segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

   Era uma vez alguém que se casou. Foram muito felizes até um dia. Um dia a coisa descambou e ela fugiu dele e ele não quis. Fez-lhe a vida negra. Ela é a Arminda e ele o Maurício. Ao Maurício não lhe apeteceu que a frase " e foram felizes para sempre" terminasse e foi atrás dela a fazer cenas e a rebentar pneus do carro do Justino que veio a ser o novo namorado da Arminda, a ver se se esquecia do pesadelo do Maurício. Mas a modos que o Justino era um pouco para o amalucado e se bem que à Arminda lhe apetecesse arejar do casamento maluco não lhe apetecia logo de chofre outro maluco ainda que de uma forma diferente de maluqueira. Aproveitou o Justino mais um bocadinho e depois, porque há limites para o que uma mulher consegue aguentar, mandou o Jaime ir fazer disparates para outro lado. O Justino foi porque o Justino é uma pessoa que se ajeita muito bem às circunstâncias e gosta de ver toda a gente feliz à sua volta. No entretanto, o Maurício que não é de se ficar e porque a historia vergonhosa da Arminda com o Justino já lhe está a extravasar pelas narinas e a fazer pressão nas meninges, vai daí e resolve enrolar-se biblicamente falando com a ex do Justino, a Mariazinha que também um pouco incomodada que o Justino se meta com outras mulheres, achou desde logo poético e de justiça divina ir para a cama com o ex da actual do seu ex. A Arminda farta de estar sozinha tem uma epifania na visão de um namorado de outrora, o Romeu , de nome romântico e adequado aos anseios do momento e pede-lhe para lhe fazer um filho. O Romeu, que vê na Arminda a Julieta que nunca lhe chegou fez-lhe a vontade mas envergonhado pela impetuosidade movida pelo desejo não a quer ver desonrada e pede-a em casamento, A Arminda aceita feliz a ver se finalmente se acalma que tanta rebaldaria, não lhe faz bem. Já começa a sentir enjoos e não é do ser que lhe cresce no ventre, sempre foi dada a náuseas a andar em coisas, o remoinho da sua vida afectou-lhe o ouvido interno. A rematar a história o Maurício tristemente preterido e a achar que a vida não faz sentido, toma uma dose cautelosamente abusiva de benurons, com vontade de morrer mas nem por isso a ver se a Arminda se apieda dela e acaba com toda aquela loucura. Recupera na cama do hospital, não morreu , o que foi um alivio, onde já se viu morrer a sério, só se fosse tolo! E no entanto continua tolo, vivo e sem a Arminda, o que não era mesmo nada do que estava à espera. A Arminda essa, prepara o casamento com o seu Romeu e depressa não se vá arrepender no entretanto. O Maurício carpe as magoas num programa de rádio a que intitulou " Sentires" e manda directas à Arminda sobre o seu amor eterno. A Arminda assobia para o lado mas vai ouvindo uma e outra quanto a nostalgia lhe dá para isso.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dalila

   Morreu a Dalila!

   A Dalila chegou um dia, vagueando por essas estradas da ilha, uma vadia pura, alma de cigana, cadela de muitos recursos, não aparentava desespero ou inquietude, simplesmente andava por ali, a apreciar a caminhada. Entrou no carro após ter sido convidada, sem receios ou hesitações. Veio para casa e ficou até a porta se abrir e aí saia para caminhar e não voltava. Tinha que se  ir buscar que a Dalila não era cadela para voltar para trás. Nunca foi nossa, simplesmente transigiu em ficar connosco. E ficou quatro anos! 
   Nascida em data e parte incerta, meiga, muito zelosa do seu prato de comida, um certo mau feitio na defesa da sua gamela e em podendo, da gamela dos outros, Doce, equilibrada, paciente com a gata Sissi, as sirenes das ambulâncias e a estridência dos sinos da igreja das tardes de domingo, deixavam-na descomposta e aí uivava, uivava com toda a força da sua alma primordial. Era só aí que esboçava um som e quando ouvia a saca de ração a ser remexida. Era pura, pacifica e selvagem em partes equilibradas, confiável, leal mas desprendida, amava-nos como amava qualquer um que a tratasse bem. Nunca foi nossa, deixou que a amassemos. Permanece, algures, no Monte Brasil, onde calcorreou quilómetros sem fim e aí foi feliz!













quarta-feira, 8 de julho de 2015

Serviço Público

   No site da TAP, fazem-se os procedimentos para ver preços de passagens para o filho estudante, partida que se tenta seja, desde inícios de Setembro até inícios de Outubro, e enquanto se espera, a ler que "todas as tarifas TAP incluem jornais e revistas gratuitos" (para mim podem enfiar os jornais e as revistas no cu, desculpem a acidez), aparece "Não foram encontrados resultados para a sua pesquisa. Por favor, modifique os seus critérios de seleção e tente novamente". Tenta-se novamente e outra vez e espera-se e desta vez é a bagagem que que é gratuita e apetece mandar a bagagem gratuita para o .......Experimenta-se para residentes e os resultados são os mesmos; nenhum! Pagas o mesmo que toda a gente e não bales! Vai-se ao site da SATA, querida SATA que és nossa, faz-se a mesma pesquisa para estudantes e pode ser uma data flexível, somos tão flexíveis, caraças! Põe-se uma data a rondar a que se deseja a ver o que sai; ora vejamos, uma data em Setembro com regresso à santa terrinha na véspera de natal: a ida nunca é directa, isso é coisa que não existe, o filho OU vai visitar Ponta Delgada e dorme lá, no aeroporto (arranjas um saco-cama para o efeito) se as horas são poucas, 6 horas é coisa pouca e é de noite ou manda-lo para a pousada da juventude, se as horas são muitas, 12 horas por vezes. A pousada é simpática, é no centro da cidade, pagas o táxi e ajudas o comércio local e  sempre dá para conhecer um pouco da arquitetura da terra; OU então vai visitar S. Jorge, o Pico ou o Faial ou mesmo duas ilhas, com o tempo suficiente para não ver nada porque se sair do aeroporto arrisca a perder o voo.  Turismo aeroportuário era mesmo o que ele queria fazer antes de regressar aos estudos. Chega a Lisboa depois das 23 horas, a tempo de acabar de perder o ultimo comboio para o Porto! Tudo estudado e sempre a tentar servir os açorianos. Por este serviço personalizado, de engendramento requintado não possível a qualquer um, pagas 328, 82 €. E isso se o papelinho que a faculdade passa, não tiver rasuras, e por rasura quero dizer, todo e qualquer risco impossível de ver a olho nu mas ainda assim detectável aos olhares atentos dos profissionais que nos atendem, sempre com um sorriso no rosto. Se o papel estiver irrepreensivelmente preenchido e sem mazelas, cortes nos cantos ou nódoas de gordura, tens o privilégio de pagar 328 euros pela viagem do teu filho que estuda fora da ilha, aproveita e conhece outras paragens, tem bagagem gratuita e ainda lhe dão o Diário Insular para ler e uma sandes fria de fiambre para não passar fome. Isto sim, é serviço público!

