quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Síndroma de Março

   Aproxima-se a data anual mais stressante da minha existência, aquela que corresponde a três ou quatro semanas nas quais tento encontrar predisposição mental para organizar a informação necessária ao preenchimento da declaração do IRS. Enquanto não me sento com a papelada ao lado e me compenetro de que não consigo adiar mais e que agora mesmo é que se vai fazer a coisa, passo dias de angustia e preocupação com a nítida certeza que não conseguirei validar a declaração e ultrapassar mais uma vez o obstáculo. Não que tenha nada a esconder de verdadeiramente gravoso,  talvez só mesmo aqueles dois anos seguidos em que incluí os meus cães e gatos como fazendo parte do meu agregado familiar e sendo assim as despesas do veterinário contaram como despesas de saúde, mas reparem, se virmos bem, é justo que o tenha feito; afinal de contas eles são da nossa família e as contas do veterinário são bastas vezes muito superiores às contas do médico do humanos; no entanto, fazendo nós mais do que o Estado na protecção dos animais que andam a vaguear pelas ruas, não somos por esse facto beneficiados, falo de quem e apesar de tudo ainda tem a possibilidade de ir ao veterinário com os seus animais porque há quem não tenha e não vá, não porque goste menos dos seus bichos e lhes conceda menos cuidados mas porque simplesmente não lhes sobra dinheiro para extravagâncias, que é isso que são estas consultas, extravagâncias que se fazem pagar bem, veja-se: a consulta que normalmente fica em 30 euros; acresce a vacinação se houver, os pingos para os olhos ou para os ouvidos, as seringas à unidade, os comprimidos à unidade para os parasitas, as gazes usadas ( à unidade) e a coisa somada, sempre que lá vou não deixo menos de 60 euros. Se pensarmos que os animais todos os anos têm que ser vacinados, desparasitados pelos menos duas vezes por ano e sendo eles, a nós também compete fazer uma purga aos nossos intestinos, coisinhas pontuais que sempre acontecem ou porque o animal andou à luta com outros (com os meus é usual) ou porque está com conjuntivite e não cura ou porque tem que fazer a castração que é aconselhada para machos e fêmeas, por uma coisa ou outra, acaba-se por ir mais vezes ao médico dos bichos que ao médico dos humanos. Cada internamento não fica em menos de 100 euros porque é preciso alimentá-lo durante a hospitalização e os veterinários não lhes dão ração made in Continente mas coisa mais refinada, normalmente o internamento é acompanhado de soro, análises, coleira para o bicho não se coçar, mais umas coisinhas aqui e ali e tem-se gasto a mensalidade de um dos filhos para alimentação numa cantina escolar.  Eu tenho 3 cães, há coisa de um mês tinha 4, acrescem duas gatas e o estupor do coelho!   Façam as contas de quanto eu gasto para os manter minimamente saudáveis. Dois dos meus cães foram apanhados na rua, contribuí assim para a diminuição de uma praga social e nacional que é o abandono de animais neste país; desde que me conheço já tirei das ruas, sem querer exagerar para ficar bonito, uns 15 gatos e uns 10 cães. Desses gatos e cães, metade ficaram comigo até terminarem o seu tempo de passagem por este mundo. Os outros foram reencaminhados para outras famílias. Fiz o que me competia no entanto o Estado não reconhece e nunca reconhecerá. Pessoas há e conheço pelo menos umas cinco que o que eu faço fazem a quadriplicar, ajudas nessa sua empreitada, desconheço! Por outro lado, a raça dos médicos veterinários é do mais sanguessuga que existe, mais picuinhas que o médicos de pessoas, sempre a sugerirem coisinhas que se fazem pagar bem, se sugiro que concedam a quem tem muitos animais uma espécie de cartão de cliente frequente como as milhas nos aviões ou em lojas de vestuário e outras olham para mim de modo meio desconfiado. Por isso é que com tantos anos de prática, tantas vezes me torno eu médica dos meus próprios animais e dentro do possível sou eu que os medico e se nem sempre resulta pelo menos alivia o orçamento familiar.

   Com sorte não há ninguém ligado às finanças que leia esta minha crónica e se ler, paciência! Entretanto tenho que começar a pensar na declaração do IRS e isso se, não  me tira o sono, problema de que não sofro, dá-me umas ansiedades escusadas.
   Desde que trabalho que me lembro de ser eu, sempre, a preencher a declaração, primeiro em papel, há uns aninhos atrás através da internet. O pessoal que passa a vida a engendrar novos formulários, os burocratas dos computadores, inventa todos os anos formas mais requintadas de declarar rendimentos, de tal forma sofisticados que a mim me assusta porque, cumpridos os passinhos todos, quando se torna necessário validar a coisa há sempre 3 ou 4 erros que surgem e que me deixam sem pinga de sangue.

