sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Respira e espera que passe...

   Há momentos na vida em que, dê lá por onde der, façamos o que fizermos, no final, tudo correrá mal; no final, ou no principio ou mesmo no meio; por vezes é um dia desses, outras vezes são vários dias, juntinhos uns aos outros e de tal forma desastrosos que a sensação suprema é de que o mundo não gosta de nós, a entidade que nos regula seja lá ela qual for, as pessoas, todos os seres animados e inanimados que se movem à nossa volta, nos olham indiferentes ou em conluio face à nossa desgraça. Esses dias desgraçados de todo e não há um presságio que os previna e mesmo que haja, uma ténue sensação de algo diferente, estranho, um desconforto, nunca vamos a tempo, tudo corre mal numa sucessão vertiginosa no sentido único de sempre correr mal. Não há coisas que correm assim assim nem coisas que tendencialmente parecem que se encaminham para o bem correr, é tudo no mau sentido a caminho acelerado para o catastrófico. E nós a vemos a sucessão de episódios e não termos o poder para inverter a tendência. Os episódios podem variar da gravidade máxima de acidentes diversos em risco da nossa integridade física, é o tempo em que te cortas e por vezes duas vezes no mesmo sitio, o tempo em que inicias as topadas consecutivas nos dedos dos pés, em que roças coxas e braços quase a saírem lascas de carne, nas chaves hirtas dos armários, em que trincas dedos mesmo nas pontinhas que é onde dói mais,  nas juntas das portas, em que te levantas de ir buscar um tacho aos armários de baixo e  traulitas a cabeça na porta do armário de cima na altura e medida exatas em que a mola que já não funciona bem deixou de funcionar de todo, a fim de te deixar um lanho no escalpe com o embate num ângulo estranho para doer mais, de tal forma que não consegues evitar que te saltem as lágrimas dos olhos… até às vergonhas várias, de  teres que descalçar os sapatos e verificares, tu e o centro de saúde inteiro que calçaste com a pressa duas meias diferentes, em textura e cor e por vezes em tamanho, porque na escuridão do teu armário, depois de não teres acendido a luz porque não estava ali à mão e quiseste abreviar caminho e  teres, entretanto, batido com a testa na quina da porta do roupeiro- típico -, agarraste o monte que estava mais perto e o preto pareceu-te azul e vice-versa e na claridade do centro de saúde, o azul é azul e o preto é preto, não há que enganar ou de te aperceberes que, a nódoa de café que fizeste de manhã na tua única t-shirt branca, na vez primeira, em décadas, em que derramaste café em cima de ti e logo tinhas que vir de branco, te faz passar por desmazelada quando, na verdade, até dominas bem todos os procedimentos de levar comida e bebida à boca sem que pareças padecer do mal de Parkinson. Episódios em que não respiras de um para outro, ainda te tentas recuperar do anterior e já te sucede o seguinte: por exemplo, recebes a notícia logo pela manhã que alguém que te é próximo e que deveria ser o teu apoio porque sim, te falhou mais uma vez e que nesse detalhe se jogam alguns dias seguintes na tua vida em que ela, inevitavelmente, se complicará (episódio de gravidade máxima, portanto); respiras fundo depois de sentires a fúria subir, descer e acalmar, levantas-te da cama já sem vontade alguma e dás com o puto mais pequeno a chorar pelos cantos; enches-te de paciência e perguntas o que sucedeu, continua a chorar como se o mundo tivesse terminado ali e não te responde e tu que já tens a paciência penosamente massacrada insistes para que te conte, já alarmada não seja coisa grave; mostra-te que acabou de partir o vidro de um quadro que gostas; suspiras quase bufando naquele desalento de quem sabe que, quando na casa se começam a partir coisas, normalmente se continuam a partir coisas durante uma semana, e podes usar luvas antiderrapantes e acender velinhas a esconjurar más vibrações na casa  que, algo cairá, cairá e partir-se-à  por mais malabarismos que faças antes que chegue ao chão; antes de ontem foi um prato (episódio sem gravidade alguma), no dia seguinte o telemóvel ganhou vida própria e saltou-me das mãos, caindo, lá está, de outra forma não poderia ser, não teria a mesma graça, com o vidro para baixo, em centésimos de segundo artisticamente feito em pedacinhos tenuemente mantidos no lugar pelo que funciona; retens a vontade louca de o agarrares e de acabares com ele de vez, fúria passageira que dominas, no fim de contas já és batida neste tipo de coisas, ganhaste um domínio sobre a adversidade; hoje foi o quadro, amanhã quem sabe, outro pneu do carro, afinal de contas posso contar com uma certa persistência na forma como os pneus do meu carro se furam: não porque ande a passar por cima de coisas estranhas ou a trilhar rodas em passeios, sei simplesmente que neste carro, os pneus têm uma lógica de tempo de vida que me ultrapassa. Um pouco como a lógica do tempo em que os telemóveis na minha mão se mantêm intactos. E não porque ande a fazer coisas estranhas com eles, simplesmente acontecem coisas, coisas paranormais, temo, e posso andar precavida e sempre atenta a prever acidentes que, eles sucedem, de uma forma ou de outra; uma espécie de fatalidade para acidentes domésticos. Querem ver?! Outro dia mudei os vasos de lugar porque tive que colocar os cães no pátio da frente, temporariamente. Cães e vasos não combinam pelo que não podem repartir o mesmo espaço; olhando para os vasos com plantas airosas de muita chuva fico contente que se mantenham assim, intactos; insidiosamente um pensamento atravessa-me o espírito em lapsos de segundos, imagino instantaneamente um momento de caos, livro essa imagem da minha cabeça; meia hora depois, um dos vasos está revirado, partido e o interior extravasou para fora: e não foi um dos cães, desta vez não os posso culpar, a gata, aquela medrosa que nunca vai para a rua, teve o seu grito de Ipiranga, em sintonia absoluta com a minha premonição, saltou para o vaso em cima do muro (qual a probabilidade daquela gata fazer aquela coisa outra vez no seu tempo de vida?! Eu diria 0,000001 % e já estarei a ser generosa) e pimba, 3 metros abaixo o resultado vê-se. O que me leva a pensar: para que te maças? Deixa o mundo desmoronar-se todo se quiser, senta-te e espera, sorri se conseguires, tudo o que faças, só vai atrapalhar, deixa o curso natural dos disparates acontecerem, há um ponto em que pára e se tudo correr bem, tu estarás mais ou menos incólume e sem os nervos em frangalhos. 

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