terça-feira, 9 de junho de 2015

O Caga-na-saquinha

Há expressões poderosas, algumas facilmente entendiveis na sua forma e conteúdo e outras nem por isso; umas quantas, se as dissecarmos, palavra por palavra, parecem-nos absurdas e no entanto, aplicam-se maravilhosamente bem. A "caga-na-saquinha" é daquelas indecifráveis na forma mas que se aplicam, em pleno, a certo tipo de pessoas, aquelas que não conseguimos definir melhor senão dizendo que, são os verdadeiros "caga-na-saquinha". O tipo "caga-na-saquinha é  medroso, tristonho, injustiçado pela vida, pelos outros, pelo estado do tempo, pelo carro que furou o pneu, pelo cão que lhe alçou a pata, pela namorada que foi apanhada na cama com outra, na sua cama, o Calimero dos tempos modernos que diz compungido " It's an injustice, it is!" Aquele que, quando se lhe aperta o esfincter para o inevitável  e está a céu aberto com o cu a roçar a erva fresquinha, pensa que será uma grande injustiça, logo com todas as probabilidades que, logo ali, que tanto precisa, venha uma vespa e lhe  pregue um ferrão numa das bordas. O caga-na-saquinha para além de tristonho e de olhos sofridos e lacrimejantes mendiga a atenção dos outros com tal afinco que cria clareiras à medida que avança. De mãos nos bolsos, tímido e dissimulado, vai-se aproximando, medroso mas tenaz, que isso ele é: tenaz! Tenaz na seca que dá aos outros, na doutrinação das suas convicções teóricas e éticas sobre a vida e sobre o mundo, ainda que não as aplique no seu caso em concreto. Tenaz no egoísmo extremo também. O caga-na-saquinha pensa nele e depois nos outros, se lhe restar algum ímpeto depois de gastar as forças a pensar em si.  Gosta de ter razão e se posto em confronto reaje mal, levanta a voz ameaçando coragem que, rápido se esvai, se do lado de lá, quem o confronta mantém o tom. Seria eclesiástico se do tipo religioso, ou eco guerrilheiro se não desse tanto trabalho, como é laico e gosta pouco de trabalhar, fica-se pela mansidão de um trabalho de que não gosta, chorando o que não tem e suspirando pelo mundo de possibilidades do que gostaria de fazer mas que não faz, porque se encontra sempre no local errado do mundo que não é o dele.  É uma carraça mal alimentada que vai sugando como pode.  Enxota-se como as moscas quando vareja demasiado para os nossos lados. É um sugadoiro de forças alheias, um parasita do tipo intestinal que em nada contribui para a nossa digestão.  Uma consumição! 

sábado, 6 de junho de 2015

O presidente da junta



Tive, hoje, uma conversa muito profícua com alguns alunos de uma daquelas turmas ‘especiais’, alunos de 16 anos, com um historial de insucesso recorrente e desajustados do mundo escolar. Alunos que invariavelmente se esquecem do equipamento para a aula, alunos que por vezes vêm as aulas e por vezes não vêm, é quando lhes apetece ou quando os obrigam ou ameaçam com a proteção de menores. Sentei-me um momento junto deles e a conversa entre nós foi fluindo, eu no meu sermão de cátedra, pela sexagésima oitava vez, não muito inspirada, concedo que tê-los ali, na sala, junto a mim já é uma vitória, eles com a correspondente desculpa da praxe. Vai daí, sem combinarem começam os dois, um rapaz e uma rapariga a fazerem-me perguntas: Quantos anos tem, tem marido, e namorado, quantos filhos, com o à-vontade e a condescendência com que, por vezes, nos tratam, como se os putos fossemos nós. Um outro, aproxima-se e curioso com o correr da conversa lança como que orgulhoso: “Professora, já teve alguma turma pior do que a nossa?!” Regra de oiro a perguntas com truque – Nunca ceder! - “Claro, vocês são uns anjinhos!” Afastou-se a remoer a resposta. Continuando a conversa, a rapariga quis saber de onde vinha, ao que eu respondi: “Almada”. “Onde é isso?! Nunca ouvi falar!” “Conheces Lisboa?! Tem um rio, não tem?!” “ Sim?!” “Sim!  Como se chama o rio, sabes?!” “Sei lá como se chama o rio!” O rapaz pensativo diz, passado um breve momento de hesitação: “O Tejo?!” “ Sim, claro que é o Tejo! Então, tens Lisboa e tens o Tejo. Na outra margem do rio fica Almada. Já ouviram falar na Costa da Caparica?!” A distraída: “Não!” Ele: “Sim, aquela praia cheia de gajas boas!” “Pois, entre tanta gente que a frequenta deve ter algumas gajas boas!” Continuei: “As praias da Costa pertencem ao concelho de Almada, a casa dos meus pais fica a uns 5 km da costa!” Um pouco questão: "Já agora, qual é a capital de Portugal?!” A sempre desinformada encolheu os ombros, o outro respondeu rápido com ar de incredulidade: “É Lisboa!” “Pois é. E qual a capital de França!” Ele: “Londres!” “Pensa lá melhor, em Londres falas inglês! Em Pa-ris, falas francês, a sua capital! E de Itália?” Ele novamente: “Veneza!” “A cidade é italiana mas não é a capital. Começa com um R! “A rapariga subitamente entusiasmada: “ Roménia!” “Não, Roménia é um país, não uma cidade”. O rapaz, sabedor, cansado de ser posto à prova e querendo ripostar numa área que dominava, contra-atacou: “Sabe o que é um úbero?!” “Sim, a teta das vacas!” “E uma rabada?!” “O rabo da vaca ou do boi!” “E a veia do leite?!” “Não faço a mínima ideia! “. Sorriu. Voltei à carga: “Quem é o presidente de Portugal?!E o primeiro-ministro?!” A rapariga suspirou: “ Eiiiii, outro dia falámos disso na aula, era qualquer coisa Passos Coelho!” “Sim, o Pedro Passos Coelho é o primeiro-ministro e o Aníbal Cavaco Silva o Presidente! E já agora, quem foi o 1º Rei de Portugal?” O rapaz, sempre o rapaz: “Essa é fácil, foi D. Afonso Henriques!” “Boa, e o último rei?!” Dei-lhes algumas pistas mas não chegaram lá, ao invés diz o espertalhão: “Ó professora, como quer que eu saiba, foi há tanto tempo!” Respondo: “O D. Afonso Henriques é muito mais velho e tu sabias!”. E o meu aluno a ficar aborrecido, subitamente lança como quem pensa “ vou-te tramar!”: “Então, muito bem! Diga lá se sabe, quem é o Presidente da junta de freguesia da Feteira?!” Pois bem, tramou-me, a conversa encerrou ali mesmo, fui ver dos outros.                             

