quarta-feira, 27 de maio de 2015

Curtas da escola

   

   Conversa com a minha turma maravilha, última aula da semana, sempre animada de uma forma retorcida. Ginástica de aparelhos: Meninos, lembram-se do nome daquele aparelho? Uma espertalhona: cavalo! Outro, frenético: Égua! O terceiro, a descambar ainda mais: Mula! A este, baixinho e franzino, pego-lhe pelos colarinhos, encosto o meu nariz ao dele e com o tom mais intimidatório que consigo, digo entre dentes: Boque! E o artista sem desarmar: Reboque? Cá nada, não vejo nenhum engate!

   Tenho nas minhas aulas um combate permanente com os alunos no que concerne à utilização correcta da língua portuguesa e à terminologia própria das modalidades desportivas. Na ginástica, outro dia insistia com uma aluna que dizer " abrir às pernas" ou " pernas abertas" era uma forma muito deselegante de falar pelo que pedi um verbo sinónimo e mais bonito de spronunciar ao que esta aluna respondeu prontamente " esgaçar, senhora professora!"



   Tenho poucas saudades da minha ex escola, tenho no entanto alguma pena de ter deixado de conviver com algumas pessoas da minha ex escola. Todas as manhãs deixo os miúdos, na minha ex escola, pelas oito da manhã e é com um certo prazer que olho para ela e lhe viro as costas. Tenho saudades de algumas pessoas, aquelas que me alegravam o dia. Há uma funcionária, pessoa muito calorosa e bem-disposta,que os alunos adoram e respeitam especialmente, a quem cumprimentei hoje, feliz de a ter encontrado. É daquelas pessoas que criam boa onda, de serem tão boas pessoas. Esta senhora perdeu um fillho adulto jovem, de uma forma repentina, absurda, sem sentido. Todas as mortes são absurdas, esta ainda mais absurda. Em tempos idos, tive uma conversa com ela em que me contou todas as tristezas da sua vida e a forma como lida com elas. Deve ser das pessoas mais bem humoradas e prontas para lançar um dito divertido que já conheci. Trata-me daquela forma tão franca com que algumas pessoas aqui da terra nos tratam, por tu, sem formalidades desnecessárias "oh meu amor, estás boa?" " oh senhora professora, estás a gostar da tua nova escola?"... Hoje, respondendo-lhe que sim, que estava a adorar a minha nova escola, respondeu-me levantando o polegar e dizendo" Às pessoas boas, Deus ajuda!" Desta senhora, sinto falta!

   Na minha escola como acredito que em grande parte das escolas deste país, metade dos alunos se não mais do que isso, está incluído num escalão máximo de ajudas do estado que passa pela gratuitidade das refeições e diminuição ou gratuitidade dos manuais escolares e transportes escolares/ passes. Outro grande grupo de população escolar pertence também a escalões onde pagam menos, por exemplo, 50 cêntimos por refeição.
Este ano, porque tenho tempo e disponibilidade, almoço pelo menos duas vezes por semana na cantina da escola; almoço junto com os alunos porque gosto de observar. O almoço de hoje foi: sopa de grão, douradinhos com arroz de tomate, salada de alface, cenoura e cubinhos de maçã, maçã comsobremesa (duas qualidades à escolha) e um papo-seco (embalado individualmente). Água para beber. Preço por aluno sem escalão: 2,14€ comulta de 30 cêntimos se comprada no próprio dia; preço para professor: 4,27€ com multa se comprada no próprio dia.
Qualidade da refeição - são douradinhos, douradinhos são fritos, os fritos fazem mal! Arroz de tomate razoavelmente saboroso. Salada com fartura para quem quiser. A sopa não demasiado aguada e saborosa q.b. Fruta da época que é o melhor que se pode comer. Custo para grande parte dos alunos - zero euros;
O que se observa: 3/4 dos alunos não comem sopa! Chamados à atenção dizem que não gostam; não gostam de sopa de grão, de sopa de legumes, de sopas de cenoura, de sopa de coisa nenhuma. O prato principal nem sempre é devorado, as bordas do prato abundam em restos. O pão regressa muitas vezes sem ser tocado; mesmo sem ter sido tirado do plástico tem sempre o mesmo destino: lixo. Se a comida foi do seu agrado podem repetir, sopa nem por isso.
As associações de pais das escolas deste país têm sempre queixas e mais queixas dos pais que, dizem os seus filhos, a comida não presta, o arroz é intragável, etc e tal. Vivem revoltados que os seus meninos se alimentem tão mal! No entanto, em cada família se se for observar as preferências alimentares dos putos é de fugir; muitos não gostam de pelo menos 3alimentos " querem um bocadinho de X ?" " não gosto", "prova Y", " não gosto". É impressionante a quantidade que alimentos que eles não gostam! E a quantidade de miúdos que com dentes definitivos tem que comer a sopa passada porque não suporta sentir na boca os pedacinhos de legumes?! Era dar um enxerto de porrada a cada pai a cada tentativa de triturar a sopa!

