domingo, 8 de setembro de 2013

É assim...

Hoje apetece-me falar de modas, aquelas modas que são seguidas por quase todos sem se darem conta e não falo propriamente de roupas e demais cenas de vestir mas sim expressões de oralidade que o português gosta de usar e mais, faz questão nisso:

   Não há nada que me deixe mais predisposta para ouvir do que um início de frase "É assim...". Quem diz "é assim" prepara quem ouve, como que avisando que, o que irá ouvir, será importante, quantas vezes uma descoberta filosófica  profunda, uma verdade indesmentível. Por exemplo: Pergunta: " O que acha da crise mundial?" Resposta: " É assim, eu acho que a crise mundial é geral, atinge toda a gente e portanto acho mal...." Ou então:"É assim, não penso nada, penso que cada vez gasto mais quando vou ao supermercado e venho de lá com menos coisas. Está respondido?"" É muito possível que em ambas as situações quem as proferiu não perceba bem o que disse nem se o que disse faz sentido mas no entanto, pronuncia-la no início da frase já é indicativo de alguma opinião convicta e isso convence por sua vez quem ouve. É dita, também, por gente que sabe o que diz e que não anda a inventar o que dizer só para ter alguma coisa para dizer. No entanto é utilizada pelos dois grupos com a mesma convicção: quem diz " é assim..." afirma que é assim mesmo, não é de gaguejar, de indecisões ou inseguranças! É uma frase afirmativa, não inquisitiva, quem a diz pensa que sabe o que diz ou sabe mesmo e faz por o mostrar logo, não admite discussão, é assim e pronto! Esta frase é usada maioritariamente por mulheres na faixa dos 40 a 50,  e é nitidamente uma moda dos finais dos anos noventa, inicio do novo século e inacreditavelmente tem resistido a anos e anos e se já, não ouvida com tanta frequência, existem os seus indefectíveis utilizadores que se mantêm fieis à expressão, o que não deixa de inspirar alguma ternura.

   Outra expressão interessante usada no início das frases e que me merece referência pela alegria e vivacidade é a " não estás bem a ver!?". Esta frase , interrogativa e incrédula,  refere um facto acontecido ou a acontecer de grande relevância dramática para todos, emissor, receptor e terceiros! Não prepara o  ouvinte para grande dissertação filosófica mas sim para um facto terreno de grande piada, um acontecimento social hilariante muitas vezes de contornos ridículos, é assunto exclusivamente mundano! Quem diz " não estás bem a ver?!" quer mostrar a quem o ouve, que o que irá ouvir, é para lá de tudo o que este ouviu até então; pertence ao domínio da estratosfera, do bizarro, do surrealista e o emissor mostra tal facto, com a incredulidade necessária, "não estás bem a ver!?" é teatral e  dramático,  remete o que irá comunicar para o domínio da ficção cientifica, no qual tudo é possível! Esta moda é mais recente, pertence às damas e cavalheiros de idade adulta ainda jovem, é expressão mundana e optimista e encontra-se em uso corrente.

   
    E que melhor frase para terminar uma argumentação viril e veemente, do que a segura " Tá a ver?!" Não a versão completa " está a ver?! mas sim a versão abreviada que indica mais descontração mas no entanto sem deixar de manter aquela onda casual chic, com o toque requintado que confere o tratamento mais formal na terceira pessoa.  Se bem que estruturalmente parecida com a expressão número dois, nada ter a ver com ela: aquela inicia uma frase, prepara o ouvinte para algo extraordinário, esta pelo contrário, remata a frase, como querendo dizer " não é maravilhosa esta minha argumentação, não sou um ser extraordinário?!". Os nossos políticos de maior visibilidade e de classe comprovada, os poucos  que conseguem tornar o arroto inesperado num momento memorável de requinte usam essa expressão com a graça que só eles possuem!

   Há "montes" de tempo que utilizamos o " montes" para indicar uma noção de grandeza para qualquer coisa; Há uns anos atrás só diziam " montes" uns quantos, os mais ranhosos, os que se estavam para as tintas para a elegância linguística; hoje em dia é elegante dizer "montes", toda a gente diz montes, a própria palavra é redonda e cai a matar no propósito do sentido da frase. Há quem, para reforçar ainda mais a grandeza da coisa utilize a versão mais grandiosa do montes que é a montanha e portanto não é raro ouvir dizer " tens montanhas de opções para isso" mas é um grupo mais reduzido! O montes é instituído,  o montanha é para os freaks que não sabem manter-se num registo mais soft, para os exagerados!

    Lembram-se do "baril" de há alguns anos atrás, o "espectacular" de alguma conotação murcona ou do "porreiro" de triste memória? Ultrapassadérrimos! Mais a mais esta última alcançou uma fama de tal forma patética que ninguém com juízo se quer associar a ela. Alguém que pronuncie a suicidária frase "porreiro, pá!!" arrisca-se a julgamento sumário e  linchamento público! (*)
   Não, nada disso! Gente jovem e bonita agora diz " fantástico! " ou "fabuloso" ou os de mente mais laboriosa o "fabulástico". Os superlativos "giríssimo" ou  " interessantissimo", ficam sempre bem e reforçam o extraordinário da coisa.  Existe uma facção bem circunscrita que tenta ressuscitar o "estupendo" para aumentar o leque de opções e tornar a nossa língua mais rica.  Os de indole mais   terra a terra mas de alguma cultura citadina dirão " bem esgalhada a cena", "que cena altamente" ou mesmo " que cena marada" ou qualquer outra frase desde que meta a "cena". Se estiveram atentos, eu própria aplico a palavra "cena" logo no primeiro parágrafo, palavra que me parece intemporal e essencialmente jovem e "cool" ( não encontro a correspondente portuguesa que se possa aproximar decentemente à sua homónima inglesa por isso  a mantenho sem tradução).  A "altamente" aplicada isolada ou em conjunto também é de grande aceitação e permite expressões faciais e de entoação personalizadas; ninguém diz o seu "altamente" de igual forma do seu amigo do lado. Se vier socorrida logo de seguida, pelo "pá" fica uma expressão que significa muito para quem a profere ainda que na verdade não queira dizer nada! No entanto, para o receptor de tal frase, ouvir " altamente, pá!" é muito mais  relevante  do que ouvir " fiquei verdadeiramente impressionado com a forma como controlas o teu skate e o levas a produzir habilidades muito para além do skater mediano!"  Para além da já referida, palavras também muito utilizadas por gente actualizada são as expressões originais de língua inglesa como a "amazing", "great" ou a melhor de todas, "awesome", que eu própria tanto gosto de utilizar para referir algo mesmo transcendental, que nos enche as medidas, que nos transporta para o êxtase sensorial! Quem diz "awesome" já viajou para o hiperespaço e nada egoísta tem que partilhar esta onda zen com o próximo. Este "awesome" tem grande acolhimento tanto por surfistas e skateboardistas como por advogados e arquitectos, tudo gente altamente esclarecida, nas suas diversas ondas espirituais e morais. Aliás, o que todas estas expressões têm em comum, até a injustamente vilipendiada "porreiro, pá" é a grande generosidade existente, o sentido de partilha desinteressado com o próximo. É um código que todos conhecem, e que a todos faz sentir pertença de um grupo!
   
(*)  esta aversão global à dita expressão ainda toma maiores proporções e estranheza quando se pensa que um outro personagem, da mesma cor política, é certo de maior gabarito e estatuto mundial incontornável ( e ainda assim com a mesma incapacidade patética para línguas ) tornou a expressão "fixe", tão querida aos portugueses e vai-se a ver, não sei bem porquê!!

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