sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A ver deus!

   Outro dia tive uma conversa muito interessante e esclarecedora sobre uma corrente muito em voga nos dias que correm, entre gente que tem, entre quase  nada para fazer e nada para fazer, tempo de sobra e não sabe muito bem que outras formas criativas inventar para gastar o seu dinheiro que tem que ser muito.  Falo das festas muito exclusivas e tremendamente caras onde o objectivo primordial é ter sexo, de preferência muito e com muita gente diferente. Uma rebaldaria pegada mas com muito nível! Fui investigar o fenómeno e descobri a empresa principal que se dedica a estas coisas, há outras mas são sucedâneos rascas que não dão estatuto; essa tal de que falo parece que está altamente próspera e com tendência para melhorar ainda mais e toda a gente que quer enrolar-se em grupo mas enrolar-se com estilo, a procura. Palavra de ordem para estas festas: discrição. O pessoal que as frequenta é altamente discreto e deseja anonimato. Mesmo que passe a noite de pernas abertas e de pirilau em riste mantêm sempre a discrição.  Uma condição imprescindível é o uso de uma máscara veneziana! Parece que o anonimato se consegue assim; a discrição e o estilo também!  É facto assente que, por exemplo, esconder o nariz da Judite de Sousa ou o corpanzil do Malato atrás da sofisticação de uma máscara  é o suficiente e ninguém se dará conta de quem é que tem a brincar consigo! Um bocadinho como a história dos veados, que se escondem atrás das árvores e que pensam que desde que não vejam os caçadores, os caçadores não os vêm a eles! Adiante! Lembrei-me da JS como poderia ter-me lembrado do José Alberto Carvalho (a esse julgo até que lhe faria muito bem um tratamento de choque a ver se lhe passa de uma vez por todas a gaguez! Há quem seja despedido por menos!). O dress code para estas ocasiões é tremendamente rígido, homens de fato escuro com ou sem gravata e a senhoras vestido de noite ou em alternativa vestido curto. Afinal percebe-se, o vestido de noite normalmente é longo e como tal de difícil manejo, o vestido curto muito mais maneirinho; é como pôr um jogador de basquetebol a jogar com sapatilhas de pontas de ballet, há que ajustar a indumentária ao fim a que se destina.
   Investigando mais um pouco e depois de ver posts de gente desesperada em sites da especialidade, pedindo, " por favor aceitem-me que eu serei um sucesso" e " como posso entrar na vossa comunidade, já mandei imensos mails e não obtive resposta" descobri que normalmente a confraternização se inicia com uns cocktails e uns canapés leves (que não se deseja que os convivas apanhem uma congestão) ao som de musica clássica ( Mozart parece-me adequado, digo eu). Tudo muito selecto, tudo ainda muito vestido, os vestidos curtos ainda estão no pêlo! Seguidamente, por volta das 17 horas há um briefing obrigatório onde os convivas, munidos das suas respectivas capas com micas mostram as suas ultimas análises e resultados a propósito de todo o tipo de doenças do foro sexual e também de cariz psiquiátrico, não vá deixar-se passar um doido que desate a matar toda a gente a toques de catana e lá se vai a discrição. Todos muito limpinhos, mentalmente sãos, de cores saudáveis dos bronzeamentos a jacto, rostos aliviados, o último obstáculo ultrapassado. A partir daqui é a promessa do paraíso que se revela já ali, bem perto. Um paraíso bonacheirão que parece que deixa fazer quase tudo, digo parece porque para meu desespero, nunca consegui confirmar in loco o que leio e me contam. Parece que já não faço parte do grupo etário dos eleitos, os meus 45 anos fazem-me velha e nestas festividades toda a gente tem que ser bonita, com as carnes ainda no sitio. Estou mesmo a ver o tipo de pressão de volta dos infelizes dos organizadores " Anda lá, mete-me na próxima festa, terás depilação de borla para o resto da tua vida!" ou " tu sabes quem estás a rejeitar?! eu que já arranjei 3/4 das mamas que todos vocês vão andar a apalpar?! Tu não te metas comigo, rapaz!" e lá se faz um jeitinho e lá se veem umas carnes caídas de cor leitosa a destoar com os corpos mais ou menos musculados. O que é interessante nestas festas é que parece que aquela chatice dos preparativos, o aquecimento propriamente dito, a conversa de circunstância poderá ser facilmente ultrapassada, que nisto de quem paga muito quer ser bem servido e a quantidade é mesmo o que importa. Para qualidade arranja-se uma gaja ou um gajo ou os dois e trabalha-se a noite toda nesse sentido; aqui, com tanto por onde escolher, fica mal escolher uns poucos, mais, quase falta de juízo, se se gerir bem o tempo, contas feitas de cabeça rapidamente, se a coisa foi eficiente e não se perderem com grandes conversas que não levam a lado nenhum, avia-se uns quantos e/ou umas quantas e no fim, ainda se arranja tempo para a sobremesa, feita com mais calma! É claro, isto sou eu a conjecturar! Imagine-se as combinações possíveis, quem entende de matemática poderá facilmente fazer um calculo das probabilidades. Não faço ideia de quantas pessoas se reunem para estes convívios fraternos, que é isso que todos são, amigos fraternos, que se reunem para alcançar a transcendência karmica e verem a luz! Serão bastantes, contudo, que a união faz a força e mais depressa ascenderão a um patamar superior, ao ponto zen da sua existência!  Que isto de ver pernas, rabos, mamas e apêndices  em profusão e não se conseguir identificar correctamente a quem pertence cada item deve ser sublime.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