Os hábitos alimentares dos miúdos é de bradar aos céus! Era eu miúda, há 35 anos atrás e doces, só de vez em quando. Gelados, só no verão e sempre com muito receio que o pai dissesse que não, o que muitas vezes acontecia! Quando era miúda o que mais me luzia os olhos era aqueles boiões redondos de tulicreme que a minha mãe NUNCA comprou lá para casa; achava e bem que era coisa supérflua e que podia muito bem ser substituído por doce caseiro ou manteiga, queijo ou fiambre. Se estávamos com o bico doce resolvia-se o assunto com papo-secos com manteiga e açúcar, o requinte máximo! Por vezes, a vontade de comer açúcar era tal que ia-se ao açucareiro e era à colher. E comia maças estupidamente porque eram doces! Hoje em dia, nutellas e afins, cereais de chocolate, mel, com pepitas e sem pepitas, bolachas com n formas e feitios, chipicaos, croissants de chocolates (não me lembro de comer croissants quando era miúdas!!!). Em contrapartida, se me apetecia algo salgado, um tomate aos gomos com sal grosso marchava em menos de um farelo. Também marchava bem pevides ou tremoços e sempre dava para depois fazer concursos a ver quem cuspia as cascas mais longe; em matéria de cuspidelas nem sempre era necessário ter cascas dentro da boca, o cuspo propriamente dito chegava! Voltando à questão: não havia doritos, tiras de milho, bolinhas de queijo e nem a simples batata frita de pacote. A gente via-as a passarem na praia e era esse o único contacto que tínhamos com elas: visual! As batatas fritas lá de casa eram mesmo batatas a sério e fritas pela frigideira da mãe, no fogão da cozinha! E que dizer dos iogurtes? dantes, havia-os de aromas, ponto. Agora há de tanta coisa que primeiro que consiga os de aromas, que continuam, para mim a ser os melhores, tenho que desbravar caminho pelos com pedaços, naturaiaçucarados, naturais e com pedaços light, com fungos que dão conta dos males do estômago, os que permitem fazer cocó todos os dias, os que são tipo grego, os que têm corn flakes e frutas, dois em um, os que têm smarties e por aí fora.

A comida na cantina é saborosa? Não é, falta-lhe apuro, dedo para a coisa, cozinhar para 400 crianças não é fácil e nem sempre se apuram os temperos nem as cozinheiras estão para isso. Os miúdos queixam-se sobretudo que a comida é insonsa! Porque será? Para quem está habituado a comer por semana, dois ou três pacotes de pseudo-comida cheia de sal e sabores viciantes não pode achar piada ao sabor que verdadeiramente o alimento tem. No entanto, é muito melhor do que a comida que os bares das escolas oferecem e infinitamente superior às merendas que os putos trazem de casa. E os pais deveriam ser os primeiros a insistir para que os seus filhos almocem nas cantinas, sopa incluída, e a dar um certo desconto às histórias assustadoras que os meninos trazem para casa. Antes disso façam uma cura de desintoxicação ao veneno que andam a dar aos miúdos para comer. Era vê-los raparem os pratos e a comer a sopa toda. Ah e já agora, pôr os pais a pagarem o valor máximo da refeição, 2,14€, não sei porquê sinto que seria um grande incentivo ao apetite.