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Curtas da escola

   

   Conversa com a minha turma maravilha, última aula da semana, sempre animada de uma forma retorcida. Ginástica de aparelhos: Meninos, lembram-se do nome daquele aparelho? Uma espertalhona: cavalo! Outro, frenético: Égua! O terceiro, a descambar ainda mais: Mula! A este, baixinho e franzino, pego-lhe pelos colarinhos, encosto o meu nariz ao dele e com o tom mais intimidatório que consigo, digo entre dentes: Boque! E o artista sem desarmar: Reboque? Cá nada, não vejo nenhum engate!

   Tenho nas minhas aulas um combate permanente com os alunos no que concerne à utilização correcta da língua portuguesa e à terminologia própria das modalidades desportivas. Na ginástica, outro dia insistia com uma aluna que dizer " abrir às pernas" ou " pernas abertas" era uma forma muito deselegante de falar pelo que pedi um verbo sinónimo e mais bonito de spronunciar ao que esta aluna respondeu prontamente " esgaçar, senhora professora!"



   Tenho poucas saudades da minha ex escola, tenho no entanto alguma pena de ter deixado de conviver com algumas pessoas da minha ex escola. Todas as manhãs deixo os miúdos, na minha ex escola, pelas oito da manhã e é com um certo prazer que olho para ela e lhe viro as costas. Tenho saudades de algumas pessoas, aquelas que me alegravam o dia. Há uma funcionária, pessoa muito calorosa e bem-disposta,que os alunos adoram e respeitam especialmente, a quem cumprimentei hoje, feliz de a ter encontrado. É daquelas pessoas que criam boa onda, de serem tão boas pessoas. Esta senhora perdeu um fillho adulto jovem, de uma forma repentina, absurda, sem sentido. Todas as mortes são absurdas, esta ainda mais absurda. Em tempos idos, tive uma conversa com ela em que me contou todas as tristezas da sua vida e a forma como lida com elas. Deve ser das pessoas mais bem humoradas e prontas para lançar um dito divertido que já conheci. Trata-me daquela forma tão franca com que algumas pessoas aqui da terra nos tratam, por tu, sem formalidades desnecessárias "oh meu amor, estás boa?" " oh senhora professora, estás a gostar da tua nova escola?"... Hoje, respondendo-lhe que sim, que estava a adorar a minha nova escola, respondeu-me levantando o polegar e dizendo" Às pessoas boas, Deus ajuda!" Desta senhora, sinto falta!

   Na minha escola como acredito que em grande parte das escolas deste país, metade dos alunos se não mais do que isso, está incluído num escalão máximo de ajudas do estado que passa pela gratuitidade das refeições e diminuição ou gratuitidade dos manuais escolares e transportes escolares/ passes. Outro grande grupo de população escolar pertence também a escalões onde pagam menos, por exemplo, 50 cêntimos por refeição.
Este ano, porque tenho tempo e disponibilidade, almoço pelo menos duas vezes por semana na cantina da escola; almoço junto com os alunos porque gosto de observar. O almoço de hoje foi: sopa de grão, douradinhos com arroz de tomate, salada de alface, cenoura e cubinhos de maçã, maçã comsobremesa (duas qualidades à escolha) e um papo-seco (embalado individualmente). Água para beber. Preço por aluno sem escalão: 2,14€ comulta de 30 cêntimos se comprada no próprio dia; preço para professor: 4,27€ com multa se comprada no próprio dia.
Qualidade da refeição - são douradinhos, douradinhos são fritos, os fritos fazem mal! Arroz de tomate razoavelmente saboroso. Salada com fartura para quem quiser. A sopa não demasiado aguada e saborosa q.b. Fruta da época que é o melhor que se pode comer. Custo para grande parte dos alunos - zero euros;
O que se observa: 3/4 dos alunos não comem sopa! Chamados à atenção dizem que não gostam; não gostam de sopa de grão, de sopa de legumes, de sopas de cenoura, de sopa de coisa nenhuma. O prato principal nem sempre é devorado, as bordas do prato abundam em restos. O pão regressa muitas vezes sem ser tocado; mesmo sem ter sido tirado do plástico tem sempre o mesmo destino: lixo. Se a comida foi do seu agrado podem repetir, sopa nem por isso.
As associações de pais das escolas deste país têm sempre queixas e mais queixas dos pais que, dizem os seus filhos, a comida não presta, o arroz é intragável, etc e tal. Vivem revoltados que os seus meninos se alimentem tão mal! No entanto, em cada família se se for observar as preferências alimentares dos putos é de fugir; muitos não gostam de pelo menos 3alimentos " querem um bocadinho de X ?" " não gosto", "prova Y", " não gosto". É impressionante a quantidade que alimentos que eles não gostam! E a quantidade de miúdos que com dentes definitivos tem que comer a sopa passada porque não suporta sentir na boca os pedacinhos de legumes?! Era dar um enxerto de porrada a cada pai a cada tentativa de triturar a sopa!