   No tempo da entrega das declarações à moda antiga havia na repartição de finanças da Lousã um funcionário, senhor que me conseguia pôr em sentido, não porque fosse mal-educado ou grosseiro mas muito pelo contrário. Era o verdadeiro burocrata e gostava de o ser. Tinha feições de burocrata, um rosto magro quase de aparência asceta, tipo jesuíta, de cara sempre perfeitamente escanhoada e corte impecável de cabelo. Fato irrepreensível em tons de cinzento, onde nada ressaltava de forma desadequada. Nunca levantava o tom de voz. Tinha uma atitude pedagógica connosco, para ele a declaração do IRS era quase uma arte e insistia em mostrar-nos como éramos desmazelados e desleixados nos documentos que acompanhavam a declaração. Era ao mesmo tempo algo paternalista e condescendente e ralhava-nos carinhosamente como faria uma professora do ensino primário. A mim era o regresso a um tempo em que defronte de um professor muito estimado mas temido em igual medida era repreendida e essa circunstância me deixava triste o dia todo. Assim acontecia com esse senhor, sempre que saia da repartição de finanças com o carimbo na declaração e enfim aliviada, vinda também imensamente culpada pelo meu desmazelo e prometia a mim própria que seria mais previdente, organizada e meticulosa em futuras declarações. Quanto a esse senhor, sei que, anos mais tarde, se tornou o chefe da repartição de finanças, função que lhe assenta na perfeição; não poderá haver alguém mais adequado para a função e sei que nesse oficio ele é feliz.
   Entretanto nem todos os senhores e senhoras que encontramos pelas repartições públicas são tão perfeitamente adequados nem têm para connosco um comportamento tão pedagogicamente correcto. Há alguns que são umas bestas mesmo, outros há que são simplesmente semi-bestas porque não têm estrutura psicológica para acederem ao patamar mais alto. As bestas na sua plenitude  encontram-se disseminados por vários pontos do país e são aqueles que se socorrem da sua pequena parcela de poder para o declararem contra os seus semelhantes contribuintes. Gostam de tratar mal os outros, são impacientes e não raras vezes indelicados. Na Lousã havia um, trabalhava paredes meias com o burocrata perfeito mas nem por isso, nem que fosse a influência benéfica por proximidade, tinha o comportamento correcto do segundo. Os semi-bestas são todos aqueles que gerem os conflitos entre as suas pequenas parcelas de poder e os seus pruridos de consciência, normalmente são pessoas emocionalmente  instáveis que primeiro nos atendem à pedrada e depois reconsideram e admitem que, mais uma vez foram longe demais e não realizaram o verdadeiro serviço público mas tão só utilizaram os seus fracos poderes para a  prepotência bacoca para com os outros. Destes, dos semi-bestas está o país cheio em repartições de finanças mas não só. Existe um exemplo perfeito aqui, na repartição de finanças na Rua da Sé, passa os dias a receber pagamentos incluindo o imposto de circulação automóvel. Por falar nisso, tenho que lá passar e quando lá for pagar o imposto deste ano e lhe contar que me esqueci de pagar o do ano passado, já sei que o tipo, ao contrário do meu paternal burocrata da Lousã, vai trucidar-me com os olhos e censurar-me pela minha falha imperdoável, vai passar-me um sermão mal-humorado e de educativo e bem-educado não terá nada. É que não é para todos.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O meu sono das quintas

 A alvorada cá em casa é as 7:00 da manhã para fazer as coisas com alguma pachorrência ( palavra inventada agora, é gira no entanto, uma mistura entre pachorra e paciência e serve o propósito) , 7:20 se acaso acordo em negação; nesse caso, esses vinte minutos servem para maldizer a minha pouca sorte e inventar esquemas mais ou menos exequíveis para calar a consciência caso me resolva a adormecer novamente. Naturalmente, o meu ser responsável prevalece mas naqueles 20 minutos sinto-me quase uma revolucionaria subversiva.  
  A quinta-feira é um dia muito simpático para mim! Nem preciso ficar os vinte minutos a martirizar-me, levanto-me num ápice porque sei que, depois de os levar à escola, em 10 minutos estou em casa e tenho duas horas certinhas para dormir novamente. Nessa manhã o edredon fica num montinho, as almofadas vão para lá também para manter a cama quente; as calças de pijama vão passear até à escola, enfio um casaco mais ou menos a disfarçar, como se estivesse vestida de professora de educação física e calço uns ténis,  já experimentei ir de chinelos mas tenho algum receio que logo nessas ocasiões tenha um toque no carro ou outro imprevisto que me faça sair do  assento e ser apanhada nesta figura. Ainda passo pelo espelho e agora que cortei o cabelo e o cabeleireiro fez o favor de conseguir cortar-me cada fio de cabelo com um tamanho diferente dos restantes,  prego normalmente um cagaço quando me vejo. Autenticamente um ouriço humano, de cara inchada, olhos esbugalhados e as rugas vincadas nos cantos dos lábios. É nessas ocasiões que aparento a  idade que tenho, ou até mais. Fico momentaneamente esmorecida mas isso passa rapidamente. Com o andar do dia, as rugas da manhã esbatem-se e fico com um aspecto mais aceitável. Hoje quando saí de casa, a correr porque é assim que normalmente o pessoal cá em casa se locomove, eu e as minhas calças de pijama demos logo de caras com o nosso vizinho da frente que às 7:55 já se apresentava de cigarro no canto da beiça. Os meus bonecos do sponge bob viam-se ao longe mas o meu vizinho que é de uma discrição à prova de bala não pestanejou. Cumprimentou-me no seu estilo lacónico onde de vez em quando surgem uns sorrisos despropositados  em relação ao seu registo habitual, altura em que eleva o tom de voz e fica com um timbre ligeiramente histérico que me confunde e lá desceu o resto do caminho em direcção ao salão onde trabalha. Era com ele que deveria ter cortado o meu cabelo mas, na altura, como acontece quando decido uma coisa e tenho que a concretizar imediatamente, não havia vaga para esse dia pelo que marquei para o dia seguinte, certa já que não iria aguentar nem mais um pôr do sol. Assim, no final das aulas andei pela cidade, meia doida, alucinada à procura de um sitio onde me cortassem o cabelo, estou em crer que se não o encontrasse era mesmo eu que o faria, com a tesoura com que corto o pêlo aos cães. Encontrei e cortei e aplacada esta minha vontade lembrei-me o que seria quando o meu vizinho cabeleireiro descobrisse que o tinha traído. Resolvi esconder-me dele o maior tempo possível, se possível até o cabelo me dar pelas costas outra vez, sendo certo que corria grandes riscos, vivendo ele à minha frente e sendo umas das pessoas que, nesta cidade, por acaso, coincidência ou atracção inexplicável, vejo mais vezes. Como se veio a verificar um dia depois, foi uma ideia ingénua da minha parte a de que iria conseguir manter-me à distância, um dos meus cães resolveu fugir e sendo assim tive que me expor mais no perímetro quente da cidade e fui apanhada. Mal me viu soltou um gritinho estridente e deu-me os parabéns porque estava a gostar muito do meu novo look; gaguejei uma espécie de desculpa, disse-lhe que quando me dão aqueles repentes é como se fosse possuída por uma força ao qual não consigo resistir, fico fraquinha sem vontade própria.  Aquela justificação meia titubeante, não sei se pegou. No entanto se se ofendeu não o demonstrou porque continua a ser o vizinho quase invisível que não chateia mas que também não abre a boca para dizer algo mais do que o cumprimento rotineiro.
   Essas manhãs das quintas-feiras, quebrada a rotina semanal, são maravilhosas para mim, eu que odeio os horários formatados e principalmente porque adoro dormir; torna-se embaraçoso tantos louvores ao sono mas desde que descobri que se emagrece a dormir, sendo eu avessa ao exercício físico pela necessidade única de emagrecimento, decidi que dormir também é exercício físico e nesse departamento sou praticamente imbatível. E nem as manhãs de sábado ou de domingo sabem tão bem, saber que se tem a manhã toda para dormir tira-me a vontade, além do mais é manhã de Silveira e é certo que mais do que de dormir, gosto da Silveira. Aquele pequeno momento de quinta-feira que tem que ser bem gerido para render, é um dos meus momentos de felicidade semanal.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

