segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nada como as idas matinais para a escola, pela estrada das freguesias, até São Sebastião para me assaltar todo o tipo de pensamentos, de tal forma que chegando ao destino não dei conta do percurso que fiz. Assusto-me um pouco porque de tão absorta que estava, imagino que, havendo algo a surgir na estrada, me encontro desprevenida para reagir. Quero acreditar que não, que o grau de abstração não é o suficiente para deixar os sentidos embotados aos sinais de perigo. E assim vou pensando, os carros passando e eu no meu caminho. E isso é o que faz o comum das mulheres, quando conduz vai pensando noutras coisas, utiliza o tempo inutil de partir do ponto A para o ponto B para avançar no que tem que fazer mais tarde ou mesmo pensar na vida! Toda a mulher gosta de pensar na vida quando conduz!
 O homem quando conduz não pensa na vida, n pensa porque, ao contrario da mulher, leva o acto de condução muito a sério, o homem quando conduz, socializa! É tão importante para ele conduzir como estar no café: cumprimenta, faz sinais de luzes, identifica as carrinhas de caixa aberta que vêm lá ao longe como a do João ou do António, repara em quantas pessoas se encontram no carro do Joaquim e comenta que a pendura do carro do Filipe não é a mesma da semana anterior; abre os vidros desabridamente e manda bocas pela rua da Sé abaixo! Conduz com alegria e sente-se verdadeiramente homem; ostenta a sua masculinidade conduzindo mercedes, audis ou BMW, se baixinho e careca é como te tivesse crescido 30 centimetros e tivesse mais cabelo que o Carlos do Carmo; se se fica por chassos velhos, quita-os todos e põe musica pulsante de colunas em cada esquina, que o efeito eufórico é o mesmo; não precisa de estimulantes artificiais, basta-lhe entrar no carro, transforma-se, no carro é senhor, é todo dele, não é como em casa em que só domina o comando da televisão. Torna-se absurdamente higiénico, mantém o carro num brinco, pode ter, em casa,  as cuecas sujas acabadas de tirar, lançadas  para a gaveta das meias  e no entanto indispõe-se se, um resquicio de pó lhe altera o brilho imaculado do tablier.

  A mulher usa o carro como um meio para chegar a um fim, normalmente utiliza-o como caixote do lixo fora de casa. Ter que cuidar do carro é um esforço extra do qual não entende a utilidade. O homem tem o carro como um fim em si mesmo. É uma extensão de si, não concebe a vida sem ele, tê-lo desprezado e sujo é uma afronta, é como se não cuidasse de si. Mas entre escolher um bom shampoo para si ou o novo abrilhantador de plásticos, não hesita. Lava o carro primeiro por fora e depois aspira-o, porque para ele o seu carro tem que parecer… já a mulher limpa primeiro o interior porque, sente, quando o lixo atabulhado é tanto que não consegue achar a mala, que está na hora de avançar para esse processo doloroso. Por fora, não há pré-lavagens nem vassouras com sabão, se puder lavar o carro com duas moedas de 50 centimos, já sente que gastou muito dinheiro. Se sobrar sabão espalhado pela capota, pensa que as probabilidades de que chova, são elevadas e resolve-se o problema com manha. Seguindo a mesma linha de raciocínio, os limpa pára brisas só são enchidos de água quando vão à revisão e isto depois de terem passado mais 5000 km do que o mecânico aconselhou. Vai-se à revisão sim, mas sempre contrariadas e para elas gastar dez euros em gasolina é como uma facada no coração.  Quanto a eles, enchem logo o deposito, são previdentes e avisados, e têm sempre um jerican na parte de trás, nunca se sabe, elas se tiverem o triangulo e souberem montá-lo já é uma vitória. Eles veneram o carro, elas toleram o carro. É só neste departamento que elas toleram o desmazelo, mais, incentivam-no. E sentem um certo orgulho em admiti-lo! É estranho!

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