quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Maionese de gambas

   Incrível mas verdade: a única nostalgia, na verdade não posso falar em saudades, deixada pela Escola Tomás de Borba é o seu parque de estacionamento: belas sonecas que tirei ali  na zona encostada ao muro, de frente para as lagartixas autóctones,  muito mais simpáticas que a maioria dos professores, meus colegas. Bem de costas para a chegada do pessoal para  ter possibilidade de dormir de boca aberta e poder  babar-me  à vontade. Todos os dias passo por ali e aquele cantinho, ali mais reservado, dá-me ânsias.  Ainda por cima passo por lá muito cedo e só entro na minha escola quase uma hora depois, no entanto fico a pensar que não seria bem aceite, ficar por ali a dormir meia hora para depois pisgar-me, iria possivelmente dar nas vistas; o meu carro, a versão azul do carro do pão é o único na ilha, toda a gente sabe onde estou, é uma treta. Já considerei mudar de carro, ocorre-me que este motivo é o mais forte que encontro até agora para fazer a troca. Um renault clio possivelmente, toda a gente tem renaults clios ou então chevrolets, o pessoal daqui gosta muito de chevrolets, porquê, ignoro.
  
    Na minha nova escola tenho pouco tempo para dormir, para além disso, inacreditavelmente, os gajos que projectaram a escola esqueceram-se de, por uma razão de saúde publica, ainda por cima saúde publica de uma classe já de si tão martirizada como a classe docente, fazerem uma espécie de reservado, o correspondente à sala dos médicos para dormir onde estes, confiando que  o que se passa na  "Anatomia de Grey" é verdade, para além de dormir fazem outras coisas.
   O que  eu queria mesmo era um sitiozinho para poder dormir meia hora à vontade, eu que creio firmemente sofrer de narcolepsia, sem ter uns diabretes a fazerem pontaria para a minha boca aberta a ver quem consegue acertar primeiro, com um pedaço de papel, miolo de pão ou outras cenas impossiveis de mencionar. 

   Às vezes prego umas mentirinhas aos meus alunos: o ano passado tinha uma turma insuportável, já falei nela aqui algures, estou certa que esse meninos contribuíram em parte para esta minha forma de ser, meia stressada; por vezes ia mais relaxada, outra vezes ia furibunda e possessa e ia tudo a eito, sem lhes dar hipóteses de respirarem, sequer. Numa das primeiras vezes que sentiram a minha fúria  disse-lhes que tinha dupla personalidade, que por vezes, havia outro ser que habitava em mim e que aparecia sem que me desse conta, uma irmã gémea, que surgia e que não conseguia controlar,   a quem chamei de Belinda, a irmã má da professora Bárbara. Pois, a história pegou, alguns, poucos, acharam a professora doida, ainda mais do que eles próprios, o que me deve ter elevado aos seus olhares, os outros acharam simplesmente que eu era meia estranha, um pouco digna de dó e alinharam na história e quando as fúrias me davam diziam " Professora, hoje foi a Belinda que veio à escola!".

   Sempre que me perguntam " Professora, o que é que vamos fazer hoje?" A resposta vêm lesta e sempre: " maionese de gambas" Foi qualquer coisa que ouvi há uns aninhos atrás numa publicidade qualquer e a coisa resultou na minha cabeça. Resulta também com os alunos que ficam calados durante uns preciosos 3 segundos durante os quais afinam os fusíveis para digerirem a resposta: uns, os mais manhosos, riem-se e fazem graças apesar de não perceberem patavina do que disse, outros, os miúdos de coração franco e ingenuidade de criança,  levam a graça à letra, perguntam se vamos cozinhar em vez de fazer "ginástica", outros, os tímidos, e os de carapaça mais grossa não se pronunciam achando com grande probabilidade que a professora deixou de funcionar bem. Acaba invariavelmente tudo numa risota pegada, o que só nos faz bem! Muitos já me perguntam quando me vêm: " Professora, como é, vamos fazer maionese de gambas?"

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