As festas da Ilha Terceira segundo o ponto de vista de uma quase estranha mas em perigosa condição de o deixar de ser

   Na ilha Terceira festeja-se muito! É um facto indesmentível. Os terceirenses são famosos pela sua vertente pândega, pela atracção indómita para o prazer! Gerem a sua vida não segundo as estações do ano ou as semanas de trabalho mas de acordo com as festas! E quando pensam em semanas de trabalho é para afirmarem com um brilho nos olhos " faltam 3 semanas para o início das touradas à corda" ou " daqui a um mês vou encomendar os meus sapatos para as marchas".  E há festas com fartura que aplacam  o terceirense na sua ânsia de divertimento. O terceirense de gema tem também uma visão de futuro, vê sempre mais à frente, no caso e dando um exemplo que se perceba, se está nos festejos de carnaval e imbuído até ao sabugo na organização e no espírito da coisa, uma parte de si, pensa já,  nas marchas das sanjoaninas. Não tem uma visão redutora, pelo contrário, está sempre à frente no seu tempo. De tal forma é assim que um terceirense que se considere puro senta-se para almoçar pensando já no que irá comer ao jantar. Têm uma alma previdente. São deles as famosas frases " antes sobrar que faltar" ou a maravilhosa " Ó Maria bem comi, estou amanhado até cear!".  Ainda o perú de Natal  não arrefeceu no bucho e já o terceirense a sério se lembra da  proximidade  daquelas deliciosas quintas-feiras dos amigos e dos compadres. Não sei o porquê de serem às quintas-feiras mas acredito que haja uma explicação esperta: se as festividades forem nas quintas não se gastam as sextas com essas comemorações e ainda têm as sextas à noite livres para a continuação da farra, um fim de semana alargado sem ponte visível mas com o mesmo espirito folião. São 4 dias extras em crescendo até que explodem no Carnaval:  começam com os Amigos, passam para as Amigas, continuam nos Compadres e terminam nas Comadres e quando se vai a ver, dois dias depois, no sábado seguinte  rebenta o Carnaval e a loucura que já vai grande torna-se demente. E a doença pega-se: eu estou irremediavelmente convertida à loucura carnavalesca e a todas as outras, aliás!  Os terceirenses nestas coisas de inventarem formas de se divertir são grandes, é deles os excessos dos Amigos, das Touradas à corda, dos Bailinhos de Carnaval ( que passa por ser uma das maiores manifestações teatrais amadoras do mundo, leram bem!), dos bonecos chamados de Maios no feriado do dia 1, dos Bodos de Leite associados às celebrações do Divino Espirito Santo a iniciarem-se no domingo de Pentecostes e prolongando-se para o domingo seguinte, o da Trindade,   das festas de S. João em Angra seguida da concorrente na Praia no início de Agosto. Que nisto de festas pagãs ou cristãs, os terceirenses não são nada esquisitos nem preconceituosos, se é para comer e beber com fartura, comemoram-nas com a mesma vontade e empenho.


