quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Padaria em Angra...

   É despojada de quase tudo, tem o pão, o papo-seco, não tem bolinhos doces nem pasteis salgados, pelo menos à vista do freguês, tem uma máquina registadora, único sinal aparente de modernidade. Quando lá passei  não tinha ninguém a atender. Adoro o ferro forjado, adoro os azulejos das paredes, as janelas vagamente aparentadas com um sonho das mil e uma noites. As fotos foram tiradas com um telemóvel, não mostram a graça da padaria. Da próxima vez levo a máquina e peço para ver mais além, não faz mal perguntar, pode ser que me deixem espreitar onde fazem o pão e onde o cozem.




20 de Dezembro de 1962

   
   Sou filha tardia de uns pais de luto por outro filho. Sou a segunda geração de filhos de uns pais a quem lhes foi tirado, de chofre, um filho muito amado. A minha irmã, a Rui, nasceu de uma necessidade dolorosa de renascimento, a Rui foi a "luzinha que se acendeu" depois de anos de depressão inconsolável de uma mãe chorosa e de um pai que guardou tudo lá dentro, nem por isso menos  sentido. Sou filha não pensada mas nem por isso menos acarinhada por uns pais sempre presentes, pais já quase velhos que, contra todas as perspectivas conseguiram, na medida do possível, acompanhar a irreverência de uma filha mais nova, dócil quando pequena, irreverente, quase insolente quando crescida.
   Hoje, dia 20 de Dezembro, faz 49 anos que o filho primogénito morreu. Hoje como ontem, como sempre, a data é sentida profundamente: a mãe já deixou de pensar nela há alguns anos, a mãe já deixou de pensar que vive e que se arrasta neste mundo, a mãe vegeta, não vive, a mãe é um invólucro de carne e ossos onde de si resta quase nada; eu penso por ela e sei que a Rui o faz também. A mãe já deixou de pensar nas outras filhas que ainda vivem, no marido que já morreu, confunde a filha mais nova com a irmã que morreu há mais de 50 anos, definha e consome-se no estupor de uma velhice que a transfigurou. Eu recordo a data como sei que a Rui o faz, assim fomos educadas, a reverenciar um irmão que nunca vimos, um ser perfeito de meninice intocável, que não cresceu para contestar, criticar. A quem, sem maldade, como forma de nos educar na correcção de comportamento, fomos comparadas quando nos afastávamos do cânones de rectidão, de obediência. A quem, desde os meus sete anos, quando regressamos de Moçambique, visitava no cemitério, no jazigo onde permanecia, que ajudava a cuidar, a alindar com flores frescas. Era um local que temia mas ao qual sentia uma atracção irresistível.Eu mais que a minha irmã gostava de ir com a minha mãe, era  fonte inesgotável de pensamentos estranhos, tétricos que não afastava de mim; passeava por entre as campas, procurava fotografias de gente nova, horrorizava-me quando descobria uma criança, certas fotografias ainda as guardo na memória. A minha mãe nunca procurou afastar-nos dessa realidade de morte, anos mais tarde lamentava-se por isso quando, em plena adolescência me tornei uma rapariga obcecada por pensamentos tortuosos, mórbidos e doentios; disse-o várias vezes. Mas tudo isso passou! A realidade da morte sempre presente,  os avós que mais tarde se foram, à vez, as tias irmãs do meu pai, queridas tias, a tia Hercília, solteirona bonita e gentil, com os olhos da Elisabeth Taylor, que viveu para cuidar dos sobrinhos, a minha prima Paula, companheira de tantas loucuras e brincadeiras enquanto novas, os irmãos da mãe, o meu pai, em morte dolorosa, resultado dos inúmeros desvarios com a bebida e os amigos e a mãe a passar por tudo isso, a aguentar cada embate, sempre de pé, mulher de fibra forte, dura por vezes, que se ofendia quando lhe dizíamos isso mesmo, que era durona, que era de cepa forte, ela que tantas vezes precisava de fraquejar, que era duro ser sempre forte, que outros o fossem por ela que  também ela se sentia fraca.  A minha mãe já se foi, aquela que conheci, a de resposta rápida e de língua afiada, a que não deixava nada por dizer mesmo que fosse incómodo e ferisse os outros, em que me revejo em tantas circunstâncias da minha vida, a de discurso amargo já para o fim, um corpo que persiste para além de um espírito que se quebrou.
   
