domingo, 16 de dezembro de 2012

Loucos... professores!

   É nas minhas idas para a vila de S. Sebastião e no regresso a casa que mais penso; normalmente penso, valha-me isso, mas aqui, no carro do pão azul de amortecedores de carroça,  o cérebro  entrechoca-se  e as sinapses nervosas dão-se mais depressa, para o melhor e amiúde para o pior! E quando digo pior quero com isso dizer que me dá para pensar mal! Pensar mal de alguma coisa, de alguém, umas vezes com razão, grande parte das vezes sem ela! Pensar como nesta vida de 45 anos me deparei já com tanta gente que tanto tempo me fez perder! Que é algo que com 45 anos já não tenho paciência: perder tempo com gente que nada me diz, nada me dirá e com quem não tenho a mínima vontade de confraternizar! E todos nós sabemos como nesta vida tantas vezes temos que aguentar, conviver, falar, partilhar tempos, momentos, instantes que, podendo nós sermos inteiramente livres de gerir as nossas vidas, nunca nos cruzariamos, nunca falariamos, nunca respirariamos o mesmo ar. Parece cruel, é cruel, é assim. Não aspiro à perfeição, não tenho espírito de monge tibetano, sou imperfeita, irrequieta, insatisfeita! E não tenho paciência para aguentar gente chata, incompetente, chica-esperta, lambe cus, submissa. No mundo do ensino, volta e meia ouve-se que um professor está de baixa por incapacidade psicológica; passou-se, fundiu a cachimónia, passou para lá do lado negro da lua e pode fazer o que quiser, acumpultura, reiki, ioga e outras cenas psicadélicas e esotéricas ou acudir-se de ansiolíticos  e antidepressivos, que não há volta a dar. Professor que endoidece, não volta a são. O ser humano doido é terrível de se ver; um professor doido é ainda pior, é requintado na sua insanidade e para além disso não há dois professores doidos iguais na expressão das suas maluqueiras; dou aulas há 25 anos pelo que me já foi dado observar muitos colegas doidos ou a caminho de o ser; posso afirmar que ver um professor a endoidecer é patético, no entanto inevitável, para quem não tem estrutura, força, jogo de cintura, um certo relaxamento professoral que muitas vezes se confunde com desmotivação. 
   Havia, e há, eu é que já lá não estou, um professor na minha escola de L. que parecia saudável; os professores doidos normalmente enganam bem, toca-se no ponto que despoleta o mecanismo gerador da loucura e é vê-los resvalar; este professor agia com uma certa sobranceria com os novos na casa, era dado a piropos a professoras jovens; este estado de graça com as professoras durava algum tempo até lhes ser dado conhecer o personagem nas reuniões de avaliação; tornava-se arrogante, dono da razão, achava que escrevia bem, ehehehehehe, deixem-me rir, era daqueles fulanos que tinha uma caligrafia sobre o comprido e inclinada, uma forma demodé de desenhar as letras e não sabia redigir uma simples acta; tinha uma tendência absolutamente irritante para ser do contra, não que tivesse argumentos que sustentassem a sua posição mas porque tinha necessidade de ser o centro das atenções. Os mais velhos já o conheciam de ginjeira,  deixavam-no falar, os novos, incrédulos e receosos calavam-e por outros motivos, aqueles que como eu lhes chegava facilmente a mostarda ao nariz, tinham algumas pegas desagradáveis. Era daquelas pessoas que conhecia toda a gente, normalmente gente importante. Nunca conseguiamos fazer bonito na conversa porque o homem conhecia sempre essa pessoa e o amigo dessa, ainda mais importante que a primeira.  Das primeiras vezes que me viu elogiava-me e chegou certa vez a dizer quando entrei na sala de professores " Chegou a primavera!" Esse estado de graça terminou quando um dia achou que eu seria uma boa parceira para formar uma lista para o conselho executivo. Tive a audácia de me rir e tal afronta nunca me perdoou. A  partir daí nunca mais me falou, se tinha que passar por mim ignorava-me, não comentava nada do que dizia, e o melhor, coibia-se de cair em cima dos mais fracos, outros colegas nossos, a quem amochava como tão bem sabia, a quem por feitio ou gentileza não tinham estrutura para lhe responder, porque sabia que se fosse bruto, indelicado, grosseiro, eu estava ali para abrir a boca. Contaram-me por esses tempos que o homem tinha uma história mal resolvida com o ultramar, umas quantas armas em casa e alguma disposição para se servir delas junto dos colegas. Nunca se confirmou, no entanto fiquei sempre a pensar que um dia chegaria à escola e seria recebida a tiros de caçadeira. Na escola de L. não havia professor mais louco e ainda assim era discreto, para quem o não conhecesse de perto. Vinda para as ilhas, novos personagens surgem, cada um deles perfeito na sua loucura. É que cada um deles não admite que está louco pelo que não consegue fazer a regulação do seu comportamento. Admitir que não se está bem permite ter mecanismos de prevenção. Assumir-se como são traz os maiores desvarios. Haviam duas, mulheres, na escola B. Uma era uma louca passiva, só fazia mal a si própria, a outra, uma louca arrogante. A primeira, cuidava cada qual de lhe passar ao largo e a coisa funcionava; a segunda era mais difícil. Uma louca com predicados de catolicismo arreigado, uma espécie de santa em tentação permanente do demo. A mistura era explosiva; a essa senti-lhe a língua venenosa e alguns calafrios na espinha. Também me detestava quando um dia, cheia de beatice e amor ao próximo, censurou um colega por ter tido este  um comentário homofóbico; o que lhe disse deixou-a de tal forma possessa que senti uma sombra escura a atravessar-me as meninges, uma cena de filme de terror! Essa colega além de insane achava que toda a gente era burra, tomava-nos por totós.  