segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal

   Ouvi dizer que o Natal é quando a gente quer, ouvi dizer que o espírito do Natal deve permanecer pela vida fora, ser força e exemplo para nos fazer marchar neste caminho que nem sempre é doce, tranquilo, ouvi dizer que não é uma época no ano que faz o Natal, que o Natal é feito por nós e de nós para os outros. Ouvi dizer tudo isso, é bonito, é nobre,  afinal o Natal, muito a propósito, acontece no final de mais um ano, uma espécie de retrospectiva, onde se olha para trás e se pensa no que nos espera.  É o balanço de uma caminhada que se fez e de outra que se inicia prestes,  começar tudo outra vez, batalhar sempre,  virar o barco com vento de feição, armazenar provisões, ir buscar força, ganas, vontade para viver. Agarra-se na  família com a emoção de um amor remoçado, beija-se,  abraça-se e mima-se,  uma onda invisível de boa vontade  nos assalta, envergonha-nos do resto do ano onde estivemos, mudos, frios, indiferentes. Como se doses grandes de amor fraterno nos penitenciem dos pequenos esquecimentos e ingratidões a que votamos os outros, os que amamos de paixão e todos aqueles que passam fugazmente pela nossa vida mas que nos tocam com marca indelével e para quem não fomos honestos, justos, verdadeiros. Mas também serve para recordar todos aqueles a quem o nosso gesto, um que seja, pequeno, quase imperceptível, fugaz mas caloroso, gentil,  lhes deu o ânimo que lhes era vital, um pouco de nós, daquilo que somos mas que insistimos em esconder, em resguardar. Serve para isso tudo e para sabermos o nosso lugar no mundo, para não perdermos de vista as nossas referências, aquilo que nos faz ser como somos, as nossas memórias, as nossas percepções do que fomos através de todos aqueles que nos acompanharam de perto. 

   O Natal é mágico, com ou sem brilho de luzes e cores e canções e árvores enfeitadas, e prendas guardadas, escondidas dos olhos ansiosos das crianças; é sempre mágico, vibra independente do que se faz para o acolher. É generoso, gentil, alegre, cheio, criança. Celebra a vida, é esperançoso porque é passível de ser sonhado, alberga um futuro que pode ser risonho, que se espera que o seja, que será, jura-se que sim, que será! Terá que ser, animam-se todos uns aos outros, contam-se histórias, recordam-se os mortos, de tempos passados. Perspectiva-se a vida futura, os pequenos seres saltitantes e impacientes fazem por isso.

    Sendo os meus pais do baixo Alentejo, um de Garvão e o outro de Santa Luzia passava normalmente as férias de Natal  na casa dos meus avós paternos. Já os conheci velhos, achava até muito estranho que um dia tivessem sido novos. Tinha sete anos quando os vi pela primeira vez, já andavam nos setentas e muitos: o meu avô José já velhinho, uma trombose estuporada que lhe tirou as forças, arrastava-se pela casa. Fazia-me impressão aquele avô. Sempre o conheci assim, com um cinto de cabedal em que uma das extremidades lhe prendia um pulso e a outra extremidade o tornozelo do mesmo lado. Acho que servia para comandar a perna doente com o braço, um pouco como as marionetas. Não gostava muito de me aproximar daquele avô, tinha-lhe certo temor, quando me aproximava para o beijar a sua barba de 3 dias picava-me a bochecha.  A minha avó Augusta era uma mulher cheia de genica que matava galinhas sem ajuda e que cuidava de uma cerca onde alguns dos meus tios que viviam também na aldeia a ajudavam com a horta, as várias oliveiras e árvores de fruto e criavam alguns porcos. Tinham também uma porção de colmeias das quais saia um mel que me lembro dizerem ser muito bom. Daquela cerca recordo principalmente a excitação que sentia quando era necessário ir ao poço, que ficava ao fundo de uma vereda estreita, encimada por uma latada de vinha e éramos seguidos sem perigo pelas abelhas das colmeias. Um dos meus tios tinha a função exclusiva de levar a grande infusa para onde deitava a água que tirava manualmente do poço por intermédio de uma grande lata de alumínio, objecto feito especialmente para aquele trabalho; tinha uma técnica certeira de inclinar o recipiente a fim que se enchesse completamente de água e deixava a mim e à minha irmã, com extrema paciência, que experimentássemos também, tarefa que não se revelava nada fácil. Adorávamos o pão, o queijo e os enchidos, o café que a minha avó fazia e os cozinhados simples mas aromáticos: as sopas de tomate, as açordas, o bacalhau com grão… as filhoses e as fatias douradas e as cavacas cobertas de açúcar. E o campo… o cheiro do campo, o calor do verão, o frio intenso do inverno, a lareira onde se assavam castanhas e bolotas, onde nos sentávamos para passar o serão a ouvir os meus avós a contarem histórias de tempos duros mas com tanta graça que nos faziam rir, por vezes até às lágrimas. Recordo as cigarras, os campos de trigo, o sino da igreja a tocar para a missa do galo,  a paisagem despojada de excesso. Tudo me encantava!


