sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Das mazelas dos outros...

   Existe uma espécie de gente com a qual é inutil tentar passar para um nível  de maior intimidade, confessando-nos e abrindo-nos sobre aquilo que nos consome, nos magoa, nos doi.  Se dantes, a essa gente desabafava sobre o que me apoquentava, se carpia as minhas mágoas e se me queixava das minhas maleitas físicas, agora deixei-me disso! Não vale a pena! Estar para ali carente de receber um mimo, um colo, uma mão pela cabeça, uma palavra animadora e, ao invés,  acabo eu por servir de receptáculo das magoas mais profundas, de doenças ainda mais incapacitantes do que as minhas, de toda uma panóplia de dores e injustiças várias, susceptíveis de tornar os meus pequenos males de corpo e de alma, ridicularias mesquinhas e egoístas. Numa batalha onde se degladiem maleitas e mazelas eu estarei sempre a perder pelo que, me dou por vencida mesmo antes de iniciada a contenda. Esses seres sofredores existem para nos fazer lembrar o quao ingratos somos por nos queixarmos da vida privilegiada que temos.

   Outro grupo interessante de pessoas que, bastas vezes se confundem com os primeiros, é aquele que, a cada relato nosso de experiências que nos empolgaram, raramente ouvem o que dizemos porque já estão eles próprios a pensar nas suas próprias experiências que, regra geral,  foram sempre melhores que as nossas; são aquelas pessoas que se estão completamente nas tintas para as nossas impressões, sensações e descrições do que nos faz vibrar; em contrapartida,insistem em partilharem connosco, impõem-nos sem pudor o que fazem e o que deixam de fazer, numa especie de momento de transcendência zen, que deveremos sempre aceitar como um privilégio.  Eles foram sempre mais longe, aprenderam mais, têm relatos muitos mais emocionantes: se eu fiz o interrail pela europa com 17 anos, ela fez o trans-siberiano com 16, se eu fiz o expresso do oriente ela fez a travessia do deserto australiano... se eu já passeei no comboio de alta velocidade entre França e Inglaterra esses seres já andaram no comboio de alta velocidade japonês e tiveram o privilegio supremo de tomar o pequeno almoço vislumbrando o Monte Fuji comodamente sentados no japonês voador! Se eu pesquei um atum, ele pescou dois atuns, se eu vi uma baleia de bossa bem lá longe na sua rota migratória, ele viu uma orca a abocanhar um golfinho e mais, o golfinho olhou para ele a implorar socorro antes de desaparecer para sempre na bocarra da bicha! Se eu, entusiasmada, digo que experimentei o mergulho, finalmente, depois de tantos anos a pensar nisso, sem coragem para me inscrever num curso, ele já experimentou e não achou piada nenhuma, mudou-se para o rafting há já alguns meses a esta parte e aconselha-me o mesmo. Se eu, na vã tentativa de lhe passar uma rasteira lhe digo que me iniciei no tapete de arraiolos, que não é tão dificil como parece à primeira vista, ele responde que arraiolos é para coxos, renda de bilros é que é, "vais ver o que é difícil!". 
   São seres pertencentes a outra dimensão, que têm opinião para tudo, dominam todos os assuntos, discorrem sobre uma variedade de temas quase infinita, têm e vivem uma vida incomensuravelmente mais interessante que a nossa, encostam-nos a um canto com a sua superioridade moral e intelectual, experiência de vida e bagagem de sofrimentos pessoais que daria para várias vidas das ordinárias. 
   Sinto-me obtusa quando constato, em pânico que em 80% dos temas não tenho opinião formada, não me apraz dizer nada, nem bem nem mal nem nada, nem nunca pensei no assunto; felizmente para nós, existe alguém que anda sempre à nossa frente para pensar nesses assuntos por nós: e pensam bem, normalmente não há como não concordar com o que dizem, são tão incrivelmente brilhantes... e no entanto, tão enfadonhos! São os betinhos do intelecto, os nossos novos gurus, seres bonitos e maçadores, que discorrem sobre tudo e nada e que normalmente passam tudo isso para o papel! Escritores prolixos e profiquos, donos de verdades absolutas que conduzem multidões rendidas. Uns chatos, entenda-se! Mas, nos tempos que correm, não há como viver sem eles!

   

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