados de catolicismo arreigado, uma espécie de santa em tentação permanente do demo. A mistura era explosiva; a essa senti-lhe a língua venenosa e alguns calafrios na espinha. Também me detestava quando um dia, cheia de beatice e amor ao próximo, censurou um colega por ter tido este  um comentário homofóbico; o que lhe disse deixou-a de tal forma possessa que senti uma sombra escura a atravessar-me as meninges, uma cena de filme de terror! Essa colega além de insane achava que toda a gente era burra, tomava-nos por totós.  Uma louca varrida com princípios cristãos que punha de parte sempre que lhe convinha quando, por exemplo dizia a um aluno " esmago-te a cabeça contra a parede!".Essa ainda dá aulas, reforma compulsiva nem se pensa nisso, algumas cabeças mais ameaçará esmagar até que a sua loucura a faça esquecer de vez o caminho de casa até à escola. Por agora chega invariavelmente atrasada, sempre culpa do outro, do carro, de Deus ou do diabo, vitima constante e inocente. Tempo haverá que deixe de chegar e fazer assim, um favor aos alunos e a si própria.
   Há, no entanto, uma classe à parte no mundo do professores. São aqueles que são loucos e para além disso, são também professores de educação física. É sabido que este grupo de professores é uma classe à parte, são descontraídos, quase relaxados, têm uma forma muito própria de ver o ensino, os alunos, eles próprios e qualquer um de nós tem memórias, pelo menos uma, de algum professor de educação física. Eu própria tenho como modelo do bom professor, dois, um deles de educação física: a primeira, a minha professora da 3ª e da 4ª classe, a Dona Maria do Rosário, professora à moda antiga, de quem ainda me recordo às feições e o modo de ser, delicado mas incisivo, branda mas com autoridade. O outro, um professor de educação física. Estes dois professores, estou certa, moldaram o meu carácter  ajudaram-me a ser quem sou. Tive a sorte de os ter sãos porque se por azar me tivessem surgido outros que conheci, provavelmente seria desajustada para o resto da minha vida. Normalmente, os professores de educação física são muito fixes, quando são doidos, são doidos a valer. Sem fazer grande esforço de memória posso já, num repente que demora um piscar de olhos, nomear quatro. Quatro professores de educação física, meus colegas, em alturas diferentes do meu percurso como professora que desaconselho ao meu pior inimigo. Dois deles apresentavam-se de gravata e fato completo o que já de si cria algumas suspeitas. Parece que um era observador de arbitragem de futebol (?) e casualmente, por coincidência engraçada, observava jogos sempre após as aulas o que não lhe dava muito tempo para se trocar; sabendo como esta classe é prática, entende-se a racionalidade da decisão da vestimenta. Nunca o vi de fato de treino, o que neste grupo, é um facto a estranhar. O outro, nunca percebi verdadeiramente porque dava aulas de educação física; parece que sim, que era verdade, a mim parecia-me mais um delegado de propaganda médica. Ao primeiro, constatei o facto de ser doido varrido, bastava para tal abrir a boca e falar, o segundo era de tal forma obscuro e surgiu tão cedo na minha missão como professora que me mantinha a uma distância segura. O terceiro louco fez-me a vida negra durante alguns anos, era daqueles que saem da faculdade já doutorados, sem necessidade de mais aprendizagem. À conta de tal pressuposto fez os maiores desvarios e foi o primeiro grande responsável por me arrepender de ter enveredado pela profissão. De olhar cândido a cada censura velada ou declarada, agia de forma igual na vez seguinte o que me fazia supor, que efectivamente não tinha a capacidade de pensar. Mas pensava, de forma retorcida pensava. Tornou-se uma personagem incontornável no historial da escola de L., anedotas feitas à sua conta e à minha conta que o aturei mais do que o suportável. Um dia, fez o favor de desaparecer e deixou atrás de si, saudades nenhumas e histórias, muitas! E é só por elas que se recorda, atente-se, com alguma nostalgia!  O último e mais recente, pertence ao historial açoriano e já tem uma crónica só para ele. Para os interessados, aconselha-se, neste blogue, o que diz " O lambe-botas". Este, parece que ainda vai lambendo umas quantas, entretanto,  zarpei eu de B. para S. e por aí  não descobri, até à data,  um louco à altura. Ainda!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

   A lojeca da Worten no Modelo de Angra é de fugir e só lá entro sob protesto! Ou por especial pedido dos meus filhos. O meu filho mais novo tinha umas poupanças e quis ir comprar o seu presente de natal, o que me pareceu bem. Não conseguindo fugir ao inevitável lá entramos no sitio, repleto de gente e com uma alminha a atender. Nada no seu corpo evidenciava um andar mais rápido, um olhar mais acutilante para responder lesto às solicitações de uma manada de gente num domingo à tarde, muito pelo contrário. Dirigi-me ao funcionário e perguntei: não há mais ninguém a atender? Alguém para a caixa?! Olhou para mim com olhos de quem olha e não vê, respondeu-me que o outro funcionário tinha saído para atender alguém dentro do supermercado (!!!) Parece-vos bem que num domingo à tarde, com um maranhal de gente a cirandar por ai, haja duas pessoas a atender e uma delas em parte incerta?! Olhou para mim com ar de quem ouviu mas não processou e encolheu os ombros retomando a sua empreitada, devagar, suavemente! A bufar de impaciência fui fulminada pelo meu filho do meio, como ele se intitula quando protesta, afirmando ser o mais negligenciado;  o filho de 14 anos que sente vergonha da mãe em quase todos os momentos em que lhe é dado conviver com ela em ambientes públicos " MÃE! Está calada!" voz sibilina para não dar nas vistas, ele que gostaria de ter uma capa invisível para usar nas raras ocasiões em que vê a luz do sol.  Ia já a abrir a boca a pedir o livro de reclamações mas fechei-a em menos de um farelo e protestei " estás a mandar-me calar porquê? não tenho razão?" Pergunta inútil, nesses momentos, os filhos não querem saber se os pais têm ou não razão, querem é que eles não os envergonhem e que se mantenham calados, que não armem confusão e principalmente que não possam ser  identificados com aqueles cotas arruaçeiros e estridentes! Olho em redor, em busca de socorro, para a carneirada que espera paciente, nem um sorriso cúmplice,  um piscar de olhos encorajador, um agradecimento no olhar, nada! Olham para mim como se olha para uma melga aborrecida e inoportuna!  Eram umas dez pessoas que se amontoavam no balcão, o funcionário do mês, de eficiência supersónica continuava a carregar botões de um teclado, só eu bufava, abanava as ancas, sujeita a uma apoplexia! Virei-me e disse baixinho " fiquem aí então, pacientemente à espera que o paquiderme vos atenda que tenho mais que fazer" E eles, filhos, impacientes por natureza, de tolerância zero aos erros constantes da mãe,  olham-me borregos e aguentam firmes na fila, tenazes como ferro  com  o que lhes agrada , corajosos como mártires e pacientes como santos! Apareceram  meia-hora depois, de rosto luminoso e de presentes na mão.