   No Natal os avós tinham a casa cheia; era uma casa de piso térreo, a verdadeira casa alentejana das famílias pobres mas não miseráveis (como tantas vezes insistia em dizer a minha mãe). Havia quartos com fartura e tinha mesmo que ser, a minha avó teve 8 filhos, na época só uma das filhas tinha já morrido e havia os filhos dela, que continuavam  a ir lá. Eramos entre filhos, netos e genros ou noras, mais de vinte pessoas a dormir lá em casa, em camas de ferro, muitas ainda com enxergas de palha e bacio debaixo da cama que a casa de banho era longe e ninguém, no seu perfeito juízo, se levantava na noite gelada de dezembro  para ir fazer xixi  nas profundezas da casa; o telhado de telha antiga era forrado no interior com um revestimento de canas, o frio entrava e entranhava-se nos ossos. Eu e a minha irmã dormiamos na mesma cama, que começou a ser pequena demais para nós mas que gostavamos porque era quentinha e afundavamos-nos nela. A cozinha era o local de convívio da casa, dominada por uma grande lareira onde se fumavam os enchidos e onde havia sempre lume, de verão ou de inverno. A minha avó já tinha algumas das comodidades da vida moderna mas gostava sempre de aquecer a água à lareira e nós gostavamos que assim fosse. Três grandes infusas numa bancada do lado direito da cozinha, infusas que continham a água necessária para toda a lide da casa. Quando mais crescidas deixavam-nos  inclina-las para um recipiente redondo de cortiça para beber água, água cristalina do poço, água que permanecia sempre fresca. Não havia cadeiras para toda a gente, os mais rápidos ocupavam os espaços perto da lareira, o meu avô tinha lugar cativo, os restantes iam dançando ao sabor da sorte e da capacidade de aguentarem o fogo vibrante de azinho no rosto e nas pernas. Era mágico, olhar para o fogo, estar sempre a espicaça-lo, " olha que vais fazer xixi na cama se não paras de mexer no lume". As graças, as histórias da minha avó sobre algumas indiscrições passageiras, que metiam saias,  do meu avô, o risinho nervoso deste a recordar melhores momentos, os filhos a acrescentarem dados, pormenores picantes, as histórias a resvalarem para momentos mais tristes, as lágrimas do meu avô, verdadeiro poço de emoções preso naquele corpo inútil, a minha avó sempre vibrante, a primeira a levantar, das ultimas a ir para a cama, mãos largas em todos os aspectos da sua vida, que cuidou do meu avô até este não aguentar mais e que nunca vi doente. Dizia que queria morrer rápido sem dar trabalho  a ninguém. Foi atendida nesta sua última vontade,  morreu com 93 anos, morte rápida depois de não conseguir recuperar de um braço partido. Não é assim que devem ir todas as pessoas fortes? de morte rápida e misericordiosa? Último presente da vida?  
   Acabaram-se as idas ao alentejo com a mesma alegria, ela já lá não está! 
  
 Mantêm-se os Natais, mágicos sempre mas diferentes, muito diferentes!


   

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