Os hábitos alimentares dos miúdos é de bradar aos céus! Era eu miúda, há 35 anos atrás e doces, só de vez em quando. Gelados, só no verão e sempre com muito receio que o pai dissesse que não, o que muitas vezes acontecia! Quando era miúda o que mais me luzia os olhos era aqueles boiões redondos de tulicreme que a minha mãe NUNCA comprou lá para casa; achava e bem que era coisa supérflua e que podia muito bem ser substituído por doce caseiro ou manteiga, queijo ou fiambre. Se estávamos com o bico doce resolvia-se o assunto com papo-secos com manteiga e açúcar, o requinte máximo! Por vezes, a vontade de comer açúcar era tal que ia-se ao açucareiro e era à colher. E comia maças estupidamente porque eram doces! Hoje em dia, nutellas e afins, cereais de chocolate, mel, com pepitas e sem pepitas, bolachas com n formas e feitios, chipicaos, croissants de chocolates (não me lembro de comer croissants quando era miúdas!!!). Em contrapartida, se me apetecia algo salgado, um tomate aos gomos com sal grosso marchava em menos de um farelo. Também marchava bem pevides ou tremoços e sempre dava para depois fazer concursos a ver quem cuspia as cascas mais longe; em matéria de cuspidelas nem sempre era necessário ter cascas dentro da boca, o cuspo propriamente dito chegava! Voltando à questão: não havia doritos, tiras de milho, bolinhas de queijo e nem a simples batata frita de pacote. A gente via-as a passarem na praia e era esse o único contacto que tínhamos com elas: visual! As batatas fritas lá de casa eram mesmo batatas a sério e fritas pela frigideira da mãe, no fogão da cozinha! E que dizer dos iogurtes? dantes, havia-os de aromas, ponto. Agora há de tanta coisa que primeiro que consiga os de aromas, que continuam, para mim a ser os melhores, tenho que desbravar caminho pelos com pedaços, naturaiaçucarados, naturais e com pedaços light, com fungos que dão conta dos males do estômago, os que permitem fazer cocó todos os dias, os que são tipo grego, os que têm corn flakes e frutas, dois em um, os que têm smarties e por aí fora.

A comida na cantina é saborosa? Não é, falta-lhe apuro, dedo para a coisa, cozinhar para 400 crianças não é fácil e nem sempre se apuram os temperos nem as cozinheiras estão para isso. Os miúdos queixam-se sobretudo que a comida é insonsa! Porque será? Para quem está habituado a comer por semana, dois ou três pacotes de pseudo-comida cheia de sal e sabores viciantes não pode achar piada ao sabor que verdadeiramente o alimento tem. No entanto, é muito melhor do que a comida que os bares das escolas oferecem e infinitamente superior às merendas que os putos trazem de casa. E os pais deveriam ser os primeiros a insistir para que os seus filhos almocem nas cantinas, sopa incluída, e a dar um certo desconto às histórias assustadoras que os meninos trazem para casa. Antes disso façam uma cura de desintoxicação ao veneno que andam a dar aos miúdos para comer. Era vê-los raparem os pratos e a comer a sopa toda. Ah e já agora, pôr os pais a pagarem o valor máximo da refeição, 2,14€, não sei porquê sinto que seria um grande incentivo ao apetite.



   Assistindo hoje a um jogo de minibasquete entre a equipa do meu filho e outra equipa de miúdos do mesmo escalão mas cujo crime supremo, o facto de serem os adversários e de lhes ter crescido demasiadamente depressa as extremidades, dou por mim a apreciar (ou mais correctamente a desapreciar) o comportamento de alguns pais: entre pandeiretas ensurdecedoras e urros de alegria pelos cestos falhados dos adversários, palavras de ordem e gritos de "FALHA, FALHA!"! Nota: o filho de um daqueles pais foi meu aluno neste ano lectivo que passou e um dos miúdos de maior correcção que já me passaram pelas mãos! Senti vergonha por mim e por ele! Dei por mim a pensar no que estaria ele a pensar! Surge a velha questão do que é inato e o que se adquire pelo exemplo e pela imitação; este miúdo confirma o que tenho vindo a constatar nos anos em que dou aulas: os exemplos bons e maus existem mas os miúdos escolhem aqueles que querem seguir tendo já por base algo que sempre foi deles e que não se verga ou altera pelo meio em que se vive! As crianças não podem escolher os pais mas podem e escolhem se querem ser como eles!


A palavra às crianças: retratos de uma professora


                                                                     I

Capacidade de atenção de uma turma do 5° Ano: Pessoal, vamos jogar o jogo da mosca ( jogo infantil/tradicional). A mosca é o último a saltar e define o comprimento do salto seguinte. Dois minutos depois um aluno " professora, posso ser a formiga?" " a mosca, a mosca" respondo. Mais dois minutos depois, outro " quero ser a abelha" " a mosca!" " ai pois é a mosca!" Mais à frente, um terceiro: " agora sou eu o mosquito!" . " ok, pessoal, afinal de contas não me posso queixar de falta de criatividade: podem ser o que quiserem! "

II

Na aula, uma turma do 5° ano, exercícios de progressão para o salto em comprimento. Um artista daqueles com resposta na ponta da língua, atrapalha-se na chamada (impulsão) antes do salto, várias vezes. " Meninos, chamada a dois pés ou a um?" resposta em coro " a um" " foi o que o vosso colega fez?" " não" . Logo diz este " eu faço a chamada com quantos pés quiser!" E pronto!!!

III

Estou a pensar que ontem uma aluna me chamou p.u.t.a e que se calhar nos tempos que correm é uma "profissão" a ponderar ... Já viram se ela comete a injúria máxima de me chamar "professora" ou mesmo "funcionária pública"? Nunca mais me levantava com a vergonha!


IV.


