quarta-feira, 18 de maio de 2016

A divorciada


   A mulher divorciada...
...desquitada...
...desemparelhada...
...desirmanada...

   É tema sumarento e cheio que derivações, afluentes e sentimentos poderosos. Sem saber bem como começar mas  dado que sou habilitada para falar desta casta tão especial, resolvi ir pesquisar sobre o tema e dei com triliões de blogues especializados  no assunto. São blogues densos, escritos por quem sabe, elas! Eles também poderiam mas faltaria o essencial, o fel.  São tantos que é caso para dizer que em cada blogger há uma divorciada; excepção das bloggers de culinária e de bricolage, essas são casadas, muito bem casadas e o sonho maior das suas vidas é alimentar e vestir o marido e os filhos, com pratos económicos mas saudáveis e roupas amigas do ambiente.
 Os blogues sobre o divorcio têm sucesso e muitas visualizações, só são batidos pelos blogues especializados em unhas de gel e depilação com linha, porque giram em roda de dois subtemas: o quão maravilhosas as mulheres divorciadas são e o quão javardos os ex maridos foram!  A divorciada típica é a mulher que se descobriu maravilhosa para não se atirar de uma ponte, que começou a pintar as beiças e a gostar de si própria ainda que viva com os olhos inchados. Descobriu também que será a única altura da sua vida em que não precisa de fazer dieta para emagrecer. Mais tarde, muito mais tarde, quando recuperar os quilos todos e porque é estóica na dor e sabe aguentá-la melhor que ninguém sentirá alguma nostalgia do único tempo em que vestiu o 36.
 A divorciada apercebe-se que há vida para além do casamento que já era, e no entanto vive ensimesmada com aquilo que podia ter sido e já não é. Rumina sobre a vida e sobre o sentido dela, sofre de constantes ataques de pena de si própria e do quanto o mundo é injusto. É uma calimero com filhos que vai batendo as asas a medo a ver se arrebita.

 O ex marido é para o resto da vida, como sarna sem cura, uma rémora bem atarraxada ao corpo de um tubarão martelo.
Adquirir o estatuto de solteira pós divórcio é uma impossibilidade! Pode casar e aí aumenta novamente de estatuto, não pode é insolteirar, está maculada para tal, só se redime se se atrelar novamente.  É uma cena tipo castigo, foste casada e não soubeste aproveitar, toma lá agora, aguenta - te! Ou então casa-te novamente! Existe enquanto esposa, divorciada é um embaraço! Uma falhada. Aí és divorciada? Não deu certo?! (acenos de cabeça com expressão de comiseração, boca franzida em desaprovação)... pois..... as pessoas hoje em dia não estão para aguentar os defeitos dos outros, dá trabalho. A divorciada não tem estaleca para casada, por culpa própria. Não sabe aguentar as contrariedades próprias do casamento, não tem fibra de monja, uma deficiência cromossómica.

   Enquanto recém sozinha alimenta-se principalmente  de rancor, e toda a gente sabe como esta ração é pouco calórica. Deixa de ter vida própria, passa pelo processo todo do luto pós divórcio enquanto o divorciado arranja uma forma mais prosaica, arranja outra mulher! É muito mais fácil passar pelo processo, com outra ao lado. Sentido prático é qualidade que falta a qualquer mulher, o homem utiliza-o muito bem em momentos de aperto. A divorciada não entende a simplicidade  da coisa, anda ainda às voltas com as questões de lealdade e tretas.
   Meses mais tarde é que se apercebe que ele não volta, ele percebeu isso no momento em que saiu de casa, Andou este tempo todo a matutar no que podia ser e não foi, enquanto ele tira a barriga de miséria. Na corrida para a emancipação de espírito anda uns seis meses atrás.               
   Quando se apercebe que é para sempre, consciente e conscienciosamente, contraria o mais possível o resto do bom entendimento que lhe resta com o ex marido. Fazê-lo penar um pouco dá-lhe um certo alívio às suas dores ainda que a dor passe a ser crónica.
   Como é uma sobrevivente, dá-se conta com alguma lentidão que não morrerá de sofrimento e finalmente arrebita. Começa a cuidar de si, a sair com as amigas e após um curto período em que o seu maior desejo era ser lésbica, lança os olhares a seres do sexo oposto. A medo e com vergonha a princípio, mais afoita após alguns ensaios. O ex sempre como comparação, o que se torna algo injusto para o ex que com a experiência, sai beliscado. Percebe finalmente que há mais mouros na costa e que a sua consumição era a de uma alma tola que só estava à espera de ser preenchida. E aí chegada é vê-la a desabrochar em toda a sua plenitude e desejo. O ex marido olha-a com outros olhos e chega a pensar se não cometeu um erro. Mas aí é tarde, o anátema da mulher casada já se diluiu na voragem dos dias e lhe parece a vida passada, irreal. 
   Adapta-se, reorganiza-se, descobre-se! 