  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal

   Ouvi dizer que o Natal é quando a gente quer, ouvi dizer que o espírito do Natal deve permanecer pela vida fora, ser força e exemplo para nos fazer marchar neste caminho que nem sempre é doce, tranquilo, ouvi dizer que não é uma época no ano que faz o Natal, que o Natal é feito por nós e de nós para os outros. Ouvi dizer tudo isso, é bonito, é nobre,  afinal o Natal, muito a propósito, acontece no final de mais um ano, uma espécie de retrospectiva, onde se olha para trás e se pensa no que nos espera.  É o balanço de uma caminhada que se fez e de outra que se inicia prestes,  começar tudo outra vez, batalhar sempre,  virar o barco com vento de feição, armazenar provisões, ir buscar força, ganas, vontade para viver. Agarra-se na  família com a emoção de um amor remoçado, beija-se,  abraça-se e mima-se,  uma onda invisível de boa vontade  nos assalta, envergonha-nos do resto do ano onde estivemos, mudos, frios, indiferentes. Como se doses grandes de amor fraterno nos penitenciem dos pequenos esquecimentos e ingratidões a que votamos os outros, os que amamos de paixão e todos aqueles que passam fugazmente pela nossa vida mas que nos tocam com marca indelével e para quem não fomos honestos, justos, verdadeiros. Mas também serve para recordar todos aqueles a quem o nosso gesto, um que seja, pequeno, quase imperceptível, fugaz mas caloroso, gentil,  lhes deu o ânimo que lhes era vital, um pouco de nós, daquilo que somos mas que insistimos em esconder, em resguardar. Serve para isso tudo e para sabermos o nosso lugar no mundo, para não perdermos de vista as nossas referências, aquilo que nos faz ser como somos, as nossas memórias, as nossas percepções do que fomos através de todos aqueles que nos acompanharam de perto. 

   O Natal é mágico, com ou sem brilho de luzes e cores e canções e árvores enfeitadas, e prendas guardadas, escondidas dos olhos ansiosos das crianças; é sempre mágico, vibra independente do que se faz para o acolher. É generoso, gentil, alegre, cheio, criança. Celebra a vida, é esperançoso porque é passível de ser sonhado, alberga um futuro que pode ser risonho, que se espera que o seja, que será, jura-se que sim, que será! Terá que ser, animam-se todos uns aos outros, contam-se histórias, recordam-se os mortos, de tempos passados. Perspectiva-se a vida futura, os pequenos seres saltitantes e impacientes fazem por isso.

