terça-feira, 21 de abril de 2015

 Não sou terceirence, sou almadense, não sou terceirense mas poderia bem sê-lo; sou almadense porque nasci em Almada e é só. Na verdade, já me sinto uma terça parte desta terra e podem vir dizer que não, que isso pouco me importa. Se eu o sinto, eu sou! E por o ser ou sentir, mais me diverte observar os meus quase conterrâneos, que vão vivendo as suas vidas sempre cheios de uma graça e uma peculiaridade que não encontro em outras paragens. O que observo não vem impregnado daquela sobranceira superioridade com que os do continente observam os nativos, conhecer esta terra desde os meus 10 anos acabadinha de fazer 48 anos, com idas e vindas ocasionais e 11 anos de casa, dão-me estatuto para poder fazer umas criticazinhas sem que daí venha mal ao mundo. Os terceirenses não são rancorosos, ressentidos ou vingativos. E no entanto, estão impregnados de outras tantas características, algumas quase deliciosas de que apetece falar quase com ternura.
O terceirense não gosta de andar a pé, anda por obrigação, anda porque não consegue que todas as ruas sejam como a Rua da Sé, onde pode parar o veículo a qualquer hora e instante para ir comprar o pão, ou à farmácia ou ainda comprar os parafusos ao Nildo Neves. Anda a pé sempre que, ponderadas as alternativas, percebe que demoraria mais tempo a ir buscar, a pé, o carro, não porque encontre benefícios físicos nesta prática.
 O terceirense gosta do carro e de pará-lo, à descarada, no meio da estrada e apelar à boa vontade e bonomia dos outros. O terceirense anda sempre numa azáfama, a tirar ou a por qualquer coisa do/no carro. Está sempre entre o “ vou só ali” ao “é só um instante”, certo da compreensão dos outros, porque ele faria a mesma coisa. Ser apressado ou stressado faz mal ao coração, dos outros, pelo que não entende e ofende-se quando é admoestado sobre a sua conduta na estrada. O terceirense reage mal ao comentário arisco do condutor que espera atrás; e no entanto nunca chega a vias de facto: prefere o dedo do meio ou um consolador “ vai p’ra porra”. Enquanto gesticula malcriadamente ou lança impropérios, alivia os maus fluidos que circulam dentro dele e mantém a civilidade dentro de parâmetros, se não desejáveis pelo menos, não parte para a violência física e isso é de louvar.
 O terceirense da cidade gosta das carrinhas grandes e luzidias porque não podendo ter vacas e propriedades rurais, fica pelo menos com um dos apetrechos que melhor se identificam com as explorações agrícolas. Uma espécie de ruralidade fina, que o liga à terra sem que o torne rústico e não tem o inconveniente da merda seca nos rodados a sujar as entradas da propriedade.

Andar a pé é reservado para todos aqueles que passaram todo o dia a andar de carro mesmo que seja de ir de A a B distantes entre si 300 metros e que no final do dia, desejam fazer o exercício físico que não puderam fazer durante o dia, porque estavam a trabalhar. Aí vestem o fato de treino e orgulhosamente detrás das suas grandes panças e do alto dos seus grandes rabos, exercitam o seu corpo, já moldado ao assento da viatura. Andam a direito porque a única subida que fazem durante o dia é quando se afadigam para treparem para os seus altos jipes, grandes e luzidios. É vê-los a marcharem laboriosos pela marina de lés a lés, em passo corrido, a ver se a meia-hora de passeio compensa a quilometragem da viatura pelas ruas maltratadas da cidade. E quando regressam lá está o carrinho, logo ali pertinho para os conduzir a casa, que já é tarde e o jantar atrasa-se.

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