   Assistindo hoje a um jogo de minibasquete entre a equipa do meu filho e outra equipa de miúdos do mesmo escalão mas cujo crime supremo, o facto de serem os adversários e de lhes ter crescido demasiadamente depressa as extremidades, dou por mim a apreciar (ou mais correctamente a desapreciar) o comportamento de alguns pais: entre pandeiretas ensurdecedoras e urros de alegria pelos cestos falhados dos adversários, palavras de ordem e gritos de "FALHA, FALHA!"! Nota: o filho de um daqueles pais foi meu aluno neste ano lectivo que passou e um dos miúdos de maior correcção que já me passaram pelas mãos! Senti vergonha por mim e por ele! Dei por mim a pensar no que estaria ele a pensar! Surge a velha questão do que é inato e o que se adquire pelo exemplo e pela imitação; este miúdo confirma o que tenho vindo a constatar nos anos em que dou aulas: os exemplos bons e maus existem mas os miúdos escolhem aqueles que querem seguir tendo já por base algo que sempre foi deles e que não se verga ou altera pelo meio em que se vive! As crianças não podem escolher os pais mas podem e escolhem se querem ser como eles!


A palavra às crianças: retratos de uma professora


                                                                     I

Capacidade de atenção de uma turma do 5° Ano: Pessoal, vamos jogar o jogo da mosca ( jogo infantil/tradicional). A mosca é o último a saltar e define o comprimento do salto seguinte. Dois minutos depois um aluno " professora, posso ser a formiga?" " a mosca, a mosca" respondo. Mais dois minutos depois, outro " quero ser a abelha" " a mosca!" " ai pois é a mosca!" Mais à frente, um terceiro: " agora sou eu o mosquito!" . " ok, pessoal, afinal de contas não me posso queixar de falta de criatividade: podem ser o que quiserem! "

II

Na aula, uma turma do 5° ano, exercícios de progressão para o salto em comprimento. Um artista daqueles com resposta na ponta da língua, atrapalha-se na chamada (impulsão) antes do salto, várias vezes. " Meninos, chamada a dois pés ou a um?" resposta em coro " a um" " foi o que o vosso colega fez?" " não" . Logo diz este " eu faço a chamada com quantos pés quiser!" E pronto!!!

III

Estou a pensar que ontem uma aluna me chamou p.u.t.a e que se calhar nos tempos que correm é uma "profissão" a ponderar ... Já viram se ela comete a injúria máxima de me chamar "professora" ou mesmo "funcionária pública"? Nunca mais me levantava com a vergonha!


IV.


   Este meu filho mais novo surpreende-me tantas vezes. Hoje chegou-me com dois papeis da escola, enviadas pela professora de inglês, dizendo que precisam da nossa ajuda, dos pais, para a preparação de algumas actividades para o dia 21 de março, uma delas na confecção dos inevitáveis scones e outra na decoração de um chapéu. Ora,  confesso que a professora de inglês do Gui me começou a irritar um tanto quando proibiu o puto de fazer um teste escrito no dia em que este tinha ido a uma prova desportiva, tinha chegado encharcado e eu o  mandei para casa. É verdade que não sabia que havia teste, mas é certo que , para um criança que tem uma facilidade enorme no inglês, fala online com miúdos estrangeiros, não ia sentir-se intimidado com um teste. Foi para casa porque me parecer o mais correto. O que é certo é que não permitiu que fizesse o teste noutro dia e assim ficou. Não quis zangar-me, sou professora também, mas ficou uma certa decepção. Eu conheço-a, fui sua colega! E há coisas que não guardo, quando soube barafustei e ficou por ali. Hoje, lendo os papeis, disse sem me conter " Gui, não sei se a tua professora merece?!" Com um ar de infinita paciência e algo condescendente como se falasse com uma criança: " Porquê, por causa daquela coisinha? Vá lá mãe, dá-lhe outra oportunidade!"

  Sempre a aprender!

V. 



