domingo, 23 de junho de 2013

No salão

   Há duas horas à espera para me porem bonita para as marchas no salão de cabeleireiro onde venho mais vezes  e nunca me aborreço; é quase tão bom como me sentar numa mesinha do Aliança e esperar que a conversa flua. Ouve-se tanta coisa e dessa há tanta com tanta graça! Mas é por ondas, nem sempre as conversas se trocam com a mesma intensidade e brilho, as vezes instala-se o silêncio, estranho, no entanto, basta alguém, uma cliente, um familiar do cliente, lançar algo para o ar que imediatamente se pega por uma das pontas da conversa e daí diverge para algo que sucedeu, alguém que teve um comportamento que não se tolera, uma novela que se acompanha, um boato que se ouviu, uma desavergonhada que enganou o marido e que se passeia pela cidade sem pejo com o outro; se há lugar onde se possa e deva falar mal é no salão de cabeleireiro, instituiu-se que aqui se pode costurar à vontade que daí não passa; ninguém leva a conversa para fora porque a conversa pertence ao local. E se se ouve “ ouvi dizer, contaram-me no cabeleireiro, a rapariga que me pinta as unhas disse-me…”, a credibilidade atribuída à fonte é escassa e permite alertar desde logo o receptor que, o que conta, já traz a informação adulterada. O salão de cabeleireiro funciona como um confessionário alheio, a gente conta o que ouviu dizer, normalmente é sempre por interposta pessoa, nunca se conta o que aconteceu na primeira pessoa porque má língua que se preze refere-se sempre a algo que se ouviu que 3 e 4 pessoas disseram primeiro e que entretanto refinaram com pormenores de cunho pessoal ao qual emprestaram uma cor e vivacidade muito mais interessantes do que a matéria prima original: a história da mulher, a grande vaca que pôs os cornos ao marido, não só os pôs como ainda teve o atrevimento de tendo-os posto andar a contar a toda a gente que os voltava a por é muito mais sumarenta  do que a ladainha da pobre coitada que, cansada de ser rejeitada pelo marido não resistiu aos avanços do carteiro que tocando-a ao de leve na mão e deixando-a lá ficar enquanto lhe passava o envelope, por duas vezes lhe disse que não gostava de a ver tão triste, ela que tinha uns olhos bonitos, que grande pecado! No entanto, no salão de cabeleireiro sempre que se inicia qualquer nova conversa normalmente diz-se à laia de introdução para esclarecer as coisas  “ não tenho nada a ver com isso e longe de mim fazer juízos de valor, afinal a vida de cada um é como a vida de cada qual e cada um sabe de si …..” e aqui vai, desbobina-se aquilo que não nos diz respeito com o afinco e a nobreza de quem julga verdadeiramente estar, de certa forma, a reabilitar a pessoa de quem se fala mal; uma espécie de tentativa de desagravo pela má acção cometida mas que merece redenção, afinal “ não estamos nós livres de nos acontecer algo assim, credo, Deus não permita mas…”. É pois, se formos a ver um acto caridoso de bom cristão, reabilitar o bom nome de alguém, dissecando o seu acto condenatório, procurando com isso encontrar os motivos, que enfim se podem compreender e sendo assim quase aceitar. É também uma forma reguladora dos nossos comportamentos, afinal de contas ninguém quer ser motivo de falatório no salão, com boas intenções ou não!

sábado, 22 de junho de 2013

Ingrata!