   Em Setembro entra-se num momento breve de algum recolhimento, vai-se a pé até à Serreta para pagar diversas promessas, mas estou em  crer que no fundo, no fundo, o Terceirense vai lá para expiar os seus inumeros pecados da gula e do prazer, cometidos ao longo de nove intensos meses. Mesmo aí, com o espirito cristão um pouco mais despertado, consegue-se um feriado à segunda-feira à custa de tanta devoção o que é aproveitado para mais uns festejos, mais recatados, sendo certo, que nestas coisas religiosas o terceirense é muito respeitador. De Setembro a Dezembro entra numa morrinha em que se festeja pouco...socorre-se ainda das festas de S. Carlos, lá se consegue enfim mais uma tarde em que não se trabalha, meio feriado de umas festividades de 2ª categoria mas de que não se prescinde, não tendo outras a que  se agarrar.  Esgotadas as festas a que recorrer, é prioritariamente nos meses de outono, início do inverno que os terceirenses aproveitam para trabalhar nos ofícios que os sustentam e lhe dão o substrato para as festas, de que se alimentam verdadeiramente, algo a que se desabituaram nos restantes meses do ano. Que não se pense que o terceirense não é trabalhador, grande engano, no entanto trabalha melhor quando o faz por gosto e que mais gosto poderá este ter do que trabalhar para as suas festas?! É um ser festivaleiro e alimenta-se disso como de pão para a boca; no caso do terceirense, alimenta-se dos dois em igual medida! Tenho uma amiga médica que me contou esta história que poderá ser repetida com outras personagens, em outras situações, que não faltará à verdade:  Internamentos hospitalares de senhoras e senhores doentes seus em épocas de festas nas suas freguesias, touradas à corda famosas, Sanjoaninas?! Doentes a sério que precisam de exames médicos, cuidados específicos hospitalares na época alta da pândega colectiva??!! Credo! Nem pensar!  Venham as festas que a doença pode esperar! Ou  como diria o nosso Luís de Camões e aí absolutamente de acordo " Antes a morte que tal sorte!"

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Maionese de gambas

   Incrível mas verdade: a única nostalgia, na verdade não posso falar em saudades, deixada pela Escola Tomás de Borba é o seu parque de estacionamento: belas sonecas que tirei ali  na zona encostada ao muro, de frente para as lagartixas autóctones,  muito mais simpáticas que a maioria dos professores, meus colegas. Bem de costas para a chegada do pessoal para  ter possibilidade de dormir de boca aberta e poder  babar-me  à vontade. Todos os dias passo por ali e aquele cantinho, ali mais reservado, dá-me ânsias.  Ainda por cima passo por lá muito cedo e só entro na minha escola quase uma hora depois, no entanto fico a pensar que não seria bem aceite, ficar por ali a dormir meia hora para depois pisgar-me, iria possivelmente dar nas vistas; o meu carro, a versão azul do carro do pão é o único na ilha, toda a gente sabe onde estou, é uma treta. Já considerei mudar de carro, ocorre-me que este motivo é o mais forte que encontro até agora para fazer a troca. Um renault clio possivelmente, toda a gente tem renaults clios ou então chevrolets, o pessoal daqui gosta muito de chevrolets, porquê, ignoro.
  
    Na minha nova escola tenho pouco tempo para dormir, para além disso, inacreditavelmente, os gajos que projectaram a escola esqueceram-se de, por uma razão de saúde publica, ainda por cima saúde publica de uma classe já de si tão martirizada como a classe docente, fazerem uma espécie de reservado, o correspondente à sala dos médicos para dormir onde estes, confiando que  o que se passa na  "Anatomia de Grey" é verdade, para além de dormir fazem outras coisas.
   O que  eu queria mesmo era um sitiozinho para poder dormir meia hora à vontade, eu que creio firmemente sofrer de narcolepsia, sem ter uns diabretes a fazerem pontaria para a minha boca aberta a ver quem consegue acertar primeiro, com um pedaço de papel, miolo de pão ou outras cenas impossiveis de mencionar. 

   Às vezes prego umas mentirinhas aos meus alunos: o ano passado tinha uma turma insuportável, já falei nela aqui algures, estou certa que esse meninos contribuíram em parte para esta minha forma de ser, meia stressada; por vezes ia mais relaxada, outra vezes ia furibunda e possessa e ia tudo a eito, sem lhes dar hipóteses de respirarem, sequer. Numa das primeiras vezes que sentiram a minha fúria  disse-lhes que tinha dupla personalidade, que por vezes, havia outro ser que habitava em mim e que aparecia sem que me desse conta, uma irmã gémea, que surgia e que não conseguia controlar,   a quem chamei de Belinda, a irmã má da professora Bárbara. Pois, a história pegou, alguns, poucos, acharam a professora doida, ainda mais do que eles próprios, o que me deve ter elevado aos seus olhares, os outros acharam simplesmente que eu era meia estranha, um pouco digna de dó e alinharam na história e quando as fúrias me davam diziam " Professora, hoje foi a Belinda que veio à escola!".

   Sempre que me perguntam " Professora, o que é que vamos fazer hoje?" A resposta vêm lesta e sempre: " maionese de gambas" Foi qualquer coisa que ouvi há uns aninhos atrás numa publicidade qualquer e a coisa resultou na minha cabeça. Resulta também com os alunos que ficam calados durante uns preciosos 3 segundos durante os quais afinam os fusíveis para digerirem a resposta: uns, os mais manhosos, riem-se e fazem graças apesar de não perceberem patavina do que disse, outros, os miúdos de coração franco e ingenuidade de criança,  levam a graça à letra, perguntam se vamos cozinhar em vez de fazer "ginástica", outros, os tímidos, e os de carapaça mais grossa não se pronunciam achando com grande probabilidade que a professora deixou de funcionar bem. Acaba invariavelmente tudo numa risota pegada, o que só nos faz bem! Muitos já me perguntam quando me vêm: " Professora, como é, vamos fazer maionese de gambas?"

domingo, 13 de janeiro de 2013

Coisinhas de homem deprimentes


Cena deprimente número 1: 

