segunda-feira, 19 de novembro de 2012

   Hoje levantei-me ainda com mais energia do que é habitual; com a energia que emprego quando me lembro de nova coisa para fazer: vou começar a correr! Correr é só a mais detestável forma de fazer exercício físico e no entanto parece-me que para mim, vai ser a única coisa que resulta. Desde que, numa época quase dinossáurica caí na asneira de participar num corta-mato do liceu, cá em Angra e terminei em último lugar das meninas e portanto atrás de toda a gente, e para mais com a suprema humilhação de nem ter corrido com umas sapatilhas minhas, jurei que nunca mais correria, se para tal não fosse obrigada. É verdade que quando passei pelo Isef, percebi que até conseguia correr tempos infindos sem morrer entretanto de exaustão; tenho boas recordações de grandes corridas com os meus colegas pelos campos circundantes que iam ter ao estádio nacional, mas esse estado de graça terminou e empreguei o meu tempo a fazer outras coisas, a maior parte delas sem ter que ver com o exercício físico. Hoje levantei-me cheia de força. Estou gorda, não chego a estar obesa mas já passei a linha do aceitável do meu índice de massa corporal. Não admira que ande sempre cheia de calor, de manga curta, circunstancia que faz sempre muita espécie aos meus amigos " como podes andar sempre encalorada?!" por vezes respondo " sou uma mulher muito quente " frase muito ambígua que gera normalmente risotas mas normalmente digo " estou gorda, tenho muita massa adiposa". "Não tens nada! Disparate!". " Ai tenho, tenho!" e mostro a minha prega abdominal, o que só isso chega para calar o mais céptico.
   Correr é para mim dos maiores sacrifícios que me podem pedir, é doloroso, sofro, e no entanto, sinto que por isso mesmo, é assim que devo recuperar a forma física, por mim mesma, sem intermediários! Odeio ginásios, cheio de homens inchados de músculos e com odores estranhos, normalmente mal ventilados - os ginásios mas por vezes os homens também -, sem qualquer tipo de privacidade, com musica da treta para animar os espíritos. A minha ida ao mar não me faz emagrecer, cuida-me do espírito mas é ineficaz para me manter em forma,  piscinas de água doce estão cheias de micróbios e outros bichos e cloro e resquícios de coisas que nos entram pelas narinas, pela boca, um bafo quente insuportável. Andar de bicicleta é quase tão mau como correr, se fosse sempre a descer até que escapava ou se nos fosse possível ter um  saca-rabos, no caso, saca- bicicletas que as puxassem para cima, que não há! O selim da bicicleta deixa-me o rabo dorido, não tem o tamanho adequado ao dito, as costas ficam-me a doer, a posição é muito pouco ergonómica. 
   No caminho para a escola, a descer a ladeira de Sao Francisco, vejo um homem, temerário a desce-la em passo de corrida com um telemóvel na mão a clicar nas teclas, e pasme-se, a sorrir. Ia alegre e contente, não completamente disparado, travava com a parte anterior dos pés mas quem sabe de que rua falo, percebe o quanto arriscado é ir nela em corrida, com a calçada molhada e sem prestar a devida atenção ao piso. Abrandei o carro para ir à mesma velocidade que ele, curiosa em saber se iria chegar lá em baixo inteiro. E chegou! Apeteceu-me abrir o vidro e bater-lhe palmas. Pelo feito e pela estupidez! Aquela visão pareceu-me um excelente presságio!  Estás a ver, correr é giro, correr permite tantas variações, não precisas correr só por correr, se deixares a tua mente correr, as coisas engraçadas que podes imaginar! Esta visão do outro fulano em debandada pela calçada abaixo em azáfama de pernas e dedos permite-me afirmar que é errado dizer que um homem, o do sexo masculino, não consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tenho um amigo que costumava  andar pelas ruas de Angra a ler um livro sem perda considerável de velocidade. Deve ter um radar como os morcegos, não sei contudo se emite ruídos como os morcegos,  porque desvia-se os postes da luz e rodeia os buracos da calçada e para além disso nunca soube que tenha tido algum descolamento da retina. 
   Esse meu amigo é um atleta convicto de grandes corridas, corre por gosto, e feliz coincidência, é magro, muito magro e é isso que eu preciso actualmente, ser magra, não escanzelada, que a uma mulher se quer um pouco de carne a rodear os ossos, um pouco de chicha para agarrar, magra o suficiente para poder trepar um muro, sem ficar humilhantemente pendurada, sem saber para que lado pender, com um rabo a pesar toneladas e umas pernas sem comando. Naquela manhã, o outro a correr que me lembrou o meu amigo, que corre por gosto, pareceu-me uma feliz conjunção para quem se tinha levantado com a ideia da corrida. É de aproveitá-la enquanto está fresca porque não se sabe quanto tempo dura!

3 comentários:

  1. Fico feliz por te servir de inspiração :-)
    De facto, como diz a Nike, sofro mais quando não corro do que quando corro. Correr uma horita por dia dá saúde e alegria.
    Corre 10 vezes, dia sim, dia não e verás que deixa de ser um esforço e passa a ser um prazer.
    Boa sorte.
    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  2. Adenda: hoje, pela hora do almoço, no intervalo entre duas reuniões, corri 15km nas ruas de Bruxelas. Não vi mais ninguém a correr pela rua a esta hora. Ainda ouvi um "bon courage!" de um transeunte. Correr é um privilégio e um enorme prazer.

    ResponderEliminar
  3. :)) obrigada Zé, pelas palavras de incentivo! O que fazes em Bruxelas?! New job?

    ResponderEliminar