quarta-feira, 9 de maio de 2012

A turma de oportunidades

   Tenho uma relação de amor/ódio com a minha turma de oportunidades! Certo, certo é que relação monótona não é! Aqueles gajos conseguem fazer-me sair do sério, atingir um certo patamar de loucura até que uma réstia de auto-preservação surge e me faz parar antes que cometa um acto irreflectido de que me arrependa. E por gesto irreflectido falo dumas bofetadas profilácticas bem aplicadas e comprovadamente eficazes. Em 25 anos a dar aulas não cheguei a uma dezena de bofetões; todos bem aplicados, com força q.b., nenhum com força suficiente para deixar marcas, com excepção de um, de quem vou falar agora, passado na escola da Lousã: a artista era um daqueles miúdos terriveis, rosto bolachudo, de língua afiada e inteligente, miúdo gordito, de rosetas vermelhas nas faces que achava que era ruím e fazia por mostrar isso; pertencia a uma daquelas turmas-maravilha de currículos alternativos, para quem eram destinados os professores com perfil para os aguentar - vim a saber, na altura, que tinha esse perfil, apesar de não saber muito bem quais as caracteristicas necessárias para integrar esse grupo alternativo de professores. A turma onde esse aluno estava integrado era tão má, mas tão má que se abria uma clareira sempre que eles passavam; um deles andava sempre a fazer companhia à polícia, outros saltavam as redes e desapareciam, numa turma que não chegava a 10 pessoas!! Os professores da turma, eles próprios, não eram também muito certos; as teorias lindinhas de pedagogia aqui não funcionavam; a teoria certa era a que desse resultado no momento, tanto podia ser o comentário mais odioso para o aluno de forma a humilhá-lo como uma pancada nas costas! Era o que desse certo a curto prazo! E nem sempre dava certo a mesma para situação similar, era uma autentica luta de tentativa e erro! Por vezes resultava, por vezes era horrível, tão horrível que em  dias em que lhes tinha que dar aulas, já tinha os nervos à flor da pele e preparava-me mentalmente para o embate. E os estupores parece que intuiam isso! Basicamente faziam-me a vida negra e uniam-se para me dificultar as aulas o mais possível! A mim e a todo o grupo de professores da turma! Aquela ideia gira de que os putos gostam todos de educação física é um mito: estes detestavam educação física, não jogavam futebol, as bolas em geral eram aborrecidas e quando lhes punham as mãos em cima era geralmente para as fazer voar para o espaço ou para a estrada, não tinham habilidade sequer para correr; aquelas bestas, que grandes eles eram, só gostavam de uma coisa, pasme-se: de fazerem ondular as fitas de ginástica ritmica; era vê-los pelo pavilhão de fitinhas cor-de-rosa, cor-de-laranja ou azul bébé a fazerem serpentinas, circulos, saltarem por cima das fitas, um encanto, uma ternura, um momento de bizarria!
   Adolescentes em plena crise de puberdade sentiam uma necessidade enorme de falar de sexo e muitas vezes eram grosseiros e ordinários nos comentários para colegas e até professoras. Esse tal artista, certo dia, resolveu fazer um comentario sobre as minhas pretensas performances sexuais e ainda antes de se ter apercebido do comentário já lhe tinha caído nas rosetas rosadas uma mão, em modo vaivém, bate com a palma e regressa com as costas! Durante um breve instante em que o tempo parou, ele olhou para mim, o rosto avermelhou de tal forma que temi uma apoplexia e desde esse momento começamos a entender-nos melhor, achei comovente o dia em que ele me pediu amizade pelo facebook e eu, um coração mole, aceitei. A esse foi impossível disfarçar os dedos marcados no rosto, a força aplicada foi pensada para magoar e para que ele soubesse que lhe estava a arriar com vontade! E ele que era inteligente percebeu! As outras palmadinhas que fui dando ao longo dos anos, foram mais suaves mas ainda assim, serviram para impor o meu ponto de vista quando a situação se extremava: a minha autoridade como professora! Perdida essa autoridade, antes dedicar-me ao canto lírico ou à apanha da azeitona ou do tomate porque para o ensino estaria perdida!


   Hoje os queridos dos meus meninos de oportunidades andam a dar-me água pelas barbas e sinto que já passei por isto tantas vezes e juro que por vezes o sentimento é insuportável de aguentar! Por vezes já vou a atacar antes mesmo de eles abrirem a boca "respiraste, rua!" Outras vezes é passar-lhes a mão pelo pêlo, tadinhos que sofridos que são, que ausência de tudo! Certa que a generosidade e o carinho nem sempre se respondem com gratidão, muito pelo contrário! Nestes rapazes e raparigas o retorno do investimento é observado muitos anos depois, quando passando na rua, um ser vagamente conhecido nos aborda e nos diz " xii setora, eramos horriveis, turma horrivel, não percebo como nos aguentou, e a setora está boa, ainda continua a dar aulas?" Engraçado que fazem sempre a mesma pergunta " a professora continua a dar aulas?" como se não concebam a inusitada possibilidade de ainda andarmos nisto e não termos já resvalado para a loucura total.
  Outro dia, contratei uns quantos ( com autorização parental ) para me irem limpar as ervas do quintal! Fui buscá-los, paguei-lhes o preço justo pelo seu trabalho, alimentei-os a pizzas e coca-colas como mimo final e fui levá-los a casa. Trabalharam bem, um deles topa-se que não faz outra coisa, tem já mãos de cavador e apesar de ainda miúdo, é musculado e seco de carnes, adivinha-se que por aqueles braços tatuados já passou muita carga, de pancada também. No dia seguinte cumprimentavam-me de "Olá Patroa!". Hoje, o trabalhador resolveu não colaborar, parecia claramente possuído, aqui entre nós, roda muita droga por esta terra e não sei até que ponto estes miúdos não andaram já a snifar umas coisas! Que grande merda! Quando julgamos que já os temos do nosso lado, que finalmente conseguimos abrir uma brecha naquelas suas carapaças duras e renitentes, eles esgueiram-se para o lado! Foi mandado sair da aula, uma sensação de impotência do caraças! Saiu em soberba arrogância! Daqui a dias é capaz de vir ter comigo mansinho e a querer colo, vou ser bruta, uma besta como também sei ser, ou o contrário, ou as duas coisas em alternância e vamos andar nisto até que um dia, muito mais tarde, me encontre na rua e me interpele " Setora, lembra-se de mim? Que turma horrivel! A setora ainda dá aulas?"



3 comentários:

  1. Gosto destes teus textos. Oiço o timbre da tua voz, vejo a tua cara. É como ouvir-te falar e perceber as expressões.
    Bem trabalhado S'tora.

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  2. Totalmente de acordo com esse tal de Jose Maria Oliveira. Parece que te estou a ouvir. Gosto muito!!!

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  3. Obrigada Zé e Raquel! Gosto muito que gostem do que escrevo!

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