Mas nem sempre, umas de luto ficam e carregam o mundo, Deus e o Diabo no lombo e sentem prazer nisso! 
  


terça-feira, 10 de maio de 2016

Alegrias de quem ensina

   Já desesperei a explicar a um aluno que me disse "as pessoas têm o direito de dizer asneiras, se quiserem" que a sua afirmação é falsa; já testei a minha paciência a explicar a outros que não podem andar a roçar-se uns nos outros só porque estão a descobrir a sexualidade e o seu impulso primeiro é o de concretizarem o que apetece no momento; não é aceitável, meus caros, roçarem os vossos órgãos genitais no rabo de colegas do mesmo sexo ou outro. Assim como não é aceitável coçarem os testículos e puxarem o pénis para o lado porque ficou preso na cueca e o mal estar é grande; nunca é tão mau  quanto quem tem que assistir á cena. Não quero passar pelo corredor da minha escola e ter que assistir à introdução da língua do gajo na faringe da gaja. Dispenso que um rapaz de 15 anos refile, durante a aula, com um colega porque " acertaste-me com a bola nos tomates" e muito menos me agrada que o a resposta seja "sacode que isso passa". E ir na paz no Senhor e vem um tipo, no corredor, um fulano ainda sem pêlos a refilar para o outro " foda-se, larga isso, caralho". Não preciso disso. Assim, como não me apetece que haja um tipo a enfiar o dedo no nariz e a trazer matéria viscosa para fora enquanto eu explico como se faz um passe de ombro no andebol. Cuspir no campo sintético enquanto se joga basquetebol leva a que se termine a aula com a mão pegajosa; explicar esse facto ao gajo com catarro precoce é o mesmo que ensiná-lo a fazer ponto cruz. Se digo ao corrécio do 7º ano que apanhe o que atirou para o chão e ele me responde que não foi ele, comigo a olhar, não é conveniente torcer-lhe o braço ainda que apeteça; se digo a um grupo que aproveite o que acabou de colocar no lixo e apanhe o pacote de leite que está logo ali e me respondem que não foram eles a sujar, apetece dizer "fazes isso porque eu mando" e não " vá, melhora a tua consciência cívica e ecológica, a natureza agradece". Ter que ensinar boas maneiras e regras de cidadania é giro mas cansativo sobretudo se se explica essas regras aos mesmos. Com um desenho não vai lá, com o exemplo também não, um suborno não é bem visto, porrada é inadmissível. Toma uma merda de um comprimido a ver se acalmas.
Chamem-me amarga!