   Hoje levantei-me ainda com mais energia do que é habitual; com a energia que emprego quando me lembro de nova coisa para fazer: vou começar a correr! Correr é só a mais detestável forma de fazer exercício físico e no entanto parece-me que para mim, vai ser a única coisa que resulta. Desde que, numa época quase dinossáurica caí na asneira de participar num corta-mato do liceu, cá em Angra e terminei em último lugar das meninas e portanto atrás de toda a gente, e para mais com a suprema humilhação de nem ter corrido com umas sapatilhas minhas, jurei que nunca mais correria, se para tal não fosse obrigada. É verdade que quando passei pelo Isef, percebi que até conseguia correr tempos infindos sem morrer entretanto de exaustão; tenho boas recordações de grandes corridas com os meus colegas pelos campos circundantes que iam ter ao estádio nacional, mas esse estado de graça terminou e empreguei o meu tempo a fazer outras coisas, a maior parte delas sem ter que ver com o exercício físico. Hoje levantei-me cheia de força. Estou gorda, não chego a estar obesa mas já passei a linha do aceitável do meu índice de massa corporal. Não admira que ande sempre cheia de calor, de manga curta, circunstancia que faz sempre muita espécie aos meus amigos " como podes andar sempre encalorada?!" por vezes respondo " sou uma mulher muito quente " frase muito ambígua que gera normalmente risotas mas normalmente digo " estou gorda, tenho muita massa adiposa". "Não tens nada! Disparate!". " Ai tenho, tenho!" e mostro a minha prega abdominal, o que só isso chega para calar o mais céptico.
   Correr é para mim dos maiores sacrifícios que me podem pedir, é doloroso, sofro, e no entanto, sinto que por isso mesmo, é assim que devo recuperar a forma física, por mim mesma, sem intermediários! Odeio ginásios, cheio de homens inchados de músculos e com odores estranhos, normalmente mal ventilados - os ginásios mas por vezes os homens também -, sem qualquer tipo de privacidade, com musica da treta para animar os espíritos. A minha ida ao mar não me faz emagrecer, cuida-me do espírito mas é ineficaz para me manter em forma,  piscinas de água doce estão cheias de micróbios e outros bichos e cloro e resquícios de coisas que nos entram pelas narinas, pela boca, um bafo quente insuportável. Andar de bicicleta é quase tão mau como correr, se fosse sempre a descer até que escapava ou se nos fosse possível ter um  saca-rabos, no caso, saca- bicicletas que as puxassem para cima, que não há! O selim da bicicleta deixa-me o rabo dorido, não tem o tamanho adequado ao dito, as costas ficam-me a doer, a posição é muito pouco ergonómica. 
   No caminho para a escola, a descer a ladeira de Sao Francisco, vejo um homem, temerário a desce-la em passo de corrida com um telemóvel na mão a clicar nas teclas, e pasme-se, a sorrir. Ia alegre e contente, não completamente disparado, travava com a parte anterior dos pés mas quem sabe de que rua falo, percebe o quanto arriscado é ir nela em corrida, com a calçada molhada e sem prestar a devida atenção ao piso. Abrandei o carro para ir à mesma velocidade que ele, curiosa em saber se iria chegar lá em baixo inteiro. E chegou! Apeteceu-me abrir o vidro e bater-lhe palmas. Pelo feito e pela estupidez! Aquela visão pareceu-me um excelente presságio!  Estás a ver, correr é giro, correr permite tantas variações, não precisas correr só por correr, se deixares a tua mente correr, as coisas engraçadas que podes imaginar! Esta visão do outro fulano em debandada pela calçada abaixo em azáfama de pernas e dedos permite-me afirmar que é errado dizer que um homem, o do sexo masculino, não consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tenho um amigo que costumava  andar pelas ruas de Angra a ler um livro sem perda considerável de velocidade. Deve ter um radar como os morcegos, não sei contudo se emite ruídos como os morcegos,  porque desvia-se os postes da luz e rodeia os buracos da calçada e para além disso nunca soube que tenha tido algum descolamento da retina. 
   Esse meu amigo é um atleta convicto de grandes corridas, corre por gosto, e feliz coincidência, é magro, muito magro e é isso que eu preciso actualmente, ser magra, não escanzelada, que a uma mulher se quer um pouco de carne a rodear os ossos, um pouco de chicha para agarrar, magra o suficiente para poder trepar um muro, sem ficar humilhantemente pendurada, sem saber para que lado pender, com um rabo a pesar toneladas e umas pernas sem comando. Naquela manhã, o outro a correr que me lembrou o meu amigo, que corre por gosto, pareceu-me uma feliz conjunção para quem se tinha levantado com a ideia da corrida. É de aproveitá-la enquanto está fresca porque não se sabe quanto tempo dura!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O bicho-papão

