quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Pontual

   Ser pontual é uma qualidade (duvidosa)  que não traz quaisquer benefícios, no entanto traz inúmeras secas pelo que, a pontualidade é, em definição, a capacidade que alguns seres humanos, poucos, muito poucos, tão poucos que poderão incluir-se no grupo restrito dos que padecem de bizarrias, têm de apanhar secas monumentais e com estas não aprenderem nada. Os pontuais são seres que, mesmo que o queiram, não deixam de o ser; impossível aprender a falta de pontualidade porque, o relógio biológico, em tal exercício, já avisado, adianta-se instantaneamente meia-hora, no mínimo. O pontual, quando lhe dizem " O jantar é às nove!" ouve e guarda a informação tal qual foi proferida. Os outros ouvem a mesma informação mas processam-na da seguinte forma " o jantar é às nove, se puderes... se conseguires.... se te der jeito, vê lá... se não coincidir com os teus afazeres....". Para o pontual, se o jantar é às nove, esquece-se do ponteiro dos minutos e automaticamente integra num circuito fechado, não susceptível de corrupção, num espaço qualquer do seu corpo que será às nove que chegará; não será nem às nove e um nem faltando um minuto para as nove, margem de erro intolerável! A partir do momento em que o cronómetro interno começa a contar, tudo o que faz se resume a ser feito de forma para que às nove, sharp, se encontre onde quer que esteja previsto estar; e fá-lo de tal forma bem que não deixa nada por fazer antes de fazer o que tem obrigatoriamente que ser feito, que é chegar a horas. 
   Nas festas, qualquer festa, o pontual padece horrores porque sendo dos poucos que o é, tem contactos prolongados e atentos com as paredes, conhece bem as cores, texturas e cambiantes de sofás, mesas, cadeiras e móveis de cozinha.  Quando, meia-hora passada ou mais, chegam os outros, o pontual já emborcou umas quantas bebidas, para passar o tempo, para além de ter, eventualmente, metido conversa com outro pontual cuja única afinidade é de padecerem do mesmo mal, de ter desabafado sobre o cansaço da sua condição de pontual e de ter questionado o outro sobre se não haverá, da mesma forma que para os Alcoólicos Anónimos, uma associação que ajude gente nesta situação, tudo sentado num circulo, com um tipo de frase de abertura standard do género " Sou pontual e já consigo atrasar-me com regularidade há .... 2 dias!" e  partilhando " Outro dia fui fraco e prevariquei mas, no dia seguinte, perdi o autocarro de propósito! E fui requintado! Eu já estava na paragem quando ele chegou, no entanto, num momento espontâneo de rebeldia, virei-lhe costas e resolvi ir beber uma bica ao café da esquina e quando cheguei ele já tinha partido. Senti-me bem, na verdade, uma grande libertação!"  seguido das habituais palmadas nas costas e frases de incentivo pelos progressos alcançados.
   Quando, finalmente, chegam os outros à festa, vêm frescos e airosos e o pontual já meio entornado; chegando à fala com o pontual perguntam com a maior naturalidade: " Já chegaste há muito tempo?!". De sorriso amarelo o pontual por vezes inventa " Há um bocadinho!".  Ao que se espanta o outro " Não posso, tu que és normalmente tão pontual!" . Outras vezes perde as estribeiras, e responde " Desde a hora em que estava previsto o início da festa ó minha grande besta!". Ao que ouve em resposta, condescendente " Só tu mesmo para acreditares em tudo o que te dizem, és um ingénuo, pá! " E perante isto só lhe resta ir buscar uma bebida ou duas e reflectir sobre a sua condição mais logo, mais tarde, mas sem hora marcada.

Sem comentários:

Enviar um comentário