Uma louca varrida com princípios cristãos que punha de parte sempre que lhe convinha quando, por exemplo dizia a um aluno " esmago-te a cabeça contra a parede!".Essa ainda dá aulas, reforma compulsiva nem se pensa nisso, algumas cabeças mais ameaçará esmagar até que a sua loucura a faça esquecer de vez o caminho de casa até à escola. Por agora chega invariavelmente atrasada, sempre culpa do outro, do carro, de Deus ou do diabo, vitima constante e inocente. Tempo haverá que deixe de chegar e fazer assim, um favor aos alunos e a si própria.
   Há, no entanto, uma classe à parte no mundo do professores. São aqueles que são loucos e para além disso, são também professores de educação física. É sabido que este grupo de professores é uma classe à parte, são descontraídos, quase relaxados, têm uma forma muito própria de ver o ensino, os alunos, eles próprios e qualquer um de nós tem memórias, pelo menos uma, de algum professor de educação física. Eu própria tenho como modelo do bom professor, dois, um deles de educação física: a primeira, a minha professora da 3ª e da 4ª classe, a Dona Maria do Rosário, professora à moda antiga, de quem ainda me recordo às feições e o modo de ser, delicado mas incisivo, branda mas com autoridade. O outro, um professor de educação física. Estes dois professores, estou certa, moldaram o meu carácter  ajudaram-me a ser quem sou. Tive a sorte de os ter sãos porque se por azar me tivessem surgido outros que conheci, provavelmente seria desajustada para o resto da minha vida. Normalmente, os professores de educação física são muito fixes, quando são doidos, são doidos a valer. Sem fazer grande esforço de memória posso já, num repente que demora um piscar de olhos, nomear quatro. Quatro professores de educação física, meus colegas, em alturas diferentes do meu percurso como professora que desaconselho ao meu pior inimigo. Dois deles apresentavam-se de gravata e fato completo o que já de si cria algumas suspeitas. Parece que um era observador de arbitragem de futebol (?) e casualmente, por coincidência engraçada, observava jogos sempre após as aulas o que não lhe dava muito tempo para se trocar; sabendo como esta classe é prática, entende-se a racionalidade da decisão da vestimenta. Nunca o vi de fato de treino, o que neste grupo, é um facto a estranhar. O outro, nunca percebi verdadeiramente porque dava aulas de educação física; parece que sim, que era verdade, a mim parecia-me mais um delegado de propaganda médica. Ao primeiro, constatei o facto de ser doido varrido, bastava para tal abrir a boca e falar, o segundo era de tal forma obscuro e surgiu tão cedo na minha missão como professora que me mantinha a uma distância segura. O terceiro louco fez-me a vida negra durante alguns anos, era daqueles que saem da faculdade já doutorados, sem necessidade de mais aprendizagem. À conta de tal pressuposto fez os maiores desvarios e foi o primeiro grande responsável por me arrepender de ter enveredado pela profissão. De olhar cândido a cada censura velada ou declarada, agia de forma igual na vez seguinte o que me fazia supor, que efectivamente não tinha a capacidade de pensar. Mas pensava, de forma retorcida pensava. Tornou-se uma personagem incontornável no historial da escola de L., anedotas feitas à sua conta e à minha conta que o aturei mais do que o suportável. Um dia, fez o favor de desaparecer e deixou atrás de si, saudades nenhumas e histórias, muitas! E é só por elas que se recorda, atente-se, com alguma nostalgia!  O último e mais recente, pertence ao historial açoriano e já tem uma crónica só para ele. Para os interessados, aconselha-se, neste blogue, o que diz " O lambe-botas". Este, parece que ainda vai lambendo umas quantas, entretanto,  zarpei eu de B. para S. e por aí  não descobri, até à data,  um louco à altura. Ainda!

2 comentários:

  1. De génios e de loucos todos nós temos um pouco.
    Gostei de saber dos professores loucos da tua vida, espero não ser um deles. E que na S. não exista esse tipo de professores.
    Parabéns pelos teus textos estão todos muito bons.
    Tenho que cá vir mais vezes.

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  2. não te posso responder se fazes parte desse grupo de eleitos destrambelhados, não te estou a ver a cara. :)

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