segunda-feira, 9 de maio de 2016



 "Então pá, define-te lá, anda?! É verdade que o melhor da vida de qualquer mulher começa depois dos 40?! Que é nessa altura que estão maduras sem terem perdido a frescura e muito, mas muito mais marotas do que as verdes vintonas e as insípidas trintonas?! " Pfff, quem te disse isso anda em negação! Meu amigo, com a algibeira vazia, o cabelo a esbranquiçar, as peles dos braços a abanarem como pelancas velhas, estamos aqui é a desejar o consolo de chegarmos à terceira idade, porque aí estamos velhos e ninguém quer saber se estamos velhos e as pelancas dos braços são as pelancas dos braços que os velhos têm e os filhos há muito deixaram de ser os adolescentes egoístas e agora são só adultos e egoístas e os adultos não nos arruínam o orçamento. Enquanto adolescentes despejam o nosso frigorífico a horas pontuais, semeando esqueletos de maças roídas por baixo das almofadas dos sofás e cuecas sujas entre a porta da casa de banho e o cesto da roupa suja. Dizem-te que não percebem nada do que falas e que não entendes mesmo a ponta de um corno do que é a onda deles. Que não passas de um adulto "mainstream" aborrecido e comum, nome cientifico que usam para designar a mãe ou o pai  e que não queiras ter a veleidade de te aproximar deles, o seu mundo não é o teu e nesse mundo eles não te querem; a não ser que, desse mundo, os tipos façam um interregno a fim de que possas ter o privilégio de lhes preparar um leite estupidamente frio  com bolachas.  
" Defino-me?!! Ora deixa cá ver: à beira dos 50 anos, sem nada de meu a não ser um carro azul tipo carrinha do pão e que me dá aquele estilo extra, o toque final, o glamour da tipa desportiva descontraída que tem um carro de sete lugares para transportar canalha. Isso e as dívidas; não é que elas não me consolem, afinal de contas já convivo com elas há tanto tempo que se não as tiver é como se me falte algo. Para compor o ramalhete final, dizer que sou funcionária pública,  dou aulas, parece que tento ensinar umas coisas a uns seres e parece que esses seres vão aprendendo algumas coisas comigo, de vez em quando e se apetece. E nestes tempos de incerteza sobre o que quer ou não quer o adolescente, só sei mesmo se querem aprender, no próprio momento e de instante a instante, de manhã podem querer, à tarde arrependeram-se e já não querem e eu adapto-me. 
   Estou a ficar velha mas não sou velha, no limbo entre a perda do viço da minha condição de mulher mas não suficientemente velha para que parem de implicar comigo porque envelheço. Nesta fase transitória vistoriam-me as rugas do rosto, as peles das pernas e a flacidez das mamas e interiormente pensam, coitada, calha a todos, esta já passou a sua fase ascendente, agora é sempre para baixo mas vá lá, vá lá, podia estar pior, ainda se aguenta bem, se disfarçasse esses brancos e onde é que já se viu, tem a pele tão maltratada, é inacreditável como as pessoas não tratam de si. És uma mulher gira mas já não tão gira, estás na fase em que de ti dizem: é bonita mas haviam de ver quando tinha 20 anos, aí é que era uma brasa. Andaste estes anos todos a madurar em conhecimento e sabedoria, a separar o trigo e o joio, o acessório do que importa para que no final, o que conte é que foste muito mais gira do que és agora. E depois vêm com tretas que agora é que é, que a maturidade não tem preço, numa tentativa bacoca para esquecerem a inevitabilidade do seu próprio envelhecimento. 
  Mas à beira dos 50, tens uma prerrogativa que te assenta como uma luva, estás completamente nas tintas para o que dizem de ti, as rugas são tuas, as pelancas abanam nos teus braços e a celulite levou-te muitos anos em estágio e é-te de grande consolo mandar certa gente e todos e tudo para onde te apetecer, quando te apetece e sem saberes bem porquê. dá para tudo, mandas simplesmente e nisso vês consolo, ainda que não te sirva de grande coisa, para além de um alívio imediato. Como é temporário tendes a mandar cada vez mais vezes, porque o efeito é como nos ansiolíticos, quantos mais mandas mais tens de mandar. E é um privilégio que podes dosear a teu gosto!

Dirás, eu cá preferiria ser rico! Esse é que é um privilégio!

A sério?! Pois, olha que novidade, eu também e sabes, também preferiria ser a verde vintona ou a insípida trintona se conseguisse nessa idade ser menos estúpida ou menos sensaborona, ou menos desinteressante do que fui. Sendo assim e porque não posso, e com as peles todas e os primeiros achaques próprios da idade, vou dizendo que vou gostando do que sou mas se tivesse um milhão no banco ainda gostava muito mais.  Assim sendo e para ser sucinta, respondo:

À beira dos cinquenta , três filhos adolescentes indisponíveis e arruinada!