   Uma festa, com potencialidade para ser uma grande festa, música boa, uma playlist ( como se diz agora) susceptível de agradar a todos, se não em todas as músicas, em grande parte delas e o que acontece depois? Tirando dois ou três homens esforçados, homens sedutores que dançam no meio delas, homens que as agarram e as conduzem, os outros, desaparecem para as comuns trivialidades, fumar e beber e embrutecerem-se ainda mais. Elas, lindas e disponíveis para uma das artes mais bonitas e antigas de sedução e que, contrariamente a muitas outras, não produz um aumento significativo de casos extra-conjugais, eles, amorfos e especialmente burros, incapazes de perceber quanto uma dança é sedutora e aproxima. Há acaso maior demonstração de virilidade, um homem que nos leve para dançar, dançar a sério, agarrar em nós, manobrar-nos e arrebatar-nos com poder másculo, conduzir-nos em todos os passos e em todas as direcções?  Pergunta-se a qualquer uma de nós o que pensa sobre este assunto, duvido que haja alguma que discorde com o que digo! E no entanto, aquelas abéculas, não se aproximam! É tão triste! Tenho saudades dos slows dos anos oitenta, aquelas festas de garagem, as matinés da Twins onde toda a graça residia naqueles momentos, onde elas e eles se juntavam em abraços mais ou menos tímidos, onde os corpos estremeciam de puro prazer, sem grande sofisticação nem complexidade mas onde o homem era homem e dançava com uma mulher. E antes disso, nas sociedades onde eles sabiam dançar, chamavam uma mulher, iam buscá-la, conduziam-na e sabiam o que faziam. Hoje em dia consigo de repente pensar em dois homens que sabem  e gostam de dançar e curiosamente são os dois gays! 

Cena deprimente número 2: 

   Não sei quando começou: provavelmente quando andavam a tratar dos papeis para o casamento e ouviram as palavras: esposa e esposo! Que bonitas que são! Quase tão perfeitas quanto "esponsais"! Devem ter gostado, soaram-lhe a sofisticação e agora à conta disso anda por aí, disperso, mas assustadoramente próximo, um bando de coninhas que insiste em tratar as suas mulheres por esposas. Se estou junto de gente e há uma aventesma que cai na asneira de utilizar tal tratamento, peço desculpa e vou à casa de banho refrescar a cara a ver se me passam as náuseas. Ó toleirão, acaso a tua mulher te trata por "esposo"? Não sabes, ó meu grande cagão provinciano que, se não podes tratar a tua gaja por "marida" por oposição ao masculino, a deverás tratar por "mulher"? É isso que ela é, a tua MULHER! 
   Um homem a tratar a sua mulher por esposa faz-me lembrar aqueles grandes figurões do velho testamento que coleccionavam as mulheres para procriação, para povoarem a terra. Mas esses até tinham desculpa, vamos lá, uma tarefa hercúlea ou porventura messiânica e tinham que trabalhar depressa e em quantidade. As esposas, que normalmente eram mais do que uma serviam para isso mesmo, servi-lo. Entretanto, milhares de anos se passaram, mulher tens uma só, (legalmente falando),  aquela a quem levas para a cama porque a desejas e porque queres que seja a única,  a tua companheira, a mãe dos teus filhos. Deixa de ser murcão e quereres fazer bonito, armado em cócó! Fala simples, trata-a por mulher porque é isso que ela é, em todas as suas dimensões, mas primeiro e mais que tudo MULHER, a tua!  E há coisa mais bonita que ouvir uma mulher tratar o seu marido, por " o meu HOMEM"? 



   

sábado, 12 de janeiro de 2013

A filha de sua mãe



O meu amigo da Urbana

   Há um motorista de autocarro nesta terra com quem tenho uma relação de amizade muito especial: nunca o vi para além do seu assento no autocarro, nunca trocámos uma simples palavra nem sei se o faremos alguma vez, no entanto, todos os dias nos cumprimentamos e mais,  sabemos que esse ritual nos é querido aos dois. De manhã na ida para a escola, em São Sebastião,  sei que o encontrarei ali, para as bandas do Porto Judeu, na estrada regional, na sua possível primeira vinda da carreira da Praia da Vitória -Angra do Heroísmo e à tarde, na vinda da escola, se não me atrasar ou tiver reunião sei que é provável, quase certo que nos cruzaremos entre a Ladeira Grande e o início da Ribeirinha quando ele faz mais uma das suas carreiras no sentido inverso. Quase aposto comigo própria onde o encontrarei, se acaso se atrasa, abrando um pouco e é quase certo que nos cruzaremos no sitio do costume, que é assim que tem que ser. Nessa altura, um grande sorriso no rosto de ambos, quando ele vem mais descontraído é  sabido que me fará sinais de luzes e que eu corresponderei com um grande cumprimento com o braço. São dois momentos diários, dois segundos se tanto  que me aquecem pela manhã e me relaxam pela tarde. Esta pequena história de amizade começou num dia em que, em Santo Amaro, desesperada, tentava  atravessar a pé a estrada perto da minha casa, os carros passavam sem ver, toda eu bufava de irritação e  este senhor, com extrema bonomia e um sorriso paternal no rosto me cedeu a passagem, fiquei tão reconhecida que fui efusiva nos meus agradecimentos; ele retribuiu com um grande sorriso e desde aí faz parte dos meus momentos esperados da manhã e da tarde! É daqueles seres que se descobrem no rosto, o que são transparecem! E ele transparece! Não sei o seu nome, não importa, o tempo que partilhamos, aqueles segundos diários tornam os nossos dias um pouco melhores.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

