segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A praxe no meu ISEF

   Havia um gajo lá no ISEF que assumia a função do mais bera da comissão de praxes! O tipo tinha um corpo franzino e pequeno mas elástico e nervoso; um crânio loiro de cabelo à escovinha de certa inspiração militarista que intimidava. A deficiência em altura compensava com a forma como nos olhava, como aproximava o nariz da nossa cara e no olhar azul que se colava ao nosso. Um sargento de pelotão em potência, um bom actor nessa função de nos amedrontar, os 100 quase-putos do 1º ano do curso de 1985; Lembro-me que foi só um dia que começou por ser de ansiedade intensa mas que cedo acalmou.  O salão nobre recebeu-nos com um grupo deles perfilados no estrado fronteiro às bancadas; todos de ar gélido e  impenetrável. Nós, mavericks acabados de chegar, não sabiamos ao que vinhamos; sabiamos que iriam judiar de nós mas como, não faziamos ideia. Depois de ordenarem que nos descalçássemos só de um pé,  coisa que fizemos foram chamando por nós, um interrogatório à vista de todos, mas nada de verdadeiramente dramático nem especialmente humilhante; umas partidas meias chochas e inócuas que cumpríamos, alguns só de 100 almas porque não havia sequer imaginação ou refinamento na perversidade para todos; eram só umas coisinhas meias tansas de gravidade leve e consequências nenhumas, uns rabiscos na cara e uns cacarejos, após uma hora daquele aborrecimento em que o loiro perdeu por completo o viço e abreviou a cerimónia porque o bocejo dos caloiros era vergonhoso, viemos a descobrir que o nosso sapato tinha ido parar ao fundo do lago da entrada amarrado com os outros sapatos de todos os outros caloiros, o que veio a ser o momento alto de toda a cerimónia: desapertar atacadores molhados não foi fácil e ali se consumiu mais uma meia hora que se revelou o suficiente para que a comissão desse por encerrada as hostilidades sem perder toda a credibilidade;
   No dia seguinte ninguém se lembrava quem era caloiro ou veterano, no ano seguinte nem sequer me recordo se houve praxe; eu cá não fui praxante nem recordo a ocasião como sendo de especial importância; recordo-a porque faz parte das primeiras imagens do meu tempo universitário, não porque em mim deixasse marca de sentido algum! No fundo, no fundo, o pessoal do ISEF da altura achava que tinha que fazer alguma coisa para ir na onda do recrudescimento da praxe nos anos oitenta mas sem convicção nenhuma; tinham mais do que fazer... coisas bem mais interessantes, uma partidinha de futebol, de basquetebol ou de rugby até! A gente queria era jogar, uma merda de um jogo qualquer a sério, desses com árbitros e bolas e campos rectangulares. Reuniões de praxe, rituais elaborados, hierarquias complexas e trajes académicos?! What the fuck, are you kidding?! Até para descobrirmos uma cor para o nosso curso foi uma carga de trabalhos, estava tudo ratado, o castanho desprezado a um canto, ok, venha ele que não queremos fitinhas às riscas!

E foi assim....    Gente sã!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A viagem - IV

