sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Silveira - actualização de verão

   A Silveira está ao rubro. Esta é outra Silveira, não aquela dos meus banhos no inverno, esta Silveira está apinhada de gente que só põe o pezinho na água se esta estiver em ponto de ebulição. Gente que precisa de sol, de preferência sem nuvens, que as nuvens moem com a sua disposição e os deixam a bater o queixo em risco de hipotermia. Habituais, indefectíveis defensores do banho durante o ano inteiro, alguns banhistas de mão cheia:   senhoras já bem entradotas, de boa postura e fina figura, com horror a molharem o cabelo, um fenómeno que me escapa, velhos de secas carnes, algo mirrados mas invejável condição física, que de verão ou de inverno se afirmam maravilhados com a água. Pessoas de tão habituadas  que estão destas andanças que fazem a distinção da temperatura da água, de dia para dia com precisão até às centésimas. 
   A Silveira no verão é um caldinho social onde convivem não se misturando gente muito diferente: de manhã cedo surgem as famílias bem estabelecidas, de crianças barulhentas e saudáveis, de mães atentas e pais precocemente envelhecidos, homens de meia idade, de ventre proeminente, sem musculatura aparente, perdidos em comezainas constantes regados com toneladas de frescas. Um pouco mais tarde surgem as já esperadas moscas de verão, uma raça de gente que surge com o sol de verão, em visita de tios, primos, cunhados, avós, familiares aparentados em 5º e 6º graus. Os turistas, desgarrados e perceptíveis com a prudência com que chegam, franzem o nariz à ideia peregrina do cimento como substituto da areia mas totalmente rendidos ao mar vão dizendo " este sitio é estupendo, só é pena não haver areia". Durante a manhã a Silveira ainda é circulavel! Chegando a transição da manhã para a tarde, o pessoal mais novo, de férias, aquele para quem a vida se inicia depois de metade do dia terminado, vai aparecendo com sinais evidentes de mazelas alcoólicas nos seus rostos morenos.  Vêm em grupos numerosos e substituem as famílias que partem com crianças impacientes de fome. A partir das 15h, quando a prudência manda a debandada para poisos mais frescos, a Silveira torna-se intransitável. Não se recomenda! É o momento para todos os narcisistas que trabalham para o bronze em modo rápido. A partir das 18 chega ou regressa o núcleo duro, onde eu me incluo  esperançosos que os falsos banhistas se tenham ido embora. Aparecem também, por essa altura, aqueles tipos, os do culto do corpo que aproveitam a proximidade do ginásio para virem mostrar a musculatura a mulheres de fina sensibilidade visual. É um verdadeiro regalo para os olhos, se efectivamente permanecerem calados.
   O horário de verão do Melro Preto é quando bate o quarto depois do meio-dia. Umas vezes chega antes quando a ansiedade é insuportável. Chegar mais cedo, em si,  não merece reparo, a pontualidade constitui para mim atributo louvável e desejável. Diminui-me, no entanto, a probabilidade de o ver chegar, todo ufano de peito enfunado e porte altivo, entretida que estou nas minhas aventuras do Comissário Maigret, livrinhos de bolso da colecção vampiro que descobri a 1,5 euros numa livraria junto de mim ( não revelo o local porque tenciono ficar com eles só para mim). Divido a minha atenção e nem sempre sou bem sucedida apesar de me orgulhar de saber fazer várias coisas em simultâneo sem evidente falha de eficácia mas admito que viro as páginas com maior lentidão ou perco o meu passaroco de vista. Breve o encontro porque é de rotinas instituídas: desce a rampa de ar vagamente distraído, percorre de modo estudadamente lento o centro do cais onde a manada se concentra, cumprimenta fulano ou sicrano destilando confiança e empatia, um pormenor delicioso, os seus polegares e indicadores unem-se como se tivesse sempre uma pele de uma unha para arrancar, que lhe dá elegância e sensibilidade. 
   É verdade, eu tinha prometido a mim própria que já era tempo de deixar de me pronunciar sobre o Melro Preto e só Deus sabe como me tenho contido! Perdoem-me mais esta fraqueza, afirmo que procurarei que seja a última.              Certa tarde, em distracção imperdoável, fui amigamente avisada de um outro personagem, ser que caíra sem sobreaviso naquele espaço sagrado, que me poderia finalmente fazer esquecer, sem remorsos, a existência do outro. Era de tal forma uma formidável figura que senti logo que o vi, uma lufada de ar fresco, um momento apoteótico que intui, erradamente, me proporcionaria horas e horas de divertimento. O Coiso usava um chapéu de abas largas, displicentemente caído sobre a face direita, sandálias de couro e como única indumentária, a revelar a sua figura portentosa, uma tanga de elásticos já lassos, um amuleto da sorte, porventura, que arredondavam, numa ovalidade sublime, o coiso propriamente dito. Encostado ao varandim do cais, de costas para o mar, a certeza desde logo que banhar-se não faria nunca parte dos seus planos, a figura era a promessa de inconfessáveis desvarios. Permanecia quieto, rodando a cabeça sem pressas, observando, esperando que os seus inegáveis atributos fossem suficientes sem que para isso tivesse que mexer um dedo do pé que fosse. Torci por ele, aguardando que a táctica desse frutos; lamentavelmente e vergonhosamente não perseverou e assim como surgiu do nada, para o nada se desvaneceu. 
   O Melro preto não! É de natureza perene e não desilude, sabe-se que se poderá sempre contar com ele.   

1 comentário:

  1. Olá! Tbm sou da terceira :D Ah e quanto ao melro preto, k coisa mais linda o seu cantar! Adoro! Continua cm o blog, bjim

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