sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A minha despensa

  


 A minha despensa é um armário! A minha despensa não fica na cozinha mas sim no corredor! A minha despensa não tem objectos inúteis, é tão despojada de coisas que chega a ser aflitiva! Quem abrir a porta do armário à procura de vitualhas, guloseimas e aperitivos terá uma amarga surpresa! Tem o indispensável para a vida diária de uma casa e pouco mais; as bolachas, chocolates e outros miminhos, se os houver, nunca lá estarão guardados; estarão escondidos e sempre num esconderijo diferente! Não preciso de mais, sinceramente não preciso! Nunca me habituei a fazer compras para a semana ou para o mês; prefiro ir todos os dias ao supermercado e comprar comida para o dia! Funciona para mim e permite-me ter em casa o mínimo indispensável!
  E no entanto ... gostaria de ter uma despensa decente, de tamanho adequado onde se pudesse acumular o que interessa e também tudo o que é verdadeiramente tralha e de utilidade zero para qualquer casa! É verdade! Uma casa  só é um lar se tiver uma divisão a que se possa chamar despensa; onde se guardem os boiões e os frascos de vários tamanhos e feitios, a garrafas já abertas e por abrir, as latas, latinhas, as caixas de cartão e as caixas de sapatos; os frascos das massas, do arroz, do açúcar e da farinha, os cestos de vime e as prateleiras para as batatas, as cebolas e os alhos, a lata das bolachas, a caixinha de madeira com as divisórias para o chá, todos os pequenos electrodomésticos, os de uso corrente e todos aqueles que já se estragaram há anos incontáveis. As inúmeras caixas tupperware, quantas delas já sem tampas e quantas tampas sem caixas; mercearias dispostas nas prateleiras, decoradas com tirinhas de ponto cruz de motivos culinários; os cheiros sobrepostos dos produtos de limpeza com as especiarias e as cebolas; as prateleiras mais altas reservadas para tudo aquilo que, se sabe, não se irá mexer nunca mais nesta vida mas que, contudo, não se quer deitar fora; 

   O que cada um de nós acumula ao longo da sua vida é impressionante! Apesar de haver hoje em dia a possibilidade de reciclar o papel dos jornais e das revistas que vamos adquirindo ao longo dos anos e que chegam às toneladas ou de darmos a roupa que já não usamos, o que é certo é que cada um de nós fica com uma quantidade de objectos de utilidade e uso mais ou menos obscuro mas que não nos atrevemos a deitar fora com a suposição meia tonta de que um dia nos fará falta! Esses objectos acabam por criar  um lugar cativo nas nossas casas e muitas vezes acompanham-nos nas nossas mudanças! 
   As mudanças de casa são uma boa forma de nos inteirarmos do quanto se acumula de lixo e tralha! É exasperante todo esse processo: o que custa numa mudança não são os móveis de que precisamos verdadeiramente, a cama para dormir, a cómoda para colocar a roupa ou a máquina de lavar; o que é insuportável é acondicionar todos os acessórios de uma casa, dentro de caixas de cartão em número considerável! Os tarecos que para nada servem a não ser fazer monte e pó numa estante, os livros que nunca se lerão novamente e todos aqueles de qualidade duvidosa! Eu tenho uma técnica que uso e que fui aprimorando ao longo das várias mudanças: os caixotes vão sendo cheios por critérios óbvios: roupa de cama, roupa de uso corrente, toalhas de banho, toalhas de mesa, etc etc. Todos aqueles objectos que não se integram em nenhum critério pré-estabelecido vão sendo deixados de lado a fim de se averiguar se ainda serão elegíveis para outro caixote! Normalmente, os caixotes com manuais escolares e material escolar, últimos a serem feitos, podem abarcar alguns destes trastes mas... através desta técnica e respondida à questão fulcral, eu preciso mesmo disto? com a maior sinceridade possível e esquecendo totalmente aquela teoria de que normalmente aquilo de que nos desfazemos acaba por nos fazer falta mais tarde, teoria inexacta e maçadora para os nossos propósitos de tornarmos a nossa vida mais fácil, consigo deitar 1/5 da casa fora! Se pensar nas inúmeras casas que tive e no que já deitei fora, sinto vontade de me esbofetear! Somos, por natureza os maiores inimigos de nós próprios, em vez de simplicarmos a nossa vida, gostamos de a complicar! Em muitos domínios e neste também!

   Quando resolvi vir para a Terceira, decidi que traria para cá todo o mobiliário verdadeiramente indispensável; tudo o resto seria vendido! Assim, no mês de Junho de 2009 fiz uma venda de garagem: elaborei uns prospectos a dar conta do que iria fazer e distribuí-os  pela vizinhança; a cada sábado desse mês iria abrir a minha casa a quem estivesse interessado e tudo era vendável! Organizei a banca dos livros, dos utensílios de cozinha, algum mobiliário, roupa, tarecos, e tralha, muita tralha! Mesmo o que, inicialmente, não era suposto vender, se recebesse uma proposta, iria também! Inacreditavelmente tive imensos visitantes, e desfiz-me de quase tudo com um lucro engraçado! Os primeiros a chegar foram os ingleses, que já têm uma comunidade muito interessante na Lousã e arredores, vieram logo para manhãzinha para conseguirem as pechinchas mais interessantes: e efectivamente saíram de lá com objectos interessantes e a um preço de chuva; os portugueses serranos adoraram a ideia, alguns até bisaram, vieram primeiro sozinhos meio receosos, meio envergonhados, ainda não tinham compreendido muito bem o que era aquela coisa da feira de garagem, mas gostaram tanto que regressaram mais tarde com a família; penso que me acharam meia estranha, um pouco como os hippies das aldeias serranas, uma mulher sozinha a vender o recheio da casa mas o que pensaram, guardaram lá para eles porque deram pelo fim-de-semana bem empregue e compraram-me imensas coisas; um velhinho meu vizinho, com quem tinha trocado meia dúzia de palavras nos 7 anos que vivi naquela casa, um senhor a quem eu só tinha visto a fazer a lida do campo, andando para lá e para cá entre a sua casa e o seu terreno onde tinha algum cultivo, apareceu com um cunhado também já velhote e perguntou-me se tinha livros de história, adorava o período do Napoleão Bonaparte! Disse-lhe que não tinha nenhum livro sobre Napoleão mas mostrei-lhe outros livros, alguns romances históricos de que tinha gostado e este senhor, que nunca me passaria pela cabeça que gostasse de ler, foi-se embora visivelmente satisfeito levando um saco cheio de livros! Outro senhor tive, que só dizia " ai que engraçado!" fazia mais umas perguntas e mais uma vez dizia " ai que engraçado!" À conta de tanta graça levou-me as ferramentas quase todas e tudo aquilo que pensei nunca conseguir desfazer-me: " então não quer levar isto também?" o "que é isso minha senhora?" "não sei bem!"  "ai que engraçado, vá, ponha lá isso também!" e assim de objecto em objecto, o homem limpou-me o exterior da casa e ainda me pagou por isso!

   

1 comentário:

  1. Näo sei bêm k palavra utilizar para descrever o meu comentário...mas a palavra "bem bom" parece ser a certa, ehehehe!!!parabêns prima "well done", continua...))

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