9 º Dia - 30/31 de Dezembro de 2013 - New York

   Há a Nova Iorque de Manhattan e há a Nova Iorque do Bronx e a de Brooklin e mais umas quantas no entanto foi na Bronx que ficamos hospedados e Manhattan e Brooklin que visitamos. Gostei de quase tudo no Bronx, gostei do nosso anfitrião, o Junior, um rapaz novo extremamente simpático que para além de me ajudar com as malas também nos deu preciosas informações e guardou-nos uma lugar de estacionamento plantando-se no local à nossa espera, à espera que dessemos uma volta ao quarteirão para estacionar no lugar em que esperava. Gostei do clima de bairro seguro sem insegurança visível, gostei do metro que apanhamos, com 99% de negros e hispânicos e 1% de gatos pingados onde nos incluímos. Gostei de encontrar muita gente simpática, solicita e bem educada, gostei de termos destrinçado o metro de Nova Iorque sem grandes problemas. Gostei de regressarmos tarde na noite e não caminharmos em stress como se estivessemos em Chelas ou na Musgueira. É um bairro gigantesco dentro da cidade mas que vive autónomo. Agradeço ter seguido o meu feeling e ter querido ficar numa zona dita pouco nobre da cidade porque assim pude ver para lá do glamour de Manhattan... que tem glamour às toneladas e ter gostado do que vi! O metro deixou-nos em Columbus Circle e daí foi o início da descoberta: e para quem tinha chegado pelo Bronx com as suas construções sem grande escala e blocos de apartamentos mais modestos, para quem tinha vindo de metro que não é bonito nem arejado, subir as escadas na estação de Columbus Circle e levantar a ventas e dar logo com o Central Park é de vacilar; com o Luís a comandar as tropas e eu em permanente reportagem fotográfica fomos mais direitos que um fuso para a 5ª avenida, descida até meio do percurso e daí apanhamos um autocarro panorâmico onde descobrimos a hiperactiva Holly, a nossa guia que no final nos ofereceu mais um bilhete de borla caso nos apetecesse. O Luís não se mexia, propus que fosse para baixo abrigar-se, não quis, parecia uma estátua, só a cabeça é que rodava e mesmo assim só uns 15º para a esquerda ou para a direita, com alguma renitência. Quanto a mim, depois de quase duas horas de frio gélido, batia os dentes violentamente, de tal forma que tive que entrar numa loja e aquecer-me! Temi morrer com hipotermia! Daí a ideia era Times Square, propósito que seguimos, é uma praceta cheia de luzes e néons, não me impressionou minimamente. Fiquei impressionada pela escala dos edifícios e especialmente pelas diferenças de escalas entre alguns dos edifícios e a convivência pacífica e até harmoniosa entre edifícios de épocas muito diferentes. Fiquei altamente mal impressionada pelos vendedores de rua e pelo ataque cerrado para passeios de charrete, bicicletas, tours pela cidade. Sabia que a cidade era muito turistica mas a quantidade de gente e o ataque dos vendedores da banha da cobra desiludiram-me muito. 
   No dia seguinte de manhã a cidade estava um pouco mais respirável, estudado o mapa do metro viemos até quase a ponta sul de Manhattan e iniciamos um passeio que terminado contabilizou mais de 20 kms nas pernas. Descemos e subimos toda a Manhattan a pé com ida a Brooklin pela ponte, almoço do outro lado, neve a acolher-nos no regresso. A questão era, como fazer tempo até à meia-noite?! por essa altura estavamos a ponderar não ir para Times Square, a quantidade de gente era estupidamente grande, meninas às carradas de saltos gigantesco e mini-saias em temperaturas negativas; às 15 horas na ponte de Brooklin apontava -2º centigrados!!!!! Vagueamos, entramos em incontáveis lojas, descobrimos a Grand Central Station e caimos num canto, sentados quentinhos a descansar as pernas, nós e mais umas dezenas de pessoas. A estação é maravilhosa, um dos ponto altos, talvez pela onda cinematográfica, entrou-me no goto! Calcorreamos avenues e streets, o Luís revelou-se um grande navegador! Fizemos uma unica tentativa em entrar na zona mais reservada para acesso a Times Square mas desistimos, não gosto da onda de manada do ser humano, aflige-me, pelo que recuamos e fomos passeando, melhor dizendo, andando depressa para aquecer, entrando em bares para beber um hot chocolat e fazer um chichi. O jantar foi num restaurante muito interessante, como de resto a maioria dos restaurantes onde almoçamos ou jantamos, com a diferença que neste a gorjeta estava já discriminada, nuns efusivos 18% que pagamos e não abrimos o bico. O ano veio encontrar-nos num pubzinho simpático, daí fomos assistir ao fogo de artificio no Central Park que foi mais fraquinho que o fogo de artificio da ilha do Corvo nas festas principais da vila.