sábado, 28 de fevereiro de 2015

   Sinto-me divertida por este tipo de pessoas de mente neuropsicótica, que não sendo nossos amigos facebookianos, nunca tendo sido e muito menos amigos reais, nos bloqueiam e desbloqueiam ao sabor de uma corrente de humor só por eles explicável! A gente sabe que eles estão mas não estão para nós, como se a nós nos calasse fundo, a circunstancia de eles não nos quererem ver à distancia de uma clique ou nós os vermos a eles por um simples carregar de botão. São tempos extraordinários estes, não propriamente saudáveis mas nem por isso menos extraordinários! Sinto que, daqui a uns 200 ou 300 anos, o advento do século XXI será estudado em todas as escolas, numa disciplina obrigatória, no domínio das doenças mentais de cariz sociológico para as quais se descobriu, entretanto, uma vacina. Um pouco como a tuberculose ou a raiva, só que de efeitos visualmente menos dramáticos!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O mártir

   De há uns tempos para cá tenho-me detido na tentativa de compreensão de um tipo de gente que se arroga de moralmente superior, gente de irrepreensível comportamento, católicos ferrenhos de moralidade inatacável e por consequência doutorados na critica contundente dos outros, os pecadores por pensamentos, actos e omissões.  Aqueles que cristalizam as suas convicções conservadoras e bafientas com a prática regular dos deveres religiosos e aí param na compreensão dos pecados dos outros, que não querem compreender porque é pecado.
   Os outros, os que se arrastam pela lama em que se tornou a sua vida, os outros  que tão dignos de dó e para quem se olha, condescendente, do alto do pedestal das boas práticas cristãs. Os outros que cometem indignidades e vivem uma vida irresponsável disfarçada de felicidade,  pejada de acções inconsequentes e das quais deverão envergonhar-se, eternamente. Umas vergastadas nas costas, umas vestes húmidas cobertas de sal, o sofrimento físico para remissão dos excessos da carne.
   Se a estes paladinos da moral cristã se juntar a convicção martirizada que se vem a este mundo para sofrer e que no sofrimento se vislumbra a luz, temos assegurado um mártir, um ser que não é deste mundo, que no sofrimento se conforta,  alimentando-se com a incompreensão dos outros.
   Usam cilícios morais e penitenciam-se constantemente. Contristados com impuros pensamentos, que os têm, procuram a contrição em todos os aspectos da sua vida: a eles reclamam todos os trabalhos, todas as responsabilidades, todas as agruras e aborrecimentos da vida, certos que assim sendo se aproximam da salvação eterna. Desprezam os que assim não pensam, todos os que agarrados à vida, o fazem pensando como esta é bela e merecedora de gozo. E que agem em conformidade, vivem, riem e fazem amor, e bebem a vida  e gozam de si próprios.
   São parcos nessas manifestações terrenas, o riso é doseado e os prazeres terrenos na medida certa em que não se excedem. O excesso de viver e da louca transigência dos pecadilhos da vida, são interditados.   Levam-se demasiado a sério,  são incapazes do riso de si próprios, de se ridicularizarem e com isso de saírem incólumes, não beliscados na sua imaculada moral. 
   Já provaram o pecado, sentiram o poder da tentação, deitaram-se no leito libidinoso de que se reveste, sentiram o ardor húmido e pulsante, momentaneamente perderam-se nele mas, revestidos de mais e mais força, de luta valorosa e vitoriosa, não se permitiram permanecer. 
   São aborrecidos e chatos não porque queiram mas  porque alguém tem que o ser, a consciência que falta aos irresponsáveis desta vida; caminham fintando os pés porque vergados ante o mundo que carregam. São a nossa consciência sem que lhes tenhamos encomendado um sermão. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Conas

A expressão " És um coninhas" aplica-se exclusivamente a homens, dizê-lo a uma mulher é uma redundância e não especialmente ofensivo. Aplicá-lo a um homem é outra conversa; nada é mais insuportavelmente irritante do que um homem coninhas. São aqueles seres miudinhos nos gestos e nas ideias, de tal forma herméticos que se inclinam sempre para um sentido e carecem de ginástica mental para penderem, por vezes, para o lado contrário. Há homens coninhas em todos os sectores da sociedade mas é no ensino que eles medram, como cogumelos numa floresta sombria. Os professores coninhas são os mais refinados dentro do género, porque sentem legitimidade no oficio para serem  uns verdadeiros conas. São chatos e compostinhos, seguem todas as ordens carneiramente, não levantam a voz e são sempre delicados. Existem numa proporção de 90% para 10%, sendo que os 10% correspondem a malucos da cabeça, cromos e afins, aqueles de quem toda a gente se afasta nos corredores  e os outros, os a quem disseram que era uma jogada inteligente e de colheita profícua ir para o ensino porque eram só gajas. São tipos inteligentes e sabem coisas, sabem mexer em papeis e dominam as artes informáticas. Dão bons diretores de turma, assessores de qualquer coisa, são fiáveis e profissionais. Competentes no seu ofício, não arriscam jogadas pedagógicas arriscadas, se lhes mudam a sala de reuniões ficam momentaneamente desorientados esquecendo que podem escolher entre mais 20 salas geometricamente iguais; nunca se ouviram numa gargalhada ao fundo do corredor, nem contaram uma anedota porca na sala de professores; levam marmitas etiquetadas com a comidinha que a esposa amorosamente lhes arranja.  Há muito que esqueceram as virtudes do exercício físico, os conas radicais nunca pegaram num cigarro, nos jantares de professores bebem água, dizem que o álcool a eles lhes provoca azia e eczemas no couro cabeludo. Observam-se na escola porque são poucos, saltam à vista apesar de quererem desesperadamente passar despercebidos, ajustaram-se a tanta estridência feminina e encontraram um nicho no qual sobrevivem. É como se elas, com o tempo, lhes tivessem sugado todo o espírito. Têm o mesmo efeito do que um ansiolitico com a desvantagem de não se poder dormir no local de trabalho.