domingo, 20 de maio de 2012

Desesperadamente à procura de uma casa!

   Devo ser das pessoas nesta ilha que mais corre sites de agências imobiliárias, tirando a minha colega Graciete que deve estar empatada comigo. Uma cena meia voyerista com implicações menos perversas mas mesmo assim uma tendência de que não me orgulho especialmente, uma certa forma de ser a que não consigo resistir. De tempos a tempos, com uma sazonalidade persistente, lá vou eu dar mais uma espreitadela na esperança que haja algo que me encha o olho e me faça sonhar! A procura do meu cantinho, talvez, uma casa com alma, que tenha sido vivida e onde cada canto me conte histórias passadas. E elas existem aqui nesta terra! Existem mas estão-me vedadas! 
   Quem vende na Terceira tem, regra geral, uma incapacidade total para atribuir um valor real à sua propriedade: tugúrios mal engendrados, pardieiros para albergar humanos de valores absurdos, palhotas bafientas de materiais de construção medíocres mas, salve-se isso "com vista"! Aquilo a que chamam casa pode ser e tantas vezes é, a maior choldra mas se tiver uma nesga de vista para o mar passa a artigo de luxo e sendo assim pedem-se valores estratosféricos! Casas há que estão anunciadas na net desde que vim para cá há 3 anos, incapazes de se vender porque ninguém no seu perfeito juízo as vai comprar, mas nem por isso se baixam os valores para facilitar o negócio. No mercado do arrendamento a coisa piora ainda mais, são poucos os apartamentos ou moradias e as que existem são pombais transformados em habitações ou sendo boas casas pedem-se quantias que ninguém pode pagar.
   Nas quatro casas onde vivi houve um apelo irresistível para meter-me na merda, literalmente falando: nas casa número um, com chuvadas intensas o escoamento das águas, todas as águas, extravazavam e  deixavam-me com a pata na poça quando vinha para o exterior; a casa número dois encheu-me a casa de banho com água até ao tornozelo, casa nova e a estrear com problemas de canalização que implicaram abrir uma vala até à fossa para resolver o problema; a casa número três e a casa número quatro ainda foram mais requintadas; os baldes de merda que andei a acartar permitiram-me criar, ainda que a contragosto, um espaço de armazenamento de resíduos orgânicos romanticamente apelidados de compostagem domestica a que não dei grande uso porque não tenho terra para cultivar! Ficará, no entanto, este último como presente de despedida ao meu  senhorio que tão simpaticamente recusou resolver a merda do assunto! 
     Na casa número um, pagava 650 euros/mês para ter o luxo de viver na cidade e ter uma casa de traça regional com todas as implicações daí resultantes: humidade com fartura, janelas mal vedadas, estuque a ceder, enchentes sazonais a atingir a cozinha; a casa número dois com uma  renda de 600 euros foi campeã da desgraça, casa nova com infiltrações tais que me deixaram a casa de banho preta, uma janela enorme em frente à banheira para que o vizinho do lado, de cadeira pudesse ver-me, nuinha nas minha abluções matinais, uma cozinha visualmente perfeita mas cujos tampos não aguentaram 4 meses de uso e incharam com as águas que se escoaram pelas  juntas, um sistema eléctrico de tipo pisca-pisca como as luzes de natal, uma sanita linda de morrer mas onde o autoclismo funcionou uma semana! Quando fui para a casa número três já estava avisada no que me ia meter mas em choque por causa da anterior, investi qualquer coisa e esse facto fez-me lá ficar um ano inteirinho. Pagava 400 euros e o senhorio não me merece qualquer reparo, nada a dizer, simplesmente a casa não valia metade do que dei por ela. Nesta começaram as minhas visitas à fossa! Digo-vos, depois de ficar atolada em merda tudo o resto são rosas, não houve luvas que aguentassem, um dia houve que pensei em lavar-me toda com criolina mas detive-me quando percebi que teria que ir à loja de ferragens a cheirar a material infesto e percebi que dessa experiência não conseguiria sair incólume! A casa número quatro, casa que reúne tudo aquilo que gosto numa casa, pareceu-me perfeita à primeira vista e de certo modo ainda é! O que não tem é um senhorio sério e isso fui percebendo à medida que o tempo vai passando. Esta casa tem uma coisa nunca vista, ou melhor não tem... não tem sequer uma fossa, tem uma caixa que recebe todas as águas, as limpas e as sujas e supostamente um tubo que desce verticalmente para escoar, lá em baixo, à vista de quem queira ver, na entrada do sistema de esgotos. Quando chove demasiado ou o pessoal cá de casa anda desarranjado dos intestinos, quem tem que resolver o problema sou eu, pois então! E não é bonito de se ver! A estúpida da caixa é profunda como o raio e para tentar descobrir o tubo que escoa "aquilo" ( que nunca descobri  porque tem detritos de anos ) já me introduzi até à cintura só com as perninhas de fora; pensando agora à distância se cedesse mais um pouco ficaria a fazer o pino lá dentro sem hipóteses de rodar sobre mim e safar-me daquela posição ridícula; as coisas que uma pessoa faz! Levou tempo mas percebi: 300 euros por esta casa quando o normal é de 400 (com sorte) ou 500, normalmente, deveria ter acendido logo uma luzinha de alarme! Sou burra, admito, ou como  diz alguém a quem devo passar a ouvir mais vezes " muito esperta para algumas coisas mas burra que nem um cepo para outras!". Desisto e sendo assim não antevejo outra solução que não procurar a casa número cinco! Já tenho duas em vista: uma tem térmitas e a outra ainda é uma incógnita! Como catedrática no assunto, primeira pergunta a fazer nas minhas visitas próximas: " Como é que estamos de fossa?!" 
   


1 comentário:

  1. Minha querida Bárbara, aqui não tens problemas de fossa. Pelo menos nunca tivemos. Temos térmitas. Isso sim, com fartura. Na altura do verão aspiro o quarto dos miúdos todos os dias para podermos lá andar sem asas de térmita até ao tornozelo. Mas gosto da casa, muito!!! Aliás, é a única coisa de que realmente vou ter saudades. Ah! É verdade, entre o sofá e o móvel da televisão convém andar em pésinhos de lã para não irmos parar ao andar de baixo no caso de uma das tábuas do chão finalmente ruir, ou para não levarmos com os artefactos que estão em cima do dito móvel na cabeça. Toda a sala treme que nem um terramoto cada vez que por lá passamos. Mesmo assim, gosto da casa. Muito! Tem muita luz, muito sol, uma vista fantástica e é arejada, com pouca humidade. Passa por cá amiga. Vais apaixonar-te!!

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