   Cá em casa, luzes de tecto que se fundam não voltam a ver a luz. Este é um facto, uma questão menor mas que me tira a preocupação de mais uma coisa, que sendo pouco importante, na minha cabeça me merecerá os cuidados que se reservam ao que não interessa mesmo nada.Outro dia foi a do pátio, esteve um ano a dar luz desde que para cá vim e não houve um dia que olhando para ela não pensasse, estás aqui estás a fundir, com a gravidade dispensada aos assuntos que surgidos são instantaneamente esquecidos; é verdade que essa luz lá de fora dava-me um jeitão, principalmente para ver as poias largadas sem o mínimo de recato ou discrição pelos meus três cães, mas não  o suficiente que me faça empoleirar-me num escadote para a ir trocar. A da casa de banho já definhou há mais de seis meses, passou-se a alumiar a casa de banho à luz da vela, o que não deixa de ser interessante que uma forma de alumiar tão potencialmente romântica sirva para alumiar uma divisão da casa dispensada a todas as coisas pouco românticas da nossa existência. Ainda experimentei um dia enchê-la de velinhas, um copo de pé alto com um vinho branco estupidamente gelado, banho de imersão, bolhinhas de espuma, música suave, tudo coisa e tal para variar mas a minha banheira é daquelas antigas com pés e tão estreitinha a afunilar no fundo que fiquei encalhada a 3/4 e passaram-me logo as mariquices.  Para o resto é mesmo bom que não se veja bem porque, na verdade, não há nada importante que se faça na cuja que requeira boa acuidade visual. As luzes do tecto são um bom exemplo do que numa casa, o que deixa de funcionar, não merece necessariamente que se vá a correr arranjar; é uma forma matreira mas eficaz de contornar a perpétua tentativa de uma casa que nos prega partidas e que parece estar contra nós; aquela que nos acolhe parece que tem vida, esta onde vivo vive mais do que a conta, bem que poderia andar mais sossegada:  é que se não é a luz é a porta que range e o puxador que se partiu, o esquentador que deita água. Em relação a este estupor, o esquentador que pinga quando aumento a quantidade de água que programo para aquecer, uma marmita colocada logo por baixo resolve-me o problema. Acabada de o usar, fecha-se a torneira do esquentador e pronto, a água só pingará da próxima vez que for usada; método eficiente se a memória não falha e se se fecha a torneira depois de cada utilização, caso contrário, já se sabe; e vai daí para evitar ter que me maçar muito, nem o ligo da próxima vez, banhos de verão com água tépida sabe-se serem de carácter revigorante. O fogão da casa que não  me pertence, pertence à casa, não fecha completamente a porta do forno pelo que arranjei um sistema de fecho alternativo, não totalmente eficiente mas com algum engenho, facto de que me orgulho especialmente. Não resolvido o problema, mas contornado e de forma esperta! Uma das portas do móvel da cozinha está solidária com a porta do fogão, não fecha por um motivo muito prosaico, acho que precisa de uma peça daquelas que se compram nas lojas de ferragem, uma ninharia de nada que se resolve em três tempos, coisa que me irrita, ir à loja de ferragens para comprar uma coisinha, vem-se de lá com dez coisinhas porque entretanto o senhor, muito simpático pergunta, não precisa disto? e daquilo? tem a certeza que quando quiser trocar tem para o fazer? Engana-me sempre, que eu gosto e o que trago vai para a despensa e regra geral fica lá. Não é que não consiga arranjar estas coisinhas, mas nem sempre, quase nunca me apetece bricolagear. Entretanto a porta do móvel da cozinha fica aberta e não raras vezes serve de cama a uma das gatas pelo que me parece uma troca justa, o desalinho de uma montra de cozinha em favor do conforto de um animal amigo. A mim parece-me bem e não me causa mal- estar. 

   As casas velhas têm disto, são velhacas, tratam-nos mal, a mim que gosto tanto delas, que consigo ver graça mesmo no desconforto de uma corrente de ar em janelas mal vedadas ou nas tábuas do chão de juntas desalinhadas onde me entram lascas nos pés descalços ou na pedra que vai mudando de cor para um tom esverdeado ou nas teias de aranha e ajuntamentos de centopeias, formigas e outra fauna que tal. Que lhes acho um consolo enorme todo o ranger, gemer, estalar da madeira. Mas é assim que também gosto mais de as ver, desalinhadas, desconcertadas, desmazeladas, à minha imagem.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O baldas

   O professor baldas já nasceu cansado e como tal tem uma apetência especial para a exaustão ; não tem pressas nem lhe entra o stress, chega sempre tarde mas nem por isso, 5, 6, 7 minutos, coisa pouca mas que dá jeito; cumpre no seu oficio os serviços mínimos e mais não o faz porque o mundo não merece, não merece que ele trabalhe porque o mundo nada faz por ele; é um contestatário do ensino, oco, que nada acrescenta,  o outro, o que faz  é um palerma porque ninguém, no final, lhe agradecerá. O professor baldas contestatário é muito opinioso, vomita frases feitas e insurge-se com o estado da nação e, pasme-se, com o estado do ensino. Bastas vezes é auto-complacente e tem pena de si próprio, sente que dá muito de si à escola e a paga não é proporcional. Qualquer trabalho mais para além do exigido é anunciado aos quatro ventos como um sacrifício de alto valor; são deles as frases " anda uma pessoa a trabalhar para quê, ninguém nos dá valor?!"
   Para que se não sintam demasiado cansados normalmente trabalham sentados de perna cruzada, à distância comandam as tropas, e dispensam coisas do domínio extraterrestre como tabelas de avaliação ou planificações. Se estiverem distraídos acabam por mostrar parte do rabo com observações adequadas a quem não sabe o que anda ali a fazer. Se é para fazer algo mais moroso, burocrático ou de aplicação não imediata a pergunta fatal é " Para que é que estamos a fazer isso? Achas que alguém vai notar? É mesmo preciso? Tens a certeza da utilidade de tal coisa?"  O que se vai dar na aula seguinte depende da vontade, normalmente dos alunos; são extremamente permeáveis às vontades das crianças e por isso são professores muito fixes e dão grandes liberdades aos miúdos para se expressarem: a entropia no ensino onde reina a galhofa e a auto-recreação, e a placidez na expressão do rosto de quem não se vai massacrar demasiado a impor regras de convivência e saber estar. A criança tem que se expressar, calá-la é coarctar a sua liberdade, que há de mais libertador que ter um bando de pequenos índios a incendiar os nossos ouvidos na sala de aula ou no ginásio? Deixá-los, é mais fácil deixá-los do que educá-los, não me pagam para isso, não é verdade? Se os pais não querem e não fazem, sou eu que vou fazer?! Só se for tolo!  
   Dar aulas é uma seca pelo que a coisa faz-se de mansinho, sem levantar ondas e sem muito trabalho. Cumpre-se o calendário sem deixar algo que perdure, e muito menos o exemplo.