sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Aliança

   Este ano inicio as aulas às 9,00 e essa circunstância abre-me horizontes nunca antes possíveis. Na impossibilidade de ir dormir a casa uma sestinha depois de  levar os putos à escola às oito e não querendo passar pela indignidade de ir dormitar o resto do tempo para o parque de estacionamento da escola como um cão abandonado, tornei-me frequentadora de cafés. Para fazer tempo, para me integrar no espírito da cidade, para cuscar um pouco, para observar. Comecei pelo People, na rua direita, tem uma empregada gira e espevitada mas sempre mortiço às 8,00 tirando o senhor sem-abrigo que marca o ponto religiosamente, a fumar o seu cigarrito, subitamente famoso depois do artigo que saiu no Diário Insular ( ou foi no União?!) sobre aquela associação de contornos suspeitos que quer erradicar das ruas quem nas ruas lhe apetece ficar. Parece que aquele velhote é um de poucos que dorme pelos cantos da cidade e isso causa transtorno a certas pessoas de espírito solidário vincado, uma afronta ao cristão que todos temos em nós! Cá para mim, acho que o velhote se está bem a marimbar para tamanha caridade! Adiante, no People sem gente e sem jornais ainda, restava-me pouca coisa para além de bocejar pelo que tive que ir picar o ponto mais para norte: o Aliança! Confesso que as vezes que olhava para lá me parecia um antro de bêbados e poiso de doidos sem remédio! Há uns tempos, fui lá à noite para comprar tabaco e levei uma das minhas cadelas comigo que atrevida que é e muito simpática com as pessoas entrou também e foi cheirar os cantos à casa! O que ela foi fazer! Aparece-me um tipo, de cabelo cortado à escovinha com a pose do género " sou guarda-fiscal mas tenho alma de fuzileiro naval" que me ia chegando a mão ao pêlo, pelo atrevimento de ter deixado entrar a bicha num estabelecimento público. A coisa esteve mal parada, para os meus lados, porque a minha teoria é antes levar que mostrar o rabo, de nódoas negras mas dignidade intacta. Entretanto, o tipo lá acalmou e eu apressei-me a agarrar na estupor e sair de mansinho.
   Esse personagem, vê-se bem, apeteceu-lhe implicar comigo, existe mesmo um tipo de pessoas que sente especial prazer em tirar o prazer aos outros, ou em fingir-se incomodado com certos comportamentos dos outros, que se não incomodam ninguém podem sempre potencialmente vir em incomodar e antes que incomode mesmo, incomodam-se à priori revelando grande sentido de antecipação. O que me incomoda muito é que este personagem seja um dos cidadãos desta cidade que mais vezes vejo; nunca se questionaram o motivo porque é que a certas pessoas vemos imenso e outras nem por isso? Mesmo se não os encontramos nos mesmos percursos, acabamos por nos cruzar com eles!? Aquele ser em especial parece destinado em passar-me à frente, com aquele ar de comando mal-encarado, de maus fígados e pequeno cérebro. 
   De manhã, semelhante personagem não frequenta o Aliança, aliás, o boteco transforma-se num bem frequentado ambiente de gente que trabalha cedo e que sabe combinar sapatos iguais e que ainda não fede a álcool e que com todas as probabilidades já tomou banho neste mês. Ainda não tive coragem para olhar mais para a esquerda e enfiar corredor dentro pela tasca vizinha, para isso terei que me enfrascar logo cedo para apreciar devidamente o ambiente e estar em sintonia. É que se assim não for só irei achar defeitos, se pelo contrário estiver atestada vou achar imensa graça aos rx de corpo inteiro que os seres que lá habitam me fazem. O Aliança é frequentado por gente de todas as raças e credos e estados mentais, também. Os loucos convivem com os sãos ou aqueles que o aparentam ser, o que hoje em dia, já não é ciência absoluta. Todos se sentam nos mesmos lugares, às mesmas horas e fazem os mesmos pedidos.O empregado que lá está por essas horas , solicito e eficiente como eu gosto, nem precisa de me ouvir pedir, o que é pena,  lá traz o café que às vezes não quero mas por vergonha e por ser tão prestável, acabo sempre por beber. Para me vingar e confundi-lo e ser diferente nunca peço a mesma coisa para trincar, assim obrigo-o a raciocinar e não se torna uma tarefa maçadora. O senhor do galão, um gigante de quase dois metros, bebe o seu galão no balcão do fundo, de pé, nunca se senta. Um grupo de 3 senhoras, impecavelmente maquilhadas, uma qualidade feminina que não possuo e um cavalheiro que chega sempre depois delas costumam açambarcar os jornais da casa; nessa contingência entre olhares aos clientes vou passando os olhos pelos dois ecrans de tv, cada um na sua parede, não vão os clientes esquecer-se de olhar para ela. E vejo as noticias, que há algum tempo a esta parte é mesmo o único noticiário que vejo. E é divertido ouvir os comentários dos cómicos de serviço, que com qualquer circunstância fazem graça. 