   Este meu filho mais novo surpreende-me tantas vezes. Hoje chegou-me com dois papeis da escola, enviadas pela professora de inglês, dizendo que precisam da nossa ajuda, dos pais, para a preparação de algumas actividades para o dia 21 de março, uma delas na confecção dos inevitáveis scones e outra na decoração de um chapéu. Ora,  confesso que a professora de inglês do Gui me começou a irritar um tanto quando proibiu o puto de fazer um teste escrito no dia em que este tinha ido a uma prova desportiva, tinha chegado encharcado e eu o  mandei para casa. É verdade que não sabia que havia teste, mas é certo que , para um criança que tem uma facilidade enorme no inglês, fala online com miúdos estrangeiros, não ia sentir-se intimidado com um teste. Foi para casa porque me parecer o mais correto. O que é certo é que não permitiu que fizesse o teste noutro dia e assim ficou. Não quis zangar-me, sou professora também, mas ficou uma certa decepção. Eu conheço-a, fui sua colega! E há coisas que não guardo, quando soube barafustei e ficou por ali. Hoje, lendo os papeis, disse sem me conter " Gui, não sei se a tua professora merece?!" Com um ar de infinita paciência e algo condescendente como se falasse com uma criança: " Porquê, por causa daquela coisinha? Vá lá mãe, dá-lhe outra oportunidade!"

  Sempre a aprender!

V. 



 Atingidos os 29 anos a dar aulas, é nesta terra que encontro desculpas para não fazer a aula do tipo " comprei um fato de treino novo, já fui ordenhar as cabras e não o sujei. Quero ver se continua assim" , " doi-me a perna, levei um coice dum bezerro" ou a variante " um cavalo pos-me a pata em cima do pé" ou a aficionada" tenho as costelas a doerem, fui pegado por um touro"! Nem a velhinha e criativa " esqueci-me" escapa; cá na terra é "desqueci-me" que sempre sai, um pouco, do lugar comum!


terça-feira, 26 de maio de 2015

   O ego desmedido de algumas pessoas deixa-me desconfortável! O embaraço alheio que custa tanto a suportar porque olhando para aquela pessoa em concreto é como se nos víssemos nela e a possibilidade da figura de urso que faríamos acaso fossemos atraídos para tais desmandos de vaidade. Tal  como escarneço de todos os falsos modestos, os que tendo talento o sabem como ninguém e se envergonham quando, os outros, os enaltecem como devem e merecem mas, porque lhes disseram que os feitos concretos e louváveis não são de se apregoar aos quatro ventos, mantém uma postura de recato quando por dentro temem explodir de auto-jubilo. E no entanto, prefiro de longe um egocêntrico declarado, assumido e insuportavelmente pedante a um egoreprimido que se vai enchendo de soberba mal contida enquanto ruboriza a cada elogio e encolhe os ombros dizendo. " Palavra, não sei donde vem este talento. É intrínseco mas não vale a pena fazerem tanto burburinho! Eu sou assim mas por favor não digam isso alto, não parece bem."   É que para a legião de lambe cus que lambe os ditos aos primeiros o trabalho sai sempre mais facilitado, os egocêntricos assumidos põem o cu mais a jeito, já os segundos, de casta modestia obrigam os indefectíveis seguidores a movimentos de maior contorcionismo para lá chegarem. 

Curtas

   Num passeio noturno passámos, ali pela rua de Santo Espírito, por um grupo de turistas portugueses já entradotes na idade, ruidosos e bem dispostos. Cruzamos-nos com eles em frente da GNR, indo estes na direcção do Pátio da Alfândega e um deles, conhecedor, ia dando indicações quando se ouve uma senhora perguntar com aquele tom meio enjoado com que alguns, os das cidades grandes usam para falar da província:" Mas afinal de contas aquilo ali à frente é rio ou mar?". Pensei responder-lhe que era o rio Guadiana mas mordi a lingua pelo que lhe disse, ela já de costas " É o Oceano Atlântico, minha senhora, francamente!" Ela seguiu o seu caminho sem se sentir beliscada. Penso que ouvi gente a rir do dito espirituoso da senhora. Lá se foi aquela ideia que eu tinha que toda a gente com idade para pertencer à terceira idade sabia de cor e salteado, rios e afluentes de Portugal e Ultramar, linhas e estações de caminhos de ferro e outras minudências da geografia do nosso grande reino. E que não sabendo tinham algum pejo em revelar abertamente a sua ignorância. Uma coisa geracional, não sei! Mas, parece que nos dias que correm, é giro armarmo-nos em burros se produzir algumas gargalhadas. Hoje houve muitas pessoas a rirem, umas com ela e outras dela.


   Proponho um daqueles quadros electrónicos que passam letras luminosas, vermelhas, têm que ser vermelhas, pendurado a meia altura, virado para os funcionários dos correios de Angra do Heroísmo com os seguintes dizeres: " Não esquecer, IMPORTANTE, o que vieste cá fazer hoje? Qual a tua missão neste posto de trabalho? Muito bem, ATENDER O CLIENTE! Como se atende o cliente? Isso, carrega-se no botãozinho da vez e entra-se em diálogo com o cliente! Quando se faz isso? Estás lá perto, SEMPRE que houver, nem que seja só UM, cliente! Porquê? Porque estás ao balcão, e quem está ao balcão tem como missão prioritária, ATENDER o cliente! O que fazes se não houver cliente? Isso mesmo, presumes que está quase a entrar um cliente e para isso levantas a cabeça de tempos a tempos na direcção da porta que é SEMPRE por onde entra o cliente e não finges estar muito ocupado com alguma papelada que dizes ser importante mas NUNCA tão importante como ATENDER o cliente! Percebeste tudo? Então repete comigo, em voz baixa, Atender o cliente, atender o cliente,.........."

