sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Tasca do Venâncio II

   De vez em quando gosto de regressar à Tasca do Venâncio, é um manancial de experiências sensoriais de uma riqueza insuspeitada desde que não olhemos muito de frente para a cozinha que está sempre escancarada. No Venâncio não há nada a esconder nem a ASAE se atreve a lá entrar. Os tachos e panelas estão revestidos exteriormente de uma camada resistente de gordura de alguns anos; a expressão " arear os tachos" é desconhecida por aquelas bandas, mas quem é que pode arear tachos e panelas todos os dias, todas as semanas, todos os meses?! anos?! e os azulejos perto do fogão há muito que perderam a sua cor original: tem uma patine acastanhada de ricos matizados; na verdade, o que me importa a mim que por fora as panelas estejam peganhentas se por dentro são lavadas? Mais que lavadas, têm substâncias que se reúnem para formar aromas e sabores maravilhosos.
   A Tasca do Venâncio existe a uns ténues 100 metros da minha casa pelo que estou sujeita, frequentemente, a investidas sensoriais que derrotam o vegetariano mais empedernido! Quando me farto de fazer comida e como me farto frequentemente de fazer comida e porque detesto fazer comida e porque arranjo qualquer desculpa para não fazer comida e porque a tasca do Venâncio fica tão perto e para mais, porque cheira tão bem na tasca do Venâncio e o Venâncio é um ser tão simpático, acabo por parar por lá fartas vezes, como não quer a coisa, a assobiar para o lado, a ver se cheira: cheira sempre, por vezes cheira na minha casa e isso é injusto; não havia necessidade que cheirasse tanto! E depois, é tão prático, num minuto estou lá ou em casa, é dizer ao sr Venâncio, venho em 5 minutos, guarde-me a mesa, e ala que se resolve o problema de mais uma refeição; é cansativo pensar em comida, engendrar uma cena qualquer que se coma que possa ser feita em meia hora. Pobres dos meus filhos que nisso não tiveram sorte nenhuma, comem o que a mãe faz e nem sempre a coisa fica muito bem feita. É o que se pode arranjar! O que é certo é que não há cá em casa gente esquisita e muito menos pedidos especiais. Quando lhes digo " Bora ao Venâncio", é vê-los a sorrir, contentinhos e felizes! Outro dia foi feijoada! Lá foi o Sr. Venâncio a outra porta contigua à entrada da tasca, por fora, pela rua, a outra cozinha buscar a panelona que aqueceu e dois pratos bem aviados, o do Gui menos cheio, o meu a abarrotar de sucos da feijoada. Uma cesta cheia de pão ( o pão que não se comeu dos outros clientes que por lá passaram, já se sabe, mas se queremos ser esquisitos não vamos lá, há outros, os especiais para esquisitos) para molhar naqueles molhos, uma ou duas cervejas, café e conversa com fartura que o Sr.Venâncio fala pelos cotovelos. Se se quer comer em sossego, em privacidade e outras caganças que tais também não se vai ao Venâncio porque ali ouve-se o que se quer e o que não se quer e se não se quer ouvir não se entra na tasca do Venâncio: é que o Sr.Venâncio é surdo que nem uma porta e fala alto como o diabo, para além de falar alto tem uma forma de falar estranha, parece que não enrola a língua pelo que a gente não percebe bem as palavras mesmo que ele as grite aos nossos ouvidos e na tasca espaço é o que não existe pelo que a boca do Sr. Venâncio está normalmente paredes meias com os nossos ouvidos. Na tasca do Venâncio fala-se de tudo mas principalmente de futebol e ali venera-se o Benfica mas como todos os seres humanos de alma gentil, o senhor Venâncio admite que se goste também de outros clubes, como o querido FCP do seu neto. Outro dia, o da feijoada,  entrou um forasteiro não ambientado com a dinâmica da tasca e foi encaminhado para uma mesa mais escondida porque aquela onde tencionara sentar-se continha dois artigos igualmente preciosos: uma faixa do Benfica atravessado em toda a mesa para esperar o jogo do Benfica que iria acontecer horas mais tarde e um pacote de arroz para estar ali mais à mão para alimentar os pombos que por ali vagueiam, à porta da tasca. Ficou logo a ver a onda dominante e foi convidado a sentar-se na mesa de um residente da casa, coisa que fez obedientemente sem um ai e encorajado desde logo a  encetar  conversa. Eu e a minha feijoada a darmo-nos muito bem, ela a deixar-se ser comida, eu a apreciá-la a cada garfada, o desconhecido a ambientar-se ao local, uns sorrisos de incentivo da minha parte. O Sr.Venâncio sozinho a orientar os pedidos sem qualquer dificuldade e sem se esquecer de um sequer...todos aviados é hora de o Sr.Venâncio soltar a língua a sério; hoje falou-se da Graciosa, a sua terra natal. Fala-se ali muito do passado, como não poderia deixar de ser. Disse-nos ele com o orgulho evidente na voz que começou a guardar vacas aos 6 anos e que costumavam pastar perto da caldeira e de como, certa vez, caiu por um talude e todo ensanguentado, abandonou as vacas a correr até casa para que o acudissem e de como levou uma tareia em chegando a casa por ter abandonado a manada. Os outros rindo-se e ele repetindo " uma sova do meu pai, aos seis anos porque abandonei as vacas!" E de como passava os dias descalço e que dantes não havia caminhos de alcatrão como hoje em dia, os caminhos eram de pedras e de como tinham os pés sempre cortados e que com o tempo calejavam até não se sentir mais a dor. O forasteiro inquieto para abrir a boca lá se desinibiu e falou e daí a uns instantes tinham conhecimentos comuns, família que o velho Venâncio conhecia. Conversa animada, reconhecimento de gente comum do passado. Entretanto deriva o Sr. Venâncio para a Terceira e para o porto de Angra e vai daí pergunto eu se se recordava do meu pai. Não se lembrava mas sim de alguns civis que trabalhavam na capitania do porto, do grande amigo Figueiredo " o meu padrinho do crisma" quase que grito! "E lembra-se o sr Lucas, piloto de barra?" " Então não me lembro?! Excelente pessoa!" é a resposta; "e o sr Ângelo? "e a cada lembrança um sorriso cada vez maior, a alegria de partilhar memórias de gente que já não está e que em épocas que já lá vão fizeram parte das nossas vidas. O velho Venâncio comovido, eu mais uma vez a relembrar, eu sou sua vizinha, já uma vez lhe disse, moro ali a 50 metros na rua do Faleiro. Peço a conta, faz o calculo por alto e em segundos, pago, cumprimento efusivamente e saio e eles continuam, ele e o forasteiro e os residentes habituais da casa, voltam à conversa da Graciosa e todos os dias é o mesmo, só mudam os forasteiros e no entanto depois de lá entrarem é como se já fizessem parte da casa. É por isso que eu volto ao Venâncio!

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