quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

45 anos

   Dia 21 de Março faço 45 anos! Ena, tantos já e no entanto tão rápidos a chegar. É um facto, a partir dos trinta é sempre na curva descendente, no entanto não se nota ainda. Aos quarenta e cinco a história é outra. No meu caso particular consigo observar em que medida estou a ficar velha pela  capacidade ou falta dela em fazer aquilo que me dava ( e ainda dá) gozo. Os flicks à rectaguarda em cima de cimento é história que já não se repete, poderia ainda tentá-los mas a possibilidade de me magoar a sério crescem exponencialmente. Há 5 anos anos atrás, insisti que iria recuperar a minha forma física e capacidade de fazer ginástica esquecendo que a agilidade, a plasticidade e a capacidade de recuperação do meu corpo já não serem os mesmos. Meti na minha cabeça dura que iria fazer novamente a rodada/ mortal nem que para isso me esfrangalhasse toda. Fiz, pois fiz mas custou-me uma entorse no meu tornozelo de estimação, aquele que dei cabo com 15 anos a experimentar uma nova forma de abordar o minitrampolim. Quando a fazer o gesso no hospital, o médico que me acudiu, um bacano, por acaso, olhou de forma esquisita para mim quando lhe expliquei em que consistiu a minha queda. Acho que ele percebeu o quanto orgulhosa estava de  mim própria, um pouco como os putos da escola.

   Ao chegar aos 45 anos, percebe-se subitamente que mais outro tanto é quase impossível de conseguir. Com excepção do Manoel de Oliveira que é um ser à parte, a porção de gente que consegue chegar aos 90 anos é pequena, tem que ter uns genes muito fortes e levar uma vida de tal forma regrada que em chegando lá não só está bem de corpo mas a cabeça não o deixa ficar mal;não se depender de ninguém, ainda ter a alegria de fazer chichi sem ter a humilhação de alguém a despi-la, a mudar-lhe a fralda, a saber ainda agarrar num garfo e levá-lo à boca sem deixar a comida ficar a meio caminho, olhar para a filha ou filho e não lhe trocar os nomes; estar neste mundo em corpo e espírito e apreciá-lo até que a morte venha, de preferência silenciosa e rápida que é para não armar muita confusão. Dia 24 de março a minha mãe faz 87 anos: o seu corpo cá está mas o espírito há muito que a abandonou. Há dois anos atrás falaram-me de uma casa de repouso muito boa numa freguesia aqui na Terceira, dirigida por um grupo de profissionais muito jovens e com um projecto interessante porque diferente onde os seniores tinham algumas ocupações giras e o ambiente era familiar. Algo desconfiada e achando que estava a trair a minha mãe, que sempre me falou do seu horror a casas de repouso, lá fui, vi, observei, inscrevi a minha mãe apesar da lista de espera ser enorme e as probabilidades de conseguir entrar serem muito pequenas. Meia aliviada com essa probabilidade vim-me embora e esqueci o assunto. Entretanto e passados dois meses  sou contactada por uma assistente social a pedir-me para vir  a minha casa para falar comigo e conhecer a minha mãe. Por essa altura já a minha mãe se admirava de ver sempre uma senhora que a perseguia, " aquela velha não me larga, para onde eu vou ela vai atrás!", quando passava pelas grandes janelas da casa ou no espelho colocado na entrada dos quartos! Por vezes entrava em diálogos  com a sua imagem ao espelho, outras vezes irritava-se com as pessoas da televisão que não saiam lá de casa! A assistente social chegou e nesse dia a minha mãe estava muito lúcida, muito conversadora, apesar de surda, a discorrer perfeitamente todos os assuntos e sem sombras de algum tipo de demência. A assistente social fez-lhe algumas perguntas de circunstância e depois avançou para a questão fulcral : " A senhora Ana gostaria de ir viver para um lar durante uns tempos?" A minha mãe que nunca ouvia uma frase à primeira e que sempre nos obrigou a repetir duas vezes o mesmo foi lesta e concisa a responder: " em duas semanas estava morta!" Esta resposta encerrou qualquer réstia de pretensão da minha parte, aliviou-me imenso a consciência e desde então não se pensou mais no assunto. A mãe vive comigo, já perdeu todos os seus momentos de lucidez, já se passou para o mundo de lá ainda tendo o corpo cá ( tantas vezes me interrogo o que se passará na sua cabeça, o que pensará ela, que tipo de raciocínios, que os tem certamente, será que regressou a uma espécie de idade infantil onde os pensamentos são menos refinados, mais sentidos?!).

   Todas as pessoas que conheço me dizem que deve ser horrível o corpo ser forte e a mente doente, fraca, demente, doida! A minha mãe sempre me disse que desejava morrer depressa a partir do momento em que não conseguisse discernir as coisas, que começasse a dar maçada aos outros, a sentir-se um peso! 
   Pois eu digo que o contrário deve ser bem pior; ter uma cabeça boa, lúcida e um corpo doente, cheio de mazelas deve ser o inferno; um louco não sabe que anda neste mundo e neste mundo paralelo onde vive não deve viver mal, deve ser como se esteja permanentemente a sonhar, a sonhar acordado ou a dormir, não interessa. A minha mãe na sua demência está normalmente pacificada, não se queixa de dores, tirando aquele ombro que se partiu há 5 anos e que acredito despoletou tudo isto! Toma 3 comprimidos por dia e um xarope para dormir numa dose baixinha e tem a tensão arterial de um adulto saudável. É mansa como um cordeiro, quando estava no seu perfeito juízo era opinativa e chata! Não se choquem, era verdade! Tinha sempre opinião para tudo, não era nada diplomata, o que lhe apetecia dizer dizia, não havia nenhum tipo de filtro, o coração ao pés da boca e não raras vezes ofendia as pessoas: tal e qual eu! Imagino o que seria a minha mãe, com o seu juízo todo deitada numa cama a comandar as tropas! Não , prefiro-a assim, sem dores, ainda que uma sombra de si! O que eu queria mesmo, mesmo, era uma mãe saudável de corpo e de espírito mas já tenho idade para saber como raras vezes a vida se nos oferece o que desejamos. Ela também já se não dá conta, não sofre com isso! Como seria ter que assistir ao seu declínio físico dia após dia? Olhar para dentro e para fora de si e não se reconhecer em nada, lembrar como se era, como têm os velhos o péssimo hábito, de memórias passadas guardarem todos os traços, os cheiros, os sentimentos e esquecerem o recente, o novo... e assim olhando para o que foi há tanto tempo, não conseguirem encontrar-se nas memórias recentes... e sofrerem por isso, o corpo que os atraiçoa quando a mente quer voar ainda. 

   Parece óbvio que aos 45 anos tenho mais passado do que futuro, só tenho pena não ter tido a minha cabeça de 45 anos no meu corpo de 25 anos de resto não tenho pena de nada! É bom ter 45 anos, apesar do corpo já começar a envelhecer e o espelho mostrar alguém que não corresponde aquela pessoa que sentimos,espero nesta fase conseguir uma certa sapiência para que quando a velhice chegar me deixar ir e aceitar sem dramas o que me quiser dar.

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