   Não tenho especial predilecção por idas ao dentista! Não é com jubilo que lá vou no entanto o sentimento não é de medo, é simples resignação! O meu quinhão de saudável carga genética no que à dentuça diz respeito não foi generoso comigo pelo que frequento dentistas desde miúda! Hoje, de boca aberta durante uma hora, dócil que nem um cordeiro, tive tempo para rever todas as minhas experiências nesta matéria e reflectindo melhor, concluo que, após tantas provações, eu e a bacana da minha actual dentista somos quase amigas e respeitamo-nos mutuamente! 
   Havia um ser, nos idos anos oitenta, aqui na Terceira, que me infernizava a vida, um médico de tal forma demoníaco que me impedia de dormir na véspera de o visitar. Era um abrutalhado que toda a gente, provavelmente os que não tinham nunca provado a sua delicadeza em acção, dizia que o homem era muito bom médico, sim, tinha um feitio um pouco especial mas ninguém poderia negar a sua competência. A mim parecia-me o diabo em forma de gente e ele, como todos os seres primários tinha um instinto infalível e tenho a convicta certeza que sentia prazer em me magoar. Nesses tempos, esperava-se que quem atravessasse o umbral do covil tivesse que sofrer um pouco, era uma consequência normal e não havia como fugir; tinhamos que ser valentes e permitir sem pio que nos fizessem as maiores judiarias. Esse ser, não vou dizer o nome, não é preciso, toda a gente aqui da Terceira sabe de quem eu falo, faz parte do meu imaginário de terror; quais bichos papões, homem do saco ou Michael Myers, o meu Freddy Kruger da vida real era o tal: o de bata branca e cara arreganhada.  O gajo  era um notável da ilha, numa época em que havia poucos médicos dentistas; aqui na ilha basta ser médico para se ser notável, pode ser uma bosta como profissional mas é sr Doutor, pois então! Esta questão da bosta com pernas armado em médico é outro assunto que gostaria de desenvolver um dia que calhe e em que me sinta meia atravessada. Quanto a este não sei dizer se era ou não uma bosta como profissional, como ser humano deixava muito a desejar!  A minha mãe, naquelas suas ideias de poupança resolveu que era no hospital que me havia de tratar. Só de entrar naquela camara de tortura, me saltavam as lágrimas dos olhos, o que começava logo por o irritar. Eram autenticas batalhas, comigo chorosa e ele cada vez mais irado. Certo dia, já não sei porque motivo, deixei de ir ao hospital e passei a visitá-lo no consultório que tinha em Angra; passei a ter um tratamento especial, lembro-me que quase que fiz as pazes com o diabo tal era a diferença na forma como me tratava. Na altura não percebi o motivo mas é certo que assim foi. Este homem, que me "tratou" dos dentes intercalava com outro demónio, quando estava no continente. Soube alguns anos mais tarde que não chegava a ser dentista, era um técnico dentário, com a frieza e a ruindade de um carniçeiro, um ser que recordo, seco, magro e alto e a quem não lembro um sorriso ou uma tentativa de me sossegar. Anestesias na altura eram um luxo e os dentes que tratava eram assim, a doer mesmo, a esticar-me na cadeira, e com os dedos dos pés encarquilhados dentro dos sapatos. Eram lutas de gritos, choros e criaturas iradas. Por vezes, quando recordo estes dois seres, as suas imagens confundem-se, eram igualmente brutos, indelicados, sem paciência para o sofrimento humano, numa posição de controlo e poder e sobretudo indiferença.