 Atingidos os 29 anos a dar aulas, é nesta terra que encontro desculpas para não fazer a aula do tipo " comprei um fato de treino novo, já fui ordenhar as cabras e não o sujei. Quero ver se continua assim" , " doi-me a perna, levei um coice dum bezerro" ou a variante " um cavalo pos-me a pata em cima do pé" ou a aficionada" tenho as costelas a doerem, fui pegado por um touro"! Nem a velhinha e criativa " esqueci-me" escapa; cá na terra é "desqueci-me" que sempre sai, um pouco, do lugar comum!


terça-feira, 26 de maio de 2015

   O ego desmedido de algumas pessoas deixa-me desconfortável! O embaraço alheio que custa tanto a suportar porque olhando para aquela pessoa em concreto é como se nos víssemos nela e a possibilidade da figura de urso que faríamos acaso fossemos atraídos para tais desmandos de vaidade. Tal  como escarneço de todos os falsos modestos, os que tendo talento o sabem como ninguém e se envergonham quando, os outros, os enaltecem como devem e merecem mas, porque lhes disseram que os feitos concretos e louváveis não são de se apregoar aos quatro ventos, mantém uma postura de recato quando por dentro temem explodir de auto-jubilo. E no entanto, prefiro de longe um egocêntrico declarado, assumido e insuportavelmente pedante a um egoreprimido que se vai enchendo de soberba mal contida enquanto ruboriza a cada elogio e encolhe os ombros dizendo. " Palavra, não sei donde vem este talento. É intrínseco mas não vale a pena fazerem tanto burburinho! Eu sou assim mas por favor não digam isso alto, não parece bem."   É que para a legião de lambe cus que lambe os ditos aos primeiros o trabalho sai sempre mais facilitado, os egocêntricos assumidos põem o cu mais a jeito, já os segundos, de casta modestia obrigam os indefectíveis seguidores a movimentos de maior contorcionismo para lá chegarem. 

Curtas

   Num passeio noturno passámos, ali pela rua de Santo Espírito, por um grupo de turistas portugueses já entradotes na idade, ruidosos e bem dispostos. Cruzamos-nos com eles em frente da GNR, indo estes na direcção do Pátio da Alfândega e um deles, conhecedor, ia dando indicações quando se ouve uma senhora perguntar com aquele tom meio enjoado com que alguns, os das cidades grandes usam para falar da província:" Mas afinal de contas aquilo ali à frente é rio ou mar?". Pensei responder-lhe que era o rio Guadiana mas mordi a lingua pelo que lhe disse, ela já de costas " É o Oceano Atlântico, minha senhora, francamente!" Ela seguiu o seu caminho sem se sentir beliscada. Penso que ouvi gente a rir do dito espirituoso da senhora. Lá se foi aquela ideia que eu tinha que toda a gente com idade para pertencer à terceira idade sabia de cor e salteado, rios e afluentes de Portugal e Ultramar, linhas e estações de caminhos de ferro e outras minudências da geografia do nosso grande reino. E que não sabendo tinham algum pejo em revelar abertamente a sua ignorância. Uma coisa geracional, não sei! Mas, parece que nos dias que correm, é giro armarmo-nos em burros se produzir algumas gargalhadas. Hoje houve muitas pessoas a rirem, umas com ela e outras dela.


   Proponho um daqueles quadros electrónicos que passam letras luminosas, vermelhas, têm que ser vermelhas, pendurado a meia altura, virado para os funcionários dos correios de Angra do Heroísmo com os seguintes dizeres: " Não esquecer, IMPORTANTE, o que vieste cá fazer hoje? Qual a tua missão neste posto de trabalho? Muito bem, ATENDER O CLIENTE! Como se atende o cliente? Isso, carrega-se no botãozinho da vez e entra-se em diálogo com o cliente! Quando se faz isso? Estás lá perto, SEMPRE que houver, nem que seja só UM, cliente! Porquê? Porque estás ao balcão, e quem está ao balcão tem como missão prioritária, ATENDER o cliente! O que fazes se não houver cliente? Isso mesmo, presumes que está quase a entrar um cliente e para isso levantas a cabeça de tempos a tempos na direcção da porta que é SEMPRE por onde entra o cliente e não finges estar muito ocupado com alguma papelada que dizes ser importante mas NUNCA tão importante como ATENDER o cliente! Percebeste tudo? Então repete comigo, em voz baixa, Atender o cliente, atender o cliente,.........."

