sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pais e filhos

   O meu primogénito faz hoje 21 anos, data em que atinge, na minha perspectiva, a maioridade, que não o juízo definitivo que esse é, uma qualidade inatingível; penso que, em décadas de demanda,  o juízo nunca será alcançado. Veja-se só  os exemplos do que os homens andam a fazer pelo mundo já com mais do que idade para terem juízo!  Mas isso são outras histórias, o que eu quero falar é de filhos, dos meus filhos. Os filhos são uns seres que em certa e por vezes imprevista altura das nossas vidas, nos escolhem, não sei se aleatoriamente se fazem primeiro uma pesquisa de mercado e aparecem para, basicamente, nos desassossegar para sempre. Trazem primeiro a pequenez e a fragilidade dos seus seres e permitem que nos apaixonemos irremediavelmente para o resto das nossas vidas; seguem depois com a descoberta do mundo e a devoção aos seres a quem acharam por bem acolher como pais, a quem recorrem e para quem correm sempre , na procura do seu colo e do calor do seu corpo onde se aninham na única segurança em que confiam, fazendo-nos pensar como somos importantes, como existimos para além da nossa condição humana, como evoluimos para uma condição superior, que é  nossa condição de pais; após isso descobrem-se como seres individuais e percebem que os país, afinal,  não são o centro de tudo, estão a modos que enviesados no equilíbrio do mundo em que vivem e, é por essa altura que começa tudo a descambar, primeiro devagarinho em cambiantes discretos e depois à descarada; quando entram na adolescência, descobrem que os pais  não são nada daquilo que andaram tantos anos a apregoar e que existem basicamente para os envergonhar; passam a fase, normalmente passageira  do conservadorismo marreta com os pais a servirem de saco de pancada! É  deles recriminações do tipo " comporta-te, já viste a idade que tens?!" ou " não percebo o que a vida te andou a ensinar que com os anos que tens parece que não aprendeste nada!" Tentam, a todo o custo, não serem associados com semelhante tipo de pessoas, os pais, digo; estes só lhes causam constrangimento e embaraço e em público não sabem quase nunca comportar-se. No entanto, toleram-se porque são o sustento das suas vidas e acreditam que, mais cedo ou mais tarde, com os seus constantes ensinamentos, irão aprender a comportar-se, ou pelo menos e muito mais importante, aprenderem a comportarem-se quando em presença dos filhos junto dos amigos. Os pais há muito que perderam a importância central no mundo que os rege, os amigos são a referência primeira e destes querem mais do que tudo, o agrado, o apoio, a aceitação. As confidências que antes se reservavam aos pais dão-se agora aos amigos, os pais ainda tentam em investidas mais ou menos desajeitadas mas a resposta é "não te metas nisso! "  ou " sabes, o mundo que era o teu já evoluiu, actualiza-te".  
   É que do ponto de vista dos filhos, crescer não é fácil e os pais não são fáceis, muitas vezes trapalhões, os pais devem ser os seres menos coerentes que se conhecem: primeiro, fazem experimentações pedagógicas: se os filhos são pequeninos as receitas que se conhecem para educá-los são simples e normalmente dão resultado; à medida que os miúdos pensam e tornam-se críticos a frase " Obedeces, porque sim! " já não faz sentido porque a esta frase segue-se outra " obedeço-te porque sim, porquê?! Já viste que raio de treta de argumentação é essa?" e outros exemplos do género. Uma coisa é ensinar e educar crianças pequenas, está tudo escrito e mais ou menos com mais ou menos nuances a coisa funciona, com  adolescentes e adultos jovens a empreitada é muito mais complicada; afinal de contas os jovens gostam de argumentar e de tal forma gostam que na dialéctica entre pais e filhos, os primeiros desistem por cansaço e muito por desespero; coisa que os filhos sabem é discutir e nada melhor para eles que discutir com os pais, é coisa que nasce e cresce com eles e que se reserva para quando chega a altura e nessas ocasiões, nas discussões eles brilham! Quando por fim, a tão utilizada " Encerrou a conversa!" surge, eles os filhos argumentam e bem que é impossível discutir como gente crescida se os pais se arrogam da sua condição autoritária latente para impor algo que deveria ser resolvido pelo diálogo. Uma canseira! Se nenhuma das experimentações pedagógicas utilizadas funciona, a chantagem emocional paterna também pode ter que ser usada mas nesse ponto já o pai está desesperado e grosso modo, em jovens batidos e já avisados tais estratégias  não surtem nenhum tipo de efeito para além das frases de censura " isso, faz-te de vitima, fica-te muito bem!" Uma luta constante! 
    O meu filho mais velho,  o que faz 21 anos hoje, que sendo um adulto ainda é um miúdo,  sábio nas disputas de boca e na destruição de todas as minhas argumentações mais bacocas, gosta de mim; o meu filho mais velho gosta verdadeiramente de mim, o amor filial que sente transparece mesmo no momento mais aceso de disputa típica entre mãe e filho; receia por mim, antes de se deitar, discretamente mas não tão discreto que não  o sinta, abre de mansinho a porta do meu quarto a ver se respiro, se estou bem; pergunta-me se já comi, se lhe digo que não tenho fome, diz-me, achas bem passar tanto tempo sem comer, não vês que tens 3 filhos para cuidar? Telefona-me se está longe, sem nada verdadeiramente importante para dizer a não ser ouvir a minha voz e recriminar-me " Já viste há quanto tempo não me telefonas?! Achas bem?" De uma forma não muito expansiva, porque nenhum filho é igual e nenhum filho se expande na expressão do seu amor pelos pais da mesma forma, o meu filho mostra-me todos os dias que me ama, apesar de todas as recriminações, discussões, amuos mas principalmente pela partilha de todos os momentos de cumplicidade. 
   Foi há 21 anos que surgiu para nada voltar a ser como dantes.

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