   Ontem caí na asneira de me meter numa discussão a qual já deveria saber, à partida, não iria chegar a lado nenhum! Foi mais uma daquelas discussões onde nada de muito profícuo transpareceu. Cada um a ouvir para o seu lado e ninguém a ouvir ninguém, como normalmente sucede em qualquer discussão. A teoria de que a discussão franca, argumentativa e equilibrada é útil a todas as partes porque permite alargar os nossos próprios limites é uma treta; ninguém tem abertura de espirito suficiente para permitir tal quando já formatou a sua cabeça para as suas conclusões sobre os assuntos.  Ninguém está interessado em ouvir a mensagem, preocupa-se em descodificar as implicações para lá da mensagem, o que surge por detrás, o que se insinua com os sarcasmos, as entoações, as pontuações, o que não está escrito mas o que transparece. E com essa distração, a mensagem propriamente dita não passa. E é uma treta porque após 5 ou 6 impressões ditas ou escritas já se derivou para questões paralelas que em nada contribuem para o assunto. E depois, ainda há que lidar com as crispações pessoais, as sensibilidades de cada qual, muitas vezes as mensagens adquirem proporções que o receptor  descodifica como ataque pessoal o que complica ainda mais o o desenvolvimento do tema. Acaba toda a gente a degladiar-se, zangados e irritados, cada vez mais refinados nas suas ironias e sarcasmos e esgota-se o tema por cansaço ou desmotivação. Vou-me deixar disso até porque nunca tive dotes de retórica. Deixo isso para os que, mais do que viver, escrevem sobre a vida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Minerva

   Hoje é um dia triste! A minha cadela Minerva, grande amiga, morreu! Com  12 anos de vida canina correspondente a, segundo a veterinária, 70 anos bem medidos foi uma cadela que viveu a vida em liberdade, sem trelas nem correntes, sem grandes mordomias também. Era um animal robusto, sobreviveu a um atropelamento inacreditável sem uma única beliscadura a não ser um susto monumental e caiu duas vezes de uma altura superior a 5 metros sem ter partido, deslocado, arranhado ou torcido uma pata. Perseguiu e comeu galinhas quando jovem, momentos de uma adolescência excessiva que com o tempo se foi acalmando. Perfilhou, mimou e amamentou um gato recém-nascido, o seu corpinho maternal criou leite para aquela bolinha de pêlo. Teve a sua primeira gravidez já em idade madura que terminou mal para uma cria e julgo eu, condenou para todo o sempre, o seu único filho, o inefável Gastão Elias a uma condição de borderline com défices de atenção irremediáveis. Nos seus tempos áureos governou o quintal e mandou nos outros cães, na sua velhice resignou-se à condição de velha sem privilégios a não ser para a sua dona com quem partilhou e assistiu a períodos conturbados da sua vida. Assistiu a tristezas e alegrias, viu crescer a par e par consigo o benjamin humano da casa. Acompanhou a dona por onde esta andou, era esperta e foi-se refinando com a idade o que lhe deu um estatuto que lhe permitiu fazer orelhas moucas a certas ordens em que não se revia. Tal como viveu foi também apressada a morrer, poupou à dona dores e esperas angustiadas.





   Vais ser enterrada num sitio bonito, no cimo de uma colina verde com vista para o mar!

domingo, 6 de janeiro de 2013

Bisbilhotice vs Maldicência

   Deixem-se de tretas: qualquer um de nós, por mais elevados sentimentos que tenha, aprecia, mais, pela-se por uma boa cusquice e se houver pormenores sórdidos com assuntos de cama à mistura, melhor! E a piada toda é que o boato, a história, os pormenores vão sempre crescendo,  refinam-se, os detalhes aprimoram-se, sempre que passa por mais um receptor, a história enriquece com um pormenor de inteira responsabilidade do emissor! E há tanta gente criativa, tão mal aproveitada. Quando alguém cusca, bisbilhota, ou agarra na bisbilhotice que ouviu, torna quase sua aquela vida, apodera-se dela e renova-se um pouco. Cusca-se para afastar a solidão, o mundo doi nós nele sozinhos, bisbilhotarmos a vida dos outros aproxima-nos, aquece o vazio do espaço que nos separa dos outros. 
   Dizer mal é mais refinado, mais requintado, menos inocente! 

   Quando nos zangamos com os amigos, quando entramos em bate-bocas com quem nos quer bem, normalmente ninguém se entende nos argumentos, somos irrazoáveis, pouco racionais, gritamos muito e argumentamos com muito pouca qualidade. Eu sou assim! Quase irracional! Pouco me separa, nesses momentos de uma mãe chimpanzé! Se espremer bem o que disse após uma discussão acesa em que se ouve pouco e se raciocina menos ainda, está seco, o sumo da discórdia perdeu-se algures ainda no início da refrega.

   É um pouco a diferença entre a bisbilhotice e a maledicência, bisbilhotamos com carinho, falamos mal por ódio. Bisbilhotamos com o coração, maldizemos com a cabeça, cuscamos em busca do sentido de grupo, odiamos com a perspectiva de induzirmos a cisão do grupo. Bisbilhotamos de forma atabalhoada, maldizemos sabendo bem que cordas tocar a fim de criar o maior desafino.




 Conhecem aquela pessoa que, quando se proporciona, diz a quem queira ouvir "sou extremamente orgulhosa...ou teimosa...ou impaciente...ou..."  whatever e o diz com um certo ar ufano de quem acaba de dizer algo muito cool?! Pois é, parece que é muito honesto assumirmos os nossos defeitos e fazermos actos de contrição periódicos, de preferência com muita gente a ouvir para termos testemunhas suficientes que atestem a nossa humildade! Nunca ninguém diz, " sou inteligente, boa, confiável, sensata, perseverante e por aí fora porque nesse caso seriamos todos rotulados de vaidosos, petulantes, com falta de humildade! Ou seja, falar dos defeitos é encorajado e quem os assume aos berros leva palmadinhas nas costas (mesmo que toda a sua vida  o seja e não faça nada para o mudar); se somos francos e achamos que somos o máximo, olha porque sim, porque gostamos de nós e apetece-nos afirmar ao vento que vivemos de bem connosco... prontos, estamos a ser pomposos, vaidosos, narcisistas. É de louvar mostrar que somos humanos e como tal falhos de qualidades, elevarmos as nossas qualidades faz de nós seres imperfeitos.


