terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Explicação de Inglês da Dona Lucínia

   Mal cheguei à Terceira em 1977 percebi que esta terra não era igual às que conhecera até então; o primeiro bafo a mofo da casa da Rua da Palha deu-me as boas vindas aos Açores e ainda hoje gosto deste cheiro... as gavetas do armário embutido que tenho ao fundo do corredor da casa onde vivo têm este  mesmíssimo cheiro. Quando tenho que abrir uma delas, para tirar uma ferramenta que preciso, inspiro uma ou duas vezes e a recordação é instantânea: viajo de sopetão para a casa da Rua da Palha ( que na altura ainda se chamava Rua Padre António Cordeiro)!  Quando, nesse dia ido de boa memória a minha mãe atravessou o umbral da porta número 89, exclamou horrorizada: " Meu Deus, entrámos num mausoléu!" Durante os 5  anos de cumprimento do serviço militar do meu pai, sempre a ouvi dizer mal daquela casa: que era muito escura, que tinha um pátio que era um buraco, que tinha a roupa sempre a cheirar a mofo e que as paredes criavam bolor, e que saudades tenho da minha casa, que saudades de uma casa que apanhe sol, que tempo do inferno que dá cabo da saúde de qualquer pessoa... e por aí fora! Quanto a mim, eu adorava a casa da Rua da Palha, tinha divisões amplas, tectos altos, janelas de vidrinhos, portadas interiores que embutiam na parede quando abertas, recantos, armários metidos nas paredes, parede forrada a madeira do rodapé até 1,5 de altura, paredes pintadas de um amarelo suave, chão em madeira escura, tudo características que, 35 anos depois, é o que mais aprecio numa casa. 

   Desde logo percebi que ser criança em Angra do Heroísmo era muito bom: muitas actividades desportivas diferentes (andava no ballet, na ginástica, no basquetebol), tinha iniciação musical e piano, a catequese era sagrada e religiosamente cumprida, muitos banhos de mar mas uma das minhas actividades preferidas era a explicação da Dona Lucínia; esta explicação era uma espécie de instituto de línguas em versão caseira, não se ia à explicação da Dona Lucínia porque fossemos uma nódoa a inglês, que também os havia mas porque os pais, na altura, consideravam que era muito importante que as crianças tivessem um reforço a inglês para além  da escola.  Um aparte: tive muito boas professoras de inglês mas havia uma certa professora, que apanhei no 6ºano, era tão fraquinha que nos ensinou que o ponto de interrogação se dizia ipsis verbis, "interrogation point". Vim a saber uns tempinhos depois que afinal de contas a senhora andava a inventar e a forma correcta seria " question mark").
    A Dona Lucínia era uma senhora já idosa, teria mais de 65 anos, pelo menos assim me parecia vendo-a com os meus olhos de criança, sempre muito distinta, elegante, bem arranjada e bastante alta. O seu cabelo numa permanente mise, daquelas que não se desfazem, sem fio de cabelo algum fora do seu poiso habitual e de tom claro. Tinha uma tez muito branca (ou seria do pó de arroz que estou certa, ainda usaria?!) e a única cor que destoava era a dos seus lábios, sempre muito pintados de um tom vermelho garrido; lembro-me de lhe ver por vezes, os lábios esborratados porque o bâton se infiltrava nas pequenas rugas que nasciam nas comissuras dos seus lábios; as suas mãos sempre impecáveis mas já não sei se de unhas pintadas de vermelho também; sapatos com alguma queda, como se diz cá na terra, um salto suficientemente alto para adelgaçar-lhe a figura mas não tão alto que lhe dificultasse os movimentos. 
   A casa da Dona Lucínia  que não consigo descortinar hoje em dia, ficava muito perto da Loja do Adriano, nesse enfiamento de prédios, em plena Praça Velha; subíamos umas escadas de madeira muito íngremes e virávamos à esquerda para um pequeno vestíbulo; após  este havia a sala onde a Dona Lucínia nos recebia e que era dominada por uma grande mesa quadrada ao centro e um piano preto, vertical, com dois castiçais, colocado na parede do lado direito; as duas janelas davam para a praça velha, com a câmara municipal ao fundo. Aquela mesa que  era revestida por uma toalha de plástico estava sempre preenchida por muitas cabeças, de cadernos abertos e em actividade. Por vezes éramos dez, por vezes menos, a Dona Lucínia ia rodando segundo as nossas necessidades, ora sentando-se à beira de um ora inclinando-se por detrás de outro; nunca nos deixava sem nada para fazer, tinha uma capa cheia de pequenos papeis, alguns, metades de folhas A4, outros ainda mais pequenos que isso, dactilografadas por ela, na sua máquina que se encontrava arrumada num canto da sala; nessas folhas tinha tarefas específicas, indicações do que fazer, nunca escritas em português, sempre na língua inglesa; lembro-me que muitas dessas folhas eram já velhas, amareladas, de cantos dobrados, que gostava de desdobrar e alisar; lembro-me especialmente que a Dona Lucínia gostava de nos corrigir os trabalhos com uma caneta vermelha de feltro de bico fino - aquelas canetas luziam-me os olhos - e nunca a vi usar outros tipos de canetas,  uma mulher de hábitos certos. E, sempre com tanta canalha de roda dela, uns mais espertos do que os outros, uns mais chatos do que os outros, uns mais indolentes do que outros, nunca vi a Dona Lucínia  perder a calma. Podia ralhar e, por vezes ralhava sim, quando estávamos preguiçosos e com mais vontade de brincar do que de trabalhar mas sempre num registo muito suave, muito british. É era obedecida sem grande esforço! 
   De vez em quando desaparecia para a parte de trás da casa, onde tinha uma mãe muito velha e precisava de ir vê-la com regularidade. Nessas ocasiões nós relaxávamos um pouco e a sala tornava-se mais barulhenta. O ambiente era caloroso, aquela mesa com toalha de plástico à volta da qual nos sentavamos aproximava-nos uns dos outros.
    Lembro-me que a minha mãe, certo dia, sabendo que a minha irmã precisava de um piano para praticar , combinou com a minha explicadora a compra do piano preto. A minha irmã nunca chegou a tê-lo porque, entretanto, houve o terramoto e o piano ficou parcialmente soterrado! 

   Nunca mais soube nada da Dona Lucínia,  já deve ter morrido há muitos anos. Recordo hoje, nesta nossa memória que, por vezes, não obedece a nenhuma lógica em concreto, aquela senhora que durante uma fase tão importante da minha vida, surgiu e me marcou com a sua presença constante e amável.

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