   Após estes anos todos, tanta coisa mudou na forma como o médico dentista lida com o paciente! Para melhor, tão para melhor que por vezes passa a ser melhor em demasia. Agora, para tratar um dente, qualquer que seja o tratamento, anestesia é obrigatória. Mais, anestesiam a gengiva antes de soltar a pica. Quando acabo o tratamento tenho a cara à banda, se quero beber algo no entretanto, babo-me toda, faço figuras tristes, arrisco-me a dar dentadas na gengiva. Não sei o motivo mas sempre que isso me acontece lembro-me de uma cena memoravel do Hannibal Lecter onde o homem, numa ocasião de grande requinte, faz com que um dos seus arqui-inimigos coma a sua própria bochecha; os cinefilos que me lerem sabem a que cena me refiro.

  Em última análise penso que ganhei maior resistência à dor à conta daqueles dois. Resistência física e resistência de alma. Não tenho duvidas quanto a isso. Não lhes devo, contudo, quaisquer tipos de agradecimentos, dispensava que se tivessem cruzado no meu caminho.

  Tivesse eu sabido na altura:

   No momento em que o dentista se inclinou sobre a paciente, para começar a brocar um dente, exclamou, surpreendido: "Desculpe, mas está a agarrar os meus testículos!
Eu sei, respondeu ela suavemente. Vamos ter muito cuidado para não nos magoarmos um ao outro, Ok?"

 

domingo, 4 de novembro de 2012

A arte de bem comer

   Quero dizer desde já que a importância deste escrito é muito relativa pelo que tendo outras coisas para fazer não percam o vosso tempo aqui! Ficam avisados!