  E que dizer  daqueles amigos que hoje estão mas amanhã nem por isso, aqueles amigos que mudam de amigos com mais rapidez do que eu como um gelado, daqueles seres que têm uma capacidade supersónica para se insinuarem nos outros, normalmente com excelentes resultados mas quando menos se espera já lá não estão porque  já se estão a insinuar junto de outros amigos e aquele amigo do peito, tão próximo e presente, num ápice já não nos liga nenhum, não nos telefona, deixou de querer sair connosco. À noite, já não nos faz confidências, porque a outro incumbiu entretanto essa responsabilidade! São os amigos sazonais, amigos de ocasião!E há tantos! Esses amigos deixam-nos um espaço que se irá preencher com o tempo mas enquanto tal não sucede, é como se nos sentíssemos puxados para um vácuo que nos suga e nos deixa vazios. Até que crescemos novamente e esse espaço se preenche novamente e invariavelmente nos perguntamos: como foi possível?!









quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Como quem muda de camisa...

   Reza a história que quando eu nasci já a minha mãe tinha vivido em 17 casas. A minha mãe tinha 42 anos quando me teve, o que dá uma média de 2 anos e quatro meses por cada casa; sabendo que, viveu muitos anos na sua primeira casa, a casa dos meus avós maternos, isso quer dizer que andou a saltitar pelas outras como quem muda de camisa sem sequer aquecer o lugar. Após o meu nascimento ainda umas quantas casas se têm que acrescentar ao seu currículo mas nada parecido com a rebaldaria da sua primeira idade adulta. Hoje acordei com esta percepção inquietante que de há uns tempos para cá, ando em mudança constante, não que essa realidade seja muito afastada de todo o meu percurso de vida mas a constatação que, chega uma altura, é tempo de parar, literalmente! 
   Vejamos:

Nascimento / Dois anos e meio :  -  casa-mãe ( Sobreda da Caparica);
Dois anos e meio / Sete anos e meio: Moçambique: 1 ano - - Apartamento em  Lourenço Marques; 4 anos - - casa na Beira;
Dos 7 aos 10 - casa-mae;
Dos !0 aos 15 - Ilha Terceira: de 1977 a 1980 - - Casa da rua da palha; - alguns meses de 1980 - Porto Judeu; 1981 - rua da palha novamente; 1981- 1982 - - casa perto do Castelinho;
15 aos 22 anos - casa-mãe
22 - 23 anos - - apartamento em Coimbra;
1992 - 2009 - Lousã:
   - Apartamento  na Praceta do mercado - 1 ano;
   9ª - Casa no Alto Vistoso - 5 longos anos;
   10ª - Casa no freixo - 4 meses;
   11ª - casa em Vale da silva - 2 anos e meio;
   12ª- Apartamento na avenida do brsil - lousa - 1 ano;
   13ª - Casa em Fiscal - 7 anos;

2009 - 2012 - Regresso à Terceira

Fase Terceirense

  casa # 1 -  14ª da geral  - casa na rua de S. Pedro - 4 meses;
  casa # 2 - 15ª da geral - casa em S. Bartolomeu - 4 meses;
  casa #3 - 16ªda geral  - casa na Boa Hora - 1 ano;
  casa # 4 - 17ª da geral  - casa em S. Amaro - até hoje....


... até hoje ou até finais de Junho ! Há quem lhe dê os calores na primavera a mim dá-me vontade de mudar, parece que encontrei a casa número cinco. Em sua defesa digo que é de todas a mais gira e parece, não ter problemas de fossa!

   e eis que chega a Casa número 18!
                                                                                               
   

45 anos

   Dia 21 de Março faço 45 anos! Ena, tantos já e no entanto tão rápidos a chegar. É um facto, a partir dos trinta é sempre na curva descendente, no entanto não se nota ainda. Aos quarenta e cinco a história é outra. No meu caso particular consigo observar em que medida estou a ficar velha pela  capacidade ou falta dela em fazer aquilo que me dava ( e ainda dá) gozo. Os flicks à rectaguarda em cima de cimento é história que já não se repete, poderia ainda tentá-los mas a possibilidade de me magoar a sério crescem exponencialmente. Há 5 anos anos atrás, insisti que iria recuperar a minha forma física e capacidade de fazer ginástica esquecendo que a agilidade, a plasticidade e a capacidade de recuperação do meu corpo já não serem os mesmos. Meti na minha cabeça dura que iria fazer novamente a rodada/ mortal nem que para isso me esfrangalhasse toda. Fiz, pois fiz mas custou-me uma entorse no meu tornozelo de estimação, aquele que dei cabo com 15 anos a experimentar uma nova forma de abordar o minitrampolim. Quando a fazer o gesso no hospital, o médico que me acudiu, um bacano, por acaso, olhou de forma esquisita para mim quando lhe expliquei em que consistiu a minha queda. Acho que ele percebeu o quanto orgulhosa estava de  mim própria, um pouco como os putos da escola.

