sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Palavra(s) que eu gosto!

   Há certas palavras que estão na moda, ditas por intelectuais encartados, intelectuais em potência e intelectuais que só o são para si próprios mas que vivem felizes assim. Palavras bonitas, não raras vezes de dicção impronunciável, de conceito abstrato quase todas; sempre existiram mas por um fenómeno de massas (das massas mais cultas) toda a gente com estatuto ou pseudo-estatuto passou a dizer, fica feliz de dizer, orgulha-se de saber aplica-las com correcção numa frase. Eu própria que estou ali, na fronteira entre os verdadeiros ignorantes  e aqueles que o sendo sabem que o são mas aspiram a deixar de o ser, já apliquei algumas, através de uma operação de algum copianço, admito. É que algumas palavras são mesmo giras e ficam bem numa frase, dão-nos élan (esta palavra já esteve na moda, acho que pertence aos anos 90) , aumentam-nos aos olhos e no conceito de quem nos ouve; exemplos de palavras na moda são a epifania, a catarse e a exegese! Alguém que diga " que moca que tive ontem" parece grosseiro, vulgar, dizer " que momento transcendental, uma epifania" é enriquecedor, de uma profundidade vaga mas contudo densa! Hão-de reparar, por onde quer que se vá, mais tarde ou mais cedo haverá alguém que no decorrer de uma conversa, casual, aplique alguma destas maravilhosas palavras que têm o condão de tornar qualquer diálogo banal num momento de grande elegância linguística; " Olá Amiga, que bom ver-te! Olha, hoje estive na  Loja das Meias e querida, os meus olhos resvalaram para um casaco a 3/4 de confecção irrepreensível, toquei-lhe, um toque macio a lã 100%, uma revelação, uma epifania, estupidamente caro, obscenamente caro mas soube ali mesmo que teria que ser meu, e sabes miga funcionou como uma verdadeira catarse, tanto que eu preciso de momentos assim, que me façam ganhar forças para enfrentar a vida!!!" e por aí fora! São palavras encorajadoras, místicas e positivas, só um mesquinho poderá  indignar-se com os 500 euros que custou, quem pode andar a contar tostões tenho em perspectiva, com tal transação, dois momentos únicos, ver Deus e o consolador perdão prévio pela insensatez consumista prestes a ser cometida.
   Em relação à exegese, sempre que oiço ou leio tenho que ir rápido ver no dicionário o que significa porque acabo sempre por esquecer o que quer dizer; nem sei sequer aplicá-la numa frase! Não que seja de difícil compreensão, nada disso, simplesmente nunca na minha vida, simplória é certo, tive ocasião de pronunciá-la... o que diz muito de mim e mal!Não sou no entanto invejosa e aprecio alguém que a saiba utilizar. Pronunciá-la é complicado porque é uma palavra pequena que contempla em si mesma três consoantes que tem uma forma de pronunciar muito similar, o X, o G que se lê J e o S que se lê Z... é complexo, não confio que termine a palavra sem dar um nó na língua ou a pronuncie de uma forma ciciada, ou mesmo que ande a engasgar-me de tal forma que só uma cabeçada valente na parede me alinhe os neurónios para dar norte à língua. Se me pedirem para a pronunciar eu recuso-me... este colapso da língua (a carnal) acontece-me com todas as palavras que têm o X e o G que se lê J : exigir, exigência, exigem, etc, muitas vezes o X sai J e é muito embaraçante; um pouco como aquelas pessoas que ao dizerem  salsicha a pronunciam salchicha!
   Tenho ainda tanto para aprender!
   
   

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