domingo, 4 de novembro de 2012

A arte de bem comer

   Quero dizer desde já que a importância deste escrito é muito relativa pelo que tendo outras coisas para fazer não percam o vosso tempo aqui! Ficam avisados!


    Gosto de observar gente! Gosto de ver como andam e como correm, se  põem os pés para dentro, se caminham com eles para fora, se são gingões a andar ou tesos que nem carapaus, se arrastam os pés, se balançam os braços ... tantas variações sobre um tema! Agrada-me ver os gestos físicos corriqueiros do dia-a-dia, gosto de ver a forma como descansam os braços quando não têm nada de útil para fazer com eles.Gosto MUITO de observar gente a comer! No acto de alimentação em publico há uma grande dose de vulnerabilidade! Não se pode ter comportamentos em publico que reservamos para casa, de portas fechadas, sem ninguém a ver! Os códigos de conduta são muito rígidos e se alguém insiste em transgredi-los  ouvirá ou sentirá sem que lhe digam que " come que nem um porco!" Sujeita-se! Pessoas há que comem com vontade, não têm fastio e são ruidosas, por vezes de boca aberta, o que nos permite uma visão privilegiada do seu bolo alimentar, compenetradas que estão na importância do acto produzem momentos maravilhosos no acto de bem comer! Há as que comem como se pedissem desculpa por se alimentarem ou mesmo aquelas que, aplicam tão pouco empenho e prazer no acto que se tornam bons dissuasores  dum apetite saudável. Gosto de ver os rituais inerentes ao processo, se cospem o caroço da azeitona sem pejo com risco de ele fazer ricochete e terminar no prato do vizinho, ou se tapam a boca para discretamente deitarem o caroço no prato ou se descontraidamente o tiram com a mão e a pousam no prato. Agrada-me espiar aquela pessoa a quem percebi que tem um pedaço de carne nos dentes e está em desespero para o limpar. Há tantas soluções para este problema:  a unha do dedo pequeno funciona bem, aliás está comprovada a eficácia deste pequeno apêndice em variadas situações que não cabe aqui explorar. É uma solução utilizada pelos homens mais novos. Os mais velhos ainda utilizam o palito e quanto a este a forma de o utilizar é tão rico e permite tantas combinações que não vos maçarei com mais descrições. As mulheres são mais discretas mas também elas sofrem. As mais avisadas normalmente não dispensam o fio dental, o verdadeiro, ainda que possam combinar os dois; as mais despachadas e que dispõem de um bom cabelo para o efeito, utilizam-no como fio dental também ainda que corram o risco de partirem fios de cabelo no processo! Eu sei, sou grande adepta deste processo. E que dizer da forma como o copo vem à boca e os vestígios que deixam na borda?  E a tortura que é, por vezes, o arroto que sobe e a inconveniência de o soltar de tal forma que parece que sai pelas orelhas? Já tiveram essa sensação física? Um aparte, muitas vezes fico com o meu ouvido direito tapado das idas ao mar e é assim que consigo desentupi-lo! Muita coca-cola no bucho e depois é tapar a boca e o nariz e sentir uma espécie de implosão cerebral, é tiro e queda, fico logo a ouvir melhor!  É também o melhor antídoto para a pressão dos ouvidos nos aviões, melhor ainda que tapar as narinas e fazer força!
   E aqueles que na necessidade de limparem as gengivas de alimentos que subiram arreganham os dentes e à frente de todos procedem ao reencaminhamento da comida, não sem tantas vezes conseguirmos ver a cor das amígdalas?! É certo que nem sempre temos a sorte de assistir a tamanho espectáculo, por vezes quem observamos é tão asséptico na forma como come que nos perguntamos  como raio é que consegue fazer outras coisas, se é que me estão a compreender! Acredito que se pode saber muito de uma pessoa pela forma como come, o quê não faço a mínima ideia até porque não sou psicóloga mas tenho esse palpite ! Àquela velhinha frase que diz " somos o que comemos" poderia ser acrescentada uma adenda " somos como comemos" e ninguém ficaria ofendido por isso! 
   Gosto sobretudo de observar o manuseamento dos talheres e as suas variadas utilidades. Há basicamente 3 formas de pegar nos talheres, com algumas variações mas, de uma forma geral são 3; na primeira forma, o garfo é agarrado com a parte côncava dos dentes virado para cima, tal qual uma colher. A faca segura-se normalmente de lado, caída sobre o exterior do prato. É a meu ver a forma mais elegante, de uma leveza superior às outras formas se bem que pouco eficaz a picar comida. A 2ª forma de pegar os talheres é inversa da primeira, a parte côncava vira-se para baixo e o garfo prende melhor a comida. Normalmente a faca agarra-se com o seu comprimento em posição perpendicular ao prato. É a forma mais corriqueira e permite outras utilizações: pode-se gesticular, pode-se apontar com o garfo, pode-se estrafegar a comida de forma mais eficaz mas é menos delicada e sugere maior agressividade. A terceira forma é um pouco mais rudimentar mas certamente a mais eficiente e pertence aqueles que se estão a marimbar para estas considerações da treta e comem porque lhes apetece e porque essa é a forma mais rápida de fazer chegar a comida à boca : agarra-se os talheres perto da sua base e a inclinação da cabeça ao prato é proporcional ao tamanho da fome: sendo grande, não há grandes intermediários entre a comida e a boca, o garfo está ali quase por acaso, a faca é um ser estranho que se lambe, com afinco. São estas pessoas que me dão mais gozo ver comer, porque comem com vontade! Mandaram as convenções sociais para o caraças e ficam só com o prazer de comer! Uma certa inveja, confesso!  Não teriam problemas em responder " porca é a sua tia!" e o assunto morria ali sem lhe dar nenhuma azia! 

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