   Ao chegar aos 45 anos, percebe-se subitamente que mais outro tanto é quase impossível de conseguir. Com excepção do Manoel de Oliveira que é um ser à parte, a porção de gente que consegue chegar aos 90 anos é pequena, tem que ter uns genes muito fortes e levar uma vida de tal forma regrada que em chegando lá não só está bem de corpo mas a cabeça não o deixa ficar mal;não se depender de ninguém, ainda ter a alegria de fazer chichi sem ter a humilhação de alguém a despi-la, a mudar-lhe a fralda, a saber ainda agarrar num garfo e levá-lo à boca sem deixar a comida ficar a meio caminho, olhar para a filha ou filho e não lhe trocar os nomes; estar neste mundo em corpo e espírito e apreciá-lo até que a morte venha, de preferência silenciosa e rápida que é para não armar muita confusão. Dia 24 de março a minha mãe faz 87 anos: o seu corpo cá está mas o espírito há muito que a abandonou. Há dois anos atrás falaram-me de uma casa de repouso muito boa numa freguesia aqui na Terceira, dirigida por um grupo de profissionais muito jovens e com um projecto interessante porque diferente onde os seniores tinham algumas ocupações giras e o ambiente era familiar. Algo desconfiada e achando que estava a trair a minha mãe, que sempre me falou do seu horror a casas de repouso, lá fui, vi, observei, inscrevi a minha mãe apesar da lista de espera ser enorme e as probabilidades de conseguir entrar serem muito pequenas. Meia aliviada com essa probabilidade vim-me embora e esqueci o assunto. Entretanto e passados dois meses  sou contactada por uma assistente social a pedir-me para vir  a minha casa para falar comigo e conhecer a minha mãe. Por essa altura já a minha mãe se admirava de ver sempre uma senhora que a perseguia, " aquela velha não me larga, para onde eu vou ela vai atrás!", quando passava pelas grandes janelas da casa ou no espelho colocado na entrada dos quartos! Por vezes entrava em diálogos  com a sua imagem ao espelho, outras vezes irritava-se com as pessoas da televisão que não saiam lá de casa! A assistente social chegou e nesse dia a minha mãe estava muito lúcida, muito conversadora, apesar de surda, a discorrer perfeitamente todos os assuntos e sem sombras de algum tipo de demência. A assistente social fez-lhe algumas perguntas de circunstância e depois avançou para a questão fulcral : " A senhora Ana gostaria de ir viver para um lar durante uns tempos?" A minha mãe que nunca ouvia uma frase à primeira e que sempre nos obrigou a repetir duas vezes o mesmo foi lesta e concisa a responder: " em duas semanas estava morta!" Esta resposta encerrou qualquer réstia de pretensão da minha parte, aliviou-me imenso a consciência e desde então não se pensou mais no assunto. A mãe vive comigo, já perdeu todos os seus momentos de lucidez, já se passou para o mundo de lá ainda tendo o corpo cá ( tantas vezes me interrogo o que se passará na sua cabeça, o que pensará ela, que tipo de raciocínios, que os tem certamente, será que regressou a uma espécie de idade infantil onde os pensamentos são menos refinados, mais sentidos?!).

   Todas as pessoas que conheço me dizem que deve ser horrível o corpo ser forte e a mente doente, fraca, demente, doida! A minha mãe sempre me disse que desejava morrer depressa a partir do momento em que não conseguisse discernir as coisas, que começasse a dar maçada aos outros, a sentir-se um peso! 
   Pois eu digo que o contrário deve ser bem pior; ter uma cabeça boa, lúcida e um corpo doente, cheio de mazelas deve ser o inferno; um louco não sabe que anda neste mundo e neste mundo paralelo onde vive não deve viver mal, deve ser como se esteja permanentemente a sonhar, a sonhar acordado ou a dormir, não interessa. A minha mãe na sua demência está normalmente pacificada, não se queixa de dores, tirando aquele ombro que se partiu há 5 anos e que acredito despoletou tudo isto! Toma 3 comprimidos por dia e um xarope para dormir numa dose baixinha e tem a tensão arterial de um adulto saudável. É mansa como um cordeiro, quando estava no seu perfeito juízo era opinativa e chata! Não se choquem, era verdade! Tinha sempre opinião para tudo, não era nada diplomata, o que lhe apetecia dizer dizia, não havia nenhum tipo de filtro, o coração ao pés da boca e não raras vezes ofendia as pessoas: tal e qual eu! Imagino o que seria a minha mãe, com o seu juízo todo deitada numa cama a comandar as tropas! Não , prefiro-a assim, sem dores, ainda que uma sombra de si! O que eu queria mesmo, mesmo, era uma mãe saudável de corpo e de espírito mas já tenho idade para saber como raras vezes a vida se nos oferece o que desejamos. Ela também já se não dá conta, não sofre com isso! Como seria ter que assistir ao seu declínio físico dia após dia? Olhar para dentro e para fora de si e não se reconhecer em nada, lembrar como se era, como têm os velhos o péssimo hábito, de memórias passadas guardarem todos os traços, os cheiros, os sentimentos e esquecerem o recente, o novo... e assim olhando para o que foi há tanto tempo, não conseguirem encontrar-se nas memórias recentes... e sofrerem por isso, o corpo que os atraiçoa quando a mente quer voar ainda. 

   Parece óbvio que aos 45 anos tenho mais passado do que futuro, só tenho pena não ter tido a minha cabeça de 45 anos no meu corpo de 25 anos de resto não tenho pena de nada! É bom ter 45 anos, apesar do corpo já começar a envelhecer e o espelho mostrar alguém que não corresponde aquela pessoa que sentimos,espero nesta fase conseguir uma certa sapiência para que quando a velhice chegar me deixar ir e aceitar sem dramas o que me quiser dar.