sábado, 8 de outubro de 2011

A minha mãe

      Sou a 3ª filha dos meus pais  e se as suas vidas tivessem seguido um rumo sem sobressaltos nem derivações provavelmente não seria! Não teria nascido simplesmente; sou um conjunto de circunstâncias, uma junção de factores, a minha concepção aconteceu porque uma data de episódios sucederam na exata medida, no tempo preciso e de um modo específico para daí resultar eu! E essa certeza de a concepção de um ser humano depender tanto da precisão  cirúrgica do momento é extraordinária! E contudo, não somos completamente únicos, somos tão impregnados dos nossos pais que por vezes não passamos de clones aproximados deles! 

   A minha mãe tem 86 anos e tem Alzheimer ou tem uma qualquer demência associada à velhice; já andava nos quarentas quando me teve, as hipóteses de ter nascido doidinha eram elevadas mas, na altura, ninguém pensava muito nisso! Não nasci flagrantemente deficitária mas é interessante verificar que , até as doenças crónicas do meu pai, como a bronquite ou a propensão para a  diabetes, coube-me a mim! Não contente com esta distribuição injusta do mal físico, Deus ou o destino ou "não sei o quê" achou interessante fazer-me parecida com a minha mãe. É facto assumido por muito boa gente que me conhece bem, eu ser a versão mais nova mas igualmente chata dela, ter herdado algumas das suas boas qualidades mas também todos os seus infindáveis defeitos; que olhando para ela, não agora que está completamente choné mas há alguns anos, não tão distantes quanto isso, me vêm a mim daqui a alguns anos e que essa constatação é insuportável, que ter uma nova Ana a substituir a antiga é mais do que qualquer ser humano pode e deve suportar! 

   A minha mãe vive comigo porque outra coisa não poderia ser. A minha mãe regressou à infância e daí já não sairá. Sinto saudades quando ela era opinativa, argumentativa, metediça, autoritária mas também irónica e mordaz, alegre e cheia de vontade de viver! 

    Hoje tive este diálogo com ela: " Esta casa é muito bonita, a casa da Baba" para não me por aos gritos, a minha mãe é muito surda, aponto para mim e digo: " é a minha casa!" " não é nada, é a casa da Baba", novamente aponto para mim " eu sou a Baba" " a Baba vive consigo?"...desisto,  aceno que sim... nada a fazer! E como este, tantos outros diálogos, sem nexo!

   Há 5 anos, 5 curtos anos atrás pedi-lhe para escrever algumas memórias, que estou a registar aqui:


Esta era a minha mãe!

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