   O meu domínio do francês é absolutamente ridículo, o inglês desagradavelmente imperfeito ao ouvido, o espanhol é de fugir, é um português com sotaque, o que não vem a ser coisa nenhuma. Os meus três filhos que são dotados para as línguas, sempre que me ouvem falar em inglês, mandam-me calar ou pior ainda, agarram-se à barriga com convulsões de riso, perguntam-me em que dialecto estou a gaguejar. Não há como fazer-me respeitar neste domínio, fui ultrapassada pelos skills tecnológicos destes putos que aprenderam a falar e a escrever em bom inglês, simplesmente comunicando com outros miúdos através de jogos da internet pelo que, se mérito houve, no excessivo tempo em sedentarismo nos quartos, foi este. E no entanto, no que ao português diz respeito ainda sou minimamente respeitada. Escrever segundo o acordo quando a isso me obrigam (na escola, só na escola e somente nos documentos oficiais sujeitos a escrutínio e aprovação) e manter o antigo é bom. Temos que ver a cena de uma forma positiva. " Então diga lá, quantas línguas fala?!" Posso responder com orgulho na voz " Três" que falar 3 línguas é muito melhor do que falar só duas, duas é o trivial. Não se sai da mediania, duas línguas fala toda a gente. " Ai sim?! Então que línguas são?!" A resposta sai pronta: " Vejamos, domino o inglês (aqui esconde-se o facto de a oralidade ser grotesta), o português, o de antigamente, aquele que toda a gente insiste em falar, veja-se lá a teimosia e a outra língua, aquela muito semelhante ao português mas que não é o português, é antes uma espécie de esperanto para os países da lusofonia, com a graça de só ser falada em Portugal. Confuso?!" Já pertenço ao grupo dos poliglotas, não é para todos, caramba!

terça-feira, 19 de maio de 2015

Hoje, numa das minhas aulas, enquanto uns quantos saltavam à corda, uma rapariga de 12 anos, espigadota em altura e veneta, zangada porque um colega a tinha feito tropeçar na corda lançou um “Caralho, foda-se!” automático, dito do fundo do peito, a certeza de que assim fala, naturalmente, no seu dia-a-dia, na relação com os outros. Após o ímpeto inicial e de refilar ao castigo aplicado, veio perguntar-me se podia retomar a aula. Não me apareceu numa postura que fosse de alguma humildade e conciliação. O pedido de desculpas invariavelmente ausente; refilando ainda, gaguejou no tom acima do tom, com que sempre fala com as pessoas, quaisquer que sejam, de que o outro a tinha enervado. A conversa continuou mas num sentido só, comigo a tentar explicar-lhe porque não podia ser esse o caminho, com ela a argumentar que a sua zanga tudo podia, até a agressão verbal, ao colega e a todos os que se encontravam por perto. Tentei mostrar-lhe que cada qual tem que medir os seus actos, porque cada acto tem uma consequência; não me compreendeu. Mantinha a teima de que o seu acto se justificava plenamente, dado que a ela lhe era impossível refrear a sua fúria, tendo sido instigada a isso. Mandei-a sentar-se e assim se manteve, refilando ainda para quem a queria ouvir, que o outro é que tinha tido a culpa, que o outro é que começara, que o que fizera era apenas uma reacção a uma acção que não fora ela a provocar.
   A propósito do jovem batido na Figueira da Foz, tento perceber o que leva uns quantos adolescentes a sovarem um colega e a filmarem o acto. Tento perceber o que leva o jovem batido a deixar-se bater sem uma palavra que seja. Observo a indiferença a tudo, da violência física presente e da violência maior que consiste na encenação, na filmagem, na pausa, no jogo de poder que se arrasta, na postura de submissão do rapaz que a cada bofetada não enseja um gesto que o proteja, que não proteste.  É uma cena odiosa a que se assiste.
   São duas histórias com amplitudes e contornos diferentes e, no entanto, aproximam-se na indiferença com que, jovens, miúdos, quase crianças assumem a violência, nas palavras, nos gestos e na omissão deles.