   Saio de lá bem disposta e no entanto sinto no que está na hora de mudar de tasco! A Portugália logo acima?! Não me parece, muito aborrecida! É que depois do Aliança todos os outros que conheço me parece enfadonhos! Sugestões?!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

   Na minha escola como acredito que em grande parte das escolas deste país, metade dos alunos se não mais do que isso, está incluído num escalão máximo de ajudas do estado que passa pela gratuitidade das refeições e diminuição ou gratuitidade dos manuais escolares e transportes escolares/ passes. Outro grande grupo de população escolar pertence também a escalões onde pagam menos, por exemplo, 50 cêntimos por refeição.
   Este ano, porque tenho tempo e disponibilidade, almoço pelo menos duas vezes por semana na cantina da escola; almoço junto com os alunos porque gosto de observar. O almoço de hoje foi: sopa de grão, douradinhos com arroz de tomate, salada de alface, cenoura e cubinhos de maçã,  maçã como sobremesa (duas qualidades à escolha) e um papo-seco (embalado individualmente). Água para beber. Preço por aluno sem escalão: 2,14€ com multa de 30 cêntimos se comprada no próprio dia; preço para professor: 4,27€ com multa se comprada no próprio dia.
   Qualidade da refeição - ok são douradinhos, douradinhos são fritos, os fritos fazem mal! Arroz de tomate razoavelmente saboroso. Salada com fartura para quem quiser. A sopa não demasiado aguada e saborosa q.b. Fruta da época que é o melhor que se pode comer. Custo para grande parte dos alunos - zero euros;
O que se observa: 3/4 dos alunos não comem sopa! Chamados à atenção dizem que não gostam; não gostam de sopa de grão, de sopa de legumes, de sopas de cenoura, de sopa de coisa nenhuma. O prato principal nem sempre é devorado, as bordas do prato abundam em restos. O pão regressa muitas vezes sem ser tocado; mesmo sem ter sido tirado do plástico tem sempre o mesmo destino: lixo. Se a comida foi do seu agrado podem repetir, sopa nem por isso.
As associações de pais das escolas deste país têm sempre queixas e mais queixas dos pais que, dizem os seus filhos, a comida não presta, o arroz é intragável, etc e tal. Vivem revoltados que os seus meninos se alimentem tão mal! No entanto, em cada família se se for observar as preferências alimentares dos meninos é de fugir; muitos não gostam de pelo menos 30 alimentos " querem um bocadinho de X ?" " não gosto", "prova Y", " não gosto". É impressionante a quantidade que alimentos que eles não gostam! E a quantidade de miúdos que com dentes definitivos tem que comer a sopa passada porque não suporta sentir na boca os pedacinhos de legumes?! Era dar um enxerto de porrada a cada pai a cada tentativa de triturar a sopa! 
 