    Gosto de observar gente! Gosto de ver como andam e como correm, se  põem os pés para dentro, se caminham com eles para fora, se são gingões a andar ou tesos que nem carapaus, se arrastam os pés, se balançam os braços ... tantas variações sobre um tema! Agrada-me ver os gestos físicos corriqueiros do dia-a-dia, gosto de ver a forma como descansam os braços quando não têm nada de útil para fazer com eles.Gosto MUITO de observar gente a comer! No acto de alimentação em publico há uma grande dose de vulnerabilidade! Não se pode ter comportamentos em publico que reservamos para casa, de portas fechadas, sem ninguém a ver! Os códigos de conduta são muito rígidos e se alguém insiste em transgredi-los  ouvirá ou sentirá sem que lhe digam que " come que nem um porco!" Sujeita-se! Pessoas há que comem com vontade, não têm fastio e são ruidosas, por vezes de boca aberta, o que nos permite uma visão privilegiada do seu bolo alimentar, compenetradas que estão na importância do acto produzem momentos maravilhosos no acto de bem comer! Há as que comem como se pedissem desculpa por se alimentarem ou mesmo aquelas que, aplicam tão pouco empenho e prazer no acto que se tornam bons dissuasores  dum apetite saudável. Gosto de ver os rituais inerentes ao processo, se cospem o caroço da azeitona sem pejo com risco de ele fazer ricochete e terminar no prato do vizinho, ou se tapam a boca para discretamente deitarem o caroço no prato ou se descontraidamente o tiram com a mão e a pousam no prato. Agrada-me espiar aquela pessoa a quem percebi que tem um pedaço de carne nos dentes e está em desespero para o limpar. Há tantas soluções para este problema:  a unha do dedo pequeno funciona bem, aliás está comprovada a eficácia deste pequeno apêndice em variadas situações que não cabe aqui explorar. É uma solução utilizada pelos homens mais novos. Os mais velhos ainda utilizam o palito e quanto a este a forma de o utilizar é tão rico e permite tantas combinações que não vos maçarei com mais descrições. As mulheres são mais discretas mas também elas sofrem. As mais avisadas normalmente não dispensam o fio dental, o verdadeiro, ainda que possam combinar os dois; as mais despachadas e que dispõem de um bom cabelo para o efeito, utilizam-no como fio dental também ainda que corram o risco de partirem fios de cabelo no processo! Eu sei, sou grande adepta deste processo. E que dizer da forma como o copo vem à boca e os vestígios que deixam na borda?  E a tortura que é, por vezes, o arroto que sobe e a inconveniência de o soltar de tal forma que parece que sai pelas orelhas? Já tiveram essa sensação física? Um aparte, muitas vezes fico com o meu ouvido direito tapado das idas ao mar e é assim que consigo desentupi-lo! Muita coca-cola no bucho e depois é tapar a boca e o nariz e sentir uma espécie de implosão cerebral, é tiro e queda, fico logo a ouvir melhor!  É também o melhor antídoto para a pressão dos ouvidos nos aviões, melhor ainda que tapar as narinas e fazer força!
   E aqueles que na necessidade de limparem as gengivas de alimentos que subiram arreganham os dentes e à frente de todos procedem ao reencaminhamento da comida, não sem tantas vezes conseguirmos ver a cor das amígdalas?! É certo que nem sempre temos a sorte de assistir a tamanho espectáculo, por vezes quem observamos é tão asséptico na forma como come que nos perguntamos  como raio é que consegue fazer outras coisas, se é que me estão a compreender! Acredito que se pode saber muito de uma pessoa pela forma como come, o quê não faço a mínima ideia até porque não sou psicóloga mas tenho esse palpite ! Àquela velhinha frase que diz " somos o que comemos" poderia ser acrescentada uma adenda " somos como comemos" e ninguém ficaria ofendido por isso! 
   Gosto sobretudo de observar o manuseamento dos talheres e as suas variadas utilidades. Há basicamente 3 formas de pegar nos talheres, com algumas variações mas, de uma forma geral são 3; na primeira forma, o garfo é agarrado com a parte côncava dos dentes virado para cima, tal qual uma colher. A faca segura-se normalmente de lado, caída sobre o exterior do prato. É a meu ver a forma mais elegante, de uma leveza superior às outras formas se bem que pouco eficaz a picar comida. A 2ª forma de pegar os talheres é inversa da primeira, a parte côncava vira-se para baixo e o garfo prende melhor a comida. Normalmente a faca agarra-se com o seu comprimento em posição perpendicular ao prato. É a forma mais corriqueira e permite outras utilizações: pode-se gesticular, pode-se apontar com o garfo, pode-se estrafegar a comida de forma mais eficaz mas é menos delicada e sugere maior agressividade. A terceira forma é um pouco mais rudimentar mas certamente a mais eficiente e pertence aqueles que se estão a marimbar para estas considerações da treta e comem porque lhes apetece e porque essa é a forma mais rápida de fazer chegar a comida à boca : agarra-se os talheres perto da sua base e a inclinação da cabeça ao prato é proporcional ao tamanho da fome: sendo grande, não há grandes intermediários entre a comida e a boca, o garfo está ali quase por acaso, a faca é um ser estranho que se lambe, com afinco. São estas pessoas que me dão mais gozo ver comer, porque comem com vontade! Mandaram as convenções sociais para o caraças e ficam só com o prazer de comer! Uma certa inveja, confesso!  Não teriam problemas em responder " porca é a sua tia!" e o assunto morria ali sem lhe dar nenhuma azia!