terça-feira, 19 de maio de 2015

Hoje, numa das minhas aulas, enquanto uns quantos saltavam à corda, uma rapariga de 12 anos, espigadota em altura e veneta, zangada porque um colega a tinha feito tropeçar na corda lançou um “Caralho, foda-se!” automático, dito do fundo do peito, a certeza de que assim fala, naturalmente, no seu dia-a-dia, na relação com os outros. Após o ímpeto inicial e de refilar ao castigo aplicado, veio perguntar-me se podia retomar a aula. Não me apareceu numa postura que fosse de alguma humildade e conciliação. O pedido de desculpas invariavelmente ausente; refilando ainda, gaguejou no tom acima do tom, com que sempre fala com as pessoas, quaisquer que sejam, de que o outro a tinha enervado. A conversa continuou mas num sentido só, comigo a tentar explicar-lhe porque não podia ser esse o caminho, com ela a argumentar que a sua zanga tudo podia, até a agressão verbal, ao colega e a todos os que se encontravam por perto. Tentei mostrar-lhe que cada qual tem que medir os seus actos, porque cada acto tem uma consequência; não me compreendeu. Mantinha a teima de que o seu acto se justificava plenamente, dado que a ela lhe era impossível refrear a sua fúria, tendo sido instigada a isso. Mandei-a sentar-se e assim se manteve, refilando ainda para quem a queria ouvir, que o outro é que tinha tido a culpa, que o outro é que começara, que o que fizera era apenas uma reacção a uma acção que não fora ela a provocar.
   A propósito do jovem batido na Figueira da Foz, tento perceber o que leva uns quantos adolescentes a sovarem um colega e a filmarem o acto. Tento perceber o que leva o jovem batido a deixar-se bater sem uma palavra que seja. Observo a indiferença a tudo, da violência física presente e da violência maior que consiste na encenação, na filmagem, na pausa, no jogo de poder que se arrasta, na postura de submissão do rapaz que a cada bofetada não enseja um gesto que o proteja, que não proteste.  É uma cena odiosa a que se assiste.
   São duas histórias com amplitudes e contornos diferentes e, no entanto, aproximam-se na indiferença com que, jovens, miúdos, quase crianças assumem a violência, nas palavras, nos gestos e na omissão deles.

   

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