   Os hábitos alimentares dos miúdos é de bradar aos céus! Era eu miúda, há 35 anos atrás e doces, só de vez em quando. Gelados, só no verão e sempre com muito receio que o pai dissesse que não, o que muitas vezes acontecia! Quando era miúda o que mais me luzia os olhos era aqueles boiões redondos de tulicreme que a minha mãe NUNCA comprou lá para casa; achava e bem que era coisa supérflua  e que podia muito bem ser substituído por doce caseiro ou manteiga, queijo ou fiambre. Se estávamos com o bico doce resolvia-se o assunto com papo-secos com manteiga e açúcar  o requinte máximo!Por vezes, a vontade de comer açúcar era tal que  ia-se ao açucareiro e era mesmo à colher. E comia maças estupidamente porque eram doces! Hoje em dia, nutellas e afins, cereais de chocolate, mel, com pepitas e sem pepitas, bolachas com n formas e feitios, chipicaos, croissants de chocolates ( um aparte, não me lembro de comer croissants quando era miúdas!!!). Em contrapartida, se me apetecia algo salgado, um tomate aos gomos com sal grosso marchava em menos de um farelo. Também marchava bem pevides ou tremoços e sempre dava para depois fazer concursos a ver quem cuspia as cascas mais longe; em matéria de cuspidelas nem sempre era necessário ter cascas dentro da boca, o cuspo propriamente dito chegava! Voltando à questão: não havia doritos, tiras de milho, bolinhas de queijo e nem a simples batata frita de pacote. A gente via-as a passarem na praia e era esse o único contacto que tínhamos com elas: visual! As batatas fritas lá de casa eram mesmo batatas a sério e fritas pela frigideira da mãe, no fogão da cozinha! E que dizer dos iogurtes? dantes, havia-os de aromas, ponto. Agora há de tanta coisa que primeiro que consiga os de aromas, que continuam, para mim a ser os melhores, tenho que desbravar caminho pelos com pedaços, naturais açucarados, naturais e com pedaços light, com fungos que dão conta dos males do estômago  os que permitem fazer cócó todos os dias, os que são tipo grego, os que têm corn flakes e frutas, dois em um, os que têm smarties e por aí fora.

   A comida na cantina é saborosa? Não é, falta-lhe apuro, dedo para a coisa, cozinhar para 400 crianças não é fácil e nem sempre se apuram os temperos nem as cozinheiras estão para isso. Os miúdos queixam-se sobretudo que a comida é insonsa! Porque será? Para quem está habituado a comer por semana, dois ou três pacotes de pseudo-comida cheia de sal e sabores viciantes não pode achar piada ao sabor que verdadeiramente o alimento tem. No entanto, é muito melhor do que a comida que os bares das escolas oferecem e infinitamente superior às merendas que os putos trazem de casa. E os paizinhos deveriam ser os primeiros a insistir para que os seus filhos almocem nas cantinas, sopa incluída, e a dar um certo desconto às histórias assustadoras que os meninos trazem para casa. Antes disso façam uma cura de desintoxicação às merdas que andam a dar aos miúdos para comer. Era vê-los  raparem os pratos e a comer a sopinha toda.

domingo, 7 de outubro de 2012

Festival AngraJazz - a reportagem alternativa

    Terminou o 14º Festival Angrajazz, o meu terceiro, cumpridos sempre os 3 dias do calendário, junto  dos mesmos amigos, a maioria dos quais que percebe mais de jazz do que eu irei perceber, mesmo que me afinque, até ao resto da minha vida. Consigo perceber se a música me diz algo, se mexe comigo, se me faz querer ouvir mais; consigo perceber se os músicos são virtuosos, bons instrumentistas, mas pouco mais. Nessa área não me meto! O que me resta falar, então?! Ai, tanto! 

   Três dias, seis grupos! Sala do auditório, do Centro Cultural de Angra! Mesas dispostas no centro, bancadas a rodeá-las.  O publico feminino, regra geral, vem vestido de forma cuidada, as senhoras de saltos altos e trajes elegantes ainda que não excessivos, os homens normalmente parecem uns pelintras perto delas. Cada vez mais desmazelados! Parece que ninguém acha já importante cuidar-se! Excepções para casamento e batizados em que se exagera ao contrário mas não é preciso muito tempo para que os homens, sempre eles, comecem a desabotoar-se e a andar em fraldas de camisa! Elas, firmes e hirtas, encavalitadas nos seus saltos improváveis e vestidos normalmente apertados demais, e eles o desmazelo instituído.  Uma tristeza! Não admira que já tantas vezes tenha ouvido " não há homens de jeito nesta terra! Empiriquitarmo-nos todas para quê? Quando são jeitosos, são gays, quando não são, são uns broncos!"

Bem, estou a desviar-me do tema; falava do Angrajazz! 

1ª noite, primeiro concerto - Orquestra Angrajazz  dirigidos por Pedro Moreira e Claus Nymark.

