terça-feira, 30 de dezembro de 2014

 O ser hipocondríaco é arguto e inteligente e não se deixa vergar por evidências simples; se a tosse surge por  uma qualquer mudança de temperatura, a causa que aponta não será a do ar condicionado mas sim das substâncias mortiferas que se escondem nos seus tubos; nunca será a mais inofensiva, a doença de que sofre é galopante e fatal e não há nada nem ninguém que o convença que daquilo não morre; só larga o osso quando descobre outra doença ainda mais devastadora e os sintomas surgem, instantaneamente, em consonância.  E não há ofensa maior do que lhe dizerem que não tem nada, como se atrevem?! A pontadinha nas costelas, insidiosa revela, com toda a certeza, um mal súbito cardíaco, a dor na base da coluna é um cancro nos ossos, o mau estar de estômago esconde um aneurisma abdominal! O hipocondríaco gostaria que, da varanda da sua sala se avistasse a porta das urgências para sondar a movimentação dos doentes e assim saber qual a melhor altura para visita-la, uma vez que o hipocondríaco tem a singular mania de ir ao hospital, não porque precise mas porque gosta.  Deverá ser a única pessoa entre todos, médicos incluídos, que gosta genuinamente de frequentar os hospitais. Os cheiros a desinfectante e outros demais, são perfumes dos mais raros; maquinaria específica e macas e outras que tais estão dentro da sua noção de decoração perfeita. O hipocondríaco sofre com a condição infeliz de raramente sofrer de mal algum, de corpo pelo menos. É doutorado em todas as especialidades conhecidas e escarnece do conhecimento médico geral porque acha que os médicos padecem de um falha imensa, a da falta de imaginação. Sendo assim, considera-os todos básicos e muito apegados ao bom senso. Para o hipocondríaco, o bom senso é o inimigo primeiro de um bom investigador médico; segundo ele, todas as hipóteses devem ser ponderadas e sempre começando por aquelas que  terão, estatisticamente, menos probabilidades de acontecer  dado que, para o hipocondríaco, as desgraças maiores acontecem sempre a ele, contradizendo o lugar comum de que padecem os vulgares mortais, que vivem  ignorantes, certos que as desgraças só acontecem  aos outros. O hipocondríaco vive sempre na expectativa do que vai acontecer, é um catastrófico por convicção, a ele a doença não o apanha desprevenido, consegue identifica-la vários meses ou anos antes que se manifeste. E no entanto nunca passa desse estágio expectante em que espera, sem sucesso, que a doença efectivamente  se manifeste. Mas sabe, bravo e empenhado que a bula de doenças é quase infinita e parte para a seguinte com a mesma convicção alegre e doentia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nada como as idas matinais para a escola, pela estrada das freguesias, até São Sebastião para me assaltar todo o tipo de pensamentos, de tal forma que chegando ao destino não dei conta do percurso que fiz. Assusto-me um pouco porque de tão absorta que estava, imagino que, havendo algo a surgir na estrada, me encontro desprevenida para reagir. Quero acreditar que não, que o grau de abstração não é o suficiente para deixar os sentidos embotados aos sinais de perigo. E assim vou pensando, os carros passando e eu no meu caminho. E isso é o que faz o comum das mulheres, quando conduz vai pensando noutras coisas, utiliza o tempo inutil de partir do ponto A para o ponto B para avançar no que tem que fazer mais tarde ou mesmo pensar na vida! Toda a mulher gosta de pensar na vida quando conduz!
 O homem quando conduz não pensa na vida, n pensa porque, ao contrario da mulher, leva o acto de condução muito a sério, o homem quando conduz, socializa! É tão importante para ele conduzir como estar no café: cumprimenta, faz sinais de luzes, identifica as carrinhas de caixa aberta que vêm lá ao longe como a do João ou do António, repara em quantas pessoas se encontram no carro do Joaquim e comenta que a pendura do carro do Filipe não é a mesma da semana anterior; abre os vidros desabridamente e manda bocas pela rua da Sé abaixo! Conduz com alegria e sente-se verdadeiramente homem; ostenta a sua masculinidade conduzindo mercedes, audis ou BMW, se baixinho e careca é como te tivesse crescido 30 centimetros e tivesse mais cabelo que o Carlos do Carmo; se se fica por chassos velhos, quita-os todos e põe musica pulsante de colunas em cada esquina, que o efeito eufórico é o mesmo; não precisa de estimulantes artificiais, basta-lhe entrar no carro, transforma-se, no carro é senhor, é todo dele, não é como em casa em que só domina o comando da televisão. Torna-se absurdamente higiénico, mantém o carro num brinco, pode ter, em casa,  as cuecas sujas acabadas de tirar, lançadas  para a gaveta das meias  e no entanto indispõe-se se, um resquicio de pó lhe altera o brilho imaculado do tablier.

  A mulher usa o carro como um meio para chegar a um fim, normalmente utiliza-o como caixote do lixo fora de casa. Ter que cuidar do carro é um esforço extra do qual não entende a utilidade. O homem tem o carro como um fim em si mesmo. É uma extensão de si, não concebe a vida sem ele, tê-lo desprezado e sujo é uma afronta, é como se não cuidasse de si. Mas entre escolher um bom shampoo para si ou o novo abrilhantador de plásticos, não hesita. Lava o carro primeiro por fora e depois aspira-o, porque para ele o seu carro tem que parecer… já a mulher limpa primeiro o interior porque, sente, quando o lixo atabulhado é tanto que não consegue achar a mala, que está na hora de avançar para esse processo doloroso. Por fora, não há pré-lavagens nem vassouras com sabão, se puder lavar o carro com duas moedas de 50 centimos, já sente que gastou muito dinheiro. Se sobrar sabão espalhado pela capota, pensa que as probabilidades de que chova, são elevadas e resolve-se o problema com manha. Seguindo a mesma linha de raciocínio, os limpa pára brisas só são enchidos de água quando vão à revisão e isto depois de terem passado mais 5000 km do que o mecânico aconselhou. Vai-se à revisão sim, mas sempre contrariadas e para elas gastar dez euros em gasolina é como uma facada no coração.  Quanto a eles, enchem logo o deposito, são previdentes e avisados, e têm sempre um jerican na parte de trás, nunca se sabe, elas se tiverem o triangulo e souberem montá-lo já é uma vitória. Eles veneram o carro, elas toleram o carro. É só neste departamento que elas toleram o desmazelo, mais, incentivam-no. E sentem um certo orgulho em admiti-lo! É estranho!