    Sendo os meus pais do baixo Alentejo, um de Garvão e o outro de Santa Luzia passava normalmente as férias de Natal  na casa dos meus avós paternos. Já os conheci velhos, achava até muito estranho que um dia tivessem sido novos. Tinha sete anos quando os vi pela primeira vez, já andavam nos setentas e muitos: o meu avô José já velhinho, uma trombose estuporada que lhe tirou as forças, arrastava-se pela casa. Fazia-me impressão aquele avô. Sempre o conheci assim, com um cinto de cabedal em que uma das extremidades lhe prendia um pulso e a outra extremidade o tornozelo do mesmo lado. Acho que servia para comandar a perna doente com o braço, um pouco como as marionetas. Não gostava muito de me aproximar daquele avô, tinha-lhe certo temor, quando me aproximava para o beijar a sua barba de 3 dias picava-me a bochecha.  A minha avó Augusta era uma mulher cheia de genica que matava galinhas sem ajuda e que cuidava de uma cerca onde alguns dos meus tios que viviam também na aldeia a ajudavam com a horta, as várias oliveiras e árvores de fruto e criavam alguns porcos. Tinham também uma porção de colmeias das quais saia um mel que me lembro dizerem ser muito bom. Daquela cerca recordo principalmente a excitação que sentia quando era necessário ir ao poço, que ficava ao fundo de uma vereda estreita, encimada por uma latada de vinha e éramos seguidos sem perigo pelas abelhas das colmeias. Um dos meus tios tinha a função exclusiva de levar a grande infusa para onde deitava a água que tirava manualmente do poço por intermédio de uma grande lata de alumínio, objecto feito especialmente para aquele trabalho; tinha uma técnica certeira de inclinar o recipiente a fim que se enchesse completamente de água e deixava a mim e à minha irmã, com extrema paciência, que experimentássemos também, tarefa que não se revelava nada fácil. Adorávamos o pão, o queijo e os enchidos, o café que a minha avó fazia e os cozinhados simples mas aromáticos: as sopas de tomate, as açordas, o bacalhau com grão… as filhoses e as fatias douradas e as cavacas cobertas de açúcar. E o campo… o cheiro do campo, o calor do verão, o frio intenso do inverno, a lareira onde se assavam castanhas e bolotas, onde nos sentávamos para passar o serão a ouvir os meus avós a contarem histórias de tempos duros mas com tanta graça que nos faziam rir, por vezes até às lágrimas. Recordo as cigarras, os campos de trigo, o sino da igreja a tocar para a missa do galo,  a paisagem despojada de excesso. Tudo me encantava!


   No Natal os avós tinham a casa cheia; era uma casa de piso térreo, a verdadeira casa alentejana das famílias pobres mas não miseráveis (como tantas vezes insistia em dizer a minha mãe). Havia quartos com fartura e tinha mesmo que ser, a minha avó teve 8 filhos, na época só uma das filhas tinha já morrido e havia os filhos dela, que continuavam  a ir lá. Eramos entre filhos, netos e genros ou noras, mais de vinte pessoas a dormir lá em casa, em camas de ferro, muitas ainda com enxergas de palha e bacio debaixo da cama que a casa de banho era longe e ninguém, no seu perfeito juízo, se levantava na noite gelada de dezembro  para ir fazer xixi  nas profundezas da casa; o telhado de telha antiga era forrado no interior com um revestimento de canas, o frio entrava e entranhava-se nos ossos. Eu e a minha irmã dormiamos na mesma cama, que começou a ser pequena demais para nós mas que gostavamos porque era quentinha e afundavamos-nos nela. A cozinha era o local de convívio da casa, dominada por uma grande lareira onde se fumavam os enchidos e onde havia sempre lume, de verão ou de inverno. A minha avó já tinha algumas das comodidades da vida moderna mas gostava sempre de aquecer a água à lareira e nós gostavamos que assim fosse. Três grandes infusas numa bancada do lado direito da cozinha, infusas que continham a água necessária para toda a lide da casa. Quando mais crescidas deixavam-nos  inclina-las para um recipiente redondo de cortiça para beber água, água cristalina do poço, água que permanecia sempre fresca. Não havia cadeiras para toda a gente, os mais rápidos ocupavam os espaços perto da lareira, o meu avô tinha lugar cativo, os restantes iam dançando ao sabor da sorte e da capacidade de aguentarem o fogo vibrante de azinho no rosto e nas pernas. Era mágico, olhar para o fogo, estar sempre a espicaça-lo, " olha que vais fazer xixi na cama se não paras de mexer no lume". As graças, as histórias da minha avó sobre algumas indiscrições passageiras, que metiam saias,  do meu avô, o risinho nervoso deste a recordar melhores momentos, os filhos a acrescentarem dados, pormenores picantes, as histórias a resvalarem para momentos mais tristes, as lágrimas do meu avô, verdadeiro poço de emoções preso naquele corpo inútil, a minha avó sempre vibrante, a primeira a levantar, das ultimas a ir para a cama, mãos largas em todos os aspectos da sua vida, que cuidou do meu avô até este não aguentar mais e que nunca vi doente. Dizia que queria morrer rápido sem dar trabalho  a ninguém. Foi atendida nesta sua última vontade,  morreu com 93 anos, morte rápida depois de não conseguir recuperar de um braço partido. Não é assim que devem ir todas as pessoas fortes? de morte rápida e misericordiosa? Último presente da vida?  
   Acabaram-se as idas ao alentejo com a mesma alegria, ela já lá não está! 
  