   Entraram sóbrios e sombrios, camisas e calças pretas. Um pouco lúgubres acaso não tivesse dado com um daqueles relógios de pulso, de borracha, grande e azul ofuscante, no braço de um musico! Lembrei-me logo do Rumble fish, sabem, aquele filme a preto e branco e  do peixinho vermelho e do Mickey Rooke quando ainda tinha cara de gente! Aquela cebola azulada perseguiu-me durante o concerto todo! Gostei da onda dos músicos, descontraídos, sorridentes, a tocar cada vez melhor! Até eu que sou uma inculta, percebo!

1ª Noite, segundo concerto - Tomasz Stanko Quintet

   Parece que o homem que dá o nome ao quinteto é muito bom, gostei de o ouvir mas andei muito distraída preocupada que estava com os joelhos do homem, com tantos agachamentos, temi que houvesse uma vez que não se levantasse. Qual quê, nunca fraquejaram aqueles pernas canivete com 70 anos de vida! E não houve uma alminha que lhe fosse arranjar um suporte para as partituras que tinha espalhadas pelo chão! 
   Uma menção especial para o gorro vermelho de lã do guitarrista, palavra que achei que mas cedo ou mais não iria aguentar com calor e livrar-se daquele mono! Mais um vez enganada, uma vez só, que eu estava atenta, tirou o gorro, limpou o cabelo claro que estava colado de suor e voltou a por aquele emplastro na cabeça! Por aquela altura deu-me os calores! Ou aquilo é assim mesmo, e este pessoal gosta mesmo é de cultivar excentricidades! Terminada esta exibição tive eu que esticar as pernas, perras que estavam por solidariedade e soltar as melenas ao vento!

2ª noite - primeiro concerto - Rui Teixeira Group 

não houve nada que me enchesse o olho, aborrecidos até na roupa! Nem um gorro vermelho, uma camisa colorida, tiques de expressão, nada!

2ª noite - segundo concerto - The Jack DeJohnnette Group

por esta altura já se estava a prever, mais cedo ou mais tarde,  uma espécie de êxtase colectivo, que se confirmou. Estive mais embevecida e num limbo que me deixou menos atenta às questões mais fúteis da vida mas não posso deixar de referir o saxofonista indiano, excelente por sinal!O visual não podia ser mais aproximado da ideia que temos de um homem indiano: rosto com aquele tom azeitonado, de cabelos luzidios e a eterna camisa de seda que continuamente puxava para baixo. E tocava tão bem! mas tão improvável como seria uma mulher esquimó a cantar o fado... sem sotaque!
   Gostei da atitude quase humilde como registavam os nossos aplausos  com um aceno de cabeça de grande sorriso e do prazer que estavam a ter ali, tocando para nós! O contrabaixista era um ser superior e para além do mais parecia-me o Sidney Poitier, versão velho, o que só pode ser um elogio muito grande... aos dois! 

3ª noite - primeiro concerto - Jason Moran and the bandwagon 

para mim, que não percebo nada, foi o melhor concerto deste Angrajazz! Três virtuosos, simpáticos, a interagirem sempre uns com os outros, onde na minha opinião não houve um instrumento mais importante que os restantes, talvez o piano mas sempre na medida certa, nunca excessivo. Aquela cançao da Billie Holiday, o momento alto da noite, atrevo-me a dizer de foi o momento mais bonito e emotivo de todo o festival! Para além de tudo, inacreditavelmente bem vestidos, todos de camisa branca, imaculadamente branca e engomada, com brio em se apresentarem bem vestidos.

3ª noite - segundo concerto - Orquestra de jazz de Matosinhos

a mim parecia-me terem saído todos de um asilo de loucos, com dois seres a dirigi-los, claramente possuídos  Para além de uma musica que a mim me cansou, estavam  em estado catatónico! Não consegui, tirando a dois, ver um rasto de emoção naqueles rostos fechados! Nunca sorriram, estavam ali a tocar como se estivessem a descascar ervilhas, com a mesma emoção! Um dos maestros andou a ver se caia do palco e deixou-me nervosa durante muito tempo, eu a fazer cálculos se conseguiria lá chegar antes que ele atingisse o chão. Claramente, deveriam ter aparecido na primeira parte e não para encerrar as hostilidades. Nem a piada no final do concerto serviu para disfarçar o desconsolo. Não tiveram encore! Não o mereceram!