   O meu domínio do francês é absolutamente ridículo, o inglês desagradavelmente imperfeito ao ouvido, o espanhol é de fugir, é um português com sotaque, o que não vem a ser coisa nenhuma. Os meus três filhos que são dotados para as línguas, sempre que me ouvem falar em inglês, mandam-me calar ou pior ainda, agarram-se à barriga com convulsões de riso, perguntam-me em que dialecto estou a gaguejar. Não há como fazer-me respeitar neste domínio, fui ultrapassada pelos skills tecnológicos destes putos que aprenderam a falar e a escrever em bom inglês, simplesmente comunicando com outros miúdos através de jogos da internet pelo que, se mérito houve, no excessivo tempo em sedentarismo nos quartos, foi este. E no entanto, no que ao português diz respeito ainda sou minimamente respeitada. Escrever segundo o acordo quando a isso me obrigam (na escola, só na escola e somente nos documentos oficiais sujeitos a escrutínio e aprovação) e manter o antigo é bom. Temos que ver a cena de uma forma positiva. " Então diga lá, quantas línguas fala?!" Posso responder com orgulho na voz " Três" que falar 3 línguas é muito melhor do que falar só duas, duas é o trivial. Não se sai da mediania, duas línguas fala toda a gente. " Ai sim?! Então que línguas são?!" A resposta sai pronta: " Vejamos, domino o inglês (aqui esconde-se o facto de a oralidade ser grotesta), o português, o de antigamente, aquele que toda a gente insiste em falar, veja-se lá a teimosia e a outra língua, aquela muito semelhante ao português mas que não é o português, é antes uma espécie de esperanto para os países da lusofonia, com a graça de só ser falada em Portugal. Confuso?!" Já pertenço ao grupo dos poliglotas, não é para todos, caramba!

terça-feira, 19 de maio de 2015

Hoje, numa das minhas aulas, enquanto uns quantos saltavam à corda, uma rapariga de 12 anos, espigadota em altura e veneta, zangada porque um colega a tinha feito tropeçar na corda lançou um “Caralho, foda-se!” automático, dito do fundo do peito, a certeza de que assim fala, naturalmente, no seu dia-a-dia, na relação com os outros. Após o ímpeto inicial e de refilar ao castigo aplicado, veio perguntar-me se podia retomar a aula. Não me apareceu numa postura que fosse de alguma humildade e conciliação. O pedido de desculpas invariavelmente ausente; refilando ainda, gaguejou no tom acima do tom, com que sempre fala com as pessoas, quaisquer que sejam, de que o outro a tinha enervado. A conversa continuou mas num sentido só, comigo a tentar explicar-lhe porque não podia ser esse o caminho, com ela a argumentar que a sua zanga tudo podia, até a agressão verbal, ao colega e a todos os que se encontravam por perto. Tentei mostrar-lhe que cada qual tem que medir os seus actos, porque cada acto tem uma consequência; não me compreendeu. Mantinha a teima de que o seu acto se justificava plenamente, dado que a ela lhe era impossível refrear a sua fúria, tendo sido instigada a isso. Mandei-a sentar-se e assim se manteve, refilando ainda para quem a queria ouvir, que o outro é que tinha tido a culpa, que o outro é que começara, que o que fizera era apenas uma reacção a uma acção que não fora ela a provocar.
   A propósito do jovem batido na Figueira da Foz, tento perceber o que leva uns quantos adolescentes a sovarem um colega e a filmarem o acto. Tento perceber o que leva o jovem batido a deixar-se bater sem uma palavra que seja. Observo a indiferença a tudo, da violência física presente e da violência maior que consiste na encenação, na filmagem, na pausa, no jogo de poder que se arrasta, na postura de submissão do rapaz que a cada bofetada não enseja um gesto que o proteja, que não proteste.  É uma cena odiosa a que se assiste.
   São duas histórias com amplitudes e contornos diferentes e, no entanto, aproximam-se na indiferença com que, jovens, miúdos, quase crianças assumem a violência, nas palavras, nos gestos e na omissão deles.

   

terça-feira, 21 de abril de 2015

 Não sou terceirence, sou almadense, não sou terceirense mas poderia bem sê-lo; sou almadense porque nasci em Almada e é só. Na verdade, já me sinto uma terça parte desta terra e podem vir dizer que não, que isso pouco me importa. Se eu o sinto, eu sou! E por o ser ou sentir, mais me diverte observar os meus quase conterrâneos, que vão vivendo as suas vidas sempre cheios de uma graça e uma peculiaridade que não encontro em outras paragens. O que observo não vem impregnado daquela sobranceira superioridade com que os do continente observam os nativos, conhecer esta terra desde os meus 10 anos acabadinha de fazer 48 anos, com idas e vindas ocasionais e 11 anos de casa, dão-me estatuto para poder fazer umas criticazinhas sem que daí venha mal ao mundo. Os terceirenses não são rancorosos, ressentidos ou vingativos. E no entanto, estão impregnados de outras tantas características, algumas quase deliciosas de que apetece falar quase com ternura.
O terceirense não gosta de andar a pé, anda por obrigação, anda porque não consegue que todas as ruas sejam como a Rua da Sé, onde pode parar o veículo a qualquer hora e instante para ir comprar o pão, ou à farmácia ou ainda comprar os parafusos ao Nildo Neves. Anda a pé sempre que, ponderadas as alternativas, percebe que demoraria mais tempo a ir buscar, a pé, o carro, não porque encontre benefícios físicos nesta prática.
 O terceirense gosta do carro e de pará-lo, à descarada, no meio da estrada e apelar à boa vontade e bonomia dos outros. O terceirense anda sempre numa azáfama, a tirar ou a por qualquer coisa do/no carro. Está sempre entre o “ vou só ali” ao “é só um instante”, certo da compreensão dos outros, porque ele faria a mesma coisa. Ser apressado ou stressado faz mal ao coração, dos outros, pelo que não entende e ofende-se quando é admoestado sobre a sua conduta na estrada. O terceirense reage mal ao comentário arisco do condutor que espera atrás; e no entanto nunca chega a vias de facto: prefere o dedo do meio ou um consolador “ vai p’ra porra”. Enquanto gesticula malcriadamente ou lança impropérios, alivia os maus fluidos que circulam dentro dele e mantém a civilidade dentro de parâmetros, se não desejáveis pelo menos, não parte para a violência física e isso é de louvar.
 O terceirense da cidade gosta das carrinhas grandes e luzidias porque não podendo ter vacas e propriedades rurais, fica pelo menos com um dos apetrechos que melhor se identificam com as explorações agrícolas. Uma espécie de ruralidade fina, que o liga à terra sem que o torne rústico e não tem o inconveniente da merda seca nos rodados a sujar as entradas da propriedade.