 Mantêm-se os Natais, mágicos sempre mas diferentes, muito diferentes!


   

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Facebookiando...

   Sabia que mais cedo ou mais tarde teria que falar nisto, fatal como o destino, assunto de agenda actualíssimo. Primeiro que tudo que fique claro que quando critico ou ironizo é a mim principalmente que censuro: sou culpada de todos os pecados facebookianos, tudo o que condeno no uso e abuso deste instrumento de cusquice instituída eu faço ou fiz, caminho  penosamente para a luz mas o percurso é longo e os hábitos (vícios) são difíceis de debelar. 
   O facebook é poderoso e apodera-se de nós, dos fortes e dos fracos, altamente democrático, serve bem toda a gente desde os incultos aos verdadeiros cultos, é tranversal, longitudinal e horizontal; faz casamentos, desfaz relações, faz-nos saber onde estão os nossos amigos e aqueles que não nos dizem nada mas que, por artes quase mágicas são nossos amigos à força, todos aqueles a quem aceitamos amizade, a quem não nos interessa a minima se estão vivos ou mortos mas a quem damos, contra todas as previsões, mais tempo da nossa atenção quanto seria esperado.
   Serve para saber quem é popular e quem vive em completa sombra, por mais graça que tenha e mais vídeos interessantes que apresente; permite saber quais são os amos e quais os lacaios, as versões lambe-cus virtuais, aqueles seres vagamente amorfos que vivem em comunhão online com os seus deuses, os campeões dos likes facebookianos; sabe-se quem merece todo o nosso respeito e admiração pelo número de "gosto" que consegue por cada entrada no seu mural! Se se quiser perder algum tempo em estudo verificar-se-à que, regra geral, a opinião é de concordância com a ideia inicial lançada, não há verdadeiramente debate, contradição; não é para isso que serve o face. Se se observa algum comentário mais azedo é certo e sabido que não haverá nenhum like de ninguém, os que interessam e os que não interessam e ninguém quer ser ostracizado por se armar em esperto e causar o mau ambiente na discussão! ( que de discussão não tem nada). Tal comportamento é condenável, mudamente condenável, dizer coisas que se pensa é o cumulo da idiotice, pode achar-se o que se achar mas, principio não escrito no facebook aceite como universal: não criar más ondas, não discordar na essência, usar da ironia mas no geral concordar com tudo o que se diz e de preferência em termos entusiásticos e quase orgasmáticos! Condescender, assentir, relevar, brincar,maravilhar, concordar,  verbos aceites e obrigatórios!
   Antes que me esqueça...vai já para o facebook! 

   Se não obtiver reacções é o cumulo da impopularidade e sendo assim é melhor que me reduza à minha óbvia insignificância.
   

domingo, 11 de dezembro de 2011

Relvão - Tarde de Dezembro

   Fim de tarde de Dezembro, temperatura amena e ar limpo. O Guilherme na sua ida semanal ao treino do jogo do pau, fotografias tiradas com o telemóvel, o que revela como linda estava a tarde para poder ser captada por uma máquina sem nenhum tipo de resolução e mesmo assim não envergonhar a fotógrafa!