sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Azares ... ou não! Uma questão de perspectiva!

  
   Hoje iniciei o dia com um furo num pneu; é bem feito porque tenho sempre a mania que consigo passar em cada regozinho de estrada; pimba, em plena cidade, no meio da azáfama do quase meio-dia, ouço o som insuportável do chiar do pneu a esvaziar furiosamente após ser trincado, sem apelo nem agravo num passeio, ali para as bandas da Praça Velha! Ainda pensei poder, muito devagarinho, chegar à casa do mecânico, no Pico da Urze (ainda em negação!), o nhanhac da jante a rolar pelo chão fez-me parar ali, juntinho dos Correios. 
   Como a idade sempre traz, aparentemente, alguma sabedoria, saltei a parte dos impropérios e da auto-comiseração que sabe sempre bem, do género" só a mim é que acontece isto", esquecidos que estamos de habituados a ver outros na mesma situação que nós, em lamentos iguais, dizia, ignorei todo o ritual que surge após o azar e parti imediatamente para a mudança do pneu , preocupada em chegar à Silveira, ainda da parte da manhã. Imediatamente, duas constatações: a 1º de ordem sociológica, tanta gente a passar, eu ali de rabo para o ar, aparentado o meu ar mais profissional do género " não se preocupem, não quero olhares de pena, eu sei perfeitamente o que estou a fazer", ar escusado dado que ninguém me deu mais importância do que se dedica a um cão sem dono, nem aos sorrisinhos disfarçados tive direito; 2ª de ordem técnica e mais grave, o estupor do elevador de socorro tinha o fio de aço de segurança enrolado à volta de uma porca e não descia; situação de passível resolução mediante um alicate, que é coisa que obviamente, nem me passa pela cabeça ter dentro do carro. Liguei ao meu mecânico, telemóvel desligado, não posso esquecer-me de o despedir, passa na cabeça de alguém que o meu mecânico faça férias? Nas férias dele, quem trata do meu carro? Eu?!!  Permiti-me, sem culpas, um primeiro momento de grossa asneira, vinda das profundezas da alma. 
    Eis senão quando, pronta a arrumar a tralha, trancado o carro ( inexacto porque este meu carro só tranca quando lhe apetece, normalmente quando inclinado com a proa para baixo, vá-se lá saber porquê), surge um anjo consubstanciado no corpo de um ser humano de nome JC. Surgiu de rompante, com um ar profissional, explicado o problema, de súbito calça umas luvas, busca o alicate que obviamente possui, tira o pneu de socorro e muda o pneu em 10 minutos, mantendo o mesmo ar airoso de quem acabou de sair do duche; e eu de mãos cagadas, perdoem a expressão mas não encontro alternativa fidedigna, e toda descomposta. Naquele momento, senti um alívio e uma gratidão enormes. 

   Para as pessoas que seguem as minhas peripécias de mudanças de casa e que, justificadamente, já não me levam a sério ou que possam pensar que sofro de uma cena meia obscura denominada de psicose de mudança, que não sei se existe documentada mas houve um amigo que a aplicou sem hesitações e quem sou eu para duvidar da sabedoria dos outros, quero dizer duas ou três coisinhas a fim de me conseguir explicar sem parecer meia maluca: saí da casa número um porque a renda de casa era altíssima, saí da casa número dois porque o senhorio não era uma pessoa séria e pôs em causa a minha seriedade, saí da casa número três porque tinha um problema na fossa e porque fui estúpida, basicamente; saí da casa número quatro porque tinha um problema na fossa ainda mais irresolúvel que na casa número quatro. A casa número quatro consta-se que era assombrada mas não foi isso que me fez fugir dela, zarpei dali para fora pela insalubridade da casa, duvido mesmo que as assombrações ainda se mantivessem lá, consegue-se imaginar uma eternidade de alma penada a conviver com o cheiro a caca?  A casa número cinco é muito gira, fica na baixa da cidade e é um encanto! Como facilidades não são comigo, tudo o que é fácil e simples é aborrecido, surge o primeiro teste para a casa número cinco: não é que tenho uma infestação de pulgas?! Pulgas minúsculas, daquelas que picam, que saltam e que estão em todo o lado? Não sabia que era possível uma coisa assim, a vida é tão interessante, aproximava-se um mês de agosto aborrecido, sendo assim, surgem novas perspectivas de animação. Aquilo que dizemos volta-se invariavelmente contra nós; afirmei-me a dado passo aborrecida!! Após esgotadas as mezinhas caseiras e os conselhos de amigos mais ou menos avisados, pasmada com o número de casos de ataques concertados de tão insignificantes bichos, ouvidas as peripécias de cada qual, interiorizadas todas as receitas de como matar as estupores, aceito a derrota e chamo o exterminador.  25 minutos e 150 euros depois, declara que a rebelião está esmagada! Por agora ando em pezinhos de lã, com visão microscópica à cata do menor sinal. Ando sensível à menor comichão, à mínima sensação de picada, padeço do síndroma de perseguição, levada a cabo por um inimigo que joga com armas desproporcionais. 


   Não pretendo afirmar que tenho uma vida mais complicada que muita gente (dizê-lo seria quase blasfémico), tenho contudo uma vida, vamos dizer...cheia; cheia de peripécias, de movimentações, de decisões, de incríveis chatices, muitas chatices. Nem é, sequer,minha vontade fazer a apologia da mulher coitadinha, cheia de problemas e responsabilidades; aliás, cada vez me acho mais graça e graça à minha tendência para andar sempre à procura do complicado, daquilo que me irá dar trabalho, que sei que me dará... mas que se faz, vamos lá, pela graça! É que se formos a ver nem denota grande inteligência ou esperteza da minha parte; é uma coisa mais instintiva, em que em lapsos de frenesim decisório, destino os assuntos mais importantes da minha vida! Na verdade, nem me tenho dado mal, as decisões que tomo não são também de dimensão estratosférica mas no mundinho em que me movo, são já de dimensão considerável! Em setembro inicio um novo ciclo, a escola de S. Sebastião aguarda-me! Estou " em pulgas" para começar! 


4 comentários:

  1. Tivémos pulgas nas duas casas que ocupámos na Terceira, exactamente por esta altura.
    Suponho que seja sazonal e não se consiga evitar facilmente.
    Boa sorte.
    ZM

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  2. É um horror, Zé! Estou ainda em stress com a possibilidade de reinfestação! E vcs, como vão por aí?

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  3. Já percebi que os esgotos de S. Amaro venceram.

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