Andar a pé é reservado para todos aqueles que passaram todo o dia a andar de carro mesmo que seja de ir de A a B distantes entre si 300 metros e que no final do dia, desejam fazer o exercício físico que não puderam fazer durante o dia, porque estavam a trabalhar. Aí vestem o fato de treino e orgulhosamente detrás das suas grandes panças e do alto dos seus grandes rabos, exercitam o seu corpo, já moldado ao assento da viatura. Andam a direito porque a única subida que fazem durante o dia é quando se afadigam para treparem para os seus altos jipes, grandes e luzidios. É vê-los a marcharem laboriosos pela marina de lés a lés, em passo corrido, a ver se a meia-hora de passeio compensa a quilometragem da viatura pelas ruas maltratadas da cidade. E quando regressam lá está o carrinho, logo ali pertinho para os conduzir a casa, que já é tarde e o jantar atrasa-se.
Quando nasci a minha mãe tinha 42 anos. O meu pai também!
Quando tive idade para perceber, percebi que antes de mim e da minha irmã, dois anos mais velha tinha havido outro filho e que esse filho tinha morrido. Desde que me conheço com capacidade para pensar, me dei conta, no meu entendimento de criança, em que tudo parece sobre dimensionado e o mundo é visto com um tamanho e uma importância gigantesca aos nossos olhos, que o meu irmão morto, antes que eu e a minha irmã tivéssemos nascido, era um ser perfeito, que morreu nessa perfeição sem mácula. Tinha nove anos, idade em que não se concebe que ser humano algum morra. Morreu electrocutado! Tinha nove anos e morreu de uma forma inconcebível. Morreu electrocutado num jardim publico de uma grande cidade, Lourenço Marques, de alguns anos a esta parte, Maputo, Moçambique. 
Desde que tomei consciência de que o mundo não era um lugar sempre seguro e sempre bom e sempre pacifico e sempre prazenteiro, foi-me dito pela minha mãe, sempre com sofrimento na voz e num tom que se usa para falar de coisas de que se sentem uma falta dolorosa, que existira esse ser e que a dor sentida por ela, permanecia e sempre a acompanharia até à sua morte. A imagem que guardo dele, não a imagem da fotografia, é a imagem de um ser intocável na sua perfeição: excelente menino, obediente, alegre, muito amigo de sua mãe e um excelente aluno. Era assim e nestes termos que éramos convidadas a reverencia-lo, ao mano. Não era o nosso irmão, era o nosso mano! O nosso mano vivia nas fotografias da sala e do quarto dos meus pais, normalmente vestido com a farda da mocidade portuguesa, a que não pertencia mas que, segundo a minha mãe, eram obrigados a ter e a vestir. Não percebo agora, vestiam-na nos dias festivos? Reservavam-nas para as fotografias? Não pertencia ao movimento, dizia a minha mãe mas o certo é que a imagem que guardo dele é com ela vestida, todo prezado, um pequeno soldado pronto para a luta. 
Num canto do seu guarda-fatos a minha mãe guardava, com a dor de toda a saudade acumulada, os livros e os cadernos da escola e todos os desenhos e postais de dias da mãe e do pai, nos quais o pequeno ser, escrevia o quanto os amava, postais que não raras vezes eram acompanhados de uma imagem da Nossa Senhora ou do São José, tão bem ao gosto do catolicismo conservador do Estado Novo. Guardava também alguma roupinha, não muita, o vestidinho do batizado e recordo que, da farda da Mocidade Portuguesa guardava meramente um cinto, em couro e com um S desenhado na fivela. Esse cinto, era o único adereço que me lembro ter sobrevivido aos anos, gostaria agora tanto saber que fim teve, que destino lhe deu a minha mãe, aos calções e a camisa de botões e tudo o resto que compunha a farda. Pequena que era nunca me questionei sobre o significado do S do cinto, para mim poderia ser um S como um C ou um K. Não era uma inicial, era um desenho. 
Sabia de toda a história da ditadura no país, da revolução de 74, regressada a Almada pouco depois da revolução, vinda de Moçambique vivíamos na comoção dos novos tempos, um tempo de esperança e novos começos. Eu sentia o frenesim, a discussão indecifrável de politica dos adultos, cantava " uma gaivota voava, voava", canção que repetia até à exaustão e habituara-me a trautear o hino do Movimento das Forças Armadas. Tinha 7 anos mas recordo imagens, sons, a televisão a preto e branco com as noticias frenéticas, entusiasmadas dos repórteres. Sabia que algo muito solene tinha acontecido e recordo ter decidido, pouco tempo mais tarde que pertencia ao Partido Comunista. Não sei porque tomei essa decisão mas pareceu-me que, por aquela altura, e do que tinha decifrado da linguagem dos adultos, eram eles os bons. Do General Ramalho Eanes recordo um personagem austero e lembro-me que o pensar que aqueles óculos de massa escuros e excessivamente grossos, me causavam algum respeito. Também gostava do camarada Vasco Gonçalves e do  Pinheiro de Azevedo, não porque percebesse nada do que diziam mas porque me pareciam bons.
Alguns anos mais tarde, vinda de uma estadia de 5 anos na Terceira, revoltada e em plena fase rebelde, numa das muitas incursões ao sótão, onde se encontrava sempre tralha interessante que já não sabia existir, volto a descobrir o cinto, guardado com outras objetos do passado. E resolvo logo ali que me apetece usar o cinto que pertencia ao meu irmão, uma homenagem a ele e porque me parecia muito giro. Era a época dos vestidos indianos com as malas de cabedal compradas numa ruela de Almada, malas que escureciam com o tempo. Era o tempo das missangas e dos sapatos mocassins, aquele cinto tinha tudo a ver, de couro curtido, muito hippie, achava eu, o S desenhado continuava indecifrável para mim; e era assim, revolucionaria adolescente tardia, que ia vender tralha à feira da ladra. Até que um dia, alguns anos mais tarde, já depois dos meus gostos estéticos terem mudado que, vendo de novo o cinto e olhando com os olhos de quem já reflete com cabeça de adulto, e não necessariamente melhor, percebi o S e dei conta do pecado cometido. Mas logo ali, sem culpas me absolvi.   

