domingo, 4 de agosto de 2013

António Ambrósio

   O António Ambrósio entrou nas nossas vidas no dia 20 de julho, para algumas, as verdadeiramente privilegiadas entrou um dia mais cedo. O encontro com estas foi de tal forma inolvidável que, nós, as atrasadas a tal encontro vivemos o breve momento que foi a permanência na Calheta de S. Jorge com a expectativa fremente do momento em que, por fim, o nosso destino se cumpriria: e era, na verdade, certo que em algum ponto daquela maravilhosa ilha, o extase total seria aquele em que, as suas melenas raiadas de amarelo, o corpo franzino de porte marialva, o olhar penetrante em nariz afilado e farejador, se cruzariam connosco e em nós deixariam uma marca indelével que em vão tentaríamos apagar dos nossos pensamentos, tarefa ridícula porque impossível!

     O Ambrósio foi um dos nossos motoristas nesta breve permanência na ilha de São Jorge; no entanto, o Ambrósio não era e não foi um motorista qualquer; o Ambrósio tinha a lábia ladina de quem sabe levá-las (levar-nos) à certa; o Ambrósio era puro sexo, emanava de todo o seu ser uma tensão sexual que se pressentia ainda ele vinha longe; tinha um discurso rico e diversificado e a segurança de quem está  habituado à conquista pela simples condição de existir;  algumas das meninas afirmaram, mais tarde, terem sentido um arrepio na espinha e um eriçamento dos pêlos, um qualquer instinto não previsto mas sentido no mais profundo de cada uma; tal sensação deixou-as confusas e causou preocupação numa de nós, a nossa líder natural,  rapariga miúda mas de tempera gigante e nada impressionável que temeu desde logo, pela virtude delas; temente também da inocência de  nós, aquelas que ainda desconhecedoras da sua sedução arrasadora, sabia ela não conseguirmos fugir do seu jugo fortíssimo de testosterona. Assim, secretamente, teceu um plano; conjurou sozinha uma forma de nos afastar da sua influência que sabia ela nos perderia para sempre. Na hora de partida sentia-se a tensão no ar, procurávamos disfarçadamente a carrinha azul,  prenunciadora do seu formidável ocupante, tentavamos sossegar o coração que insistia em bater em correria, um afogueamento de rosto que nos deixavam lânguidas e prostradas; nesse entremeio a nossa líder perscrutava o início da estrada, já tinha dado instruções sobre a preparação da nossa partida e quando finalmente, as duas carrinhas chegaram, a branca e a aguardada azul, em tom de comando, que não admitia réplica alguma, afirmou: " As meninas todas para a carrinha branca, os homens vão todos na carrinha azul!" e juntando a afirmação à acção, conduziu-nos com firmeza às traseiras da carrinha branca e mais rápido que um relâmpago, juntou-nos a todas como um pastor conduz o seu rebanho de ovelhas; nesse entretanto, o seu olhar não se dirigiu um instante que fosse para aquele em que todas pensávamos,  ela não mas eu sim! E o que vi amoleceu o meu coração generoso: vi a transformação de um ser, um expressão de rosto que alterna do ufano para o desgostoso, olhar que de brilhante e vivo se torna toldado numa sombra de desespero, um curvar de ombros em desânimo de vida; quis aproximar-me dele e ensaiar uma justificação; no entanto não  o fiz! Em cobardia baixei os meus olhos e virei-lhe as costas! Dentro da carrinha e já em marcha lenta vi ainda o nosso motorista a lidar com a indignidade de um motor que não pega, um prolongamento do desanimo de alma do condutor. A carrinha azul vinha a soluçar, aos solavancos, partilhava da dor do seu dono! Na carrinha os sentimentos eram dispares, alivio, resignação, alguma histeria. Procuravamos confortar-nos a todas, concordamos que tinha sido melhor assim, temiamos a nossa perdição, sabiamos que o sacrifício do corpo determinava a salvação da nossa alma. 

   Chegamos ao nosso destino! Ele também, um pouco mais tarde! Disfarçadamente observei o seu rosto; parecia conformado, não lhe notei já o desespero, aceitou a fatalidade deste destino não cumprido. Respirei de alívio e procurei a nossa líder pedindo-lhe que, passado o perigo, se não considerava a possibilidade de uma recordação de homem tão original, que tantas sensações nos tinha proporcionado e com tanta generosidade; pedi-lhe uma foto! Ela aceitou! 

   Digo com a convição e a certeza das alegrias partilhadas que o momento que de seguida descrevo foi um dos mais importantes destes dois dias maravilhosos; a nossa líder no seu tom de voz assertivo chama-o e diz-lhe: " venha tirar uma foto com as meninas!" Maravilhosa transformação que o faz partir em corrida cais abaixo na nossa direção e em risco de partir o pescoço,  abrir os braços para a pose como que dizendo " Ah, finalmente tudo está como deve estar, o mundo ainda funciona como devia, tudo volta ao normal! O pesadelo terminou!"

2 comentários:

  1. Quero os próximos episódios! Que homenagem fantástica! Parabéns pelo texto, está lindo! (Alguém lhe faça chegar isto! Ele merece!)

    ResponderEliminar
  2. eheheheheheh! Também sinto que ele vai gostar, se conseguir sobreviver ao primeiro parágrafo! :)

    ResponderEliminar