sábado, 28 de fevereiro de 2015

   Sinto-me divertida por este tipo de pessoas de mente neuropsicótica, que não sendo nossos amigos facebookianos, nunca tendo sido e muito menos amigos reais, nos bloqueiam e desbloqueiam ao sabor de uma corrente de humor só por eles explicável! A gente sabe que eles estão mas não estão para nós, como se a nós nos calasse fundo, a circunstancia de eles não nos quererem ver à distancia de uma clique ou nós os vermos a eles por um simples carregar de botão. São tempos extraordinários estes, não propriamente saudáveis mas nem por isso menos extraordinários! Sinto que, daqui a uns 200 ou 300 anos, o advento do século XXI será estudado em todas as escolas, numa disciplina obrigatória, no domínio das doenças mentais de cariz sociológico para as quais se descobriu, entretanto, uma vacina. Um pouco como a tuberculose ou a raiva, só que de efeitos visualmente menos dramáticos!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O mártir

   De há uns tempos para cá tenho-me detido na tentativa de compreensão de um tipo de gente que se arroga de moralmente superior, gente de irrepreensível comportamento, católicos ferrenhos de moralidade inatacável e por consequência doutorados na critica contundente dos outros, os pecadores por pensamentos, actos e omissões.  Aqueles que cristalizam as suas convicções conservadoras e bafientas com a prática regular dos deveres religiosos e aí param na compreensão dos pecados dos outros, que não querem compreender porque é pecado.
   Os outros, os que se arrastam pela lama em que se tornou a sua vida, os outros  que tão dignos de dó e para quem se olha, condescendente, do alto do pedestal das boas práticas cristãs. Os outros que cometem indignidades e vivem uma vida irresponsável disfarçada de felicidade,  pejada de acções inconsequentes e das quais deverão envergonhar-se, eternamente. Umas vergastadas nas costas, umas vestes húmidas cobertas de sal, o sofrimento físico para remissão dos excessos da carne.
   Se a estes paladinos da moral cristã se juntar a convicção martirizada que se vem a este mundo para sofrer e que no sofrimento se vislumbra a luz, temos assegurado um mártir, um ser que não é deste mundo, que no sofrimento se conforta,  alimentando-se com a incompreensão dos outros.
   Usam cilícios morais e penitenciam-se constantemente. Contristados com impuros pensamentos, que os têm, procuram a contrição em todos os aspectos da sua vida: a eles reclamam todos os trabalhos, todas as responsabilidades, todas as agruras e aborrecimentos da vida, certos que assim sendo se aproximam da salvação eterna. Desprezam os que assim não pensam, todos os que agarrados à vida, o fazem pensando como esta é bela e merecedora de gozo. E que agem em conformidade, vivem, riem e fazem amor, e bebem a vida  e gozam de si próprios.
   São parcos nessas manifestações terrenas, o riso é doseado e os prazeres terrenos na medida certa em que não se excedem. O excesso de viver e da louca transigência dos pecadilhos da vida, são interditados.   Levam-se demasiado a sério,  são incapazes do riso de si próprios, de se ridicularizarem e com isso de saírem incólumes, não beliscados na sua imaculada moral. 
   Já provaram o pecado, sentiram o poder da tentação, deitaram-se no leito libidinoso de que se reveste, sentiram o ardor húmido e pulsante, momentaneamente perderam-se nele mas, revestidos de mais e mais força, de luta valorosa e vitoriosa, não se permitiram permanecer. 
   São aborrecidos e chatos não porque queiram mas  porque alguém tem que o ser, a consciência que falta aos irresponsáveis desta vida; caminham fintando os pés porque vergados ante o mundo que carregam. São a nossa consciência sem que lhes tenhamos encomendado um sermão. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Conas

A expressão " És um coninhas" aplica-se exclusivamente a homens, dizê-lo a uma mulher é uma redundância e não especialmente ofensivo. Aplicá-lo a um homem é outra conversa; nada é mais insuportavelmente irritante do que um homem coninhas. São aqueles seres miudinhos nos gestos e nas ideias, de tal forma herméticos que se inclinam sempre para um sentido e carecem de ginástica mental para penderem, por vezes, para o lado contrário. Há homens coninhas em todos os sectores da sociedade mas é no ensino que eles medram, como cogumelos numa floresta sombria. Os professores coninhas são os mais refinados dentro do género, porque sentem legitimidade no oficio para serem  uns verdadeiros conas. São chatos e compostinhos, seguem todas as ordens carneiramente, não levantam a voz e são sempre delicados. Existem numa proporção de 90% para 10%, sendo que os 10% correspondem a malucos da cabeça, cromos e afins, aqueles de quem toda a gente se afasta nos corredores  e os outros, os a quem disseram que era uma jogada inteligente e de colheita profícua ir para o ensino porque eram só gajas. São tipos inteligentes e sabem coisas, sabem mexer em papeis e dominam as artes informáticas. Dão bons diretores de turma, assessores de qualquer coisa, são fiáveis e profissionais. Competentes no seu ofício, não arriscam jogadas pedagógicas arriscadas, se lhes mudam a sala de reuniões ficam momentaneamente desorientados esquecendo que podem escolher entre mais 20 salas geometricamente iguais; nunca se ouviram numa gargalhada ao fundo do corredor, nem contaram uma anedota porca na sala de professores; levam marmitas etiquetadas com a comidinha que a esposa amorosamente lhes arranja.  Há muito que esqueceram as virtudes do exercício físico, os conas radicais nunca pegaram num cigarro, nos jantares de professores bebem água, dizem que o álcool a eles lhes provoca azia e eczemas no couro cabeludo. Observam-se na escola porque são poucos, saltam à vista apesar de quererem desesperadamente passar despercebidos, ajustaram-se a tanta estridência feminina e encontraram um nicho no qual sobrevivem. É como se elas, com o tempo, lhes tivessem sugado todo o espírito. Têm o mesmo efeito do que um ansiolitico com a desvantagem de não se poder dormir no local de trabalho.